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CIÊNCIA, DEMOCRACIA E ESPIRITUALIDADE

 

Liberdade é um fato espiritual.

O ambiente democrático é o espaço aberto em que se pode pensar e agir da maneira mais correta possível, discutir livremente e identificar os erros, corrigi-los – e tentar de novo.

A liberdade permite a expressão natural do jogo de contrastes que enriquece a espécie humana, e é indispensável para que a ciência, de um lado, e a espiritualidade, de outro, possam florescer em paz. O sistema democrático não elimina as lideranças, mas as torna flexíveis e transparentes.

 

A democracia é um espaço comum de exercício da diversidade. Ela surge de um sentimento de comunhão em meio ao contraste: a comunhão de seres diferentes diante da mesma lei eterna que os governa; a sua comunhão no sofrimento e na busca da felicidade. E é também uma comunhão que surge do ato de perceber que a comunidade humana vive, afinal de contas, em um pequeno planeta que gira há bilhões de anos em torno de um pequeno sol, em uma galáxia com milhões de estrelas que se desloca modestamente pelo universo infinito.

Democracia não é a negação da sabedoria, pois. Ao contrário. O sentimento democrático deve brotar da solidariedade, da humildade e da vivência direta de cada um. Nela se ouve a todos, se exige simplicidade e transparência dos líderes, mas não se desperdiça a sabedoria dos que têm mais experiência.

Por isso os mestres espirituais responsáveis pela evolução da humanidade buscam despertar uma inteligência espiritual que se expressa coletivamente através da democracia e da diversidade – e não da crença uniforme. Usando a lei do carma, esses instrutores sagrados escrevem certo por linhas tortas, fazendo com que aprendamos com nossos próprios tropeços. As linhas são tortas por nossa causa. A sabedoria eterna registra sua presença crescente no mundo através de nós, com nossos erros e acertos.

O impulso espiritual pela democratização é bastante claro desde Jesus e Sócrates, no Ocidente, e desde Buda e Lao-tzu, no Oriente. Esses quatro instrutores e pensadores do mundo antigo foram contra dogmas, teocracias, impérios, castas e autoritarismos, e democratizaram o caminho espiritual. Eles fizeram uma opção pedagógica de longo prazo por aquilo que eu chamo de
método Paulo Freire.

É verdade que o pensamento de Platão tem um lado desastrado, que é a sua utopia social, no que ela tem de ilusão autoritária. Platão adapta ao Ocidente, infelizmente, o velho sistema de castas da Índia, coisa que Buda, bem antes, já tinha colocado por terra do ponto de vista do trabalho da Fraternidade dos Sábios e Adeptos. (Isso não torna Platão um inútil, e a filosofia esotérica reconhece seu enorme valor.)

Os grandes movimentos religiosos do mundo moderno, com seus velhos rituais e suas crenças cegas, são hoje mais uma relíquia medieval do que uma fonte antiga e verdadeira de inspiração. É por isso que eles não têm sido capazes de olhar de modo responsável e criativo para o futuro. Há um sistema feudal de organização e de pensamento nas religiões tradicionais. Esse sistema esclerosado vive hoje uma lenta agonia. O pensamento teocrático cedeu espaço ao pensamento científico no que tange “às coisas do mundo”, mas não no que diz respeito aos movimentos religiosos, ainda hoje baseados em superstições medievais, como Sigmund Freud mostrou com clareza em "O Futuro de Uma Ilusão" e outros ensaios. Já Carl G. Jung preferiu esquecer esse fato.

No século 4 d. C. o cristianismo passou a ser uma religião de estado, regida com base em rituais fixos e estruturas sacerdotais rígidas, e desde então o sentimento religioso tem sido utilizado com estilo imperial em função dos interesses políticos e econômicos da burocracia sacerdotal. A verdade incomoda. O papa é até hoje um rei absolutista, um imperador – e em seu trono luxuoso ele contrasta com a figura de Jesus. É doloroso admitir que o budismo tibetano também possui uma rígida estrutura teocrática (o que não impediu vários episódios de alta traição por parte de elevados sacerdotes contra a vida de diversos Dalai Lamas já no século 19, e mesmo o
atual, XIV Dalai Lama, escapou por pouco, quando jovem, de um destes atentados). O hinduísmo e o islamismo têm ponderáveis setores e aspectos autoritários, violentos e intolerantes, como mostram os conflitos religiosos na Índia e outros países. O mesmo ocorre em qualquer grupo ou movimento religioso que considera a si próprio como a única ponte para o céu, a única fonte de inspiração legítima. A verdade é que a dominação e a utilização institucionais do sentimento religioso vêm derrotando os esforços de regeneração do indivíduo e da civilização. Ao longo de milênios, sabedorias religiosas de grande beleza têm sido utilizadas para justificar mentiras, guerras e injustiças variadas. A alternativa está no pensamento científico, do qual fazem parte a psicologia, a ioga, a filosofia e as formas não dogmáticas de religiosidade. Uma concepção democrática e científica da vida deixa que esses erros sejam conhecidos e discutidos, o que permite identificar e eliminar as causas que levam a eles.

No início da era moderna o pensador inglês Francis Bacon plantou as bases do método científico-experimental. Esse método traz a democracia para o campo do conhecimento. Francis Bacon é considerado um grande sábio pela filosofia esotérica, e também é identificado como o verdadeiro autor das obras assinadas por W. Shakespeare (cuja autoria, por motivos políticos, ele não podia assumir). Depois de Bacon vieram pensadores ativistas como J.J. Rousseau, Voltaire, Thomas Jefferson, Benjamin Franklin, Tom Paine, os latino-americanos Simon Bolívar, José Bonifácio e José Hipólito da Costa, e muitos outros que plantaram as bases da democracia na Europa e nas Américas. Todos foram colaboradores ativos e conscientes do esquema de evolução espiritual da humanidade, que se desdobra gradualmente ao longo dos milênios.

No plano da ciência, há uma vasta linhagem na qual figuram Johann Kepler, Robert Boyle, Isaac Newton e Albert Einstein. Para não falar, a partir do final do século 20, de Rupert Sheldrake, David Bohm, Fritjof Capra e tantos outros. Mesmo Stephen Hawking – autor de O Universo Em Uma Casca de Noz – parece considerar a si mesmo um cético, mas navega nas águas da filosofia esotérica em muitas das suas indagações sobre a natureza do cosmo.

A ciência, a tecnologia, a liberdade de pensamento e as novas formas de religiosidade não-dogmática desenvolveram-se ao lado da democracia política. Apesar de todos os seus desafios, a vivência democrática hoje é o grande laboratório humano e intelectual em que se busca meios de acelerar o surgimento da inteligência espiritual e das inteligências múltiplas que caracterizarão a era astrológica de Aquário e suas civilizações universalistas. No Brasil, o pensador Leonardo Boff é uma das muitas expressões desse processo de busca que é simultaneamente espiritual e material, individual e coletivo.

Desde a revolução industrial, o rápido crescimento intelectual da humanidade vem destruindo as religiões dogmáticas. O final do século 19 viu surgir uma filosofia esotérica ampla e profunda, formulada pelos Mahatmas dos Himalaias com ajuda de Helena Blavatsky e outras pessoas. Mas, embora esteja em expansão evidente, a área de influência da sabedoria eterna ainda não foi capaz de substituir as estruturas supersticiosas com seu humanismo universalista, nem de servir como um referencial amplo e visível para o surgimento de uma civilização solidária.

No Brasil de hoje, a política econômica continua refém dos capitais especulativos, conforme a receita monetarista do FMI. Velhas concepções políticas de esquerda e de direita perdem significado em meio a uma crise abrangente de valores éticos. A economia convencional se desarticula, e as propostas progressistas dos movimentos políticos e sociais são ignoradas em um espaço político cada vez mais governado pelo marketing. O movimento popular deve rearticular-se. Ao mesmo tempo, o movimento esotérico ainda não tem podido criar espaços ativos de cooperação e fraternidade universal, capazes de abrir caminhos alternativos para o impasse. A proposta de comunidades e ecovilas avança devagar, enquanto velhas lutas personalistas pelo poder continuam fortes dentro das nossas instituições espirituais.

A nova energia da era de Aquário maximizará um tipo de amizade e cooperação que é universal, que respeita a individualidade de cada um, mas que estrutura com eficiência mecanismos transparentes de ajuda mútua e solidariedade ativa – espiritual e material. Enquanto essa nova energia dá hoje seus primeiros passos inseguros, a velha energia já não é mais capaz de sustentar as instituições de tipo convencional. Cresce, pois, a responsabilidade histórica dos estudantes da filosofia esotérica e holística.

Para assumir nossa responsabilidade social, porém, talvez seja recomendável revisar nossos métodos, nossa percepção do mundo e nossa visão de nós mesmos. Até hoje, na classe média espiritualista, a filosofia espiritual é aceita como um acúmulo estritamente individualista de conhecimentos. O individualismo cego prossegue, subconscientemente, mesmo quando a pessoa decide dedicar sua vida a um ideal espiritual e a um trabalho humanitário. Vencer essa batalha interna é perfeitamente possível – mas requer esforço continuado.

De outro lado, o amadurecimento da consciência e o agravamento da crise apressam o processo pelo qual a nova sociedade deve florescer. Já podemos perguntar-nos: como se constrói um futuro coletivo saudável? Como se abre mais espaço para a ajuda mútua e a caminhada espiritual sem dogmas, aceitando as contradições como parte da vida? E essa é uma boa ocasião, também, para valorizar melhor as experiências práticas de solidariedade que já são exemplos vitoriosos.
 

Categoria: Holopráxis

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