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Sumário

Importantes conceitos de gnosiologia e ontologia nas Escrituras são incompatíveis com muitas ideias no pensamento antigo, assim como, com parte substancial do pensamento filosófico na era cristã tributário da filosofia grega. Entretanto essas ideias bíblicas podem ser encontradas em concepções epistemológicas e ontológicas da física moderna. Exemplos: opacidade da realidade e impotência dos sentidos, matematização universal, unicidade da matéria, realidade do espaço e do tempo, substancialidade da luz, existência do vácuo, não existência dos cinco elementos etc.

Summary

Important gnosiological and ontological concepts in Holy Writ are incompatible with no few ideas in ancient thought, and as well as, with a substantial content of the Greek dependent philosophy in the Christian era. Those Biblical ideas however, can be found in modern physics. Examples: opacity of physical reality and impotency of human senses, universal mathematization, uniqueness of matter, reality of space and time, substantiality of light, existence of the vacuum, non existence of the five elements, and so forth.

1. Começo do Tempo

Duas passagens que falam do início do universo no tempo:

"No princípio Deus criou o céu e a terra". (Gen. I, 1)

"Glorifica-me Pai... antes que o mundo fosse". (Jo. XVII, 5)

Agostinho ao comentar as Escrituras diz: "O tempo nasce com a criação". (Confis. L. XI)

A criação a partir do nada no instante zero é tema, ao que me parece, somente exibido na Sagrada Escritura. As antigas religiões e a filosofia grega ignoram totalmente esta ideia. A física moderna, de 1916 em diante, se enriqueceu com a teoria da gravitação de Albert Einstein, que possibilitou o nascimento de uma nova disciplina científica, a Cosmologia Rela­tivística. A partir das equações diferenciais da teoria covariante da gravitação de Einstein, foi possível elaborar teorias sobre a estrutura espaço-temporal do universo e sua evolução no tempo.

Surgiram em 1922 os modelos cosmológicos de Friedmann, e em 1927 os de Georges Lemaître, sacerdote católico, físico teórico da Universidade de Louvain. Estes modelos de universo possuem a característica de significar que o universo é um vasto sistema de galáxias, cujas distâncias mútuas aumentam sistematicamente ao longo do tempo. São chamados, por isso, Universos em Expansão ou Universos Evolucionários. Lemaître raciocinou que, recuando-se para o passado, o universo deveria encontrar-se em um estágio inicial altamente compacto o que ele chamou de Atome Primitif. A explosão dessa matéria compacta no início do tempo seria observada hoje como a recessão das galáxias.

O astrofísico britânico Fred Hoyle, ateu militante, tentou satirizar a teoria batizando-a com o termo Big-Bang. O termo pegou, mas sem a conotação de ridículo que Hoyle quis dar. Hoyle, em 1948, elaborou uma teoria cosmológica chamada steady-state theory, em que o universo não teria início no tempo. Seria um universo em expansão, mas com contínua criação de matéria no espaço, de modo que não haveria um "átomo primitivo"; seria um universo sem big-bang, isto é, sem início no tempo. A conotação de ridículo foi esquecida porque os dados observacionais não têm sido favoráveis à cosmologia steady-state, mas aos modelos de universos evolucionários.

Dois anos após a publicação do trabalho teórico de Lemaître, o astrônomo norte-americano Edwin Hubble publicou o seu resultado observacional a propósito da recessão das galáxias. Assim, em 1929, surgiu na literatura científica a primeira corroboração astronômica da previsão da expansão do universo. A lei de expansão verificada por Hubble é compatível com a lei deduzida por Lemaître em 1927. Essa lei observacional passou a se chamar "Lei de Hubble".

Esse é um exemplo do que acontece frequentemente na pesquisa científica, hipóteses e teorias precedendo e determinando a observação e a experiência. Temos mais outros três dados observacionais que favorecem os modelos cosmológicos em expansão:

  1. A descoberta da radiação cósmica eletromagnética do corpo negro em 1965.
  2. A abundância dos elementos leves.
  3. A anisotropia da radiação cósmica do corpo negro descoberta mediante o satélite Cobe em 1992.

A ciência moderna teria descoberto o começo do tempo e a criação a partir do nada? A resposta filosoficamente correta é não. Por quê?

A ciência apenas sugere um começo no tempo e não pode prová-lo, porque nos deparamos aí com um domínio metafísico que transcende a esfera do conhecimento científico. É precisamente isto que acontece quando analisamos o mecanismo do big-bang. Utilizando-se as equações de Einstein do campo gravitacional e o princípio de indeterminação de Heisenberg vemos que:

Quando recuamos ao intervalo de tempo de 10-43 segundo após o instante zero (o Tempo Planck) os conceitos fundamentais da física entram em colapso, ou seja, o conceito de partícula elementar perde o sentido, assim como a estrutura relacional do espaço-tempo. É, portanto, impossível mediante nossa ciência atingir o instante zero. Ele escapa totalmente ao nosso entendimento. O cosmólogo e astrofísico norte-americano Charles Misner, que possui certa formação filosófica escolástica, nos diz que o início da expansão cosmológica será provavelmente por muito tempo um mistério científico e que ele crê que Deus criou o universo, não a partir da teoria do big-bang, mas a partir da questão filosófica da transcendência da teoria físico-matemática face à realidade material.

Podemos ainda inferir à luz destas considerações que eu apresento, como é filosoficamente incorreta a crença de Hoyle de que o big-bang levaria à ideia da criação divina. Tomás de Aquino prova que, mesmo se o universo não tivesse tido um início no tempo, ele dependeria, necessariamente, de um Criador.  O ser de cada ente, mesmo em um tempo sem começo, teria de ser finito e exigiria a ação sustentadora de Deus, O qual transcende o tempo. A criação do nada é uma ação sustentadora do ser e isto independe do ser dos entes ter tido começo no tempo ou não.

2. Substancialidade da Luz

"Deus disse: faz-se a luz. E a luz foi feita". (Gen. I, 3)

Este versículo do Gênesis sugere fortemente que a luz é realidade ontologicamente autônoma, ou seja, a luz é ente que É EM SI MESMO. Em outros termos, a luz não é mero acidente do ente material, porque o acidente não tem ser próprio, não é em si. Toda a descrição da criação dos 6 "dias" no Gênesis nos mostra Deus criando entes e não acidentes de entes. Portanto, é de se esperar que a luz seja ente em si mesmo. O sorriso do gato sem o gato, no sonho de Alice no Wonderland, me vem à mente neste instante.

Platão, se não foi o primeiro, foi um dos primeiros a postular a hipótese do caráter substancial da luz. Na sua teoria atômico-geométrica dos elementos, diz que a luz é um eflúvio de corpúsculos do elemento fogo. Platão concebe os quatro elementos como constituídos de corpúsculos muito pequenos que se não podem ver, mas que quando agrupados em grande número constituem os corpos visíveis.

Aristóteles obsedado por sua gnosiologia sensualista postulou o princípio falacioso de que os sentidos não se enganam: se percebo com os sentidos a continuidade dos corpos é porque são contínuos. Platão estava certo, e Aristóteles errado. Na sua teoria do diáfano, da luz e das cores, baseado na abstração dos sentidos e em uma dialética envolvendo a dualidade ato-potência, Aristóteles conclui que a luz é qualidade da matéria.

Tomás de Aquino, seguindo João Damasceno, considera a luz uma qualidade da matéria. Teve aí a infelicidade de aceitar aquela doutrina aristotélica. Vou citar o argumento tomista para rejeitar a ideia de que a luz possa ser um corpo, portanto, realidade substancial. Diz ele:

"... dois corpos não podem estar simultaneamente no mesmo lugar. Ora, a luz está em um mesmo lugar simultaneamente com o ar. Logo a luz não é corpo".

"Se a luz fosse um corpo, a iluminação seria um movimento local. Ora nenhum movimento local pode ser instantâneo.” 

Dois argumentos rigorosamente lógicos cujas conclusões são rigorosamente falsas. Pois Tomás aceita a onírica proposição aristotélica da potência iluminativa dos sentidos: a realidade corpórea é contínua e a luz se propaga instantaneamente.

Agostinho se viu diante de um problema exegético: se a luz foi criada no primeiro dia, como se compatibilizaria com a criação do Sol no quarto dia? Ele apela para um caráter simbólico da luz no primeiro dia, no sentido de que aí Moisés está se referindo da cidade santa dos anjos!

Robert Grosseteste (séc. XII - XIII), franciscano da Universidade de Oxford e bispo de Lincoln, defende a substancialidade da luz. Ele desenvolve toda uma teoria cosmológica em que a luz é forma primordial, que, combinada com a hile, constitui os corpos que conhecemos.  Grosseteste, contrariamente a Aristóteles, defende a matematização da realidade e que esta deve ser explicada pela óptica geométrica.

Nesse contexto ele defende a hipótese de que a luz se propaga com velocidade finita. Sua ideia da luz como forma substancial é derivada de Basílio Magno. Grosseteste também negava a doutrina da diferença entre matéria terrestre e matéria celeste incorruptível. Destoando de Aristóteles e Tomás de Aquino, mas procedendo como Platão, ele anuncia o comportamento típico do cientista postulando hipóteses e construindo teorias que transcendem as impressões grosseiras dos sentidos.

A substancialidade da luz está universalmente assentada na física do século XX. Por quê?

Max Planck, em 1900, desenvolveu a teoria (que o levou ao Prêmio Nobel) de que a matéria e a radiação eletromagnética trocam energia em quantidades discretas, o quantum de energia eletromagnética. A teoria de Planck, verificada depois nos laboratórios, foi o início da Física Quântica.

Einstein, em 1905, aplicando as ideias de Planck à interpretação do efeito fotoelétrico, corroborado no laboratório (o que também deu a Einstein o Nobel), sugeriu a hipótese do quantum de luz: o quantum existiria não só como troca de energia discreta, mas independentemente no espaço. Estava dado o primeiro passo para a corpuscularização da radiação eletromagnética.

Em 1909, o físico Johannes Stark atribuiu ao quantum de luz o conceito de momento linear, que é típico de partículas elementares e corpos. Em 1916, Einstein endossou a ideia. Mas Stark também especulou que os quanta de luz poderiam se chocar com partículas, valendo a lei da conservação do momento linear das partículas e dos quanta. Mais tarde, o físico norte-americano Arthur Compton realizou experimentalmente a previsão de Stark, e também levou o Nobel.

Em 1926, o físico-químico norte-americano Gilbert Lewis cunhou o termo fóton para o quantum de luz. Assim, entrou na física o fóton, Partícula de Luz. Em fins da década de 20 e começo de 30 do séc. passado, o físico teórico britânico Paul Dirac criou a eletrodinâmica quântica e previu que um antielétron mais um elétron, ao se chocarem, se transformam em dois fótons, e, também, se um fóton é perturbado por um campo elétrico suficientemente forte, pode se desdobrar em um elétron e um antielétron. As revisões de Dirac foram corroboradas experimentalmente. Dirac recebeu posteriormente Prêmio Nobel. Assim pois, a física quântica realizou a antiga previsão de Platão e se mostra compatível com o versículo do Gênesis considerado.

Outro ensinamento da cosmologia relativística a propósito do big-bang que abordamos no item 1, é o do papel prevalente dos fótons no início da expansão do universo. A fase primitiva de expansão nos três primeiros minutos, foi dominada pela pressão da radiação, isto é, dos fótons. O físico teórico russo Georg Gamow da Universidade de Washington deu início em 1946 a uma teoria sobre o big-bang, visando explicar a síntese dos elementos em um meio de altíssima pressão e temperatura, que ele supunha existir pela própria natureza da hipótese levantada por Lemaître. Outros físicos colaboraram com Gamow posteriormente: Alpher, Bethe e Hermann. Gamow, que adora trocadilhos, disse que a teoria fora elaborada por Alpher, Bethe, Gamow e Delter (Hermann).

No estado primordial da matéria que se seguiu ao instante de 10-43 s, a pressão de radiação, a pressão de fótons, comandou o processo expansionista. Nesse processo, as partículas elementares e suas antipartículas estavam em equilíbrio termodinâmico com os fótons abrangendo uma sucessão de estágios começando com quarks e antiquarks, seguindo núcleons e  antinúcleons, e após, léptons e antiléptons. A teoria de Dirac sobre a criação de pares e aniquilação de pares, isto é, fótons e partículas se transformando mutuamente, descreve o cenário cosmológico primitivo da dominância de radiação.

A teoria de alfa, beta, gama, delta (o trocadilho de Gamow) prevê, que, com a expansão do universo, deveria subsistir hoje uma radiação cósmica em microondas com temperatura de alguns Kelvins. Ela foi descoberta em 1965 pelos radioastrônomos Arno Penzias e A. Wilson. Hoje se tem um valor mais preciso dessa temperatura, que é de 2,726 Kelvin. Para se avaliar a importância da luz no início do big-bang, basta lembrar que o número de fótons no universo supera de muito o número de núcleons (prótons e nêutrons), que são os constituintes que contribuem para o grosso da massa cósmica. Existem da ordem de um bilhão de fótons para cada núcleon. Mais uma razão para a luz figurar no primeiro versículo do Gênesis.

3. Estado fluido do universo primordial

"A terra estava informe e vazia; as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas". (Gen. I, 2)

Agostinho interpreta "terra" como não sendo necessariamente nosso planeta, mas a matéria primordial em estado informe. Parece-me que Agostinho identifica aí a matéria com a própria hile, princípio de indeterminação pura. Tomás de Aquino, porém mais corretamente entende que a matéria informe primordial não é a pura hile, que não pode possuir ser autônomo, já que é princípio imanente ao ente material. A matéria informe ele a entende com o mínimo de determinação formal. Mas isto acontece quando a matéria está reduzida a suas partículas elementares. É, como vimos antes, o que acontece no estado inicial da expansão do universo.

Sabe-se hoje que os arqués constitutivos da ordem material são:

  1. 6 quarks e 6 antiquarks : estes compõem os bárions e os mésons.
  2. 6 léptons e 6 antiléptons.
  3. Fótons.
  4. Uma estrutura relacional: espaço-tempo.

5) O vácuo: realidade virtual, sede de campos e partículas virtuais.

Como vemos, os três primeiros itens dizem respeito a arqués entitativos. A matéria no inicio do universo constituía um fluído de partículas elementares passando por vários estágios, terminando após três minutos com a fusão parcial de prótons e nêutrons constituindo os núcleos mais leves, os de deutério, hélio-4, hélio-3 e lítio. Os elementos mais pesados vieram a se constituir muito depois, após uns quatrocentos mil anos com a formação de estrelas, em cujo núcleo se processa a síntese de todos os núcleos dos elementos da tabela periódica de Mendelejev. Assim pois, a matéria primordial é um fluido de partículas com as determinações formais próprias a elas e não uma hile pura. Tomás de Aquino estava certo. Ressalto ainda que o termo "águas" da Bíblia parece significar a ideia de "fluido". O físico teórico norte-americano Steven Weinberg (Prêmio Nobel) chama a esse fluido de partículas, Sopa Primordial.

4. Dualidade corpos-vácuo

"Estende o setentrião sobre o vácuo, suspende a Terra acima do nada". (Jb. XXVI, 7)

Demócrito e Leucipo sustentavam que toda a ordem material era constituída por uma dualidade de átomos e vazio. Aristóteles, seguindo a lição de Parmênides, dizia que "o ente é e o nada não é", refutou os atomistas com base nesta verdade metafísica parmenidiana. Assim pois, o vácuo, o vazio, o nada, não podia ser. Parmênides com seu princípio de identidade do ser, negou o ser do outro e caiu na miragem de um Pleno Monístico.

Aristóteles procurou uma teoria entitativa antiatomista do universo constituído por 4 elementos contínuos, o ar, a terra, a água e o fogo, mais um quinto elemento, o éter, que deveria preencher o aparente vazio do espaço. Eu diria que Aristóteles substituiu o pleno monístico de Parmênides por um Pleno Pluralístico, tão falso quanto o primeiro. Aristóteles aí procedeu, como muitos filósofos o fazem, formulando aquilo que Chesterton chama de insane simplifications. Chesterton nos diz que os filósofos deveriam analisar sutilezas, mas, em vez disso, se deixam tentar pela simplicidade. Ora, na questão do espaço não podemos ser simplistas e Platão nos dá uma visão sutil da questão.

Platão nos ensina que aquilo que aparece como o vácuo no qual estão imersos os corpos, não pode ser um puro nada, pois Platão também endossou Parmênides, mas como um indeterminado.  Agostinho também assumiu posição semelhante ao deste filósofo grego. Para Aristóteles o espaço estaria cheio por uma substância atual, uma forma elementar determinada, o éter. Para Platão e Agostinho, é um indeterminado.

Na física de Aristóteles não há lugar para o vácuo e, por isso, chamo seu hilemorfismo de Compacto. Já o outro hilemorfismo, eu o chamo de platônico ou agostiniano. Este último é compatível com a física moderna, ao passo que o de Aristóteles, não. Tomo emprestado quatro argumentos tirados da física que estão ancorados na teoria covariante da gravitação de Einstein e na teoria quântica:

O vácuo dos físicos é uma realidade virtual da qual podem provir partículas elementares em certos processos de alta energia. O vácuo ou o nada da física se entende como ausência de partículas atuais e corpos: nesse sentido é perfeitamente compatível com o vazio ou o nada da Bíblia. Mas o pleno pluralístico de Aristóteles, que nega qualquer vácuo, envolve um espaço cósmico preenchido por uma realidade atual, o éter, e isto repugna à ideia do vácuo, ou vazio entitativo. Mas Tomás de Aquino endossando a falaciosa doutrina peripatética do éter, entra em choque com a filosofia natural da Bíblia.

5. Matéria celeste igual à matéria terrestre

"No começo criastes a terra, e o céu é obra de vossas mãos". "Não obstante, vão deperecendo e vós permaneceis; todos desgastam-se como um vestido ... " (Ps. C I, 26-27)

Por volta do século XXX a.C. vemos um pensamento oposto a este do A.T. O "Livro dos Mortos" do Egito, no Cap. 99 diz:

" ... os céus têm permanecido imóveis milhões de anos". O tema ressurge no século VI a.C. na escola pitagórica, segundo a qual a matéria no mundo astronômico deveria ser imutável ao contrário da matéria sublunar. Esse milenar equívoco infestou toda a filosofia do Islã e da Cristandade até ao século XVII. Raros filósofos não se deixaram contaminar por tal erro.

Aristóteles procurou fundamentar essa tese apelando para o testemunho dos povos que nunca viram mutabilidade nos céus, e, no caráter divino do éter. Tomás de Aquino adere a Aristóteles, invocando com este, uma dualidade de hiles: uma, perfeitamente atuada pela forma, a celeste, e, a outra incompletamente atuada, a sublunar ou terrestre. Tem-se uma impressão penosa ao se analisar a argumentação de Tomás, pois essa dualidade de hiles é incompatível com o caráter completamente indeterminado da hile, já que ela é potência pura.

Boaventura, contemporâneo de Tomás, também endossou a tese peripatética. Como já vimos, Robert Grosseteste identificava as duas matérias, o que condiz com Agostinho, que viu nos primeiros versículos do Gênesis a criação de uma única hile. Mas, a ideia laica perdurou até ao século XVII, quando Galileu com seu telescópio deu um golpe de morte na mutabilidade da matéria celeste. E, com a teoria da gravitação de Newton e suas verificações observacionais, definitivamente foi sepultada aquela ideia.

A Renascença constituiu um retorno maciço à cultura laica clássica. Quando Galileu descobriu as mutáveis manchas solares, provocou reações indignadas do establishment aristotélico que dominava a intelectualidade da época. O jesuíta Cristoph Scheiner, que também observara as manchas solares, recebeu do provincial da Companhia uma carta em que dizia que nada daquilo se encontrava em Aristóteles, e sentenciou: "Fique calmo. Suas manchas solares são os defeitos de seus óculos ou de sua visão".

6. Finitude do Universo

"É Ele que fixa o número das estrelas, e designa cada uma por seu nome". (Ps. C XLVI,4)

Devido à filosofia grega, sobretudo a Aristóteles, certo modelo de universo finito atravessou os séculos até à época da Revolução Cientifica no século XVII. A concepção aristotélica envolve uma antinomia: O estagirita dá várias razões contestáveis para a inexistência de um corpo infinito, e que portanto, o universo é finito. Defende a tese da esfericidade do universo com a justificação de que o cosmos está em rotação; se sua superfície última não fosse esférica, haveria corpos atravessando o nada; mas se toda a matéria cósmica está contida em uma esfera, a matéria celeste em rotação nessa esfera, nunca atravessaria o nada do exterior do universo.

A argumentação de Aristóteles é um sutil sofisma. Porque quando ele postula uma superfície esférica contendo toda a realidade física, essa mesma superfície está separando o nada da realidade. Esta concepção é um absurdo porque toda superfície no mundo físico, separa ALGO de ALGO. Agostinho tinha percebido que é tão absurdo se falar de um nada exterior ao universo como um tempo antes da criação no tempo. Mas, antes de Agostinho, o astrônomo e matemático pitagórico Árquitas de Tarento (século IV a.C.) percebeu o problema da superfície limite e optou por um modelo cosmológico infinito. A autoridade carismática de Aristóteles, porém, levou muita gente ao longo da história a endossar seu modelo cosmológico antinômico.

No século XV, o Cardeal Nicolau de Cusa redescobre a objeção de Árquitas de Tarento. Nicolau de Cusa diz claramente que o universo não poderia ser fechado por uma superfície esférica, porque exigiria outra coisa que imporia um limite ao mundo, ou seja, o exterior não poderia ser o nada. De Cusa não resolve o problema e tira uma conclusão que parece jogo de palavras: o universo não é finito, mas não pode ser concebido como finito porque não tem limites que o fechem. Usa também outra fórmula sibilina: o universo é ilimitado e privativamente infinito. Descartes também sentiu o problema, mas sua solução é inaceitável, pois inferiu que o universo deveria ser sem limite, não infinito, mas indefinido. A corrosão da doutrina do Liceu pelo desenvolvimento da nova física antiaristotélica abriu as portas para a concepção infinitista do universo. O astrônomo britânico Thomas Digges (século XVI) é um exemplo.

Em 1917, Einstein, um ano após ter publicado sua teoria covariante da gravitação, também chamada Teoria Geral da Relatividade, em um artigo publicado pelos Anais da Academia Prussiana de Ciências, mostra que uma cosmologia newtoniana baseada na equação diferencial de Poisson, envolve inconsistências matemáticas. Não se pode construir um modelo teórico de um universo finito ou infinito, a partir da teoria da gravitação newtoniana.

Mas sua teoria covariante da gravitação publicada pelo Annalen der Physik, em 1916, transpõe as dificuldades consideradas. Na nova teoria Einstein estabelece a conexão do tensor energia-momento da matéria com a geometria de Riemann. Consequência dessa imensa inovação científica: em um sistema físico-matemático consistente, o universo a grosso modo pode ser de três tipos: com geometria euclideana, necessariamente infinito; com geometria tipo Lobatchewsky, também infinito, e, com curvatura positiva, universo infinito. Uma geometria com curvatura positiva constitui um universo de volume finito, mas superfície envoltória nula, sem limite.

Deste modo, com a nova teoria, é possível justificar racionalmente um universo finito, sem aquela inconsistência ontológica da superfície que separa a realidade material do nada. O nada pois não aparece em nenhuma das três possibilidades. Observo que uma geometria não-euclideana transcende os dados dos sentidos. Na teoria da relatividade restrita e na geral, assim como na teoria quântica, os sentidos e a intuição sensível estão alijadas: as teorias científicas da física transcendem a imaginação e os sentidos. Isto contrasta com o equívoco de muitos filósofos, religiosos e laicos, que afirmam que a ciência visa aos fenômenos da ordem sensível e a filosofia estuda as essências.

Os dados astronômicos fornecidos pelos observatórios, não nos permitem optar entre as três possibilidades: universo com curvatura nula (euclideano), com curvatura negativa (Lobatchewsky), e com curvatura positiva. Entretanto uma importante consideração teórica, a que diz respeito ao Princípio de Mach, pode servir para decidir teoricamente, qual o modelo cosmológico mais consistente. Einstein pensava que o Princípio de Mach apontava para um universo de curvatura positiva, isto é, finito. O físico teórico norte-americano John Wheeler, em um trabalho muito elegante, formula o Princípio de Mach com rigor matemático e conclui que o universo deve ter curvatura positiva, portanto, finito.

Assim pois, a física moderna ensina que o universo pode ser finito, e, a finitude cosmológica apontada pela Bíblia encontra sintonia nas teorias mencionadas se bem que, a ordem observacional astronômica, até agora, se tem mostrado impotente para a escolha entre as três possibilidades exibidas pelas equações de Einstein. A presente situação é ainda reforçada com as últimas medições através o telescópio espacial Hubble.

Poder-se-ia objetar que o versículo do Salmo 146 tem um significado apenas simbólico, designando o número bem determinado de justos. Pois em Daniel XII, 3 está dito: "... aqueles que instruem muitos na justiça, como estrelas para toda eternidade".

Mas os textos bíblicos têm múltiplos sentidos como Agostinho ensina; de onde não se pode excluir o significado literal necessariamente. Aliás na exegese bíblica tradicional se deve manter o sentido literal, a menos que haja razões para sua exclusão. Exemplo: os "animais" no céu descritos no Apocalipse, não são tais, mas símbolos de serafins. Vimos como Tomás de Aquino interpreta a "luz no Gênesis como sendo efetivamente a luz física, e Agostinho, como metáfora para representar a morada dos anjos.

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