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Se estivermos atentos, as grandes e significativas lições de Yoga, muitas vezes, não nos são dadas explicitamente em salas de aula, livros ou cursos específicos. Desenvolvendo nossa capacidade de percepção, as entrelinhas podem nos falar muito e dela extrairmos os verdadeiros ensinamentos, inclusive, das diversas situações de nosso cotidiano. Trago aqui um exemplo assaz significativo.

Enquanto aluna da mestra Iracema de Sá, esta, após algumas semanas de aula, me sugeriu a execução da postura Sirshassana (invertida sobre a cabeça). No momento, me senti insegura e incapaz de fazê-lo, pois desde criança não conseguia virar cambalhotas.  Mas a mestra, com sua sabedoria, me conduziu a sua realização.  Ao conseguí-lo, percebi que o grande objetivo de Iracema ao fazê-lo, não fora sequer me mostrar a minha capacidade física, ou me tornar superior aos outros colegas que não conseguiam realizá-la, assim me tornando orgulhosa de tal fato, ou mesmo me levar a perceber os benefícios físicos da mesma, alongando os grupos musculares envolvidos, ou melhorando minha irrigação cerebral, mas sim que, naquela pose de corpo, que fora sempre almejada por mim ao observar outras crianças a fazê-lo, ela me fazia compreender que não havia lugar para inseguranças e medos em nossas vidas, mas que se nos permitíssemos, poderíamos aflorar todo o potencial escondido no recôndito de nosso ser.

Esta observação me fez refletir o caráter psico-físico de um asana, quando, no momento de sua realização não nos atentarmos ao físico somente, mas sim termos a capacidade de silenciá-lo e poder entrar em contato com um ser mais íntimo, que é a nossa alma, morada de nossas grandes possibilidades, chama de nossa aspiração Divina. Aí se situa o verdadeiro Yoga ou união. Cada pose realizada em uma prática contém possibilidades infinitas de acesso a este ser, se extrapolarmos o físico, procurando educá-lo, mas não martirizá-lo, procurando observar que, além de desenvolver plasticidade, ele nos fala muito de nossas posturas diante da vida.  Nossos medos, nossas inseguranças, nossas fragilidades diante da vida podem ser refletidos em medos, inseguranças e fragilidades não compreendidos na hora de execução destas posturas de Yoga.  Ultrapassando nossos entraves, podemos perceber que nosso corpo físico é capaz também de silenciar, e através deste silencio, fazer esta conexão com este ser íntimo, centelha do Absoluto, e nos levar a compreensão real de sua função.

 

“A completa identificação do si com o corpo é a característica primária da completa barbárie. Barbárie é o estado da sociedade no qual o homem está quase que inteiramente preocupado com sua vida e seu corpo.”

“O valor de nossas ações não está tanto em sua aparente natureza e resultado exterior quanto em sua ajuda em direção ao crescimento do Divino em nós.”

Sri Aurobindo

 

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