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Senhor Chanceler, é para mim um grato prazer falar em nome de todos os que hoje receberam graus, e agradeço-lhe por nos conferir tal honra. A outorga de graus honoríficos por uma Universidade como a Universidade de Macau constitui uma declaração de que somos apreciados por aqueles que respeitamos.

Nós, os Doutorados “Honoris Causa”, vivemos grande parte das nossas vidas em Universidades e, como dizemos em economia, isto revela uma preferência. A busca do conhecimento provou ser tão atrativa que, uma vez começada, não nos foi mais possível desistir dela. Claro que procuramos o conhecimento em áreas diferentes. Hoje em dia, nem os próprios acadêmicos procuram saber tudo o que merece ser conhecido, nem compreender o que qualquer pessoa compreende. Devo, contudo, admitir que tais ambições são tentadoras. Descobrir mais sobre muitos tópicos constitui um dos maiores prazeres na vida.

O problema é que muito já foi descoberto até agora, ou criado, e que tantos pensamentos e argumentos interessantes foram registrados que parece difícil uma empresa tentar uma ínfima fração daquilo que existe para conhecer. Como consequência, muitos de nós demos prioridade à aprendizagem do modo de descobrir coisas, mais do que à mera leitura e memorização. Em matemática, estamos, naturalmente, interessados em métodos para resolver problemas, e não apenas em conhecer as respostas. A internet e os sites de busca, as enciclopédias modernas, são típicos: com estes métodos de descoberta disponíveis, suponho que a necessidade de memorizar e lembrar diminuiu.

Há muito tempo, um dos meus amigos, que, tal como eu, tinha uma fraca memória, no sentido em que ambos tínhamos muita dificuldade em memorizar coisas, sugeriu que nós éramos moderadamente bons em matemática porque esta nos fornecia um substituto para a memória. Em vez de nos lembrarmos de coisas, conseguíamos muitas vezes descobri-las. Como acontece frequentemente na vida, uma fraqueza gerava uma força. O psicólogo Adler chamou a atenção para o número de vezes em que as pessoas arranjavam uma compensação para as suas fraquezas, como Beethoven que compunha a despeito da sua surdez. Um outro amigo economista sugeriu que deveríamos elaborar um exame no qual seria pedido às pessoas que respondessem a perguntas sobre fatos que não se esperaria que conhecessem, tais como: qual é a receita nacional de Macau? Ou, quantas pessoas visitam a Grã-Bretanha por ano? Pelo raciocínio, com base nas coisas geralmente conhecidas, uma pessoa deveria ser capaz de apresentar uma estimativa decente. Nunca tentamos a experiência, mas penso que um tal exercício encorajaria o raciocínio. É mais importante treinar e desenvolver poderes de raciocínio do que aptidões de memória e conhecimento de fatos. A minha experiência de professor sugere que é mais difícil. Precisamos de pessoas que sejam capazes de descobrir como fazer coisas e como tomar decisões racionais.

Contudo, a ambição de saber muito não é inteiramente vã. Enquanto o conhecimento total se alarga, entretanto, uma outra coisa mudou, que nos permite saber mais. Podemos fazer coisas mais rapidamente do que as pessoas podiam no passado. Podemos viajar com muito maior rapidez. Demoramos meio dia para virmos da Europa para a China, não já as semanas que demoraria uma jornada no passado. Temos dispositivos para acelerar muitas das nossas atividades, como cozinhar ou fazer a limpeza. Não apenas isto, mas dispomos, de fato, de mais tempo, porque a nossa esperança de vida é maior. Podemos conhecer muitos lugares e conhecer pessoas em todo o mundo. As conversas já não exigem deslocações, e as respostas a pedidos de informação podem ser obtidas com grande rapidez.

O ritmo de vida mais acelerado ajuda, mas não tanto quanto isso: não lemos, nem absorvemos conhecimentos, nem escrevemos mais depressa do que os nossos avós, ou do que, suponho, as pessoas de há duzentos atrás. Bem, alguns autores utilizam a tecnologia moderna para produzirem a uma velocidade espantosa, mas produzem livros meramente para passar o tempo. As pessoas deveriam escrever menos e falar menos. Em algumas esferas, a oferta ultrapassa normalmente a procura.

A ocasião de hoje recorda-me um escritor do passado que foi um orgulho para o mundo e que, no entanto, se queixava frequentemente do mau uso que pensava ter feito do seu tempo. Foi eventualmente recompensado de uma forma que lhe conveio e agradou. Samuel Johnson, o grande lexicógrafo, que criou o primeiro dicionário satisfatório de Inglês foi obrigado a deixar a Universidade de Oxford ao fim de um ano; quando o seu pai morreu, ele não tinha condições para ficar, pois foi obrigado a trabalhar para sustentar o resto da família. O séc. XVIII não foi um período muito distinto para aquela Universidade, mas Samuel Johnson lamentou profundamente que o tempo lá passado tivesse sido tão curto e o fato de não ter obtido qualquer grau. Anos mais tarde, Oxford fê-lo Doutor Honoris Causa e, desde então e até aos nossos dias, ficou conhecido como Dr. Johnson, um título que ele apreciava profundamente. Há um grande número de palavras em Inglês, e o Dr. Johnson não apenas escreveu elegantes definições, mas forneceu também citações evidenciando sentidos. Imaginem o tempo que isto lhe terá tomado. No seu dicionário, em que se permitiu algumas graças, o Dr. Johnson definiu um lexicógrafo como um “burro de carga inofensivo”. No entanto, teve, ainda assim, imenso tempo para as maravilhosas conversas que o Dr. Boswell recolheu. É impressionante a vastidão e a profundidade dos seus interesses e conhecimentos, que essa biografia revela. De fato não era, ou, pelo menos, não inteiramente, um “burro de carga inofensivo”. Ainda que o trabalho pesado não possa causar mal, até certo ponto, ajudou-me a obter doutoramento, espero que implique mais do que isso.

Obrigado, então, Senhor Chanceler, e obrigado a esta Universidade por existir aqui e por me honrar neste dia.

James Alexander Mirrlees (Minnigaff, 5 de Julho de 1936) é um economista britânico. Foi agraciado com o Prêmio de Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel de 1996.