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A ONU consagra o 05 de maio como “dia mundial das comunicações” porque sabe que a atuação dos meios de comunicação social é decisiva para fomentar no mundo uma cultura de paz ou, ao contrário, situações que favorecem a violência. A imprensa, o rádio e a televisão podem contribuir com a paz e a justiça no mundo, como, ao contrário, legitimar discriminações sócio-econômicas, raciais e de gênero. 

 

Há muitos exemplos nos quais a imprensa se põe a serviço das melhores causas. A humanidade reverencia centenas de jornalistas que deram a sua vida na defesa da paz e da justiça. Entretanto, temos de reconhecer que, infelizmente, no cotidiano da vida, muitos dos meios de comunicação mais conhecidos e prestigiados de cada país estão atados a interesses de grandes grupos econômicos. Nas últimas décadas, uma norma cada vez mais universal é a comercialização da cultura. Países como os Estados Unidos privatizaram não muitos, mas todos os meios de comunicação. Isso gerou uma concentração das empresas de comunicação. As mais fortes e ricas compram as mais frágeis.

Em todo o continente latino-americano, a Televisa mexicana criou um império. O grande grupo de mídia venezuelano, pertencente a Gustavo Cisneros, controla hoje mais de 70 empresas de comunicação. Através da Venevision, principal emissora de televisão da Venezuela, entra em toda a América Latina e produz programas para a televisão espanhola. Através de contratos milionários com a AOL a Time Warner e a Direct TV, atinge uma audiência de centenas de milhões de pessoas em 62 países do mundo.

No Brasil, os grandes meios de comunicação continuam em mãos de poucas famílias que condicionam muito o que o povo deve pensar e sentir. Ao invés do mundo se tornar a aldeia global, multicultural e planetária, proposta por Mashall Mac Luhan, a concentração das comunicações nas mãos de poucos conglomerados transforma o mundo em uma aldeia fechada e provinciana que pretende impor às mais diversas culturas os seus valores ideológicos e econômicos. A terra inteira se transforma em uma espécie de quintal dos poucos poderosos que dominam o mercado das comunicações. É isso que faz Ignace Ramonet, diretor do prestigiado Le Monde Diplomatique, afirmar: “Atualmente, em muitas circunstâncias, os meios de comunicação não só deixaram de defender os cidadãos, mas, freqüentemente, chegam a agir contra o povo no seu conjunto...” (Cf. Agenda Latino-americana, 2006). É o que se constata quando o grupo Cisneros encabeça uma campanha violenta e permanente contra o presidente venezuelano Hugo Chaves, não por seus defeitos, mas justamente por este pretender acabar com as desigualdades sociais no país. O mesmo tipo de interesse mais econômico que político faz com que, no Brasil, erros e desvios de políticos ligados ao governo atual recebam uma condenação extremamente mais rígida do que todos os casos de corrupção e roubalheira comprovados no governo anterior. No documento conclusivo do 2º Fórum Social Brasileiro (Recife, 23 de abril de 2006), as organizações e movimentos populares pedem uma verdadeira democratização dos meios de comunicação social.

Nos grandes veículos da imprensa, muitas vezes, a informação está deformada ou mesmo envenenada, tanto ou mais do que  os alimentos em uma sociedade que não hesita em usar agro-tóxicos e sementes transgênicas para lucrar mais. Os meios de comunicação não agem assim por alguma doença que os impede de ver algo de bom em alguém aparentado com o que antigamente se chamava de esquerda. O problema é outro. O mundo da comunicação exige imensos investimentos e assim acabam dominados por grandes grupos econômicos. Estes confundem informação com manipulação da opinião pública. Até os governos trocam comunicação por publicidade. Consideram-se agentes de comunicação bem sucedidos os marqueteiros que vendem dos políticos as imagens mais capazes de seduzir eleitores.

 Há décadas, os setores mais conscientes da sociedade se deram conta de que a informação é um bem comum e direito da sociedade como um todo. Mesmo se não existe uma versão totalmente objetiva e neutra de cada fato ocorrido, no mundo atual, os lados da questão não são iguais. Um incidente que envolva índios e empresários do setor de imobiliárias ou um grupo de mulheres sem-terra e os gerentes de uma multinacional não pode ser tratado como se, na sociedade em que vivemos, os dois lados do conflito tivessem o mesmo direito de informação e as mesmas condições de se defender. É claro que “todo ponto de vista é sempre vista de um ponto”, mas os direitos privados de um proprietário não podem ter o mesmo valor perante à lei que a vida e a sobrevivência de uma comunidade de milhares de pessoas. A liberdade dos meios de comunicação é essencial para a democracia. Como tal implica responsabilidade social e o seu exercício deve, em última instância, estar sujeito ao controle da sociedade. Apesar de também não ser imune a abusos, como qualquer atividade humana, a internet tem se revelado um importante fórum de debates democráticos e que permite interação e participação mais igualitária dos cidadãos.

Todas as pessoas e grupos que, hoje, trabalham para transformar o mundo sabem que esta mudança não será feita por armas nem por leis impostas. Alguns países tiveram a experiência de eleger governos mais populares, nos quais a maioria da população depositou sua esperança. Apesar das contradições do processo e das desilusões inerentes a este tipo de estrutura política, continua importante fazer este discernimento e valorizar as eleições como peça fundamental neste processo. Entretanto, o elemento decisivo para a mudança será a educação. Por isso, não podemos deixar a tarefa da comunicação apenas com os/as jornalistas, por mais empenhados e capazes que sejam. Democratizar os meios de comunicação social e colocá-los a serviço das grandes causas da humanidade é compromisso que todos devem assumir. Nas famílias, escolas, trabalho e nas diversas esferas da sociabilidade, é preciso que se fortaleça uma comunicação de tipo novo, mais crítico do atual sistema e mais solidário com as parcelas da população, secularmente marginalizadas.

No mundo antigo, havia um termo para designar a notícia alvissareira, capaz de mobilizar as pessoas para serem mais livres. Em grego, chamavam esta notícia “evangelho”. Era um termo técnico para os anúncios de anistia, de perdão de dívidas e de libertação para uma região antes sujeita à dominação. É por isso que um discípulo do profeta Isaías dizia: “São felizes e abençoados os passos das pessoas que anunciam evangelhos (no sentido de notícias libertárias) ao meu povo” (Cf. Is 52). 

 

[1] - Marcelo Barros, monge beneditino e autor de 29 livros, dos quais o mais recente é “A Vida se torna Aliança”, Como orar os salmos ecumenicamente, Ed. Rede da Paz, 2006.

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