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... “se fôssemos verdadeiros cientistas, se aceitássemos viver um pouco na utopia da felicidade, faríamos punções lombares àqueles que assistem a fogueiras nos acampamentos. Constataríamos que este simples facto aumenta a taxa de serotonina”.

 

Boris Cyrulnik

 

Aprendemos que nos distinguimos de outras espécies animais pelo uso da linguagem, pelo atributo da razão, pela condição imaginal de projeção e transcendência, pelo trabalho, pela acumulação e transferência de cultura, pela elaboração de regras sociais, pela construção da história, pela produção do conhecimento. Mas certamente escutamos muito pouco ou nada a respeito da dimensão onírica da condição humana.

É possível que nunca nos tenham dito com todas as palavras, nem na escola, nem na nossa família, nem na universidade, que a espécie humana é a única que sonha acordada. Que, durante a vigília se projeta pelo sonho, cria fantasmas que nos consome, personas que ao mesmo tempo, nos escondem e nos desvelam. Desde criança aprendemos que a vida em sociedade é marcada pela regra e que a regra é gestada pela razão. Que a razão é um mecanismo ou uma qualidade do pensamento capaz de domesticar e impor limites às emoções humanas que seriam responsáveis pelo desregramento, pela desordem e pela selvageria social. Certamente o aprendizado dessas verdades foi matizado e não homogêneo. Os artistas, os poetas, e mesmo na ciência, os pensadores não enclausurados nos paradigmas da repetição e da ordem, experimentaram outras verdades.

De qualquer forma, os discursos autorizados pelos lugares oficiais de transmissão da cultura – família, escola, religião – exemplificam bem o que Roger Shattuch chama de conhecimento proibido. Como se fosse uma armadilha necessária do pensamento, um certo espaço do segredo e do perigo foi sendo resguardado para acondicionar domínios da condição humana sobre os quais olhamos, ora com desconfiança ora com medo. Penso que isso se deu sobretudo com as interpretações cientificas a respeito da dinâmica de produção do pensamento e da condição humana.

Parto de dois argumentos.

Em primeiro lugar, o ato de sonhar acordado, singularmente humano, funda a nossa aptidão para gerar utopias, alimentar desejos e dialogar com o princípio de realidade. Essa condição onírica, marcada pela hubris, portanto pelo desregramento e desmesura, está na base da construção do sujeito, na sua projeção identitária para além dos condicionamentos biosociais. Mas também, essa mesma aptidão humana explica porque projetamos sociedades distintas da que vivemos, porque construímos utopias, porque projetamos futuros.

Em segundo lugar, a emoção não se reduz a um aspecto afetivo, nem a um estado subjetivo do agenciamento de estados psíquicos como, por exemplo, a nossa super sensibilização diante de uma obra de arte, de um filme, de um encontro afetivamente forte e inusitado. A emoção pode desdobra-se no afetual mas não se reduz a ele. É mais precisamente o atributo que impulsiona as ações humanas e estrutura o sujeito como argumentam Humberto Maturana e Boris Cyrulnik. Por conseqüência a razão não é o contra ponto da emoção, mas um estado de ser dessa atividade cognitiva.

Esses dois argumentos nos servem aqui para problematizar algumas questões com as quais todos nós convivemos de forma mais permanente e direta, ou emergem pontualmente em certos momentos de nossa vida.

Enuncio algumas dessas questões. Como transformar nossas experiências pessoais, intelectuais e profissionais em sementes que fecundem uma ciência mais aberta, uma sociedade mais feliz, um sujeito menos violentado e uma relação mais harmônica entre os seres vivos e a natureza? O que fazer para transformar a universidade, essa fogueira de vaidades, em espaços catalizadores de compromissos éticos afinados com o ideário de um mundo mais humano e ao mesmo tempo não tão “demasiadamente humano?” Como construir e dar vida a argumentos que merecem ser defendidos, pelo fato de se afinarem com os valores maiores de preservação do planeta, da integridade bio-psíquica do sapiens-demens e do respeito à diversidade das formas de vida? Como realimentar um sujeito social capaz de se perceber como um conjunto de partículas desejantes? Como nos nutrir da auto-crítica, de forma a avaliar se o que dizemos em casa, na escola, na rua e a nós mesmos, vale a pena ser dito porque fecunda, gera esperança e produz vontade? Como injetar no nosso sistema sangüíneo, de forma individual e coletiva – mas nunca compulsoriamente nem por decreto – enzimas e substâncias capazes de constituir antídotos à “crueldade do mundo” conforme a expressão de Edgar Morin? Se estamos insatisfeitos com a gestão da sociedade, com a instituição universitária, com a família e o mundo do trabalho, como impedir que o discurso da “vitimização” (Brucker) nos imobilize? Como fazer valer as condições propriamente humanas de sonhar e projetar um indivíduo menos fraturado?

 

A flor do cacto

 

“Nem tudo são flores”, sabemos. Existem também os espinhos, e com eles teremos que conviver sempre, sejam esses espinhos reais ou metafóricos. Mesmo porque os espinhos funcionam como protetores em certos vegetais, da mesma forma que nossas couraças psíquicas. Estas, ao mesmo tempo em que dificultam nossa abertura total para o mundo, também protegem as cicatrizes mais arcaicas, quando ainda estão demasiadamente abertas.

Mas, mesmo que nem tudo sejam flores, basta olhar com vagar a mata atlântica na região amazônica, o deserto do Arizona ou a vegetação do semi-árido no nordeste do Brasil, para observar a exuberância estética da flor do cacto. Em meio a uma população numerosa de espinhos distribuídos por toda a extensão do corpo da cactácea, e nem sempre na parte mais proeminente do vegetal, uma estranha e exótica flor quase sempre vermelha, aparece. Essa condição de ser do cacto com sua flor, ocorre, é obvio, pela repetição do padrão de informação genética que orienta a reprodução daquela espécie vegetal. Mas, certamente, podemos agregar ao fato biológico, ou extrair dele, um significado, uma linguagem e uma mensagem importante.

Sugiro que a flor do cacto aparece, para nos dizer que nem tudo são espinhos, e que é possível abrir espaços criativos, desejantes, libertários e prontos para serem coloridos conforme as cores que nos aprazem. Alguém pode dizer, por exemplo: “pintarei tudo que puder de vermelho-carmim, cor do fogo ardente, do desejo, da paixão, da alegria. Mas também, fora da monocronia, usarei o amarelo de Frida Kahlo para jogar luz onde for necessário”.

Uso a imagem da flor de cacto, porque acredito que podemos e devemos fazer uso de nossas potencialidades para proferir a crítica mais severa aos desmandos da civilização, em qualquer de suas formas, sem, entretanto ficar de mal com a vida. Toda reflexão crítica marcada pela amargura dificulta ou impede de ver o embrião da flor de cacto em sua provável condição de emergir a qualquer momento. Além disso, vale lembrar que os efeitos do ressentimento e da amargura não geram o desejo de vida, e que, portanto, somos mais úteis ao mundo transformando dores em alegrias, do que espalhando espinhos.

Somos responsáveis, queiramos ou não, pelo desenvolvimento de uma visão de mundo, de universo, de sociedade, de homem. E porque somos seres na linguagem, esse fato tem conseqüências teóricas e práticas. Nenhuma interpretação do mundo e dos fenômenos é incolor, inodora, ingênua ou inconseqüente. Por isso é melhor carregar nas cores que produzem vida, movimento e transformação, do que nos limitarmos ao retrato em preto e branco. Isso vale para as teorias científicas. Mais do que um conjunto de preceitos normativos que orientam o trabalho de pesquisa, as teorias e interpretações das quais nos valemos a priori, foram construídas por sujeitos de carne e osso, alimentados por suas crenças fundamentais, suas estruturas psíquicas, mais, ou menos resolvidas. E, quando descreveram e lançaram suas hipóteses a respeito da origem, da dinâmica e do devir dos processos que investigaram, foram sujeitos, dotados de subjetividade que descreveram esses processos a partir de um lugar – o lugar do observador – observador esse que vê o mundo a partir de uma complexa lente constituída por crenças, convicções e uma atitude psíquica.

É pois a questão do sujeito que merece destaque, se queremos refletir sobre as imagens do mundo que devem ser projetadas para tornar mais digna e feliz a condição dos humanos no planeta. Já que trazemos conosco uma carga de informações bio-culturais passível de ser reorganizada, é de fundamental importância investir na reformulação das atitudes psíquicas de modo a instigar vontades sadias e desejantes. Toda biologia genérica do ser é movida por uma psique singularizante.

Apostar na plasticidade e na transformação da natureza psíquica a partir da qual vemos o mundo é um passo importante. E, se aceitarmos a hipótese de que reorganizamos nossa concepção dos fenômenos através da relação entre um conjunto de informações socialmente acumuladas e as nossas convicções fundamentais, isso pode gerar dois desdobramentos: em primeiro lugar, poderemos compreender porque vemos o mundo da forma que vemos; em segundo lugar – e aí reside à necessidade de uma vontade fundamental –, poderemos abrir nosso sistema de percepção e compreensão do mundo, de maneira a carregar mais o pincel nas tonalidades que operam uma ética do pensamento afinada com o diálogo e a convivialidade, e que, por isso mesmo, não pode compactuar com as verdades únicas e a polícia do pensamento.

Observemos agora algumas idéias de E. Morin, H. Maturana e B. Cyrulnik a respeito desses argumentos.

 

Edgar Morin: viver e sobreviver, prosa e poesia

 

Em quase toda a obra de Edgar Morin, a reflexão sobre o sujeito do conhecimento ocupa um lugar central. No conjunto dos quatro volumes de “O método”, aonde o autor investe no esforço maior de problematizar uma estratégia de pensar capaz de religar o conhecimento, o problema de um sujeito enraizado na sua condição humana e societal, mas ao mesmo tempo capaz de a redefinir, assume a força de um argumento central.  Também nos seus quatro diários ¾ Diário da Califórnia; Um ano sísifo; Pleurer, aimer, rire, comprendre; e Diário da China (inédito) ¾ ou nos títulos que se tem convencionado chamar de auto-biográficos, como por exemplo Meus Demônios, Morin oferece-nos quase uma película de raio X, que desnuda, em grande parte, a dinâmica de seu processo intelectual. Fala das obsessões cognitivas com as quais tem convivido, como foi transformando em conhecimento suas emoções fundamentais como ira, ternura, resistência, e como esses sentimentos impulsionaram focos importantes de sua maneira de ver/conhecer/compreender o mundo. Nos livros mais afeitos à antropologia, a política e a sociologia, E. Morin argumenta fundamentalmente, a propósito da relação de indissociabilidade entre o sujeito que conhece e o fenômeno que ele quer explicar, entender, compreender. Para ele, o processo cognitivo é a conjugação (em dosagens sempre variadas, tanto no nível individual, quanto coletivo e histórico) de três domínios de aptidões que constituem o propriamente humano: pulsão, razão e emoção. É a conexão entre esses três domínios que constitui uma certa estrutura a partir da qual os conhecimentos acumulados e as informações que nos chegam são retotalizados, significados, compreendidos, avaliados, julgados.

Por outro lado, de forma recorrente em todos os seus escritos, Morin sublinha as armadilhas do processo de percepção e decodificação do mundo, da informação e dos fenômenos, armadilhas essas, que são produzidas pelo sujeito e retroagem sobre ele.

Mesmo que sejam abundantes as referências e os exemplos aludidos pelo autor, para circunstanciar essas armadilhas, me limito aqui a enunciar apenas uma referência, porque julgo exemplar para dizer como vemos o mundo a partir do nosso interior, que inclui, é claro, um conjunto de premissas e teorias que reforçam nossas crenças fundamentais ou se constituem nelas próprias.

Na primeira parte do livro Para sair do século XX, Morin relata o fato de ter presenciado uma colisão entre um carro e uma motocicleta, numa avenida de Paris. A descrição do acidente é bastante matizada no livro, mas, para os fins que nos interessa aqui, sumario apenas o seguinte.

Morin viu, e se dizia testemunha, do fato de que um carro bateu numa motocicleta quando, na realidade, foi o motoqueiro que, avançando o sinal, operou a contravenção e daí o choque entre os dois veículos. Se perguntarmos porque Edgar “viu” o oposto do que ocorreu, podemos responder: motivado por uma dosagem desmensurada de emoção, que mobilizou crenças anteriores a respeito de outras situações, o observador foi vítima da armadilha da percepção. Por conseqüência, sua retina não enviou a informação correta, ou, se a enviou corretamente, o seu cérebro “viu” o acidente a partir de um conjunto de valores e atitudes que caracterizam a nossa sociedade e contra os quais o observador Edgar se coloca: o fato de que o grande sempre explora o pequeno, de que a sociedade capitalista se funda da desigualdade das condições de vida em favor dos mais poderosos, etc., etc.

Em síntese, Edgar Morin olhou uma coisa e viu outra, porque, por um lado, o processo de observação e percepção contém sempre a possibilidade da armadilha, e, por outro, porque somos sempre passíveis de extrapolar para outros domínios, premissas, proposições e explicações que nem sempre são fecundos em seus movimentos de generalização e transposição. Daí decorrem duas afirmações possíveis. Primeiro: o limite entre o falso e o verdadeiro, entre o erro e a verdade, entre o real e o imaginário é quase nenhum. Segundo: toda cognição, todo conhecimento, toda percepção se dá motivada, impulsionada e regida pela emoção.

É importante assinalar que a emoção não pode ser entendida unicamente como um estado de espírito que produz satisfação, contentamento, prazer, mas como uma mobilização cognitiva que inclui também os estados de fúria, rebeldia e descontentamento. É também sob esses estados emocionais que produzimos nossas mundovisões, nossa compreensão do mundo, tanto quanto, mais especificamente, nossas teorias e interpretações dos fenômenos. Daí porque, a tomada de consciência de que pulsão, emoção e razão caminham juntas, pode propiciar ao sujeito do conhecimento uma certa alquimia mental capaz de transformar as pulsões de morte em pulsões de vida; a ira e o descontentamento em proposições harmonizadoras e mobilizantes; as situações traumáticas, em ferramentas do conhecimento.

Para ilustrar especificamente esse argumento volto outra vez a Edgar Morin, para aludir a uma importante referência entre as várias contingências psico-afetivas de sua vida presentes em parte de sua obra. A referência é a seguinte: Edgar tinha nove anos quando morreu sua mãe Luna Beressi, fato que só veio a saber alguns dias depois por seu pai, Vidal, enquanto “Minou” brincava do lado de fora do cemitério Père Lachaise. Conta Morin, como passou a chorar apenas na sua privacidade – em sua cama, debaixo dos cobertores – e nunca em público [1].

Foi certamente à dor intensa e a incompreensão da morte prematura de Luna, sua mãe, ¾ alusão feita por ele próprio, em sua obra várias vezes ¾ que o levou, anos mais tarde, a investigar e refletir sobre o tema da morte, como um domínio epistemológico importante para a compreensão da cultura, do surgimento da arte e do imaginário, tanto quanto para entender a condição de emergência e complementaridade entre a consciência objetiva e consciência subjetiva nos humanos.

Não fosse essa duradoura emoção causada pela dor, pelo sentimento da falta, pela surpresa da perda e, acima de tudo, pelo segredo que teve talvez o gosto amargo da traição, Edgar Morin não teria escrito O homem e a morte ou, o teria feito mesmo assim, mas motivado por outra obsessão cognitiva ou emoção fundamental.

O que importa reter dessa referência é o fato de como o sujeito do conhecimento é sempre impulsionado por um sentimento, por uma estrutura organizacional da sua psique, quando empreende qualquer investimento cognitivo, mesmo que disso não tenha consciência. Daí porque é crucial nos perguntarmos porque temos interesse por esse ou aquele tema, porque tratamos as coisas de uma forma e não de outra; porque assumimos tais ou quais posturas epistemológicas, determinadas teorias, certas hipóteses e uma certa forma de nos acercamos do problema que queremos conhecer. Importa também reter e problematizar a possibilidade de transformar situações ansiogênicas em cognição fecunda e ampliada.  Penso que o exemplo da Edgar Morin, aqui descrito, mostra bem como uma situação traumática pode se transformar na condição de emergência para um ato criador, e como o conhecimento a partir daí produzido, pode retroagir e redimensionar, o que, à partida, se constitui apenas numa contingência negativa. Mas esse movimento de retroação transformadora não se dá espontaneamente nem de forma mecânica.

Para operar uma tal metamorfose, duas condições precisam ser satisfeitas. Em primeiro lugar, trata-se de transformar uma experiência individual numa questão mais ampliada, quer dizer, problematizar a complexidade do que parece ser um fato unicamente pessoal. Em segundo lugar, trata-se de dialogar com os diversos conjuntos de informações tatuados na nossa experiência enquanto sujeitos premiados por uma complexa biologia, informações essas que são passíveis de se constituir num problema crucial a ser investigado. Certamente essas duas condições foram satisfeitas no caso do trauma vivenciado por Morin pela perda de sua mãe, o que tornou possível sua pesquisa sobre o lugar e o significado da morte no paradigma humano [2].

Mas não são somente as situações traumáticas que, olhadas de frente, podem se metamorfosear em princípios criativos. Também circunstâncias intensas de paixão, de enamoramento e de alegria produzem “estados do ser” (Antonin Artaud) capazes de alimentar os domínios da descoberta científica e da produção da cultura.

Em vários de seus livros, mas de forma particular em “Amor, Poesia e Sabedoria”, Edgar Morin discorre sobre a necessária indissociabilidade entre esses três termos – na verdade três domínios de nossa condição humana que precisam ser rearticulados se desejamos e propugnamos pela reconstrução do sujeito, da sociedade e do conhecimento. A sabedoria de que fala Morin é produto de um conhecimento operado a partir do amor e de um estilo poético de viver. Para ele, temos nos limitado a sobreviver, e é necessário viver. Temos também que ultrapassar o estado prosaico de vida, e exercitar uma poética da existência.

Viver poeticamente é prover as condições de surgimento de um sujeito capaz de recrutar mais e mais a produção de serotonina, que em nosso corpo, espera e pede a todo momento, por uma circunstância de estimulação e emergência. E, mesmo que saibamos conforme coloca Boris Cyrulnik (1998), que “estamos biologicamente equipados para sofrer”, dispomos também de “zonas cerebrais que estão organizadas para tratar a informação feliz: é a pequena tira que vai do lóbulo pré-frontal até a base do cérebro”, completa o etólogo.

Sabemos bem que o problema da complexidade do sujeito, ou do sujeito-observador — esse sistema carregado de informações e experiências —, não se reduz exclusivamente ao seu equipamento biológico, mas inclui sempre um esforço e uma vontade para potencializar o lado da criação desejante, isto é, de uma cognição integralmente amorosa mesmo que parcialmente feliz. Para Cyrulnik a relação estreita entre as enzimas da felicidade e da infelicidade configura a nossa condição biológica propriamente humana. É talvez por isso que construímos nossas utopias: como uma forma de escapar a simbiose felicidade-infelicidade, em cuja rotatividade parece que estamos presos. A utopia é para esse autor, “o lugar que dá forma aos nossos desejos”. E, mais do que isso, acredito que é também a possibilidade de nos projetarmos para além de nossos limites biológicos. Se a nossa condição de indivíduo de uma espécie está marcada por um conjunto de circunstâncias herdadas, nossa emergência como sujeito não está determinada à priori.

Dar chance a produção de serotonina é pois, a nossa própria chance de operar uma simulação no nível biológico que favoreça uma reestruturação de um sujeito mais duradouramente feliz e menos infeliz. O que está aqui em jogo não é uma solução individualista para repensar a condição bio-psíquica de cada um de nós. Não se trata da procura babaca da harmonia estável e despolitizada tão comum nos livros de auto-ajuda à la Paulo Coelho. Trata-se mais propriamente de problematizar a relação entre um sujeito capaz de vivenciar criativamente o paradoxo da condição humana, nele singularizado, e arquitetar, coletivamente, a gestação de uma sociedade menos perversa porque mais feliz, menos violenta porque mais convivial. Trata-se, no limite, de cobrar do sapiens-demens a dívida que ele tem para com o planeta e com sua espécie, pelo fato mesmo do acaso de sua existência. Trata-se de perguntar o que temos semeado – flores ou espinhos? Ódio ou amor? Uma ética de resistência e da responsabilidade, ou o desrespeito, a dominação e a intransigência?

 

Humberto Maturana: a biologia do amor

 

Há em cada um de nós uma biologia do amor que pede para ser acionada, que deseja uma condição favorável para emergir e expressar-se. Render-se ou não render-se a biologia do amor, pode ser um desafio importante para a condição humana.

Pelo menos no limite dos objetivos aos quais nos propomos aqui, a alternativa acima anunciada sintetiza o conjunto das reflexões éticas do biólogo chileno Humberto Maturana no que se refere a convivência humana com base na emoção do amor. Para o construtor da noção de autopoieses (1997), noção que procura compreender o processo constitutivo dos sistemas vivos, todo ato de conhecimento é uma construção de um sujeito observador que vê, explica, classifica e qualifica os fenômenos a partir de uma emoção constitutiva fundamental. “Existem duas emoções pré-verbais” diz Maturana: “a rejeição e o amor”. A rejeição opera uma cognição pautada pela separação, pela negação e pela exclusão do outro em relação ao observador. Quanto ao amor, este “constitui o espaço de condutas que aceitam o outro, como um legítimo outro na convivência” (1998). Rejeição e amor não são entretanto opostos entre si, porque a ausência de um não leva ao outro, sendo mais apropriado dizer que ambos têm como oposição, a indiferença. Para Maturana é no plano das conseqüências do agenciamento do amor ou da rejeição, que se configuram caminhos cognitivos divergentes. A rejeição nega a convivência; o amor a constitui. Quanto à indiferença, esta não agencia conhecimento, não prover valores, não posiciona o sujeito, não opera ação pelo linguajar, não é oposição nem adesão. É mais propriamente um estado de inércia, desprovido de aptidão e vontade para colocar-se frente a qualquer coisa. Um estado de apatia e torpor. A rejeição e o amor são, ao contrário, operantes, agenciamentos da cognição, estados cognitivos dinâmicos, em ação. O primeiro (rejeição) opera pela recusa prévia frente a um fenômeno, a um valor, a uma circunstância. Poderíamos chamar a isso de um estado cognitivo covarde, medroso, frágil. Rejeitar e negar a priori uma situação, um enunciado, ou um “outro” qualquer, não denota a resistência como fragilidade? A recusa como medo de auto-destruição? A negação apriorística como inconsistência interna que não pode se pôr à prova?

Para Maturana operar na emoção pela via do amor é constituir o propriamente humano na convivência. Isso porque o “amor não é um fenômeno biológico eventual nem especial, é um fenômeno biológico cotidiano” (op. cit.). Ele é tão básico que torna-se necessária uma verdadeira maquinação cultural para contê-lo. Por isso, a consciência da guerra e a incitação a ver no outro um inimigo a ser destruído, são frutos da internalização de uma visão de mundo que só se mantém pela vigilância e pela obediência. Se não houver vigilância para criar, cultivar e manter a idéia do inimigo, a biologia do amor emerge e se desconstrói a imagem de inimigo. Fazendo alusão a Primeira Guerra Mundial, Maturana diz que era esse o problema com as trincheiras. “Era preciso proibir o encontro dos inimigos fora da luta”, porque se os alemães, ingleses e franceses conversassem entre si nesses períodos, “acabava-se a guerra”. Daí a necessidade de manter uma dinâmica permanente de desclassificação do outro como uma forma de conter a compulsão natural para a aceitação, o convivial, o afetual. “É por isto que o torturador tem que insultar e denegrir o torturado” (1998).

Também em situações de crise ou em circunstâncias extremas, como terremotos e incêndios, “as pessoas se encontram num nível básico onde a solidariedade está presente e nem sequer é preciso recomendá-la, ela aparece sozinha. Por que? Porque o amor nos pertence como característica biológica que constitui o humano”. (op. cit.).

Em relação ao desequilíbrio de nossas funções vitais, vale lembrar que “a maior parte das enfermidades humanas surgem na negação do amor. Adoecemos se não nos querem, se nos rejeitam, se nos negam ou nos criticam de uma maneira que nos parece injusta”, porque “a dinâmica fisiológica tem a ver com a dinâmica emocional”. Não é demais lembrar que grande parte do que se convencionou chamar as “doenças do século” tem por origem a disfunção vital de um sujeito que estranha e vivencia mal a solidão que ele próprio criou, e a angústia de um indivíduo que se amesquinha pelas opções unitárias quando de fato gostaria de ser múltiplo.

No conjunto dessas considerações fatuais é importante destacar uma referência feita por Maturana ao processo de construção do sujeito social. Para ele, a infância e a juventude são “períodos cruciais na história de toda pessoa”. “Na infância, a criança vive o mundo em que se funda sua possibilidade de converter-se num ser capaz de aceitar e respeitar o outro a partir da aceitação e do respeito de si mesma”. Na juventude experimentamos a validade desse mundo (experiência de respeito e aceitação) o que permite a constituição de um padrão de vida adulta social e individualmente responsável. A auto-estima proveniente da aceitação e respeito por si próprio, se desdobra num estilo de viver capaz de aceitar e respeitar o outro. É claro que o respeito por si e a auto-estima daí proveniente, emanam da convivência com os adultos – pais, familiares, professores. “Se dizemos que uma criança é de certa forma boa, má, inteligente ou boba, estabilizamos nossa relação com ela de acordo com o que dizemos”. Uma criança que vive a experiência da constante acusação, do erro, da suspeita e da depreciação por parte dos adultos, tem sua auto-referência minada pela negatividade, pelo descrédito de si. Como então olhar para si, aceitar-se, se ao que tudo indica, “algo está errado com ela?” “Se a criança não pode aceitar-se e respeitar-se, não pode aceitar e respeitar o outro”. Ela tenderá sempre a temer, invejar, depreciar e suspeitar do outro quando adulta. Ela estará mobilizada para querer sobretudo competir e tirar proveito em relação aos outros, ao invés de colaborar e partilhar.

É com base nesses argumentos que Maturana discutirá o que é educação, e, mais amplamente, o que são relações sociais. Para ele, nem todas as relações humanas são relações sociais. Há vários domínios das relações humanas, mas somente aquelas que fluem na aceitação mútua e “têm a ver com nossa história biológica”, com o amor, são relações sociais. As relações de trabalho que se fundam no “compromisso de cumprir uma tarefa”, assim como as relações hierárquicas de poder que se fundam na “negação mútua implícita e na exigência da obediência”, não são relações sociais. O social se dá na aceitação do outro e no amor. O social é da ordem da biologia, daí porque a “aceitação do outro não é um fenômeno cultural”. O cultural é mais propriamente uma segunda ordem que diz respeito às regras de delimitação ou restrição da aceitação do outro. Em outras palavras, o cultural seria o controle racional para gerir o social que é da ordem do biológico.

Segundo Maturana, “na espontaneidade de nossa biologia estamos basicamente abertos à aceitação do outro como legítimo outro na convivência. Essa disposição básica, é básica em nós, porque é o fundamento de nossa história hominídea”.

Render-se ou recusar a biologia do amor é, pois, definir-se diante de um processo civilizatório que requer outra concepção de social.

 

Boris Cyrulnik: a ambigüidade das emoções

 

A vida social só se torna possível no encontro entre os indivíduos. Não basta fazer parte de um grupo, conviver socialmente, está desempenhando atividades comuns e falar a mesma linguagem, para que haja encontro. “Pode-se perfeitamente esbarrar em alguém e pedir-lhe ‘desculpas’ sem o ver: isto seria um mero cruzamento”, lembra um dos pioneiros da etologia clínica humana, Boris Cyrulnik.

Assim como para Maturana a indiferença não mobiliza o sujeito, para Cyrulnik o encontro é produto de um estado emocional pré-verbal, interno ao sujeito. “Para que haja o encontro é preciso que o outro seja significante, que traga em seu corpo os indícios e os sinais que façam sentido para mim”.

Para desenvolver esse argumento central no livro “Os alimentos do afeto”, o etólogo tem por base de referência um extenso conjunto de informações de sua pesquisa com populações animais e em particular com os humanos.

Destaco aqui alguns dos campos temáticos e argumentativos de que trata o autor:

 

1. A dinâmica da vida animal é marcada por uma promessa genética, mas nunca por uma determinação. Nada está determinado no conjunto das informações genéticas. Essas informações predispõem, possibilitam, mas são realimentadas e redefinidas na convivência, no relacionamento e na aptidão (genética) para expressar o comportamento social de uma forma ou de outra. A natureza biológica é uma primeira ordem que se estrutura pela cultura, esta, uma segunda ordem. Se para Edgar Morin a espécie humana é “cem por cento natureza e cem por cento cultura”, também para Cyrulnik, a promessa genética e sua singularização humana é fruto de uma dinâmica não causalista. O que seria um nível instintivo se expressa de forma domesticada pelos comportamentos significantes.

Nos humanos a estruturação do campo emocional começa no útero, portanto antes do nascimento. A criança ‘ouve’ a mãe cantarolar, ‘sente’ o seu estado emocional. O feto reage ao campo sensorial vivido pela mãe: ruídos, choques, frio, tensão, carinho. Numa alusão a Soler, Cyrulnik lembra que “a palpação é um convite afetivo”. O que compõe esse aprendizado sensorial das emoções, “é sem dúvida uma ecologia físicaetc.) mas em especial a afetividade da mãe, sua maneira de reagir emocionalmente a uma situação ou a uma informação em função de sua história, de seu próprio desenvolvimento”. A mãe cria assim uma ecologia afetiva muito diferente conforme seja uma pessoa estressada, tranqüila, hiper-ativa ou depressiva. (ruído, frio,

A partir dessas duas ecologias – física e afetiva – se estrutura a vida psíquica do bebê e a base da vida psíquica do adulto. “O fenômeno mental nasce da incorporação da sensorialidade materna no recipiente de sonhos do feto”, mas amplia-se e reestrutura-se a partir do processo de separação entre mãe e filho. Diz o autor que “por volta do nono mês, é o feto quem toma a iniciativa de seus comportamentos. Age menos em resposta a sua mãe e já manifesta um começo de autonomia. Ainda espremido na cavidade materna inicia a separação”. Agita-se enquanto ela relaxa ou aproveita sua sesta para se mexer e acordá-la.

 

2. O campo emocional que estrutura o sujeito social supõe sempre um paradoxo: pertencer para não pertencer. A resolução parcial desse paradoxo requer viver pertencimentos de base para, posteriormente, desenraiza-se deles e reestruturar disposições emocionais singulares e relativamente autônomas, abertas e sadias. Tal dinâmica se expressaria pelos pertencimentos bem vividos e que, por isso mesmo, permitem a separação que gera novos patamares de refundação do sujeito. Há certamente uma aproximação entre essa idéia e a dialógica dependência-autonomia defendida por E. Morin, sobretudo em “O paradigma perdido”. Podemos dizer que somos tanto mais autônomos quanto mais dependentes. Por outro lado o pertencimento patológico origina-se, para Cyrulnik, da ausência de referências (ou auto-sócio referências) nos domínios anteriores a vida adulta. Podemos dizer que os pertencimentos patológicos são frutos da vivência incipiente ou fugaz dos pertencimentos primeiros na vida infantil. Segundo Cyrulnik, os malefícios desses pertencimentos não são raros. Uma criança que não tenha vivido a circunstância gregária de família, a referência de ter tido pais, é uma criança “a ser possuída”, aberta à experiências sociais que cumpram essa função gregária, porém de forma distorcida e não estruturante da individuação sadia. Sem história, essas crianças se tornarão “massa de manobra” de pertencimentos extremos e difusos, como na situação contemporânea de formação de bandos urbanos, guetos e grupos militantes de fundamentalismos de toda ordem – étnicos, religiosos, tecnológicos. Numa tal construção do sujeito emergem mundo-visões ortodoxas e excludentes. “Os mundos fechados de pertença, onde uma única maneira de ser humano é tolerada e exclui qualquer outra, constituem a doença de pertença mais freqüente” (op. cit, 84). Para os participantes desse mundo fechado, somente uma representação do mundo presta – a sua. As outras visões de mundo pertencem, para eles, aos fracos ou aos ardilosos.

Há que considera-se também sobretudo no mundo atual, a recusa do pertencimento. O mito ocidental de independência opõe-se aos mitos de pertença. Ora, argumenta Cyrulnik, “é preciso sentir-se em casa e bem consigo mesmo para experimentar o sentimento de ser alguém na cultura”. Somente nesse patamar emerge o sentido de partilha no convívio social. A não ser assim o mito da liberdade nos encerra no castelo sombrio da solidão mal vivida. Por vezes, “o preço de nossa liberdade é a angústia da solidão”. Tudo se passa como se escutássemos um grande coro a repetir de forma minimalista: “permaneçamos livres... e sós”.

“O paradoxo da condição humana é que a pessoa só pode se tornar ela mesma sob a influência dos outros. Um homem só não é um homem; uma criança sem cultura não é uma criança natural, porque seu cérebro não teve oportunidade de ser estimulado por um acontecimento cultural ou afetivo”. O problema clínico do medo de pertencer ou depender de um laço afetivo é menos um trauma psíquico individual e mais um sintoma social contemporâneo que pode por vezes expressar-se clinicamente pelo medo da dependência do terapeuta. Em síntese, pertencer é uma função da condição do sujeito. Trata-se portanto de funcionar direito ou não funcionar direito, já que há um amplo leque de possibilidades no campo do pertencimento. “Pode-se não pertencer; querer não pertencer; pertencer a um outro; pertencer a si próprio; pertencer demais, isto é pertencer mal”.

 

3. O encontro, condição estruturante do campo emocional dos indivíduos é sempre da ordem da ambigüidade. O fato de aproximar-se está carregado da possibilidade de afeto e agressão. Cyrulnik expressa assim essa ambigüidade: “dois animais estimulados ‘desejam’ se encontrar. Eles se precipitam um para o outro, mas, ao se aproximarem, não sabem se o outro quer brincar ou agredir. Essa proximidade emocional entre os dois comportamentos, vizinhos mas diferentes, desencadeia uma emoção na qual o prazer do encontro se avizinha do temor de ser agredido”. É necessário precisar a emoção para evitar mal entendidos, diz ele. Nos humanos, a conversa monta o cenário comportamental que permite subseqüente sincronização das emoções. A conversa cria um campo sensorial de troca de afetos e de produção de vínculos.

Por outro lado o ritual social é outra forma de metamorfosear, transformar e desambigüisar o campo indistinto das emoções na sua origem. O ritual estrutura a comunicação entre dois organismos, duas pessoas ou dois povos diferentes. É um intermediário sensorial que permite harmonizar os corpos, comunicar emoções e trocar idéias. Quando o ritual não consegue se implantar, emerge a violência.

Para tecer princípios e fundamentos que problematizem uma biologia social das emoções, certamente é necessário ampliar o elenco de informações e matizar o campo de transversalidade que a temática exige. Entretanto, as idéias aqui apresentadas, e que tem por referência fragmentos do pensamento de Edgar Morin, Humberto Maturana e Boris Cyrulnik podem se constituir num núcleo gerador de fecundos investimentos cognitivos. Um tal projeto tem por base e horizonte uma estética do pensamento comprometida com uma sociedade mais igualitária, mais digna e mais feliz porque desejante.

 

 

Bibliografia de Referência

 

ALMEIDA, Maria da Conceição de. Complexidade do amor. In: Comunicação Universitária. Belém: Imprensa Oficial do Estado do Pará, 2000.

CYRULNIK, B.. Fórmula química da felicidade. In: Para uma utopia realista – em torno de Edgar Morin. Lisboa: Instituto Piaget, 1998.

_____. Os alimentos do afeto. São Paulo: Ática, 1995.

KAMPER, Dietmar. O trabalho como vida. (org. Campelo, C. R.). São Paulo: Annablume, 1997.

MATURANA, H.. A ontologia da realidade (org. Magro, C.; Graciano, M.; Vaz, N.). Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1977.

_____. Emoções e linguagem na educação e na política. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1998.

MORIN, E.. Amor, poesia e sabedoria. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.

_____. Vidal e os seus. Lisboa: Instituto Piaget, 1994.

_____. Um ano sísifo - diário de um fim de século. Lisboa: Europa-América, 1998.

_____. Pleurer, aimer, rire, comprendre - 1 janvier 1995 - 31 janvier 1996. Paris: Arléa, 1996.

_____. O diário da Califórnia. Madrid: Editorial Fundamentos, 1973.

_____. O diário da China. mimeo. (inédito).

_____. Meus demônios. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997.

_____. Para sair do século XX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.


 


[1] A descrição dessa circunstância da vida do autor, em uma forma narrativa extremamente forte e bela encontra-se no livro “Vidal e os seus”, publicado pelo Instituto Piaget, de Portugal.

[2] Para problematizar a temática da proximidade e/ou afastamento entre as questões existenciais do sujeito e sua produção intelectual, escrevi em 1993 o artigo “Sexo e sexualidade em Michel Foucault” publicado na Revista Educação em Questão, v. 5, n. 1, Natal: editora da UFRN/Cortez editora. (O artigo aparece com meu antigo sobrenome: Moura).

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