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Quem inventou os Judeus?

Desde o início de seu texto, Sand faz as perguntas cruciais e provávelmente as mais relevantes. Quem são os Judeus? De onde vieram? Como é que em períodos históricos diferentes aparecem em lugares muito diferentes e remotos?

Embora a maioria dos Judeus contemporâneos esteja totalmente convencida de que seus antepassados são os Israelitas Bíblicos, que foram brutalmente exilados pelos Romanos, é preciso dizer a verdade. Os Judeus contemporâneos não têm nada a ver com os antigos Israelitas, que nunca foram enviados ao exílio, porque tal expulsão nunca ocorreu. O Exílio Romano é outro mito Judaico.

"Comecei a procurar estudos de investigação sobre o exílio", disse Sand numa entrevista concedida ao Haaretz [11], "mas descobri com surpresa que não existe nenhuma literatura a respeito. A razão é que ninguém exilou o povo deste país. Os Romanos não exilaram povos e não poderiam tê-lo feito, mesmo se tivessem desejado. Não tinham trens e caminhões para deportar populações inteiras. Este tipo de logística não existiu antes do século 20. Meu livro nasceu, efetivamente, de uma constatação: da certeza de que a sociedade Judaica não foi dispersa nem exilada".

Realmente, à luz da descoberta simples de Sand, a idéia do exílio Judeu chega a ser divertida. Pensar que a Armada Imperial Romana se dedicasse vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, a transportar com dificuldade Moishe'le e Yanka'le até Córdoba e Toledo sirva para que os Judeus se sintam importantes e transportáveis, porém o bom senso sugere que os Romanos tinham coisas mais importantes a fazer.

No entanto, muito mais interessante é o resultado lógico: se o povo de Israel não foi expulso, então os verdadeiros descendentes dos habitantes do reino de Judá devem ser os palestinos. "Nenhuma população permanece pura durante um período de milhares de anos", diz Sand [12]. "Porém a probabilidade de que os Palestinos sejam os descendentes do antigo povo Judaico é muito maior do que você ou eu sejamos seus descendentes.

Os primeiros Sionistas, até a Sublevação Árabe (1936 – 1939) sabiam que não tinha havido exílio e que os palestinos eram os descendentes dos habitantes do território. Sabiam que os camponeses não deixam suas terras a não ser que os expulsem. O próprio Yitzhak Ben-Zvi, segundo presidente do Estado de Israel, escreveu em 1929 que "a enorme maioria dos camponeses não descendem dos conquistadores Árabes, e sim dos que vieram antes, os agricultores Judeus, que eram numerosos e formavam uma maioria na construção do território".

Em seu livro, Sand vai ainda mais longe e sugere que até o Primeiro Levante Árabe (1929), os chamados líderes Sionistas de esquerda tendiam a acreditar que os camponeses palestinos, que são na realidade "Judeus de origem", se assimilariam no interior da emergente cultura Hebraica e eventualmente se uniriam ao movimento Sionista. Ben Borochov acreditava que "um falach (Camponês Palestino) se vestir-se como um Judeu e comportar-se como um Judeu da classe trabalhadora, não se diferenciará em nada dos Judeus".

Esta mesma idéia reapareceu no texto de Ben Gurion e Ben-Zvi em 1918. Ambos os líderes Sionistas se deram conta de que a cultura Palestina está impregnada de marcas bíblicas, tanto do ponto de vista lingüístico como geográfico (nomes de aldeias, povoados, rios e montanhas). Ben Gurion e Ben-Zvi, pelo menos no princípio, consideravam os palestinos nativos como parentes étnicos que permaneciam apegados à terra e eram irmãos potenciais. Também consideravam o Islã como uma amistosa "religião democrática". Claramente, depois de 1936, tanto Ben Gurion como Ben-Zvi diluíram seu entusiasmo "multicultural". No que diz respeito a Ben Gurion, a limpeza étnica dos palestinos lhe pareceu muito mais atraente.

Surge então a pergunta: se os palestinos são os autênticos Judeus, quem são esses que insistem em chamar-se a si mesmos Judeus?

A resposta de Sand é bastante simples, e cheia de lógica. "O povo não se disseminou, foi a religião Judaica a que se disseminou. O Judaísmo era uma religião de conversos. Contrariamente à opinião popular, o Judaísmo inicial adorava converter os demais." [13]

É evidente que as religiões monoteístas, ao serem menos tolerantes que as politeístas, têm em si um ímpeto de expansão. O expansionismo Judaico em seus primeiros dias não só era similar ao cristianismo, mas foi o expansionismo Judaico que plantou as sementes da "disseminação" no pensamento e na prática cristãs originais.

"Os Hasmoneus", diz Sand [14], "foram os primeiros a produzir grande número de Judeus através da conversão em massa, sob a influência do Helenismo. Foi esta tradição de conversões que preparou o terreno para a posterior disseminação em larga escala do Cristianismo. Após a vitória do Cristianismo no século 4, o movimento de conversão ao Judaísmo foi contido no mundo Cristão e houve uma grande diminuição no número de Judeus. É provável que muitos dos Judeus do entorno Mediterrâneo tenham se convertido em Cristãos. Mas então o Judaísmo começou a penetrar outras regiões pagãs, tais como o Iêmen e a África do Norte. Se o Judaísmo não houvesse continuado seu avanço naquele momento convertendo povos do mundo pagão, teria continuado a ser uma religião completamente marginal, no caso de haver sobrevivido."

Os Judeus da Espanha, que cremos estar relacionados por laços de sangue com os Israelitas Antigos, eram berberes convertidos. "Perguntei-me," diz Sand, "como foi que apareceram na Espanha comunidades Judaicas tão numerosas. Então vi que Tariq Ibn Ziyad, o Comandante Supremo dos muçulmanos que conquistaram a Espanha, era Berbere, e que a maior parte de seus soldados eram Berberes. O reino Berbere Judaico de Dahlia al-Kahima havia sido derrotado apenas 15 anos antes. E a verdade é que diversas fontes cristãs dizem que muitos dos conquistadores da Espanha eram Judeus conversos. A origem da grande comunidade Judaica da Espanha foram os soldados berberes que se converteram ao Judaísmo."

Como seria de esperar, Sand concorda com a hipótese amplamente aceita de que os Kazars Judaizados constituíram a principal origens das comunidades Judaicas da Europa do Leste, que ele denomina a Nação Iídiche. Quando lhe perguntaram como foi que chegaram a falar o Iídiche, que é considerado como um dialeto medieval alemão, ele respondeu: "Os Judeus eram um povo que dependia da burguesia alemã oriental, então adotaram palavras alemãs."

Em seu livro, Sand oferece uma descrição detalhada da saga Kazar na história Judaica. Explica o que foi que levou o reino Kazar à conversão. Lembrando que o nacionalismo Judeu é liderado principalmente por uma elite Kazar, talvez devamos expandir nosso conhecimento em detalhes deste grupo político tão único e influente. A tradução da obra de Sand para outras línguas é uma necessidade imediata (a tradução francesa está a ponto de aparecer, tal como diz Eric Rouleau em Are the Jews an invented people?)

E agora? O professor Sand nos deixa uma inevitável conclusão: os Judeus contemporâneos não têm uma origem comum e sua origem semita é um mito. De forma alguma os Judeus se originam na Palestina e, por tanto, seu denominado "retorno" à "terra prometida" deve ser considerado como uma invasão executada por um clã ideológico-tribal.

No entanto, embora os Judeus não constituam uma raça, por alguma razão eles têm uma orientação racial. Deve-se assinalar que muitos Judeus ainda consideram o casamento misto como a maior ameaça. Além disso, apesar da modernização e da laicidade, a grande maioria dos que se identificam como Judeus laicos continuam cedendo ao ritual de sangue, a circuncisão, um procedimento religioso único no qual um Mohel, o executor, chupa o sangue do circuncidado.

Sand defende que Israel deve se converter em "um Estado de seus cidadãos". Assim como ele, também compartilho a mesma visão utópica futurista. No entanto, diferente dele, considero que o Estado Judeu e os lobbies que o apóiam devem ser ideologicamente derrotados. Irmandade e reconciliação não fazem parte da visão do mundo tribal dos Judeus e não cabem no conceito de ressurgimento nacional Judeu.

Por mais terrível que soe, antes que os Israelenses possam adotar uma noção moderna e universal da vida civilizada, será necessário um processo de desjudaização. Não há dúvida de que Sand é um extraordinário intelectual, provavelmente o mais avançado pensador de esquerda Israelense.. Representa a forma mais elevada de pensamento que um Israelense laico pode alcançar antes de mudar de posição ou até desertar para o lado Palestino (o que ocorreu com poucos, incluindo a mim). Ofri Ilani, o entrevistador de Haaretz, disse que Sand, ao contrário de outros "novos historiadores" que têm tentado derrubar os princípios da historiografia Sionista, "não se contenta com retroceder a 1948 ou aos princípios do Sionismo, mas sim em retroceder milhares de anos".

Realmente, ao contrário dos "novos historiadores", que "revelam" uma verdade que qualquer criança Palestina conhece, ou seja, a verdade de que estão sendo objeto de uma limpeza étnica, Sand constrói uma obra de trabalho e pensamento que busca a compreensão do significado do nacionalismo Judeu e da identidade Judaica. Essa é a verdadeira essência da erudição. Mais que reunir fragmentos históricos esporádicos, Sand busca o significado da história. Mais do que um "novo historiador" que busca um novo fragmento, é um autêntico historiador motivado por uma tarefa humanista. Ao contrário de alguns dos historiadores Judeus que contribuem com o chamado discurso da esquerda, a credibilidade e o êxito de Sand se baseiam mais em seus argumentos do que em seus antecedentes familiares. Evita adornar seus argumentos com seus parentes que sobreviveram ao holocausto. Ao ler os ferozes argumentos de Sand, deve-se admitir que o Sionismo, com todos os seus defeitos, conseguiu erigir no interior de si mesmo um discurso orgulhoso e autônomo que é muito mais eloqüente e brutal que a totalidade do movimento anti-Sionista no mundo inteiro.

Se Sand estiver certo, e estou convencido de que está, os Judeus não são uma raça e sim um coletivo de muitos povos que foram arregimentados por um movimento nacionalista imaginário recente. Se os Judeus não são uma raça, não formam um grupo racial e não têm nada a ver com o Semitismo, o Anti-Semitismo é, categoricamente, um significante vazio. Claramente se refere a um significante que não existe. Em outras palavras, nossa crítica do nacionalismo Judeu, dos lobbies Judaicos e do poder Judeu só se podem conceber como uma crítica legítima da ideologia e da prática.

Repito novamente, não estamos e nunca estivemos contra os Judeus (o povo), nem contra o Judaísmo (a religião); estamos contra uma filosofia coletiva de claros interesses globais. Alguns podem preferir chamá-la Sionismo, mas prefiro não fazê-lo. O Sionismo é um significante por demais vago para compreender a complexidade do nacionalismo Judeu, sua brutalidade, sua ideologia e sua prática. O nacionalismo Judeu é um espírito e os espíritos não têm fronteiras bem delimitadas. Na verdade, nenhum de nós sabe exatamente onde termina o Judaísmo e onde começa o Sionismo, da mesma maneira que não sabemos onde terminam os interesses Israelenses e onde começam os interesses dos Neocons de Bush.

No que diz respeito à causa Palestina, a mensagem é devastadora. Nossos irmãos e irmãs Palestinos estão na vanguarda de uma luta contra uma filosofia devastadora. Mas está claro que não só os Israelenses, os quais enfrentam com valente pragmatismo, que iniciam conflitos globais em escala gigantesca. Trata-se de uma prática tribal que busca a influência nos corredores do poder e principalmente do superpoder. O American Jewish Committee insiste em uma guerra contra o Irã. Por precaução, David Abrahams, um "Amigo Trabalhista De Israel", doa dinheiro através de intermediários ao Partido Trabalhista. Enquanto isso, dois milhões de Iraquianos morrem em uma guerra ilegal planejada por alguém chamado Wolfowitz. Enquanto tudo isto ocorre, milhões de Palestinos passam fome em campos de concentração e Gaza está à beira de uma crise humanitária. Judeus "anti-Sionistas" e Judeus de esquerda (incluindo Chomsky) insistem em neutralizar as eloqüentes críticas contra o AIPAC, o Lobby Judeu e o poder Judeu mostrado por Mearcheimer e Walt [15].

Será apenas Israel? Será realmente o Sionismo? Ou devemos admitir que é algo muito maior do que podemos contemplar dentro das fronteiras intelectuais que impomos a nós mesmos? No momento, não temos a coragem intelectual para enfrentarmos o projeto nacional Judeu e seus muitos mensageiros em todo o mundo. No entanto, como tudo é questão de mudar consciências, haverá em breve uma mudança. Na verdade, este texto foi escrito para provar que já está mudando.

Defender os palestinos é salvar o mundo, mas para fazê-lo temos de ter suficiente coragem para admitir que não se trata meramente de uma batalha política. Não é apenas Israel, seu exército ou seus líderes; nem apenas Dershowitz, Foxman e suas organizações silenciadoras. Trata-se de uma guerra contra um espírito canceroso que seqüestrou o Ocidente e, ao menos no momento, o desviou de sua inclinação humanista e de suas aspirações Atenienses. Lutar contra um espírito é muito mais difícil que lutar contra povos, precisamente porque talvez seja necessário lutar primeiro contra suas marcas dentro de nós mesmos. Se quisermos lutar contra Jerusalém, primeiro teremos que confrontar a Jerusalém que levamos dentro. Pode ser que tenhamos que nos colocar diante do espelho e olhar ao redor. Pode ser que tenhamos que buscar a empatia em nosso interior, se é que ainda permanece alguma.