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Veja a Parte I

Quinta Abordagem: Luminosidade

Oitava Etapa do Nobre Caminho Óctuplo

Textos de apoio: O Sutra do Coração, Obras de Longchen Rabjam, de Sua Santidade o Dalai Lama e de Namkhai Norbu Rinpoche, O Caminho Zen de Bodidharma (por Red Pine).

Como nós vimos até agora, nas suas diferentes abordagens, os ensinamentos vão privilegiar diferentes aspectos da prática, seja a motivação ou a ação correta no mundo, seja a compaixão ou a meditação em silêncio. Já na quinta abordagem, o foco principal será a luminosidade e liberdade originais, o que a torna uma extensão da abordagem anterior, segundo a qual, a vacuidade culmina no reconhecimento da luminosidade. Ambas, vacuidade e luminosidade, estão presentes nas quatro afirmações do Sutra do Coração, que serão a base para desenvolvermos a compreensão sobre a natureza da realidade.

Na primeira afirmação do Sutra, se diz: “Forma é vazio”. Isso significa que tudo o que é percebido de forma separativa, é vazio. Sendo assim, a forma, as sensações, as formações mentais, as percepções, as experiências de identidade, todas são vazias. Tudo ao redor é vazio, todas as nossas experiências são vazias. Mas logo em seguida, vem a afirmação de que o “vazio é forma”, ou seja, as aparências separativas não se reduzem à vacuidade, elas são a expressão da vacuidade. Quando nós simplesmente reduzimos o objeto à vacuidade, é como se ele não tivesse substancialidade, mas agora nós o reconhecemos como a própria expressão da vacuidade. Nessa segunda afirmação, a vacuidade é apresentada como um princípio ativo, um princípio que produz as próprias experiências, e não como uma ausência. Esse princípio ativo vem da natural presença anterior à separatividade que se manifesta como a luminosidade e liberdade originais.

Para ilustrar esse aspecto tão interessante, existe uma expressão matemática dentro da Física Quântica, que é chamada de “divisão da unidade”. Essa expressão seria ao mesmo tempo matemática e filosófica, e talvez não exista nenhuma outra forma mais sofisticada e elegante de expressar essa verdade prática e operativa da inseparatividade mesmo em meio às aparentes limitações da separatividade.

Mas no Budismo, o que significa a “divisão da unidade”? A unidade é a presença anterior à separatividade. Num sentido prático, nós poderíamos compreender isso através das nossas relações. Quando nós olhamos para uma pessoa, nós a olhamos de uma determinada forma, geralmente através das nossas emoções perturbadoras, ou seja, orgulho, medo, inveja, desejo, raiva ou ignorância. Se, por exemplo, nós a olharmos a partir do nosso orgulho, ela passa a ser um objeto que vai expressar a cor desse orgulho. Ao mesmo tempo, nós vamos surgir inseparáveis dessa pessoa, porque nós surgimos como aquele que a contempla a partir do orgulho. Ainda assim nós não nos damos conta disso, simplesmente olhamos a pessoa e dizemos: “Ela é inferior a mim!”. Essa é uma visão equivocada, ingênua, na qual nós pensamos que a pessoa é que manifesta aquela característica. Nós não percebemos que a aparência do outro depende da forma como nós mesmos surgimos.

Isto é a “divisão da unidade”: nós surgimos de um certo jeito e a pessoa de outro. Se, por exemplo, ao invés de surgirmos pelo orgulho, nós surgíssemos através do medo, o nosso pensamento seria: “Aquela pessoa está me ameaçando.” Assim, mais uma vez, de uma experiência originalmente não separativa, surgimos nós e o outro - o outro com uma determinada aparência e nós, com medo. Da mesma forma, nós poderíamos surgir amorosamente em relação às pessoas. E surgindo por amor, nós diríamos: “Eu amo as pessoas!” Nós surgiríamos amorosos e as pessoas surgiriam como objetos do nosso amor. E para isso, não existe limite, pois se nós podemos olhar com orgulho, medo, amor ou inveja, é porque existe algo que permite isso, algo anterior, de onde surge a própria divisão. Se não fosse assim, como seria possível trocar de uma emoção para a outra?

Seria a mesma coisa fazer surgir pela imaginação uma esfera translúcida flutuando no espaço a frente. Ao fazermos isso, nós a vemos à frente, separada de nós. No entanto, é a mente contemplando a mente, ou seja, a mente como sujeito contempla a mente enquanto objeto. Essa é a evidência de que nós estamos usando um processo de criação. Nós não só podemos criar a esfera, como podemos transformá-la em um cubo. É a inseparatividade operando. Mas aqui, o ponto principal é percebermos que a troca de um objeto para outro só é possível porque existe algo anterior a cada um desses objetos. Isso não quer dizer que exista algo que possa ser visto antes mesmo dos surgimentos, mas que existe algo prático, operativo, real, a partir do quê, nós operamos e fazemos surgir todos os objetos, todas as experiências. E por que essa dimensão anterior não pode ser vista diretamente? Por uma razão muito simples: para ver é preciso dividir a mente, é preciso que haja um objeto e um observador. Nós vemos apenas aquilo para o quê nós nos tornamos um observador.

Mesmo sem vê-la, nós usufruímos dessa dimensão com tanta liberdade, e de tal forma, que nós somos capazes de criar mundos inteiros. Não há limite para a divisão, a unidade pode ser dividida de múltiplas diferentes formas. Ainda que seja possível um número incontável delas, outras sempre serão possíveis. Matematicamente isso poderia ser expresso da seguinte maneira: 0,9 + 0,1 = 1; 0,8 + 0,2 = 1, e assim infinitamente. Ou seja, nós podemos tomar essas e muitas outras combinações que somadas serão sempre iguais a um. E, tampouco, nós precisamos apenas dividir a unidade em dois, nós a podemos dividir em múltiplos, cuja soma de pares de elementos pode ser tão ilimitada quanto quisermos. Na Física Quântica a unidade é dividida escolhendo-se previamente quê propriedades serão vistas nos objetos, e dessa escolha, surgem as frações que vão compor a soma. A realidade vai estar dividida em muitos diferentes componentes, sendo que a soma desses componentes irá restituir a visão completa da unidade. Essa é a forma usual pela qual nós compreendemos as coisas. Na linguagem matemática, essas somas podem ser infinitas ou finitas, elas podem ser integrais ou somatórias. Mas, essencialmente, o significado é o mesmo, ou seja, quando nós pensamos em divisão da unidade nós estamos utilizando um processo, uma linguagem matemática da qual o observador faz parte, onde inevitavelmente o observador é introduzido. Esse é o grande diferencial.

A essa ação de divisão da unidade que produz o surgimento de objeto e observador, nós chamamos luminosidade. Na Física Quântica, uma vez que isso é compreendido, tem início um outro processo de análise lógica, de análise da linguagem. O que vai ser dito? Em primeiro lugar vai surgir a noção de uma transição não causal. E o que seria isso? Ao dividirmos a unidade de uma certa forma, como por exemplo, olhando uma pessoa através do medo ou do orgulho, não é possível dizer que o medo surja por olharmos através do orgulho. Esses mundos não se tocam. As divisões da unidade não têm conexões umas com as outras, são mundos que surgem. Esses mundos podem surgir e entrar em colapso, dando lugar a outros mundos, que por sua vez também vão entrar em colapso, porque são visões.

O surgimento de diferentes visões é possível porque a transição de uma visão para a outra é não causal. Isso quer dizer que as transições de visão não precisam se dar por um processo lógico. As transições acontecem simplesmente porque há liberdade. Por liberdade, nós dividimos a unidade de um jeito e depois de outro. E ainda que não exista uma lógica para o surgimento das várias visões, podemos usufruir de uma harmonia entre elas. Essa harmonia é a visão da complementaridade. A visão complementar permite o desenvolvimento harmônico das várias visões que brotam de diferentes formas de divisão da unidade e, portanto que não pertencem ao mesmo “mundo”. Para serem harmonizadas, uma vez que não é possível convertê-las umas nas outras, nós as chamamos de conjunto complementar, no reconhecimento de que as várias visões se complementam e enriquecem as opções de divisão da unidade e portanto de surgimento das experiências de realidade. Essa visão ultrapassa a lógica convencional cuja pretensão é reduzir todas as experiências a um único sistema causal e lógico, no qual é possível explicar todos os elementos como desdobramentos causais uns dos outros.

Segundo a perspectiva na qual o observador existe e exerce um papel no surgimento das várias visões, a lógica convencional se torna impossível. A causalidade completa surge da noção de um observador neutro que percebe o mundo como se ele tivesse uma coerência em si mesmo, como se ele fosse único, pré-existente, separado. Mas o mundo são as visões de mundo e as visões de mundo surgem com o observador. O mundo não é um mundo, é uma experiência de mundo que tem o próprio observador na sua gênese. Não há como evitar esse processo, pois sempre que existir algo, há alguém observando este algo. Dita em poucas palavras, esta seria a transição para uma abordagem cognitiva, inevitável, na qual o Budismo está incluído. A ciência, por sua vez, chega até este ponto, até essa explicitação, até essa linguagem elegante, digamos. Mas por outro lado, ela não consegue entender o observador e tampouco estuda esse tema. Para a ciência, surge aqui uma lacuna.

Ultrapassando a lógica convencional, nós entramos em uma região muito interessante, na qual nós vamos ter a experiência de não mais contradição entre os opostos. Nessa região, nós vamos usar um outro tipo de operação, e embora a operação seja outra, ela segue sendo lógica, uma vez que é possível identificar e organizar todo o processo. É possível entender, explicar, falar sobre as coisas. Essa é uma forma muito útil, principalmente no Ocidente, onde nós penetramos a virtualidade, desenvolvemos a habilidade de saltar de um universo para o outro, sem conseguir, porém, gerar uma linguagem unificadora. Sem essa linguagem nós nos confundimos e acabamos diante de questões como “Quem sou eu, quem é o objeto?”. E as perguntas filosóficas apenas nos confundem, porque não existe uma filosofia que esteja tratando razoavelmente bem desse tema, a não ser agora, modernamente, quando se fala de complexidade e complementaridade. Mas tanto uma como a outra, não chegam a ser conceitos de domínio público, elas não pertencem à nossa linguagem cotidiana, mas a uma visão, cuja linguagem está penetrando lentamente o cotidiano das pessoas. Somado a isso, existe o fato de que, mesmo na Física, ainda seguem as discussões sobre essa visão. Ela está em desenvolvimento na mente cotidiana das pessoas.

Com essa explicação nós compreendemos um pouco melhor o que seria a “divisão da unidade”. A experiência da unidade, especialmente para os meditantes, pode receber outros nomes, como, por exemplo, rigpa, a consciência que ultrapassa avídia, a separatividade. Avídia também é conhecida por marigpa e, por tanto, nesse contexto, rigpa ultrapassa marigpa. Outras linhagens vão dizer que a unidade é a prática da “presença”, a experiência antes da divisão. Essa é a prática de uma meditação específica, na qual dança-se em meio à luminosidade e liberdade enquanto potencial ou enquanto forma, não há diferença. Isso é completamente possível, porque se nós podemos olhar para as pessoas com orgulho, com inveja ou com medo, e podemos também olhar sem orgulho, sem inveja e sem medo, então, é possível a “presença” anterior à divisão. É possível dançar em meio a esse poder criativo, contemplar a unidade.

Embora essa seja uma prática muito importante, ela ainda não é a última, ela não é a experiência da liberação. E por quê? Porque aqui nós estamos apenas contemplando, trata-se de uma meditação específica, é a prática da luminosidade. Ela não é a experiência final porque nós estamos vendo a luminosidade, nós a estamos contemplando. A última prática é a experiência em que não há mais contemplação, nós não surgimos como um observador. Quando nós contemplamos um objeto ainda existe sabedoria, há um processo analítico. Mas na experiência da luminosidade e liberdade originais não há mais sabedoria, nós superamos o processo analítico, não precisamos mais contemplar os objetos e nem luminosidade e liberdade. Nós simplesmente usufruímos da experiência anterior a todos os surgimentos mesmo em meio aos surgimentos. Nós repousamos na experiência da luminosidade e liberdade.

Superada a experiência de divisão, nós vamos simplesmente contemplar a liberdade natural. Nós vamos da luminosidade até o ponto da confiança. Vamos então perceber que, quando a confiança está presente, não é mais necessário que estejamos vendo coisas. Nós não precisamos nos dividir, nós vamos agir de forma livre, sempre no reconhecimento da unidade, o que é expresso pela sabedoria Rigpa. A confiança que surge nessa etapa é a estabilidade na experiência da não divisão. Nós somos aquele que está antes da divisão e portanto antes mesmo de ser “alguém”. Com essa estabilidade, nós geramos a capacidade de não tremer frente às circunstâncias que surgem da experiência de divisão com seus ciclos de vida e morte. Ao olharmos essas circunstâncias, nós podemos eventualmente rir das nossas aflições, dos nossos medos, porque nós percebemos que nós criamos as estruturas da realidade. Elas surgem como um personagem que fica preso ali dentro e passa a manifestar todas as emoções perturbadoras, todos os sofrimentos. Ao perceber isso, nós podemos dizer: “Emaho! Desde que eu surgi, essa tem sido a minha vida! Isso é fantástico! Como é que eu pude me enrolar desse jeito por tanto tempo?”

Nesse ponto, os ensinamentos vão falar essencialmente da liberação, uma vez que não há outra forma de atingirmos a liberação a não ser saindo do processo de angústia construída pela divisão. E assim, nós ouvimos os ensinamentos, contemplamos as nossas experiências e vamos para a confiança, que é a parte final da realização. Por confiança, nós não nos afastamos dos processos de divisão, mas nós os vemos como um ornamento. Não há nada dentro dos processos de divisão que não seja apenas um ornamento. É normal que surjam os choros, as raivas, os ódios, os amores, as flutuações e as impermanências, porque ao dividirmos a unidade, surgem todas as nuances de realidade, de interações, de paisagens. Percebendo isso, nós podemos reconhecer a perfeição de todos os surgimentos.

Embora a palavra perfeição seja uma boa palavra, ela pode dar margem a algumas interpretações equivocadas. Dentro de uma perspectiva limitada, na qual a experiência de perfeição não está presente, pode surgir a noção de que “seja como for, tudo está perfeito”. Dessa forma, tem início uma prática de liberalidade na qual “vale tudo”. E sequer existe uma linguagem para dizer que não seja assim, porque nesse caso, ainda que a experiência não esteja correta, a linguagem está. Na verdade, neste caso, nós seguimos presos a uma experiência separativa, acreditando que as coisas, na sua separatividade, não têm rumo ou qualquer sentido, e assim sendo, tanto faz o que acontecer. O equívoco surge, justo porque não bastam as palavras. É preciso que a liberdade esteja presente. Na experiência de separatividade não há perfeição, as coisas são vistas como diferentes, elas são favoráveis ou desfavoráveis. Essa noção vai deixar de existir apenas com a liberdade. Caso contrário, existem coisas favoráveis e outras completamente perigosas, e a nossa experiência é de que isso deve ser cuidadosamente observado para não afundarmos em obstáculos. Ainda que samsara seja um sonho, na experiência da separatividade esse sonho tem o poder de nos prender. Portanto, é preciso muito cuidado. O Darma também é um sonho, mas ele vem como um sonho que nos produz à experiência de acordar. Logo, é muito importante seguirmos o Darma enquanto não tivermos a experiência de liberação.

Quando atingirmos a liberação, aí sim nós vamos poder dizer: “Oh, tudo é perfeito e sempre foi!”. Mas esta é uma percepção posterior. Quem está dentro do mundo convencional deve notar que existe a dualidade, que o caminho é dual e que nele, escolhas devem ser feitas. Dentro da dualidade está claro o que é favorável e o que não é. Quando nós estamos presos no mundo, nós somos uma identidade e enquanto essa identidade existir, o caminho será dual. Mesmo surgindo livres dentro do mundo a partir de uma identidade de sonho, ainda assim, o nosso movimento é dual. A experiência de solidez pode ser não dual, mas o nosso caminho não, nós saberemos perfeitamente o que nós devemos ou não fazer. O próprio Guru Rinpoche diz: “Ainda que a minha natureza seja semelhante ao céu, eu cuido do carma, das minhas ações, com um tal cuidado como quem observa partículas de farinha de trigo.” Ele diz isso, porque sabe que se por desatenção, ele surgir como um personagem cometendo ações não virtuosas, justo por isso, a mente fica presa. Por outro lado, nenhum ser que tem por base a Natureza Ilimitada e surge no mundo de forma convencional para beneficiar os outros, vai agir de forma não virtuosa. Eles não estão buscando auto-satisfação no sentido convencional, mas apenas produzir benefício aos seres.

Essa é a experiência do oitavo passo do Nobre Caminho, e sobre ela, nós vamos ouvir ensinamentos específicos de grandes mestres, entre eles S. Emª. Namkhai Norbu Rinpoche e Sua Santidade o Dalai Lama, que tem um livro maravilhoso sobre o Dzogchen, uma coletânea de ensinamentos dados em viagens pelos EUA e Europa. Ele comenta obras de Longchen Rabjam, que é o grande codificador dessa linhagem. Esse texto é maravilhoso, muito claro. Ele comenta, explica, torna claro os ensinamentos de diferentes mestres do Dzogchen a partir da perspectiva Mahayana. Nesse sentido, Sua Santidade o Dalai Lama se inclui entre os mestres que dão ensinamentos desde de o “Bom Coração” até a oitava etapa. Ele tem uma enorme facilidade em ultrapassar completamente os limites da visão. Em poucas palavras ele é capaz de ir do microcosmo ao macrocosmo, tamanho é o alcance da sua visão.

Por outro lado, observando a literatura, nós também vamos encontrar as diferentes abordagens criticando-se umas às outras, como, por exemplo, a quinta abordagem criticando as anteriores: “O uso de processos de análise e o apego à noção da vacuidade é um caminho que não leva a nada!”, “Praticar a compaixão não leva a lugar nenhum!”, “De nada vale a prática da moralidade enquanto não houver a compreensão do Ilimitado, porque ainda assim, nós seguiremos limitados!”, ou ainda: “E um bom coração do que adianta? Nós estamos cegos e no meio da cegueira, ainda que com um bom coração, nós vamos apenas andar em círculos. Dentro desse mundo fantasmagórico, nós estaremos praticando um bom coração fantasmagórico!”

Mas essas são apenas visões que brotam de classes específicas de ensinamentos. Nós não podemos tomar essas críticas como verdadeiras, elas são apenas formas de especificar o que está sendo feito em cada uma das etapas. Apenas para isso existem as críticas. Por outro lado, cada uma das etapas se defende perfeitamente bem. Por exemplo, Sua Santidade o Dalai Lama diz o seguinte a respeito do processo analítico: “Não é possível avançar no caminho apenas pelo processo intuitivo. Tudo deve ser lógico e perfeitamente justificado. As construções surgem através de um processo causal e a sua dissolução também tem uma causalidade clara. Tudo deve ser completamente respaldado pela experiência. Isso significa que se não houver a compreensão e a dissolução das experiências, nós não estaremos avançando no caminho.”

Já a terceira abordagem, diria: “Essencialmente é a prática da Compaixão o que importa, porque esta abordagem já pressupõe a presença da liberdade!”. E da mesma forma, a segunda : “De nada vale falar sobre coisas sofisticadas se não houver a prática da moralidade. Falar de forma sofisticada, mas não praticar moralidade, nos leva para o mesmo caminho daqueles que nada sabem. Porém, a nossa situação é mais grave, porque nós já ouvimos os ensinamentos e isso de nada adiantou.” E a primeira abordagem se justificaria, dizendo: “Por que falar sobre religião? A essência de tudo é um bom coração! Sem um bom coração não adianta falar de religião ou de qualquer filosofia. Por outro lado, se apenas praticarmos um bom coração nós chegaremos ao fim do caminho. Falar sobre coisas sofisticadas, mas não praticar um bom coração não leva a lugar algum! Isso é uma armadilha que simplesmente vai nos confundir ainda mais.” O Zen também possui suas divisões internas, e assim, o Soto Zen, que pertenceria à quarta abordagem, cujo foco é a vacuidade centrada na meditação em silêncio, sem ensinamentos ou análises, critica o Zen chinês: “É a experiência o que importa. De nada adiantam palavras se a experiência não estiver presente.” Enfim, mostro isto apenas para ilustrar que cada abordagem pode perfeitamente justificar seus ensinamentos e prioridades de prática. Isto em si mesmo é a perfeição dos ensinamentos do Buda e expressa também o fato de que não há ensinamentos mais elevados ou menos elevados mas estão todos dentro de uma roda, a roda do Darma do Buda onde todos representam pontos específicos e localizados em uma mandala de oito raios.

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