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Certos ditados populares contêm uma sabedoria verdadeiramente imortal, quando nos advertem  sobre as relações surpreendentes entre o que é ilusão e o que é realidade:

 

* “O essencial é invisível aos olhos.”

* “As aparências enganam.”

* “O hábito não faz o monge.”

* “Quem vê cara não vê coração.”

 

Apesar de todos os avisos e conselhos nesse sentido, é normal que nos deixemos levar pelas aparências. Afinal, como explica outro ditado popular, “o que os olhos não vêem, o coração não sente”. Necessitamos do apoio da visão externa. Somos todos modernos São Tomés exigindo ver para crer, e quando vemos algo, acreditamos naquilo, mesmo que a visão seja falsa e enganosa e nos leve a um beco sem saída.  

  Cecília Meireles escreveu:

 

Os teus ouvidos estão enganados.

E os teus olhos.

E as tuas mãos.

E a tua boca anda mentindo

Enganada pelos teus sentidos.

Faze silêncio no teu corpo.

E escuta-te.

Há uma verdade silenciosa dentro de ti.

A verdade sem palavras.

Que procuras inutilmente,

Há tanto tempo (...)[1]

 

Nossa dificuldade de distinguir mitos de verdades deve-se também ao fato de que, em certas ocasiões, simplesmente não queremos enxergar.

O ditado popular afirma que o pior cego é aquele que não quer ver, mas ignora o fato de que há um motivo forte para manter os olhos fechados. A aceitação da realidade pode derrubar e destruir as nossas ilusões mais agradáveis.

A verdade nos torna vulneráveis. Com ela, somos forçados a deixar de lado situações sobre as quais antes comodamente nos enganávamos – ou, pelo menos,  fingíamos que nos enganávamos. Assim, o cego mais astucioso é aquele que prefere não ver, e uma boa parte de nós está nesse caso. É como se pensássemos: “é melhor não saber de certas coisas”.  Todo conhecimento direto implica uma responsabilidade e um perigo, e às vezes fugimos do perigo buscando refúgio na segurança dos mitos e da ignorância.

Há ainda outro aspecto no processo de produção de brumas e ilusões. É mais fácil seguir as velhas trilhas do pensamento conhecido, das ações repetidas, dos pontos de vista estabelecidos.  Temos a tendência a ver a vida como algo imóvel, ou como algo cujo movimento é sempre o mesmo e não admite inovações. E queremos que seja assim. Apenas gostaríamos de trocar alguns poucos fatos isolados, para que nossos sonhos e ambições pessoais se tornassem realidade.

Quase tudo o que é rotina nos parece real. O que rompe a rotina nos parece irreal e inaceitável.  O caminho estreito e íngreme de que fala Jesus no Novo Testamento (Mateus, 7: 13-14) consiste em ir contra a correnteza e olhar os fatos colocando a verdade acima das outras considerações. Esse caminho precário nos força a pensar, e nele os tombos e os tropeços são inevitáveis. A roupa fica rasgada, a sola dos sapatos fura, o futuro é incerto, somos visitados pelo medo e pela incerteza –  mas nossa alma cresce, e nem as corporações multinacionais, com seu avanço tecnológico, puderam inventar até hoje algo mais importante que o crescimento da alma.

A caminhada em busca do conhecimento não se dá em um palco iluminado e sob o aplauso das pessoas mais queridas por nós. Ela é feita em um cenário complexo de luzes e sombras, sons e silêncios, orientações verdadeiras e falsas indicações. A espiritualidade não existe afastada da vida.  O que há no céu, há na terra.

Se há espertalhões que mentem no mundo externo, há espertalhões que geram mitos no universo da busca espiritual. Os indivíduos honestos são a maioria em ambas dimensões da vida, mas eles devem viver com os olhos abertos e com os ouvidos atentos, porque a vigilância é um preço a pagar pelo progresso em todos os aspectos da vida.    

O grau de honestidade de qualquer um de nós em relação aos outros é uma decorrência do nosso nível de honestidade com nós mesmos. Quem engana os outros engana a si mesmo. E quem engana a si mesmo, não tem motivos, nem meios ou instrumentos,  para ser sincero com os outros.

Por isso, um dos primeiros passos de toda caminhada espiritual é a decisão de ser honesto consigo mesmo. 

 A caminhada espiritual não é uma peça de teatro que se representa para os outros.  É uma obra de alquimia em que você troca o tempo potencial de sua vida por experiência acumulada e sabedoria. Você transmuta tempo e energia em saber. O tempo que lhe é dado viver, assim como a energia vital correspondente a cada uma das nossas faixas etárias, são recursos naturais. Mais do que isso. São recursos naturais não-renováveis. Para o alquimista espiritual, o tempo e a vitalidade são as grandes  matérias-primas do seu trabalho, e como tal não devem ser desperdiçados.  Para evitar o desperdício, há uma coisa que é indispensável: o discernimento. É ele que permite identificar o que é mito e o que é verdade, o que é  folclore e o que é fato, o que é jogo de cena e o que é a lei eterna, e assim nós evitamos jogar fora o tempo de vida que nos pertence.

O Desafio da Prática.

As questões do comportamento humano colocam diante de nós os desafios que necessitamos compreender e resolver. 

A prática é o critério da verdade, é ela, e não o discurso, que revela a diferença entre o tonto e o sábio.

Mas a prática é algo bem maior e mais complexo que os fatos físicos externos.  A prática é também a vida psicológica e emocional. Assim, para ver como anda o jogo de luz e sombra na alma de alguém que adota um comportamento espiritual – cada um de nós, por exemplo – é preciso examinar quanto há de autenticidade e de responsabilidade na decisão tomada, e qual é o peso de fatores como a moda, os costumes, a autoridade externa, a imitação de um exemplo, a acomodação, e o desejo de parecer original ou espiritualizado diante do mundo. E isso nos leva a algumas questões muito práticas e pontuais.

Pautas de Comportamento Externo.

Existem hoje certas pautas de comportamento externo que são típicas do folclore popular da nova era. Esses novos costumes e recomendações éticas incluem:

  • Uma alimentação natural, isto é, sem aditivos, corantes, flavorizantes, conservantes, e sem uso de defensivos agrícolas;
  • Uma alimentação integral, isto é, sem uso de grãos refinados, o que inclui açúcar mascavo, não o açúcar branco;
  • Uma alimentação vegetariana, isto é, que não inclui o sacrifício de animais que, especialmente no caso dos mamíferos, não são capazes de falar, mas têm sentimentos profundos e bem elaborados; a filosofia da alimentação vegetariana alega fortes motivos  éticos, econômicos e de saúde para  eliminar inclusive o sacrifício de peixe e aves e qualquer espécie animal;
  • A prática diária de exercícios físicos diários, moderados, como hatha ioga, tai chi chuan, ou mesmo artes marciais como judô ou ai-ki-dô;
  • A observação diária e gradual purificação dos pensamentos e sentimentos;
  • Variadas técnicas de meditação diária;
  • Exercícios de respiração;
  • O estudo livre e não-dogmático dos melhores textos de cada religião, sem que o estudante esteja preso a um dogma ou ritual.

Esses, entre vários outros itens, caracterizam um novo tipo humano, e também uma nova cultura emergente. Assim abre-se espaço para um cidadão e uma humanidade diferentes. O novo indivíduo escuta seu próprio coração. Ele já não coloca fama, poder e dinheiro acima de todas as coisas. Sua espiritualidade  já não fica presa a seitas, rótulos, crenças cegas ou conceitos inquestionáveis.

A Liturgia da Espiritualidade. 

Cada etapa da vida tem suas armadilhas e ilusões. E algumas são as mesmas, apenas de cara nova.  O velho hábito de pensar mecânica e superficialmente, que prefere rotular a pensar, não morre instantaneamente só porque passamos a abordar  temas divinos.

Astucioso e discreto, o hábito da preguiça mental nos acompanha fielmente, de modo quase imperceptível, como um cachorro envergonhado que segue o dono disfarçando para não ser visto porque sabe que deveria ter ficado em casa.

Por isso é preciso examinar e re-examinar constantemente uma questão:  os nossos bons hábitos diários, aquilo que poderíamos chamar de  liturgias da nossa espiritualidade, será que isso tudo é  resultado de decisões conscientes — ou de mera imitação?  Podemos ter certeza de que esse conjunto de hábitos é um resultado natural que surge espontaneamente da nossa compreensão ampliada da vida? Ou serão maneiras neuróticas, conflitivas, de ajustar-nos a um dogma sem vida, seja ele católico, evangélico ou “da nova era”?

O mito e o folclore rodeiam e encobrem a verdade. Há uma velha história zen que ilustra essa questão. 

Conta-se que um certo dia, séculos atrás, um mestre budista, já idoso, recolheu um gato abandonado da rua e passou a cuidar dele.  Quando meditava, em sua cela, o monge amarrava respeitosamente o animal no pé da mesa, para que não o atrapalhasse. Passaram-se vários anos, até que o monge morreu e o gato desapareceu do monastério.   O sucessor do velho mestre, zeloso seguidor das suas técnicas de meditação,  buscou então um gato para poder amarrá-lo ao pé da mesa durante as suas práticas espirituais. Com o tempo, a prática alastrou-se. Já todos amarravam gatos a pés de mesas para meditar melhor.  Surgiram profundas polêmicas metafísicas sobre qual devia ser a cor do cordão que amarrava o gato. Séculos depois, novas seitas passaram a alegar que o gato deveria ser dessa ou daquela raça, e que, caso contrário, a meditação seria apócrifa e ineficaz. Moral da história: o dogma e o mito transformam o meio em fim, a aparência em essência e as circunstâncias em fato central.

O mesmo pode ocorrer – e ocorre freqüentemente –  com as modernas  técnicas de  meditação e oração, o vegetarianismo, o respeito aos animais, e a atitude de valorizar pensamentos construtivos. Tudo pode ser visto com olhos supersticiosos e transformado em dogma, rotina e ritual.

Na verdade não há uma seqüência pré-concebida de passos a serem tomados no caminho do autoconhecimento. Não há sequer uma lista fixa de providências a tomar. O poeta espanhol Antônio Machado ensinou:  “Caminante, no hay camino – el camino se hace al andar”.

Não há um caminho único e igual para todos. Cada passo é sempre o primeiro passo, e define a substância dos passos seguintes.   A condição mais importante da caminhada é que os passos sejam dados com naturalidade, com integridade – e por decisão própria.

Posso, por exemplo, abandonar o hábito de ingerir bebidas alcoólicas. Mas será que estou fazendo isso porque compreendo que o álcool é uma muleta, uma forma equivocada e prejudicial à saúde de obter uma transcendência ilusória, uma falsa expansão da minha consciência? Ou me absterei devido à crença cega de que “um ser espiritual não deve beber”?  

Talvez eu queira abandonar o cigarro. Talvez eu decida meditar meia hora por dia, pela manhã cedo. Ou dedique meus fins de semana a leituras filosóficas. Mas serão gestos naturais, íntegros, ou conflitivos, artificiais? 

“Faze o que é correto, e com o tempo isso te será agradável”, ensinavam os pitagóricos. De fato, vale a pena fazer um esforço para melhorar nossos hábitos – mas o esforço deve ser autêntico, e atrás dele deve haver uma ampla e calma concepção espiritual da vida, dentro da qual um novo gesto e um novo hábito fazem sentido, porque ampliam radicalmente as nossas possibilidades diante da vida. 

Cinco Ilusões Freqüentes na Espiritualidade Atual

Uma dose razoável de realismo e uma certa experiência de vida nos mostrarão que estamos mais ou menos rodeados por todos lados de uma estranha mistura de verdade e ilusão. E essa mistura também ocorre dentro de nós.

De um certo ponto de vista, “a ilusão é uma tinta ou camuflagem cuja função é encobrir a verdade apenas de quem não está pronto para ela”[2].  

Há ilusões coletivas que pairam no ar e que podemos absorver inconscientemente. São falsidades culturais mais ou menos estabelecidas,  mas que é possível identificar, analisar e descartar. Vejamos cinco delas, como exemplos:

 

  1. “Há apenas paz e amor no caminho espiritual.” O zen-budista Shundo Aoyama escreveu que a velhice, a doença e a morte, assim como a felicidade, a infelicidade, o ganho e a perda, todos esses fatores são instrumentos importantes para construir o tecido da vida humana.
  2. “Temos a obrigação  de experimentar sempre sentimentos maravilhosos durante nossas meditações”. Na verdade, como ensinou Charlotte Joko Beck, “a meditação não é ocasião para bem-aventurança e relaxamento, mas um forno para queimar nossas ilusões egoístas”.  Quando sentamos, imóveis, para buscar a verdade interior, podemos ser assaltados por dúvidas, ansiedades e outras movimentações da ignorância. Dessa tensão surgem um atrito e um fogo que queimam as ilusões do nosso eu pessoal,  tornando-o digno de contemplar a verdade.
  3. “A caminhada espiritual é apenas pessoal e subjetiva, nada tendo a ver com os outros ou com o mundo externo”.  O monge zen Thich Nhat Hanh considera que “os instrutores espirituais que não dão atenção aos problemas do mundo, como fome, guerra, opressão e injustiça social, não compreenderam bem o significado do budismo. “Naturalmente”, diz ele, “devemos praticar a atenção na respiração, a meditação e o estudo das escrituras, mas qual é o sentido de fazer essas coisas? É estar atento  ao que ocorre dentro de nós e no mundo. Uma vez que vejamos isso claramente, não nos recusaremos a tomar posição ou a agir (...). Se não pudermos ver o que está ocorrendo ao nosso redor, como poderemos enxergar nossa própria natureza? Há uma relação entre a natureza do eu e a natureza do sofrimento, da injustiça e da guerra.”
  4. ”Nossos pensamentos e emoções são separados do nosso corpo físico”. Há uma grande quantidade de ilusões, desajustes emocionais e fracassos espirituais que resulta da visão do caminho espiritual como algo que nega o corpo físico, ao invés de conhecê-lo e usá-lo adequadamente. A alimentação, a respiração, a circulação do sangue, o trabalho do rim e do fígado, os relaxamentos e as tensões musculares são retratos dinâmicos que expressam, no mundo físico, o que vai pela nossa alma. Por sua vez, as posturas e os processos corporais têm forte influência sobre nossas atividades mentais e emocionais.
  5. “O caminho espiritual é feito de fé e de crença”.  Grave engano. A crença em algo que não podemos verificar por nós mesmos reduz a nossa capacidade de perceber a realidade e fecha nossa mente para o que é novo. Os caminhos que levam à paz interior são feitos de perguntas e de tentativas. A convicção é um péssimo critério para julgar a verdade. Os autoritarismos, religiosos ou não, plantam falsas certezas e exigem “fé” e “confiança” de seus seguidores. Os sistemas corretos de liderança, baseados na democracia e na comunhão fraterna, fazem da transparência e da vigilância coletiva a sua característica central.  A verdadeira fé e a verdadeira confiança surgem de dentro para fora. Elas não são resultado de propaganda ou de pregação, e não têm medo do exame crítico, mas, ao contrário,  testam sua força enfrentando de boa vontade os desafios da vida.

Há muitos outros exemplos de ilusão, é claro – tanto dentro como fora de cada um de nós.  Os caminhos que levam à paz interior são, na prática, maneiras pelas quais cada um de nós decide aceitar a destruição dos seus mitos e ilusões particulares e adequar sua vida prática à lei da verdade.[3]

O Mito do Pacifismo Ingênuo.

Em nosso exame dos mitos  e ilusões “espirituais” da primeira década do século 21, merece um relativo destaque o mito pacifista segundo o qual todo conflito é inútil, e a única atitude recomendável é a ausência de combate, e até a ausência de esforço, por parte do pacifista e do aprendiz espiritual. 

A obra Três Caminhos Para a Paz Interior descreve essa atitude como uma negação infantil do conflito: “O pacifista ingênuo  faz de conta que todo conflito é inútil ou ilusório, e com isso evita tomar uma posição clara. Nega seus próprios sentimentos de rancor, que passam a fazer parte da sua ‘sombra’ inconsciente. Pensa, por exemplo, que ‘nazismo e democracia são a mesma coisa’, e que a injustiça social ou a corrupção na política não devem ser combatidas ‘porque, afinal, fazem parte do mundo externo ilusório’. Prefere não perceber que há no mundo externo um doloroso conflito entre  verdade e ilusão, sinceridade e mentira; que esse conflito externo é influenciado e também influencia o que ocorre na alma humana, pois é, na verdade, parte dela.”.[4]

Fechando os olhos para a realidade externa, o pacifista superficial desiste de usar o discernimento. Pensa que o caminho espiritual consiste em nunca dizer uma palavra áspera e manter sempre um sorriso nos lábios. Repetindo os escribas e fariseus criticados por Jesus – que eram sepulcros caiados, limpos por fora mas cheios de rapina por dentro, segundo Mateus, 23 – o pacifista superficial trata de imitar da melhor maneira possível o suposto comportamento externo e o olhar sublime dos santos, tal como aparecem nos retratos das igrejas. Esse enfoque evita comodamente proteger a verdade contra a mentira ou a justiça contra a opressão, alegando que “a iluminação espiritual transcende as ilusões dualistas”.

Os Mitos da Religião Autoritária.

As religiões dogmáticas se alimentam da credulidade humana, e se apóiam em mitos que lhes dão aparência de legitimidade. O ensaio de Sigmund Freud intitulado O Futuro de Uma Ilusão descreve os mitos religiosos dos últimos séculos como algo que não foi inteiramente inocente, da parte dos nossos líderes espirituais, mas sim desenhado para dominar multidões através do dogma.

É bom que se diga que Jesus e Buda, entre outros grandes instrutores, foram hereges em seu tempo e jamais fundaram religiões baseadas em crença cega. Mas a lógica do poder engole e destrói com facilidade a sabedoria divina e, normalmente, depois de um grande instrutor, vem uma grande religião, com seus numerosos mecanismos institucionais e burocráticos. E a tradição engendra a traição. 

Falando dos tempos já passados em que a religião da credulidade dominava absoluta, Freud, o polêmico criador da psicanálise, avalia:

“É duvidoso que os homens tenham sido em geral mais felizes na época em que as doutrinas religiosas dispunham de uma influência irrestrita; mais morais, certamente não foram. Sempre souberam como externalizar [como tornar algo exterior, situado fora do ser humano] os preceitos da religião e anular assim suas intenções. Os sacerdotes, cujo dever era assegurar a obediência à religião, foram ao seu encontro nesse aspecto. A bondade de Deus põe uma mão refreadora à sua justiça. Alguém peca; faz depois um sacrifício ou se penitencia e fica livre para pecar de novo. (...) Assim, concluíram: só Deus é forte e bom; o homem é fraco e pecador. Em todas as épocas, a imoralidade encontrou na religião um apoio não menor que a moralidade.”[5]

As religiões patriarcais –  que cultuam um deus-pai ameaçador e justificam a morte e a violência – constituem para Freud uma neurose coletiva, uma psicopatologia:

 

“Assim, a religião seria a neurose obsessiva universal da humanidade; tal como a neurose obsessiva das crianças, ela surgiu do complexo de Édipo, do relacionamento com o pai. (...)”[6]

 

Ao reduzir a ilusões neuróticas as poderosas religiões monoteístas autoritárias da primeira metade do século 20, Freud não encarava o termo religião no seu sentido original e etimológico, que vem do latim religare e significa a religação do mundo humano, ou do indivíduo, com o mundo divino.  A nova religiosidade, que surge hoje livre das ilusões institucionalizadas, é um processo que se constrói com base, por um lado,  no bom senso e, por outro lado, na experiência direta de cada um, e não na crença cega. O fato de que o cidadão do século 21  busca a sabedoria em uma caminhada coletiva e solidária e em comunhão com outros seres não autoriza, nem de longe, a construção de dogmas. A comunhão visa apenas a troca de experiências úteis, e também a ajuda mútua –  duas coisas, aliás,  que são moralmente belas e, no fundo,  indispensáveis, em qualquer etapa e qualquer aspecto da vida.

Desse modo, a nova religiosidade do século 21 pode abandonar esse nome e ser chamada de ciência. Ou de psicologia. Ou simplesmente de filosofia da espiritualidade não-dogmática,  porque ela não está presa a nomes ou rótulos mas é uma realidade viva, dinâmica, cambiante, que pode ser denominada de muitas formas diferentes.

A Pedagogia de Paulo Freire.

A espiritualidade não-dogmática não aceita crenças ou recomendações cegas, mas é, ao invés disso, um processo vivo de aprender e de ensinar.   

Mesmo sem usar em momento algum o rótulo de espiritual ou de religioso, o pensador brasileiro Paulo Freire propõe em suas obras sobre pedagogia uma atitude mais eficaz diante do aprender e do ensinar. Sua abordagem é de grande utilidade para a arte de viver corretamente:

“Outro saber necessário à prática educativa, e que se funda na mesma raiz que acabo de discutir – a da inconclusão do ser humano que se sabe inconcluso –  é o que fala do respeito devido à autonomia do ser do educando.  Do educando criança, jovem ou adulto. Como educador, devo estar  constantemente advertido com relação a esse respeito, que implica igualmente o respeito que devo ter por mim mesmo. Não faz mal repetir afirmação várias vezes feita nesse texto – o inacabamento de que nos tornamos conscientes nos faz seres éticos. O respeito à autonomia e à dignidade de cada um é um imperativo ético e não um favor que podemos ou não conceder uns aos outros. (...) O professor que desrespeita a curiosidade do aluno, o seu gosto estético, a sua inquietude (...) o professor que ironiza o aluno, que o minimiza, que manda que ‘ele se ponha no seu lugar’ ao mais tênue sinal de sua rebeldia legítima, tanto quanto o professor que se exime do cumprimento do seu dever de propor limites à liberdade do aluno,  que se furta ao dever de ensinar, de estar respeitosamente presente à experiência formadora do educando, esse professor transgride os princípios fundamentalmente éticos de nossa existência.” [7]

O pensamento de Paulo Freire permite examinar melhor os mitos e as ilusões da chamada espiritualidade contemporânea. 

Pensamos, freqüentemente, que a espiritualidade é algo que se transmite de quem sabe para quem não sabe. Desse ponto de vista, quem sabe deve ser ativo no processo, e quem não sabe deve ser apenas passivo e receber a ação, obedecendo cegamente. Essa premissa é falsa, e quando ela é  aceita, toda a caminhada é feita sobre bases ilusórias.

Desde o início, aquele que sabe mais deve se colocar como um mero auxiliar daquele que sabe menos, porque aquele  que sabe menos é, na verdade,  o centro e o autor do processo de aprendizagem, e não pode, ou não deve,  ser artificialmente colocado na sua periferia.

O Papel do Bom Senso na Caminhada.

Alguém já disse que o nosso estado de vigília e, na verdade, feito de sonhos. E que, mesmo quando pensamos  estar acordados, na verdade nos relacionamos com as imagens que temos das coisas, como em um sonho, e temos poucos momento de lucidez total, em que vemos as coisas como elas são.

O ser humano dorme, do ponto de vista da espiritualidade mais elevada. Ele ainda não despertou para um modo mais exato de ver o mundo. Nossa visão do mundo é feita de sonhos ou  mitos que nós mesmos criamos, ou que nós aceitamos como se fossem realidade, porque nos foram apresentados como tal.  Nós os chamamos de “realidade”, mas para outra pessoa aquilo que para mim é real pode ser apenas imaginação ou fantasia.

Como avançar pelo caminho da verdade? Não há receita de bolo ou fórmula mágica. Para  trilhar o caminho do autoconhecimento, é necessário bom senso. É preciso que eu seja meu próprio mestre, e que seja ao mesmo tempo o aluno da minha consciência, isto é, um discípulo leal da “voz da razão” em meu interior. É ouvindo essa voz que me libertarei das armadilhas da ignorância e dos mitos que a sustentam, quer eles tenham sido criados por mim mesmo ou por outrem.

Em relação à presença da voz da razão na consciência individual de cada ser, Freud escreveu: 

“A voz do intelecto é suave, mas não descansa enquanto não consegue uma audiência. Finalmente, após uma incontável sucessão de derrotas, obtém êxito. Esse é um dos poucos pontos  sobre os quais se pode ser otimista a respeito do futuro da humanidade, e, em si mesmo, é de não pequena importância.”[8]

 Aquele que cria as ilusões deve eliminá-las, e esse é cada um de nós. O momento em que vamos considerar necessário melhorar nossa dieta, praticar exercícios ou ler e meditar diariamente sobre assuntos espirituais –  se é que vamos fazer isso algum dia –  só pode ocorrer como algo natural. Não deve ser resultado de imitação, de obediência ou de sujeição a uma autoridade externa.

Porque, se não descobrirmos a sabedoria dentro de nós, de nada adiantará buscar fora.

Mas quando descobrirmos a paz dentro de nós mesmos, qual a necessidade de procurá-la ansiosamente no mundo externo?  Então poderemos doar da nossa paz ao mundo sem que ela perca a sua força dentro de nós, assim como uma chama pode acender outra chama sem perder nada da sua luminosidade.

 

O o o O o o O o o O


[1] Poema número IX em Cânticos, de Cecília Meireles, Editora Moderna Ltda., SP, 1983.

[2] Três Caminhos Para a Paz Interior, Carlos Cardoso Aveline, Ed. Teosófica, Brasília, 2002, 191 pp. Veja o final da p. 132.

 [3]  Sobre as cinco ilusões citadas, veja o livro Três Caminhos Para a Paz Interior, Carlos Cardoso Aveline, Ed. Teosófica, Brasília, 2002, 191 pp., ver pp. 135-138.

[4]  Três Caminhos Para a Paz Interior, obra citada, pp. 34-35.

[5] O Futuro de Uma Ilusão, Sigmund Freud, Ed. Imago, RJ, 1997, 87 pp., ver p. 60.

[6] O Futuro de Uma Ilusão, obra citada, p. 69.

[7] Pedagogia da Autonomia, Paulo Freire, Ed. Paz e Terra, ver pp. 65-66.Outro trecho importante dessa obra está à p. 59 (“Ensinar exige o reconhecimento  de ser condicionado”). Todo o capítulo um, “Não Há Docência Sem Discência”, propõe uma relação entre educador e aluno – “mestre” e “discípulo” – em que o clima deixa de ser propício para as ilusões, mas, em compensação, dá lugar a um realismo prático e a uma capacidade de duvidar respeitosamente que aumentam muito a eficácia da busca da verdade. Um simples exame do Índice dessa obra mostrará como encontrar enfoques fundamentais sobre o papel da esperança, da alegria, da generosidade, da curiosidade, da liberdade, da autoridade e do saber escutar, no processo de aprendizagem.

[8] O Futuro de Uma Ilusão, obra citada, p. 83.

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