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Espinosa bem sabia que nem todo mundo pode fazer filosofia. (...) Fazer filosofia tem uma causa; não fazer, também. Uma das causas da não-filosofia é que a regra, em uma sociedade, é antes a superstição, a servidão e a obediência, em vez do conhecimento, da liberdade e da compreensão
(André Scala)


Conhecimento do Conhecimento (parte 2)
Conhecimento do Conhecimento (parte 3)
Conhecimento do Conhecimento (parte 4)

Introdução

O propósito deste ensaio é mostrar que vários dos insights que hoje fazem parte de teorias importantes da atualidade já se encontravam, no século 17, no pensamento de Espinosa.

O pensamento complexo, em especial o concebido por Edgar Morin, é uma dessas teorias. No entanto, desde já ressalvo que não pretendo de modo algum reduzir Espinosa ao pensamento complexo nem o contrário. Busco apenas pontos comuns, os quais, como se verá ao longo do texto, existem e têm importância, pois Espinosa influenciou — em alguns casos profundamente — muitos dos que viriam depois dele. Não poderia deixar de ser assim, aliás, se considerarmos a ousadia, a postura em muitos aspectos radical e o rigor conceitual com que ele desenvolveu suas idéias. Por tudo isso, é quase certo que quem tem interesse pelo pensamento complexo cedo ou tarde acabe por se interessar também por Espinosa.       

História

A partir de 1492, ano da descoberta da América, os judeus que viviam na Espanha viram-se no seguinte dilema: converter-se ao cristianismo ou ser expulsos do país, não sem antes de ter seus bens confiscados. Diante dessas circunstâncias, a família Espinosa emigrou para Portugal, sua terra de origem, imaginando que assim resolveria o problema. Mas sua tranqüilidade não durou muito: poucos anos depois, viu-se na mesma situação.

Por isso, os Espinosas decidem emigrar de novo. Vão primeiro para Nantes, na França, e depois para Amsterdã, onde nasce Baruch, em 21 de novembro de 1623. Essa época ficou conhecida como o Século de Ouro da Holanda. Entre outras figuras ilustres, lá nasceram o pintor Rembrandt, em 1606 e, um mês antes de Espinosa, Johannes Vermeer, também pintor, e Anton van Leeuwenhoek, o inventor do microscópio.

Baruch de Espinosa é, com toda a justiça, considerado um dos grandes da história da filosofia — “o filósofo dos filósofos” ou, como disse Bertrand Russell, “o mais nobre e o mais amável dos grandes filósofos”. Ainda assim, suas idéias foram amplamente rejeitadas em sua época. Mesmo antes de escrever suas obras principais, ele foi excomungado pela comunidade judaica de Amsterdã em julho de 1656. Tinha então 24 anos de idade. Seus livros, quase todos publicados postumamente, foram proibidos e postos no Índex do Vaticano. O filósofo morreu em 1677, aos 44 anos.

 Importa lembrar que outros e igualmente ilustres contemporâneos de Espinosa também tiveram seu pensamento execrado e suas obras proibidas. Foi o caso de Galileu, Descartes e Hobbes. Mais de três séculos depois, quase nada mudou nesse aspecto: Edgar Morin, francês, também de origem judaica e com ascendentes latinos, foi recentemente processado por membros da comunidade israelita francesa, sob a acusação (absurda, aliás) de ter publicado no jornal parisiense Le Monde um artigo supostamente antijudaico e incitador do terrorismo.

 Morin foi absolvido, é claro. Como o foi também Espinosa, este não pela justiça formal, mas pelo julgamento da história, que o consagrou como um admirável pensador. No século 19, por exemplo, Hegel já afirmava que a filosofia moderna começa com ele: “Ser um seguidor de Espinosa é o começo de toda filosofia”. Na mesma época, Goethe desempenhou um papel importante no processo de difusão do pensamento espinosano.

Filosofia

Entre os que influenciaram a filosofia de Espinosa, é importante destacar Aristóteles, os estóicos, Descartes e Giordano Bruno, este último cosmólogo e poeta além de filósofo. E também vítima da ortodoxia: em 1600, foi queimado numa das fogueiras da Santa Inquisição. Eis algumas de suas idéias: a) a realidade é una; b) Deus e a realidade são uma coisa só; c) a mente e a realidade também são unas; d) o propósito da filosofia é perceber a unidade que existe na diversidade e buscar a síntese dos opostos.1

Espinosa é um filósofo racional e revolucionário. Seu pensamento é imanentista. A seu ver, é possível compreender a totalidade do real por meio da razão. Para ele, a compreensão do todo não é um simples exercício intelectual: é um exercício de liberdade. Seu ponto de partida é ousado: se Deus é onipresente, não há como imaginá-lo fora do mundo. O divino faz parte de tudo o que existe  no mundo natural. Não é, pois, transcendente, mas sim imanente. Na verdade, Ele é a própria Natureza, o conjunto de todos os seres, vivos ou não, o que evidentemente inclui os humanos, suas mentes e seus corpos. Daí a conhecida expressão espinosana: Deus sive Natura (Deus, isto é, a Natureza).

Trata-se, assim, de um pensamento monista e naturalista. Deus — ou a Natureza — é uma substância única que tem atributos (qualidades essenciais, infinitas, que constituem o seu ser) dos quais nós, humanos, conhecemos dois: a extensão (que é a essência da concretude, da materialidade) e o pensamento (que é a essência da compreensibilidade, da inteligibilidade). Os atributos se manifestam por dois modos ou maneiras finitas de expressão. Em termos de ser humano, o atributo extensão se expressa por meio do corpo. Dizemos então que nosso corpo é um modo finito do atributo extensão da substância única (ou Deus, ou a Natureza). Já nossa mente (alma) é um modo finito do atributo pensamento dessa mesma substância.

Para tornar mais claro o conceito de modos, alguns comentadores costumam  compará-los à espuma que coroa as ondas quando o mar está agitado. A espuma é efêmera, finita: quando as águas se acalmam ela desaparece, porque volta a fazer parte do todo perene que é massa oceânica. A substância única e seus atributos compõem o que Espinosa chama de Natureza naturante. Os modos — finitos e temporais —  constituem a Natureza naturada. Se examinarmos o conjunto da obra espinosana, veremos que a identidade Deus/Natureza/substância única é particularmente nítida na Ética. 

Dessa maneira, estão dadas as condições para que o homem alcance a liberdade por meio do conhecimento. Não é necessária a existência de uma divindade transcendente como a dos monoteísmos dualistas, para os quais Deus está fora do mundo que criou. A expressão Deus sive Natura inclui a idéia de que Deus é a causa de si mesmo, a causa imanente de tudo o que existe. Na filosofia espinosana, Deus é a causa imanente eficiente, isto é, a causa que produz seus efeitos mas não se separa deles. Os efeitos fazem parte das causas e vice-versa. As causas se manifestam em seus efeitos e estes se manifestam nelas.

A ação de Deus é uma manifestação necessária de sua essência, sustenta o filósofo. Desse modo, Ele é um ser que se causa a si mesmo, que se autoproduz. Se o efeito não é separado da causa, não cabe a questão de quem criou o que. Aqui está, seguramente, o que três séculos depois viria a ser chamado de autoprodução.

Se o homem é um modo de expressão divina e se Deus é a Natureza, estamos diante de uma filosofia que nega a existência de um Deus moral, criador e transcendente. Em conseqüência, tudo o que existe no mundo natural pode ser compreendido pela razão humana. Nada é misterioso, hermético ou oculto. Nada é tão incompreensível que precise ser revelado. Tudo aquilo que é escondido, reservado e envolto em enigmas e obscuridades, acaba servindo como um instrumento por meio do qual quem tem acesso a esses saberes pode exercer poder sobre quem não o tem. Cria-se assim uma casta de privilegiados, iniciados ou “iluminados”, a quem cabe intermediar o contato entre o homem comum e os poderes transcendentes.

Os modos de expressão divina estão presentes no mundo natural. Eles se causam mutuamente. Como diz Deleuze2, a substância única se explica em seus atributos e estes a explicam. Dessa maneira, a relação entre as causas e os efeitos é circular e não linear, e por isso o poder não está concentrado ou centralizado: é difuso. Quanto mais intensas as interações e os entendimentos entre as pessoas — e destas com o mundo natural —, mais livres elas se tornarão de poderes supostamente superiores, transcendentes, e de verdades a elas externas, muitas das quais incompreensíveis para os homens ditos “comuns”, aqueles sobre os quais se exerce o poder e dos quais se exige obediência.

A “heresia” espinosana consistiu em afirmar que os humanos podem, por meio da razão, conhecer a realidade em seu todo. Com isso, podem alcançar a liberdade e construir um mundo melhor, livre de deuses autoritários e legiferantes. Desse modo, é possível inferir que quanto mais intensos forem os entendimentos entre as pessoas, mais independentes as comunidades humanas se tornarão de diretivas vindas “de cima” ou “de fora”. Em termos de cultura organizacional (o modo como as coisas são feitas nos grupos, organizações e instituições), pode-se dizer que quanto maior a horizontalidade (os entendimentos entre as pessoas sobre as quais são exercidos o poder e a autoridade) menor a verticalidade (o poder autoritário, exercido de cima para baixo).

 Ao questionar os autoritarismos, Espinosa pôs em xeque várias das condições a eles costumeiramente associadas: regulamentos rígidos, rótulos, posturas dogmáticas, questões fechadas, intolerância, formalismos, ortodoxias. Acrescento que todo autoritarismo se nutre do raciocínio binário — a lógica do “ou/ou”, que é vista pela chamada “sabedoria convencional” como a única maneira aceitável de pensar e determinar posturas e ações.

 Espinosa questiona os monoteísmos dualistas, claramente baseados na lógica binária e dificilmente viáveis sem ela, e, por extensão, seus excessos, entre os quais os fanatismos que se baseiam nessa mesma lógica. Pode-se dizer que se o Deus da teologia e da metafísica tradicionais está fora do mundo, essa condição precisa da lógica binária para ser compreendida: ou Deus ou o mundo. Trata-se de pólos mutuamente excludentes. Para Espinosa, porém, essa dualidade não existe. Por isso, sua idéia de Deus não pode ser entendida com facilidade pelo pensamento linear, segundo o qual a questão não é como se crê, mas crer ou não crer.

Ao contestar a crença num Deus controlador e transcendente, o filósofo descarta também o tradicional sistema de punições e recompensas a ela associado. Com tais negações, ficam abaladas as bases da moral tradicional. De acordo com Espinosa, a filosofia é o saber natural e racional dos homens livres. Já a teologia se baseia em “verdades” acessíveis só a poucos. Não é difícil, então, compreender por que o filósofo foi tão execrado em sua época e até cerca de cem anos depois. Ele simplesmente propôs às pessoas que elas fizessem aquilo que mais temem: pensar, usar a razão para libertar-se de tutelas, doutrinas ou instituições. Não ter medo da liberdade, enfim.

Ao longo da história, a filosofia espinosana tem merecido toda sorte de interpretações, algumas delas contraditórias. Os comentadores costumam assinalar que o romantismo do século 19, por exemplo, o via como um espiritualista e não como um determinista, como queriam os iluministas do século 18. De seu lado, o idealismo alemão o considerava ateu, fatalista e materialista. Ao que tudo indica, essa definição de ateísmo, a exemplo de outras, está ligada à crença num Deus transcendente ao qual devemos não apenas amar, mas também temer e, sobretudo, obedecer. Nesse sentido, a expressão corriqueira “temente a Deus” é bem sugestiva.

Como muitos dos sistemas racionais de idéias, a filosofia espinosana não oferece conforto ou consolação, mas sim vias para o autoconhecimento e a autodeterminação. Por isso, nem sempre é facilmente apropriável pelas correntes que hoje usam a filosofia como instrumento psicoterapêutico. Na área política, entretanto, a situação é bem diversa: ela tem sido considerada um convite e um estímulo à liberdade, em especial por aqueles que se dispõem a pensar com suas próprias cabeças.       

A superstição, o medo e a esperança

Em seu Tratado teológico-político, Espinosa propõe a separação entre o Estado e a Igreja, a filosofia e o conhecimento revelado, a política e a religião. Mostra-se contra qualquer espécie de superstição, seja ela filosófica, política ou religiosa — e os aspectos místicos da Cabala judaica não estão excluídos desse rol. Nessa mesma obra, ele afirma que o medo gera e mantém a superstição, e que não existe nada mais eficaz do que ela para governar as massas. Daí a preocupação que as instituições religiosas têm de cercar-se de ritos, cerimônias e aparatos, cuja finalidade é manter os mistérios e os segredos fora do alcance de seus fiéis. 

Com efeito, é ponto pacífico que a superstição, sob todas as suas formas, tem sido e é amplamente utilizada para conquistar e exercer o poder. Os que a usam para tais fins o fazem basicamente por meio do jogo entre o medo e a esperança: em doses cuidadosamente calculadas, atenuam o primeiro e realçam a segunda. Nos tempos atuais, o marketing político-eleitoral e a manipulação das populações por meio das mídias são instrumentos para alcançar esses objetivos. O slogan “a esperança venceu o medo”, por exemplo, foi muito usado por políticos no Brasil em tempos recentes. Com eficácia mas não com veracidade, como aliás é próprio dos ilusionismos.

É óbvio que quanto mais ignorância mais superstição e mais medo e, assim, mais pessoas manipuláveis e obedientes. Essa conclusão vale — com as peculiaridades inerentes a cada caso — para a filosofia, a política e a religião. Os “poderes mágicos” e “saberes ocultos” — e o medo e a esperança que eles suscitam — se baseiam num ponto central: a reserva de saber, que gera a reserva de poder. A primeira assume formas tão variadas quanto bem conhecidas: os segredos, os arcanos, os mistérios, os esoterismos, os códigos e os enigmas dos quais só uns poucos têm a chave.

Tudo isso produz e mantém o medo — que muitas vezes se apresenta disfarçado em fervor, respeito e admiração —, mas conserva também a esperança de que um dia ele desapareça. O objetivo dessa manipulação não é fazer com que o medo tenha fim, mas sim atenuá-lo, o que se consegue de muitos modos, em especial mediante promessas só moderadamente cumpridas. Pois se o fossem em excesso, o medo também diminuiria demais e a esperança teria um crescimento exagerado, o que comprometeria a eficácia da receita de poder.

A superstição e o poder por ela produzido pressupõem que todas as pessoas envolvidas no processo, estejam em que lado estiverem, sejam condicionadas pelas dicotomias do raciocínio binário: dominadores e dominados; líderes e seguidores; sacerdotes e leigos; especialistas e não-especialistas; candidatos e eleitores; e assim por diante. Aqui, a essência do poder se manifesta pelo clientelismo em suas múltiplas formas. Convém destacar, uma vez mais, que sem a prevalência da lógica do “ou/ou” o jogo medo/esperança dificilmente poderia ser utilizado para produzir dominação. Em conseqüência, seria bem mais difícil construir e manter autoritarismos e despotismos. Eis por que para Espinosa a crença em deuses autoritários e transcendentes está entre as superstições que é necessário denunciar.

Ainda no Tratado teológico-político, o filósofo examina as diferenças entre a lei de Moisés e a lei de Cristo.3 A lei mosaica prevê a retaliação: olho por olho, dente por dente, posição aliás típica da lógica binária. A lei cristã prevê a polaridade oposta: a aceitação, a resignação. Em termos políticos, a lei mosaica se manifesta geralmente em Estados fortes e poderosos, e a lei cristã tende a produzir Estados fracos e oprimidos. Com base nas idéias de Max Weber, expostas em sua obra A ética protestante e o espírito do capitalismo4, há quem associe com o catolicismo a fraqueza do Estado nos países subdesenvolvidos (ou em desenvolvimento; valha o eufemismo), em especial na América Latina.

Além disso, Espinosa observa que a relação de Moisés com Deus foi externa: o profeta ouviu a palavra divina. Já Cristo teve com a divindade uma relação interna, in pectore. Por isso, o filósofo sustenta que a verdade do cristianismo está no Evangelho de São João, que diz que o homem está e é em Deus: encarnação não significa que Deus veio para viver entre os homens, mas sim neles.5 Porém, ao adotar a interpretação de que Deus quando encarnado esteve entre os homens, a Igreja reafirma a transcendência divina e define a humanidade como um imenso grupo sujeitado.

O conhecimento e o método

Como vimos, Espinosa diz que Deus é a causa de si mesmo — causa sui — e de tudo o que existe, e que essa condição pode ser conhecida pela razão humana. No Tratado da correção do intelecto6, ele afirma que a razão e a imaginação devem ser separadas e que a razão pode conhecer a totalidade do mundo real, desde que para tanto siga um método adequado. No entanto, a razão espinosana não exclui o que ele chama de paixões positivas — a alegria e o amor. Ao contrário, ela é uma via para chegar a essas paixões e vivê-las. A idéia de que as emoções podem e devem ser controladas por emoções mais fortes e orientadas pela razão é um dos pontos centrais do pensamento do filósofo.    

Espinosa distingue três espécies de conhecimento. A primeira é o conhecimento sensível, que se caracteriza pela subjetividade e pela imaginação. Não é um conhecimento adequado, porque vê tudo em termos de absolutos que estão sempre em antagonismo e produz idéias imprecisas, opiniões. O conhecimento sensível gera paixões que escravizam as pessoas a tudo o que é externo. É próprio dos indivíduos passivos.

O conhecimento racional  vê as coisas de modo abrangente. Com isso, elas passam a ser entendidas sem levar em conta as dimensões em que usualmente dividimos o tempo: passado, presente e futuro. Pois para Espinosa o tempo é irreal: como está logo no início da Ética, o que se costuma chamar de eternidade não é uma temporalidade interminável, mas sim a ausência de tempo. Tendo compreendido isso, o homem racional pode ver o mundo como Deus o vê: sub specie aeternitatis, isto é, em termos de eternidade no sentido espinosano da palavra. O conhecimento racional corresponde ao proporcionado pela ciência. Por meio dele, o homem se põe num estado contemplativo da ordem do Universo.

O conhecimento intuitivo, ou intuição intelectual, é o mais importante dos três. Por meio dele, chegamos às idéias adequadas e alcançamos a condição de indivíduos ativos, que conhecem as idéias, suas causas e efeitos e suas ligações (Espinosa sustenta que uma idéia isolada nada significa: é preciso conhecer também os modos pelos quais ela se liga a outras idéias). Esse conhecimento permite, enfim, que descubramos a origem das essências infinitas, o que se consegue mediante a compreensão da ordem necessária e imutável da substância única. É o que o filósofo chama de amor intelectual a Deus — a alegria que resulta de conhecer as coisas pelas causas.

Embora inacabado, o Tratado é um texto importante, pois prepara o caminho para a Ética, que é a obra maior do filósofo. A idéia básica do método espinosano consiste em examinar o pensamento não apenas depois de estruturado, mas investigar o processo de sua formação. Ele procura formas de “melhorar e esclarecer o intelecto”: é preciso descobrir como o conhecimento é produzido, descobrir a gênese do que se quer conhecer, conhecer pelas causas. A verdade não está fora do processo do conhecimento, faz parte dele. Não importa tanto o que uma pessoa  disse a outra, isto é, a conclusão — o resultado, o efeito — a que ela chegou. Importa, isso sim, saber como ela chegou a essa conclusão, a esse conhecimento: descobrir o caminho, o processo, o passo-a-passo de seu pensamento.

O método espinosano é reflexivo: propõe que lidemos com “a idéia da idéia”. A correção do intelecto se faz basicamente pelo auto-exame, como hoje diz Morin.7 Por meio dele, o pensamento retrocede sobre si mesmo e se auto-investiga. Trata-se de pensar o pensamento: ele deve se auto-examinar para descobrir como alcança o conhecimento. É, sem dúvida, aquilo que Morin denomina de conhecimento do conhecimento, expressão que aliás dá título a este ensaio. O propósito é examinar o pensamento e o conhecimento, descobrir seus processos, sua mecânica e sua complexidade com o fim de melhorá-los. 

 Construímos o mundo em que vivemos por meio de nossa interação com ele. Essa noção, hoje assente em algumas escolas importantes de ciência cognitiva, já estava presente nos textos espinosanos: “A idéia é o próprio ato de conhecer”.8 Três séculos depois, o poeta espanhol Antonio Machado escreveria em seu livro Provérbios y cantares: “O caminho se faz ao andar”. Mais ainda: o filósofo abre o Tratado da correção do intelecto dizendo que a experiência lhe ensinou que tudo o que acontecia no cotidiano era vão e fútil; que todas as coisas que ele temia não eram nem boas nem más em si, a mente é que as construía, ora de uma forma, ora da outra.9

O empenho de Espinosa na reforma do intelecto exprime uma tendência proeminente em sua época. A partir de então, pouco se falou sobre esse assunto. Nos últimos tempos, porém, autores como Morin falam em reformar o sistema de pensamento atualmente hegemônico — o modelo linear-cartesiano, que freqüentemente chamo também de raciocínio binário ou lógica do “ou/ou”. As propostas atuais para tal reforma podem parecer diferentes da espinosana, mas em essência não o são. Por isso, importa reconhecer no pensamento complexo da escola moriniana as mesmas orientações básicas da filosofia de Espinosa: a imanência e o diálogo incessante entre pensamento e sentimento, objetividade e subjetividade, a razão e as paixões.

Embora a mais de três séculos de distância, o objetivo do pensamento complexo revela ressonâncias espinosanas: corrigir o intelecto, para que isso nos leve a mudar nosso modo de ver a nós mesmos, os outros e o mundo. Isto é: conhecer a totalidade sem perder de vista as partes que a integram nem deixar de perceber o modo como elas interagem. O método de Morin visa a examinar o intelecto com o propósito de corrigi-lo, de torná-lo mais abrangente sem perder de vista os detalhes, torná-lo mais amplo sem perda da profundidade. Não por acaso, são esses também os pontos fundamentais do Tratado da reforma do intelecto, de Espinosa:

  • Para o ser humano, não existem verdades a não ser as criadas por seu intelecto.
  • As verdades assim construídas não precisam de validação transcendente, pois fazem parte do próprio processo dessa construção.
  • O objetivo do conhecimento correto é fazer com que o homem saiba que é parte de uma totalidade, e que por isso sua mente está unida à Natureza. Porém, para entender essa ligação e vivê-la, ele precisa agir na condição de parte e usar os recursos que essa condição lhe proporciona. (Nos dias atuais, diríamos: pensar global e agir local).
  • Conhecer e respeitar a Natureza estão entre as atitudes que resultam da reforma do intelecto.

 Do mesmo modo que hoje examinamos as duas formas básicas de pensar — o modelo linear-cartesiano e o pensamento sistêmico —, o Tratado investiga os tipos de conhecimento há pouco descritos. Não o faz, porém, com o intuito de excluir esse ou aquele, mas sim para identificar e aperfeiçoar o mais adequado. De acordo com Espinosa, quando a razão se fecha em si mesma ela se auto-aprisiona num universo abstrato, do qual só pode se libertar por meio do conhecimento da totalidade. A razão possibilita que intuamos a totalidade. Esta, por sua vez, retroage sobre a razão e permite que ela a compreenda melhor e que entenda também o papel de outros modos de conhecimento, como a opinião e a imaginação. Em suma, os modos de conhecimento devem ser conhecidos por um modo mais adequado do que eles: a intuição intelectual.

             NOTAS

1.     Will Durant,  A história da filosofia. São Paulo: Nova Cultural, 1991, pp. 156-157.

2.     Gilles Deleuze, Espinosa: filosofia prática. São Paulo: Escuta, 2002, p. 81.

3.     Marilena Chauí, “Espinosa, vida e obra”. Em Os pensadores. Espinosa.  São Paulo: Abril Cultural, 1983, p. xiii.

4.     Max Weber, The protestant ethic and the spirit of capitalism. Nova York: Charles Scribner’s Sons, 1958.

5.     Chauí, “Espinosa, vida e obra”, op. cit., p. xiii.

6.     Consultei duas traduções dessa obra para o português. Uma, de Carlos Lopes de Mattos,  faz parte do volume Espinosa (Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1983, pp.41-68). Outra, de Lívio Teixeira, está disponível em volume separado e tem o título de Tratado da reforma da inteligência. Para manter a proximidade com o original (Tractatus de intellectus emendatione), adoto neste ensaio o título que está em Os pensadores, mas uso como referências essa tradução e a de Teixeira.

7.     Edgar Morin, Para sair do século XX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986, pp. 161-166 e 244-245.

8.     Ética, livro III, proposição XLIII, escólio.

9.     Tratado da  correção do intelecto, [1].

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