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São Paulo, sábado, 30 de julho de 2005

ASTRONOMIA

Objeto tem pelo menos o tamanho de Plutão, possivelmente é maior e desafia a definição dada a esses astros

 

SALVADOR NOGUEIRA

DA REPORTAGEM LOCAL

Um trio de cientistas nos Estados Unidos anunciou a descoberta do décimo planeta no Sistema Solar. Seu nome oficial por enquanto é 2003UB313, mas os astrônomos já submeteram uma sugestão mais charmosa para batizar o astro, que está sendo neste momento avaliada pela IAU (União Astronômica Internacional), órgão responsável pela categorização de novos objetos.

O corpo celeste foi descoberto por Michael Brown, do Caltech (Instituto de Tecnologia da Califórnia), Chad Trujillo, do Observatório Gemini, e David Rabinowitz, da Universidade de Yale. Um anúncio sumário de sua descoberta figurava no site de Brown na internet (www.gps.caltech.edu/~mbrown/) antes mesmo da entrevista coletiva conduzida ontem às pressas no JPL (Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa), em Pasadena, na Califórnia.

O planeta gira ao redor do Sol a cada 560 anos, a uma distância de 14,5 bilhões de quilômetros da estrela (Plutão, em comparação, fica a 5,6 bilhões de quilômetros). Sua descoberta foi dificultada, segundo Brown, pela órbita do astro, que tem uma inclinação de 45 com relação à dos demais planetas, inclusive a Terra.

"É maior que Plutão!", exclama o astrônomo em seu site. "Usualmente, quando encontramos esses objetos, não sabemos seu tamanho ao certo, apenas seu porte mínimo. O porte mínimo desse objeto é do tamanho de Plutão. Esse objeto é pelo menos do tamanho de Plutão e provavelmente é até um pouco maior."

O trio estima que o objeto tenha uma vez e meia o diâmetro de Plutão, o que lhe dá uma boa base para defender que o novo astro deve figurar como planeta.

Dúvidas

De uma década para cá, o status planetário de Plutão tem sido intensamente debatido na comunidade astronômica. Descoberto em 1930 pelo astrônomo Clyde Tombaugh, ele é o menor planeta do Sistema Solar, com cerca de 2.250 quilômetros de diâmetro. É menos da metade do diâmetro do segundo menor planeta, Mercúrio, que tem aproximadamente 4.880 quilômetros de largura. Para que se tenha uma idéia, Plutão é menor até mesmo que a Lua.

E o pequeno planeta passou a ser ainda mais ameaçado quando se confirmou que ele é apenas mais um objeto do cinturão de Kuiper -uma faixa no Sistema Solar além da órbita de Netuno (o oitavo planeta) composta por uma infinidade de pedregulhos de gelo. É lá que residem os cometas que, vez por outra, passam pelas imediações do Sol e oferecem espetáculos nos céus da Terra.

Ainda assim, a IAU preferiu manter o status de Plutão como o nono planeta, por razões históricas. De certo modo, isso criou um limite mínimo de diâmetro para o que se deve considerar um planeta. O que for maior que Plutão é planeta. O que for menor, não é.

Nos últimos anos, os astrônomos encontraram vários dos chamados KBOs (objetos do cinturão de Kuiper, na sigla em inglês) com dimensões similares à de Plutão, ainda que menores que ele. O próprio Brown, em 2004, havia anunciado a descoberta de um objeto que eles batizaram de Sedna, com uns 1.700 km de diâmetro.

O último dos grandes KBOs a ser descoberto, com cerca de 1.500 km de diâmetro, foi reportado ontem, por um grupo liderado por José Ortiz, do Instituto de Astrofísica da Andaluzia, Espanha.

O grande destaque dessa descoberta é que o tal objeto, batizado 2003 EL61, além de um tamanho considerável, também tem uma lua ao redor dele -assim como Plutão, que tem uma lua relativamente grande (Caronte, com 1.172 km de diâmetro).

Ao ver o anúncio de Ortiz, o grupo de Michael Brown disse também haver encontrado esse mesmo objeto, no que pareceu o início de uma corrida para a descoberta de novos candidatos a planeta. Mas Brown e seus colegas ainda tinham um ás na manga.

Era o anúncio do décimo planeta, feito ontem de forma improvisada e ainda pendente pela aprovação da União Astronômica Internacional. "Nós propusemos um nome [para o objeto] à IAU e iremos anunciá-lo quando ele for aceito", diz Brown em seu site.

Segundo Cássio Leandro Barbosa, astrônomo do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP, que viu o telegrama enviado à IAU pelo trio dos Estados Unidos, "as efemérides [os dados relativos à órbita do astro] são confiáveis".

Para Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, do Museu de Astronomia e Ciências Afins do Rio de Janeiro, o achado evoca velhas lembranças. "Quando, 50 anos atrás, eu entrei para o Observatório Nacional e defendi os estudos do Sistema Solar, diziam que nada mais havia para ser descoberto no nosso sistema planetário e que o último planeta era Plutão", disse à Folha. "No Observatório Real da Bélgica, o meu professor Silvan Arend mostrou inúmeros cálculos através dos quais esperava localizar outros planetas além de Plutão ou na vizinhança dessa região. As suas observações não davam resultados porque não possuía as tecnologias atuais. Neste momento volto o meu pensamento para ele. Ele tinha razão."

Para cima ou para baixo?

O achado apresenta, na verdade, uma situação bem incômoda para as convenções astronômicas. A IAU agora vai ter de se decidir de uma vez por todas: ou muda seus critérios e "rebaixa" Plutão à mera categoria de KBO, deixando o Sistema Solar com nove planetas, ou eleva o 2003UB313 à categoria planetária, deixando o Sol com uma família de dez. 

 

Categoria: Ciência Atual

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