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‘Há possibilidades, não probabilidades, de esperança’.

Entrevista com Edgar Morin

crise climática
Imagem: SXC

 

Edgar Morin tem a cabeça de um pássaro, ágil, inquieto, contundente, de uma raça que não se rende. Fala com a convicção de um otimista, mas sabe que as coisas estão mal, que se não for remediada a catástrofe é inevitável. A ética e a memória (de outros desastres) ajudarão para que o caos não aconteça. O filósofo, sociólogo, participou da resistência contra os nazistas, na França, “e seguirei resistindo às barbáries”. Tem 87 anos. Entre os estudantes da Faculdade de Sociologia da Complutense, em cujo Fórum falou na terça-feira, o autor de A política da civilização (ideia que copiou de Sarkozy) parecia um aluno a mais, mas com uma carga impressionante de sabedoria. E de pessiotimismo, como ele mesmo diz.

A entrevista é de Juan Cruz e está publicada no jornal El País,  06-11-2009. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Você tem a sensação de que vivemos uma catástrofe nova ou já vimos isto antes?

O planeta Terra conheceu no passado catástrofes naturais, como o fim da época primária, que significou a destruição de 95% das espécies vivas… A novidade é que hoje está a caminho uma catástrofe que é resultante do desenvolvimento humano. Para mim, o aquecimento climático não é o mais importante, ainda que o seja; é que estamos em um processo combinado de destruição do planeta que nos leva a uma catástrofe geral ou a várias catástrofes combinadas. O desastre. Não se pode continuar muito tempo por este caminho.

Como mudar?

É um problema difícil. Não podemos mudá-lo com uma decisão; devemos pensar como se processaram as grandes mudanças do passado. Toda grande mudança tem um peso e uma forma que em seu início é muito humilde; pense em Jesus Cristo, em Maomé… Um desvio cria uma tendência e esta tendência pode mudar o caminho… Creio que as denúncias contra a mundialização do capitalismo são boas, mas não basta denunciar, é preciso anunciar. A enunciação não é um programa, é uma ideia mestra. Por exemplo, devemos insistir sobre a qualidade da vida, não sobre a quantidade; é uma boa ideia… Fiz algumas dessas enunciações em meu livro A política da civilização… E estou escrevendo outro que chamo O caminho no qual trato de demonstrar que é preciso buscar alguns caminhos (incluindo as coisas boas da mundialização).

Na sua conferência falava do clima de desesperança que pesa sobre nós. A política pode tirar este peso de cima de nós?

Quem sabe. As velhas gerações têm a sensação de que foram enganadas em sua fé no comunismo, em uma sociedade democrática harmoniosa, civilizada; no progresso como lei da história… Tudo isso se desintegrou e hoje os jovens estão totalmente desorientados… A análise que faço é que há possibilidades, não probabilidades, de esperança. E a esperança não se encontra no coração da desesperança. Hölderlin dizia: “Ali onde cresce o perigo cresce também a salvação”; isso significa que o crescimento do perigo nos remete à consciência do que acontece e nos enuncia o que deve ser feito… Antes da esperança era uma fé; agora é apenas esperança. É muito importante, porque se não houver esperança não haverá projeção no futuro.

Você dizia que Heráclito falava de buscar o inesperado. O que é o inesperado agora?

O inesperado é sair desta via mortal que seguimos; mas devemos buscar. Se buscarmos, encontraremos outra via.

E você fala da harmonia, de sua busca. Onde você encontra hoje harmonia?

Se a procuramos é porque ela não existe. Há momentos de harmonia no âmbito privado, no amor, quando seu time vence… Pedaços de harmonia: a poesia da vida… Não penso que a política sozinha possa dar a harmonia: a compreensão humana, a solidariedade, depende de nós, e daí virá a harmonia. Tudo há de recomeçar. É algo terrível, mas é também maravilhoso, porque necessitamos de um estímulo. Esta ideia me ajuda a viver. Sou otimista e pessimista, um pessiotimista, ou vice-versa. Quando estava na Resistência houve um momento de grandeza. Havia esperança. A ideia do Não da Resistência era também um Sim à liberdade, a uma esperança de liberdade. Não foi a liberdade que pensávamos, mas foi uma certa liberdade.

Falava da política. E os intelectuais, o que devem fazer?

Creio que hoje o seu papel é mais importante do que no passado. Mas se produziu muita esclerose, academicismo… Devem colocar sobre a mesa os problemas fundamentais, e não fazê-lo de uma maneira superficial.

Segue sendo um resistente?

Sim, na minha alma o sou; e seguirei resistente a todas as barbáries que existem.

Categoria: Paz e Ecologia

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