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Os dias depois da morte e as lições da vida

Mesmo se eles envelhecem, os filhos guardam, no imaginário, um pai-herói. Francisco das Chagas, que emocionou o País ao chorar mergulhado no sangue do filho morto, já cumpre esse papel. Neste agosto, o pai do adolescente Bruce Cristian ensina como seguir em frente.

O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. - 31/07/2010 16:00

Desde quando o soldado Yuri Silveira, do Ronda do Quarteirão, atirou um “para, para!”, domingo passado, na avenida Desembargador Moreira, a vida do técnico em manutenção de ar-condicionado Francisco das Chagas de Oliveira Sousa, 37, está suspensa.

Ele tenta explicar a Gustavo, o caçula, porque não é mais o irmão quem lhe prepara o leite de todas as noites. Ao mesmo tempo em que tenta entender como Bruce Cristian de Oliveira Sousa, 14, morreu antes dele, Francisco, envelhecer. Antes mesmo do primeiro amor surgir. Em pleno sonho de menino, ser jogador de futebol.

“O dia seguinte, a gente não aceitando ainda”, conta o cansaço, nesta entrevista feita na sala da casa por arrumar. Ele se ampara no próximo: quem lhe oferece um abraço, uma conversa. E, evangélico porque Bruce o converteu, se agarra a Deus - “o último galho”, como vai indicar, amanhã, nas Páginas Azuis do O POVO, o teólogo Leonardo Boff, em um casual e surpreende diálogo com essa história.

Neste começo de agosto, O POVO retrata o pai e o filho pelas saudades narradas. Pelo aprendizado dos dias depois da morte. E, principalmente, pelas lições da vida.

O POVO – Como o senhor tem amanhecido, desde o último domingo (25 de julho)?

Francisco das Chagas – A primeira noite é conturbada e não se consegue dormir. O dia seguinte, a gente não aceitando ainda. A segunda noite também. Na terceira, a gente conseguiu tirar um cochilo. Acordando várias vezes, porque fica aquela saudade, angústia. Voltar às atividades normais, não voltou porque é uma coisa que abala muito. Hoje (quarta, 28), foi mais um dia de dor. A gente tá preocupado com os outros dois filhos porque estão tendo crises. O mais novo (Gustavo, 9 anos) pergunta. Tem uma coisa que o Bruce sempre fazia pra ele: toda noite, preparava o leite. Ele perguntou – porque quem tava preparando o leite era a mãe – e começou a chorar. Cada ação dos nossos filhos dá mais uma puxada na gente.

OP – E o senhor, como tem se cuidado?

Francisco – Quando você sofre um impacto desse, perde sua sensibilidade, seu tato. Não sente fome, sono, sede. Não sente dor em partes carnais, machucadas. Porque a dor maior é a da saudade. De ver seu filho morrendo e não poder fazer nada. A gente já melhorou um pouco que, graças a Deus, tem uma família que está sempre presente.

OP – O que está diferente na rotina da casa? O senhor recebe muitas visitas, solidariedade...

Francisco – Até fico emocionado porque as pessoas têm chegado pra oferecer ajuda, dar um abraço, conversar. Fico motivado com isso porque, na sociedade em que a gente vive, é difícil ter o apoio das pessoas. Deus está agindo por várias formas.

OP – Como o senhor está convivendo com o assédio da imprensa? Está cansado?

Francisco – Não. Sei que a imprensa é um meio de comunicação e é uma defesa que tenho. Não encaro a imprensa como algo que me prejudica. Vai me ajudar a mudar um episódio que poderia ficar como muitos que foram esquecidos. É uma maneira da gente mostrar para a sociedade o que está errado. A questão é a sociedade aceitar como sendo normal, quando, na verdade, não é.

OP – E como se prepara para esse longo percurso até a justiça?

Francisco – Meu filho (Bruce) tem me dado forças. Tenho me apoiado nele e em Deus. Toda vez que penso nele, a pessoa sonhadora que era e que tinha um objetivo, me dá forças para que eu prossiga e não deixe que isso se transforme em injustiça.

OP – Letícia, durante o velório do irmão, disse que confiava muito na “justiça de Deus”. E o senhor, em que ou em quem confia hoje?

Francisco – Primeiramente, confio em Deus. Deus é o mestre maior de todas as leis. Tenho certeza de que Ele está sempre do nosso lado. E a justiça dos homens é falha, mas, quando você tem um apoio da sociedade, da imprensa, acaba sendo a justiça que não é cega.

OP – O senhor já declarou que Bruce era “o filho que todo pai queria ter”. Na adolescência, ele não lhe dava preocupação?

Francisco – Não. Pra ele ir na esquina, pedia permissão à mãe. Essa fase é muito complexa, que a criança passa. E fica rebelde, responde, é desobediente, quer sair com os amigos pra festa. Mas o Bruce, não.

OP – E os primeiros amores, já estavam aparecendo?

Francisco – Sempre tem, das meninazinhas que são mais atiradas... Mas o Bruce queria jogar bola, ia pra igreja, participava dos grupos de jovens.

OP – O senhor foi pai com 23 anos. Estava preparado, sabia que era uma missão dolorosa também?

Francisco – Com 23 anos, já tinha minha vida bem definida. Era supervisor de produção, numa fábrica. Sempre procurei fazer cursos, me atualizar. Tinha uma cabeça boa.

OP – Mas imaginava que ser pai era difícil?

Francisco – Não, não imaginava. Você só sabe o valor que tem um pai quando é pai.

OP – Como foi aprendendo a ser pai, do que teve que abrir mão?

Francisco – É difícil, sabe? Mas a gente consegue. Quando você ama, consegue ser pai, dar o que de melhor você tem pro filho. Abre mão de muitas coisas, não quer abrir de outras, mas ser pai é tá ali, proteger, orientar, educar.

OP – O senhor já passou muito aperreio com os meninos, alguma noite sem dormir? Geralmente, quem passa por isso é a mãe...

Francisco – Minha filha, em 99, teve começo de AVC. Tinha 2 anos. Fiquei louco. Não conseguia dormir, preocupado, ia pro trabalho, vinha ao meio-dia, olhava como ela estava. Sofri bastante. Mas a gente superou, graças a Deus.

OP – E o que seus filhos mais lhe ensinam no cotidiano?

Francisco – Carinho. Não tem nada mais valioso. Tô triste, ele (Gustavo) passa a mão na cabeça, abraça.

OP – E o que Letícia lhe dizia no velório de Bruce? Como ela lhe consolava?

Francisco – Mais abraço, afeto. E aquilo que eu falava pra ela, ela falava pra mim: que ele estava bem, no céu.

OP – E como o senhor vai explicando a vida para eles? Há alguma lição especial?

Francisco – Meu pai sempre foi muito correto. Ele é do Interior, a gente era tratado na rédea curta. Ele não aceitava nada desonesto. Era agricultor, fazia carreira de carvão, foi pedreiro. O que eu procurava passar pros meus filhos é a honestidade. Não aceito a desonestidade, se aproveitar de coisas que não são suas. O que eu mais passava pro Bruce era ser correto.

OP – Desde que idade o Bruce lhe ajudava?

Francisco – Há pouco tempo. Ele muito pequeno, estudando, mas queria porque queria trabalhar. Fiquei levando ele. Mais final de semana, negócio mais simples. Ia porque ele queria, mas também porque a gente ficaria próximo. A gente fica muito longe e quer ficar próximo do filho.

OP – Como vocês tinham planejado aquele domingo?

Francisco – Dormi até tarde. Ficamos aqui, almoçamos e fui me deitar. Disse que duas e meia ele me acordasse que era pra gente ir, tinha marcado com uma cliente. Fazia o trabalho e, na volta, passava no campo do Ceará. Ele tava muito alegre. No sábado, já tinha me cobrado. Fomos tranquilos, fizemos o trabalho. Peguei a moto, lá na frente, a Desembargador Moreira. Aconteceu o que aconteceu (pausa).

OP – Sua esposa tem conseguido desabafar?

Francisco – Ela sempre foi muito fechada. Procuro tá conversando, sempre do lado dela, pra dar força. Durante a noite, ela chora muito, sabe? Quando acontece alguma coisa que lembra ele...

OP – A falta, a dor que ela sente é diferente da sua? O senhor percebe isso?

Francisco – (pausa) Acho até que é maior. A dor do pai dói muito, mas a dor de uma mãe não tem comparação.

OP – E o que o senhor tem dito para si mesmo, depois da morte de Bruce?

Francisco – (pausa e respira) Tenho dito que (pausa e respira) tenho que (pausa e respira) melhorar mais, sabe? Proteger mais, amar mais meus filhos, minha esposa. Porque a gente nunca sabe o que pode acontecer amanhã, daqui a uma hora, meia hora.

OP – E como o senhor tem anoitecido?

Francisco – Ontem (terça), consegui descansar. Hoje (quarta), não sei como vai ser. A ferida não vai cicatrizar assim, mas a gente tem que tocar a vida. Temos dois filhos, precisam muito da gente. O Bruce era uma pessoa excepcional, que a gente não vai ter outro igual.

OP – E sobre o time no qual Bruce queria jogar, é porque o senhor torce Ceará?

Francisco – É, torço Ceará... Ele era torcedor do Fortaleza... Eu disse: “Macho, tu é torcedor do Fortaleza e quer jogar no Ceará?”. “É porque o Ceará é melhor” (risos).

OP – Ele era bom de bola? Todo menino quer ser jogador de futebol. Mas o que o senhor pensou para ele? O senhor apoiava esse sonho?

Francisco – Era. Tinha que melhorar, como todo mundo. Eu apoiava. Fui ver ele jogar algumas vezes. Ele tinha visão de jogo, era meio campo, não pegava a bola e saía feito doido. Naquele jeito calmo dele... Isso é importante pra jogador de futebol e também pra vida, né? Ter uma visão, sabe o que quer, onde vai chegar.

OP – Ele tinha futuro, tanto no campo como na vida...

Francisco – Tinha. Não gosto nem de falar sobre isso, mas é porque não consigo entender como é que um policial desce duma viatura, com uma arma na mão, feito um doido no meio da rua... A visão desse policial é muito, muito, muito inferior à visão do meu filho.

 

Fonte :

http://opovo.uol.com.br/app/o-povo/fortaleza/2010/07/31/interna_fortaleza,2025718/os-dias-depois-da-morte-e-as-licoes-da-vida.shtml

Categoria: Paz e Ecologia

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