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Apresentação de David Crow a S. S. o Dalai Lama

Mesa Redonda na Prefeitura de Nova York, 23 setembro, 2003

 

 

Sua Santidade

 

Gostaria de falar sobre o papel que podem desempenhar as medicinais tradicionais, como a tibetana, propiciando e promovendo uma revolução ética.

 Duas amplas abordagens podem ser consideradas. 

Na primeira, o papel que a flora em geral e, em particular, a flora medicinal desempenha na resolução dos problemas que assolam o planeta. Na segunda, os princípios éticos intrínsecos às medicinas tradicionais e como podemos nos valer deles para proteger o meio ambiente para o bem de todos. 

Durante o tempo que estudei as medicinas tibetana, ayurvédica e chinesa,  pude constatar que a flora medicinal é um dos principais recursos da humanidade, o sistema de saúde mais antigo e amplo do mundo.  Em muitos lugares a flora medicinal continua sendo o único sistema de saúde ao alcance das populações.  

 

(Medicina)

A flora medicinal coloca ao nosso alcance uma gama extensa de terapias que podem ser resumidas em duas categorias principais:  alimentos diversos que revitalizam e fortalecem o corpo desintoxicando órgãos e tecidos.  Na sua generalidade, os medicamentos modernos não desempenham estas funções.  Revitalizar e desintoxicar o corpo são funções que se fazem cada vez mais necessárias na medida que a qualidade do alimento diminui e a toxicidade ambiental aumenta.   

(Economia)

A flora medicinal pode ser considerada um dos produtos agrícolas mais lucrativos do mundo, capaz de elevar comunidades e nações acima do nível de pobreza.

 (Ecologia)

Assim como a flora medicinal é preciosa, ela  também é fundamental na preservação de eco sistemas, oferecendo alternativas econômicas sustentáveis em contraposição às práticas ambientais destrutivas.

 (Cultura)

A flora medicinal também constitui a base de nosso acervo cultural, parte  e parcela do conhecimento e sabedoria da humanidade, um dos legados mais valiosos que temos.

 

Considerando o que nos reserva o futuro, concluímos que serão necessários muitos remédios. Observa-se por toda parte um considerável aumento na procura de produtos naturais que tenderá a crescer na medida que o meio ambiente se deteriora.  Para que estes medicamentos estejam disponíveis será preciso replantar o mundo e convertê-lo num jardim de plantas curativas.  Levando em conta os benefícios que a flora medicinal aporta a quatro dos principais campos de atividade do homem—medicina, economia, ecologia e cultura—ela é chave para a resolução de inúmeros problemas afins que assolam o mundo, assim como o veículo para fazer desta visão uma realidade.

 Replantar o mundo não é só indispensável para a saúde do homem.  Assim como as plantas desintoxicam e rejuvenescem o corpo humano, elas também desintoxicam e rejuvenescem outros corpos da biosfera planetária.  A flora é um medicamento para as enfermidades da terra, mas também para as enfermidades da humanidade já que tem o poder de purificar, regenerar e conservar o solo, a água e o ar.

 Em última análise, não existem soluções concatenadas pelo homem para disfunções fisiológicas planetárias, como o efeito estufa.  Foram as plantas que permitiram que as formas mais elevadas de vida habitassem o planeta, e só as plantas poderão restaurar e sustentar estas condições.  Por este motivo é indispensável que na ética para um novo milênio conste de gratidão, generosidade e moderação na relação com nossos anciãos botânicos.

 Sua Santidade, a abordagem que advogo e na qual me empenho é a criação de um sistema de saúde de base. Este sistema, que poderíamos denominar Farmácia Popular, se baseia no cultivo de hortas em escolas e comunidades, através da colaboração de bancos de sementes, conservação ecológica, cultivo orgânico, indústria de ervas, educadores de saúde e outras entidades de classe. 

 Quando as comunidades se unem no cultivo de hortas e plantas medicinais, os benefícios são incontáveis.  As hortas comunitárias promovem o bem estar social, elevação do nível de nutrição, embelezam a paisagem e fazem baixar os índices de criminalidade.  As hortas fornecem alimento e garantem a saúde nos períodos de dificuldades econômicas.  Muito especialmente, as hortas das escolas ensinam os alunos a estabelecer uma relação produtiva com a natureza, combatendo as enfermidades endêmicas que assolam crianças e adolescentes e que têm por causa uma alimentação deficitária.

 As hortas comunitárias estabelecem condições favoráveis e são as bases da cultura ética dhármica.  Para que este objetivo possa ser realizado numa ampla escala, será necessário forte empenho coletivo, deliberação política e recursos econômicos, que são as conexões aos princípios intrínsecos às filosofias das medicinas tradicionais.  Cabe aos médicos, assim como aos demais praticantes da área de saúde, a responsabilidade de elevar o nível de conscientização de salubridade na sociedade.

São inúmeros os exemplos de médicos que logram uma transformações espirituais, éticas, políticas e ambientais.  Podemos, por exemplo, fazer uma reflexão sobre o que aconteceria se dessem um único conselho referente à alimentação: ingerir apenas alimentos orgânicos.  Este conselho desintoxicaria o meio ambiente e baixaria o índice de males degenerativos crônicos.  Se a preocupação dos médicos com as enfermidades fosse a este nível, dariam lugar a um renascimento do plantio sustentável e livre de agro-tóxicos e à criação de cidades semeadas de hortas onde crescem alimentos saudáveis e medicinais.

 Gostaria de propor uma solução pragmática que apoiasse o replantio do planeta a este nível.  Sugiro que a Sangha em todo o mundo comece a plantar alimentos orgânicos e plantas medicinais.  Mais especificamente proponho que os centros de Dharma se convertam em repositórios de biodiversidade botânica, centros de conhecimentos e cultura etno-botânicos e em farmácias comunitárias.

 Quando estas hortas dhármicas forem plantadas em todo o mundo os proveitos serão extensos e de grande alcance.  A flora medicinal em extinção, tal como a que é utilizada nas medicinas tibetanas ayurvédicas, será preservada pela comunidade espiritual.  Os médicos destas remotas tradições poderão continuar dispensando suas fórmulas.  Haverá uma melhoria da saúde de praticantes e de leigos associados a estes centros.  A presença física das plantas sanará o meio ambiente e trará felicidade e bem estar para todos.

 Nada disto é novidade:  as farmácias e as hortas medicinais dos mosteiros já foram o cerne de muitas culturas e existem inúmeros projetos afins em desenvolvimento.  Contudo, creio que as emergências nas crises ambientais, sociais e sanitárias exigem que, em todos os níveis, a sociedade se empenhe muito mais no replantio da terra, um bairro de cada vez.  Creio que as comunidades religiosas de todas as denominações podem e devem ter um papel preponderante neste sentido.

 Também creio que uma nova forma de dharma ecológico evolverá, no contexto da cura individual, social e ambiental,  ensinando-nos, através do exemplo, a ética do novo milênio.

 Agradeço seus comentários e conselhos sobre o acima exposto.

 

 Uma biografia:  David Crow

 David Crow alimentou por toda a vida um marcado interesse na medicina natural, que abrange tanto os conhecimentos botânicos indígenas quanto a alquimia botânica.  Assim, viajou inúmeras vezes para a Ásia colher a sabedoria dos sistemas de cura tradicionais.  Fundou a Floracopéia, fruto de suas jornadas e investigações, com o fim de incentivar e preservar a flora medicinal. Conduzindo seminários e retiros de meditação  levou milhares de pessoas a conhecerem tesouros aromáticos e a longa história que eles contêm

 Formou-se pelo American College of Traditional Medicine em 1984, quando iniciou suas práticas  na acupuntura e na herbologia.  Em 1987, movido pelo seu interesse nas medicinas ayurvédica e tibetana foi para Kathmandu, no Nepal, onde iniciou uma série de residências com médicos tradicionais.  O relato destas jornadas e os ensinamentos que recebeu se encontram compilados no livro “Em Busca do Buda da Medicina”, publicado por Tarcher-Putnam em 2000.

 Durante o tempo em que estudou nos Himalaias, David Crow pode observar a destruição ambiental que ocorria naquela parte do mundo, com a conseqüente perda da flora medicinal. Observou que a esta flora é a chave da resolução de inúmeros problemas planetários como a escassez de cuidados médicos, a pobreza, a destruição e perda do conhecimento etnobotânico.

 Como escritor, professor e ativista David Crow propõe um sistema de saúde baseado em hortas domiciliares e comunitárias.  Ele é co-fundador do Mestre Jardim na Venice High School, em Los Angeles, que tornou-se uma das maiores e mais bem sucedidas em todo o país. 

 David Crow propõe o uso de plantas no restauro ecológico.  Seja em palestras dirigidas seja a centenas de pequenos grupos, em conferências em universidades de naturopatia, medicina chinesa e ayurvédica ou entrevistas em inúmeros programas de rádio, Digno de nota, uma mesa redonda com a participação de S. S. o Dalai Lama transmitida internacionalmente para milhões de espectadores.  Seus artigos e extratos de seus livros foram publicados em inúmeras revistas e seu livro, “Em Busca do Buda da Medicina”, pode ser encontrado em três edições estrangeiras., no Brasil pela Editora Pensamento.

 David Crow é um acupunturista e herborista com mais de 20 anos de experiência, que logrou a integração das medicinas chinesa e ayurvédica desenvolvendo tratamentos suaves, mas muito efetivos que constam da utilização de vários óleos essenciais, attars: massagens com óleos medicamentosos ou aromáticos; vapor de aromaterapia e attars associados à shirodhara e acupuntura.

 Estudou, praticou e ensinou meditação e métodos contemplativos durante muitos anos.  Durante os tratamentos, conduz seus clientes em meditações de cura, relaxamento e fortalecimento de seus sistemas imunológicos. A principal prática de meditação que ensina é a associação de Vipassana (atenção e concentração) e filosofia aiurvédica, com a conscientização da interrelação biológica do corpo com o ambiente.  Em alguns casos recorre aos óleos essenciais, attars e hidrosols para aguçar a concentração e a absorção meditativa.

Para informação sobre cursos que incluem o Mestre Jardim visite o site Learning Garden e base de dados das plantas no site www.floracopeia.com

Categoria: Paz e Ecologia

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