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 Do original em Carta Capital On Line

ENTREVISTA

VANTAGENS DA MEDICINA MULTIDISCIPLINAR

Cada vez mais, os médicos assimilam os benefícios de recursos não ortodoxos, como a meditação e a hipnose, para auxiliar ou mesmo substituir o tratamento convencional em alguns casos

Ansiedade, depressão e síndrome do pânico são uma grande fatia dos problemas de saúde nos dias atuais. A longo prazo, podem resultar em doenças graves, como hipertensão, infarto e, há quem diga, até o câncer. Para combatê-las, surgiram especialistas e, principalmente, medicamentos novos – o calmante Lexotan foi o sexto remédio mais vendido no Brasil em 2004. Mas o uso intensivo de medicamentos para diminuir sintomas de doenças psíquicas nem sempre é a estratégia mais eficaz.

José Roberto Leite, professor livre-docente da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), pesquisador e responsável pelo serviço de medicina comportamental, não tem dúvida de que está na hora de incorporar a abordagem comportamental no tratamento dessas doenças. A eficiência e a economia ultrapassam a expectativa mais otimista. A seguir, ele fala sobre as perspectivas e os potenciais desses tratamentos.

Cleber Bonato

Leite.
“Às vezes, não adianta só o medicamento”

CartaCapital: Ouvimos falar muito de hipnose, meditação e outros tratamentos, digamos, não medicamentosos, para ajudar na área de saúde. Como isso está sendo visto no meio acadêmico, na Unifesp, por exemplo?
José Roberto Leite: Há oito ou dez anos foi introduzida uma área denominada medicina comportamental. Ela se baseia na relação entre as ciências do comportamento e as ciências de saúde. Percebemos hoje que os problemas de saúde quase que inevitavelmente vão esbarrar em problemas de comportamento: dependência de drogas, mau gerenciamento de estresse, conseqüências de hipertensão, problemas cardiovasculares, consumo de substâncias como o tabaco etc.

CC: Isso tem impacto na mortalidade da população?
JRL: Uma pesquisa realizada nos EUA demonstrou que cerca de 70% de mortes prematuras seriam decorrentes de obesidade, hipertensão e consumo de substâncias como o tabaco. Nessas três categorias, sempre poderíamos identificar problemas de comportamento, voltados à alimentação, à ingestão de substâncias e ao mau gerenciamento do estresse.

CC: Essa visão comportamental tem evoluído?
JRL: Hoje entendemos o comportamento de uma forma muito mais ágil. Por exemplo, estados alternativos de consciência, como o que se observa na meditação, na hipnose, também seriam considerados padrões decorrentes de comportamento aprendido. Então, hoje nós ensinamos a meditação, ensinamos a auto-hipnose, e isso de certa forma caracteriza as técnicas da medicina comportamental. Além dessas técnicas, teríamos outras, como por exemplo de relaxamento, as que chamamos de estratégias de respiração, fundamentalmente chamada de respiração diafragmática, técnicas de relaxamento com monitoramento eletrônico por sistema que chamamos de biofeedback.

CC: Essas técnicas têm embasamento científico que comprove sua eficiência?
JRL: Todas elas têm uma fundamentação em literatura científica, sem sombra de dúvida. Recentemente, tem surgido uma alternativa complementar que eu considero muito interessante, que é o chamado life coaching, que seria uma espécie de agrupamento de estratégias que de certa forma possibilitam ao indivíduo gerenciar algumas coisas da sua vida, tendo como terapeuta, ou colaborador, aquilo que nós chamamos de treinador (coach). Então, o terapeuta passaria agora a ter um papel de treinador, para ensinar o indivíduo a se cuidar.

CC: Como se faz a seleção da clientela dentro da Unifesp?
JRL: A maior parte dos pacientes nos procura por dois tipos de transtorno: de ansiedade e de humor, mais especificamente a depressão. Para a grande maioria desses transtornos é imprescindível essa abordagem, que eu chamaria de integrativa, da medicina comportamental. Não adianta só o medicamento. Para alguns casos, como transtorno de pânico, de ansiedade generalizada, até mesmo transtorno de humor, eu diria que o benefício dessas estratégias supera em muito as estratégias medicamentosas.

CC: Esse tratamento futuramente evitará o uso de remédios?
JRL: Existem dados muito convincentes na literatura médica. Estudos de metanálise (análise de todos os estudos publicados sobre um tema específico) mostram que, comparada com o medicamento, a terapia cognitiva comportamental apresenta eficácia praticamente semelhante e, às vezes, até mais adequada do que o próprio medicamento.

CC: Esse benefício se mantém a longo prazo?
JRL: Aí está a grande vantagem dessa estratégia. Considero muito mais arriscado o indivíduo ficar dependente de uma melhora em função de algo exterior a ele, como um medicamento, do que encontrar uma estratégia em que aprenda a controlar o próprio sintoma. Então vejo que, mesmo que muitas vezes pareça uma estratégia simples demais, pode ser muito efetiva. Disso não tenho dúvida.

Photos.Com

Zen.
A chave é a relação entre as ciências do comportamento e as ciências da saúde

CC: Na prática diária, existe a sensação de que estamos medicalizando o pânico? Estamos dando muito remédio para a síndrome do pânico?
JRL: Eu diria que não só para o pânico, mas para muitos transtornos. Vou até ousar dizer que muitas vezes nós percebemos uma falha grosseira no ponto de vista de diagnóstico. O fator limitante de qualquer profissional na área de saúde mental é o diagnóstico.

CC: Mesmo um psiquiatra?
JRL: Mesmo o psiquiatra. Acho que está havendo atualmente um aumento exagerado de diagnóstico. Percebo que muitas vezes nós nos encantamos com a novidade, e então começamos a substituir medicamentos pelas novas opções, nem sempre úteis para medicina. A gente esquece muitas vezes as estratégias comportamentais e foca muito a atenção nos remédios.

CC: O senhor é contra os remédios psiquiátricos?
JRL: Não sou contra medicamentos indicados a partir de estudos muito rigorosos, mas percebo que, por algum motivo, estamos prescrevendo medicamentos que teríamos certas dúvidas da eficácia.

CC: Existem dados que comprovem que os sintomas melhoram sem remédios, e talvez o custo seria menor para a população?
JRL: Sim, existem. O problema fundamental no nosso país é de desconhecimento dessa área. A medicina comportamental ainda é muito nova no País. Agora é que estamos formando uma massa crítica de profissionais com essa visão. Basicamente, a gente encontra isso, de uma forma sistemática, mas são técnicas isoladas. Por exemplo, um profissional que faz hipnose, um outro que faz terapia comportamental ou meditação. Mas o importante é a abordagem multidisciplinar. Às vezes, até o próprio paciente diz: “Me dá um remédio para eu não ter mais medo, não quero ter medo de ir lá na frente dar uma aula”. E, em geral, eles querem um negócio meio mágico, um medicamento que tomou, resolveu, e a gente vê que não é assim.

CC: Estatísticas mostram que o Brasil é um dos maiores consumidores de alguns tipos de remédio, como os ansiolíticos. Será que não há abuso na sua prescrição e no seu uso?
JRL: Minha concepção é a seguinte: a medicina comportamental, a utilização e mudança de comportamento para benefício da saúde, sem dúvida nenhuma, do ponto de vista de nação, seria altamente estratégica principalmente considerando que se utilizam técnicas muito bem caracterizadas. Nem sempre se precisa de um profissional como o médico, que tem uma formação muito lenta, para aplicar a técnica. No nosso curso, treinamos enfermeiros e fisioterapeutas. Se um serviço de enfermagem soubesse usar técnicas comportamentais, o que se economizaria de medicamento é impressionante. Até mesmo a manipulação da dor por estratégias de sugestão é algo que já está muito sólido.

CC: É muito caro treinar um enfermeiro, sob o ponto de vista de estratégia de saúde nacional?
JRL: Não seria muito caro, não tem nem comparação com o custo dos remédios. O que se gasta em antidepressivos é um absurdo. Hoje, a gente já tem a própria terapia cognitiva para tratar a depressão. E funciona.

CC: Supondo que, hoje, no Brasil, a população se conscientize disso. Faltam centros especializados com abordagem integrada. As autoridades de saúde entendem isso?
JRL: O marketing farmacêutico é muito forte. Teremos de fazer um trabalho muito grande para convencer as autoridades da seriedade, da eficiência e da grande economia. Isso tem de ser também levado para a escola médica. Seria relevante e estratégico para o País, pois são estratégias muito baratas. No fundo, o papel do profissional de saúde vai mudar um pouco, vai se transformar no de professor, ele vai ensinar o paciente a se cuidar, a mudar seu comportamento em benefício da saúde. Esperamos que um dia se possa realmente mostrar a relevância dessa estratégia, dessa visão, para dentro dos centros de saúde e de uma forma mais generalizada.

Categoria: Saúde e Medicina

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