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A dimensão guerreira de Jesus aparece com destaque em Mateus 23. Ali, ao longo de todo o capítulo, ele desafia abertamente os dogmas doutrinários dominantes em qualquer ocasião, e alerta contra a hipocrisia religiosa presente nas mais diferentes épocas. Vejamos um pequeno trecho desse sermão fundamental:

 

“... Guias cegos, que coam o mosquito e engolem o camelo! Ai de vocês, escribas e fariseus, hipócritas, porque vocês limpam o exterior do copo e do prato, mas estes, por dentro, estão cheios de rapina e intemperança! Fariseu cego, limpa primeiro o interior do copo, para que também o seu
exterior fique limpo!” (Mt 23: 24-26)

 

E ainda:

 

“Ai de vocês, escribas e fariseus, hipócritas, porque vocês são semelhantes aos sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundície! Assim também vocês exteriormente parecem parecem justos aos homens, mas, por dentro, estão cheios de hipocrisia e iniqüidade.” (Mt 23:27-28)

 

Sem qualquer preocupação diplomática ou apego por palavras exteriormente amáveis, o severo Mestre Jesus chama os hipócritas de “serpentes” e “raça de víboras” (Mt 23: 33). Antes, ele já os havia qualificado de “insensatos e cegos” (Mt 23: 17). A sinceridade, em Cristo, vale mais que a cortesia obrigatória e meramente diplomática. Ele sabia que a cortesia aparente, quando obrigatória, passa a ser uma casca externa que leva com freqüência à falsidade e à ilusão.

A encenação teatral da amabilidade e a necessidade de satisfazer as expectativas alheias a qualquer custo também provoca uma incapacidade de tomar decisões.

Por falta de convicção própria, muita gente empurra a vida com a barriga, posterga e evita a escolha de um rumo próprio. Essas pessoas avançam ou recuam de acordo com a maré, como barcos sem leme, ou como barcos em que não há ninguém ao leme.

Sobre a necessidade de fazer opções claras, Jesus afirma:

 

“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro. Vocês não podem servir a Deus e às riquezas.” (Mt 6: 24)

 

O Apocalipse também condena fortemente a indecisão, porque ela impede o avanço ao longo do caminho. A consciência divina dirige essas palavras ao anjo de uma determinada igreja:

 

“Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca.” (Ap. 3:16)

 

Em seguida o autor do Apocalipse justifica sua linguagem dura. Ele nos dá um exemplo vivo da antiga e sábia tradição segundo a qual um verdadeiro mestre – ou um verdadeiro irmão – não fica preso a palavras externamente amáveis, mas, ao contrário, atua com rigor e sinceridade:

 

“Eu repreendo e disciplino a quantos amo. Sê, pois, zeloso e arrepende-te. Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo. ” (Ap 3: 19)

 

“Casa”, aqui, simboliza “alma”, consciência. A voz do espírito bate à porta da consciência do aprendiz. O mesmo rigor sem meias palavras entre companheiros do caminho espiritual emerge em numerosas outras passagens do Novo Testamento. Certa vez, Jesus vai em um barco com seus discípulos quando surge grande tempestade. Os discípulos despertam o mestre, assustados. Jesus repreende o vento, controla-o, e chama a atenção dos aprendizes:

 

“Por que vocês são assim tímidos? Como é que vocês não têm fé?” (Mc 4:40)

 

Em outra ocasião, Jesus explica aos discípulos que será necessário que ele sofra muitas coisas. Ele será rejeitado pelos anciãos e pelos principais sacerdotes e eruditos religiosos, será morto e, depois de três dias, ressuscitará. Ao ouvir isso, Pedro chama-o à parte e começa a discordar, tentando defender a lógica do mundo e da acomodação. Marcos, 8, narra a reação do mestre à atitude de Pedro:

 

“Jesus voltou-se e, fitando os seus discípulos, repreendeu a Pedro e disse: ‘Arreda, Satanás! Porque não cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens.’ Então, convocando a multidão e juntamente os seus discípulos, disse-lhes: ‘Se alguém quiser vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me.’

 

O contraste entre erro e acerto é claro. Aqui, vemos novamente a franqueza severa que é necessária entre entre irmãos de caminhada, ou entre mestre e discípulo. Jesus manda “negar a si mesmo e tomar sua cruz” para poder segui-lo.

“Tomar a sua cruz” significa assumir o seu próprio carma. É aceitar plena responsabilidade por sua vida. É não rejeitar ou apegar-se a circunstâncias desagradáveis ou agradáveis, mas fazer o que é correto, plantando o bem e a verdade que se deseja colher um dia.

Porém, qualquer um de nós pode muito bem pensar:

 

“Essas diversas atitudes severas de Jesus são atípicas. O Jesus autêntico é aquele de Mateus, 5: 38-45 – o Jesus do amor incondicional.”

 

Realmente, há uma forte contradição entre as atitudes severas e as atitudes suaves de Jesus. Seria isso um sinal de incoerência do Mestre? Não. Na verdade, devemos aceitar que a atitude espiritual não é como o samba de uma nota só. Coerência não é sinônimo de imobilidade emocional. O peregrino maduro tem discernimento para saber quando deve ser firme (nas questões
essenciais) e quando deve ser flexível (nas questões secundárias).

Falando sobre a vingança, por exemplo, o mestre afirma:

 

“Você ouviu o que foi dito: ‘Olho por olho, dente por dente’. Eu, porém, digo: ‘não resista ao perverso, mas, a qualquer um que ferir você na face direita, ofereça também a outra face; e ao que brigar com você e tirar-lhe sua túnica, deixe-lhe também a capa.” (Mt 5: 38-40)

 

Esses parágrafos não significam que o bom cristão deve apegar-se, masoquisticamente, a todo e qualquer ato de injustiça cometido contra ele, buscando a sua repetição e o seu aprofundamento.
Isso não seria amar nem respeitar os seus inimigos. Como sabemos, não é bom carma para nossos inimigos fazer injustiças contra nós. Portanto, se quisermos ajudá-los, devemos evitar que eles insistam em atropelar nossos direitos.

O que se planta se colhe. Todo aquele que faz injustiça contra alguém está chamando desgraças para si. Se respeitamos e queremos o bem dos nossos adversários, devemos, na medida do possível, tomar medidas para evitar que eles cometam injustiças ou agressões gratuitas contra nós ou contra quaisquer seres.

Na verdade, o significado dos versículos acima é que o aprendiz deve abster-se de toda vingança ou retaliação pessoal contra aqueles que o agridem. Coincidindo com esse trecho do Novo Testamento, a filosofia esotérica oriental deixa claro que a busca de vingança é proibida a todo aquele que pretender trilhar o caminho espiritual. Mas o estabelecimento de relações justas e baseadas no respeito mútuo é igualmente essencial para uma boa caminhada.

Examinemos agora outro trecho do ensinamento de Jesus que tem sido usado à exaustão para justificar, erradamente, a repressão neurótica da diversidade e a aceitação ilegítima da injustiça.
Jesus afirma no evangelho de João:

 

“Dou um novo mandamento a vocês: que vocês se amem uns aos outros. Assim como amei a vocês, que também amem uns aos outros. Nisto conhecerão todos que são meus discípulos: se tiverem amor uns aos outros.” (Jo 13:34-35)

 

Essa afirmação é absolutamente central. Ela corresponde também a um axioma multi-milenar das escolas esotéricas dos Himalaias: o apoio mútuo entre co-discípulos é muito mais do que um desejo meramente emocional. Constitui uma condição indispensável para o verdadeiro aprendizado sobre a essência da vida. Sem isso, não há eficiência no ensino, nem no aprendizado. Devemos lembrar, no entanto, que pouco antes Jesus alertara para o fato de que havia um traidor, havia um Judas, entre os seus discípulos mais próximos (Jo 13:21-27).

Mas, o que é um Judas?

Um Judas é apenas uma variedade mais perigosa daqueles sepulcros caiados que vimos acima, e que são puros e leais por fora, mas podres mal-cheirosos por dentro (Mt 23).

Assim, rigor e afetividade andam juntos e são inseparáveis, quando se trata de caminho espiritual. Nisso, o Novo Testamento é perfeitamente coerente com a tradição esotérica oriental.

O caminho do meio que dá harmonia e produz equilíbrio entre os dois extremos de total rigor e total flexibilidade não é a combinação infeliz de de um “meio rigor” com uma “meia flexibilidade”. O caminho do meio consiste em ter total rigor, nas questões centrais e essenciais, e total flexibilidade, nas questões secundárias. Naturalmente, para administrar firmeza e flexibilidade com sabedoria, é necessário ter discernimento para saber diferenciar o secundário e o essencial.

O rigor e a boa vontade são como dois pés para nossa caminhada. Não há motivo para pular em um pé só. O caminho do meio se abre diante de nós quando aprendemos a combinar conscientemente o uso dos dois hemisférios cerebrais, o analítico e o sintético.

O caminho do equilíbrio não renuncia nem ao rigor nem à flexibilidade. Ele faz como as árvores, que crescem com flexibilidade nas folhas (o secundário) e com firmeza no tronco (o essencial). Assim, quando afirmamos a afetividade (conforme Jo 13: 34-35), devemos examinar a nós mesmos e examinar nossos relacionamentos, para ver se eles estão livres da hipocrisia, da astúcia e das segundas intenções (conforme Mt: 23).

Ao mesmo tempo, quando combatemos a falsidade (Mt 23), devemos examinar nossos sentimentos para ver se estão preservadas neles a boa vontade e a amizade (Jo 13:34-35).

A franqueza não deve destruir o afeto, nem o afeto deve ir contra a verdade.

Porque amor é a verdade, quando ela se expressa no plano emocional; assim como verdade é o amor, quando ele se expressa no plano mental.

Mente e emoção são inseparáveis. Verdade e amor são uma coisa só.

 

 

Categoria: Holopráxis

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