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Qualquer organismo vivo é um complexo gerador de energia química, térmica, sonora, elétrica, magnética e luminosa, sem contar com as gigantescas energias quânticas presentes em cada um dos cerca de 1089 átomos que nos constituem. As reações químicas geram luz. O fluxo iônico gera a eletricidade e o fluxo elétrico gera o magnetismo. Cada molécula, na realidade, é um pacote energético que carrega alguma forma de informação. Para a ciência, o homem é um Ser quântico-molecular que se organiza em sistemas especializados e totalmente interligados em rede.

Tendemos a achar que é em nosso cérebro que ocorre a formação do fenômeno da consciência devido à sua atividade elétrica (0-100Hz) e magnética (10 mil fentostelas), mas hoje se sabe que o coração gera muito mais atividade elétrica (250Hz) e magnética (50 mil Fentostelas). Pensamos que o cérebro é o nosso centro de comando devido ao fato de centralizar uma grande quantidade de neurônios, mas esquecemos que o nosso aparelho digestivo possui um sistema nervoso próprio, que funciona totalmente independente do Sistema Nervoso Central (SNC), embora influenciado por ele.

Podemos até pensar que o cérebro é a sede de nosso Ser devido à imensa quantidade de sinapses produtoras de neuropeptídeos que abriga, mas sabe-se hoje, por exemplo, que ele é totalmente interdependente do aparelho digestivo, através do denominado eixo cérebro-intestinal, onde o aparelho digestivo é o responsável pela síntese de cerca de 90% da serotonina do organismo, um grande produtor de hormônio do crescimento e de acetilcolina (memória e pensamento), sendo considerado a maior glândula endócrina do organismo pela sua produção de dezenas de neurotransmissores intrínsecos. As alterações hormonais do aparelho digestivo o implicam em diversas alterações inusitadas como: obesidade, alterações do humor, anorexia, enxaqueca, psicoses, e até alterações na imunidade, como nas doenças de auto-agressão.

Hoje em dia, a visão de um sistema hierarquizado e linear cartesiano, que sugeria um comando cerebral supremo e central, alterou-se para um sistema em rede composto de pontos nodais de comando em que o cérebro é apenas mais um ponto nodal nessa rede de informações. Hoje já sabemos da existência de uma memória imunológica, uma memória cardíaca, uma memória renal e até uma memória muscular, configurando a existência da memória a nível celular e não mais orgânico-sistêmico. Todo fluxo energético (molecular, químico, eletromagnético, etc.) é um fluxo informacional (tudo é informação), e esse fluxo informacional (nossa mente) ocorre em todo o corpo, SIMULTANEAMENTE independente de tempo e espaço (como no mundo quântico).

Até a década de 1.960 se considerava o cérebro como o centro de comando corporal devido ao seu funcionamento de comando de base elétrica: o cérebro elétrico. Com base nisso, pensamentos e sentimentos seriam produtos da atividade elétrica neural, sendo o cérebro o comandante supremo. Então, com o advento da emergente ciência da neurofarmacologia, pesquisas revelaram que a comunicação interneuronal se faz principalmente através da descarga sináptica de substâncias químicas, que foram chamadas então de neurotransmissores, determinando que a comunicação elétrica é apenas cerca de 2% daquela comunicação.

Somente no córtex cerebral existe uma quantidade de cerca 15 a 20 bilhões de neurônios, cada um fazendo, em média, 60 mil sinapses. A maior parte da atividade neuronal cerebral (cerca de 98%) se faz através dessa rede sináptica (utilizando neurotransmissores como a acetilcolina, noradrenalina, dopamina, histamina, glicina, GABA e serotonina), sendo ela a responsável por nosso intelecto consciente e por nossa autoconsciência subjetiva. Uma segunda categoria de transmissores é composta dos esteróides (que incluem os hormônios sexuais e o cortisol).

A partir de 1.972, com as pesquisas pioneiras de Candace Pert Ph.D, surgiu o conceito de cérebro químico e de neuropeptídeos: substâncias químicas compostas de cadeias moleculares muito menores do que as dos neurotransmissores clássicos. Mas a década de 1.980 presenciou a descoberta da rede de informações do sistema imunológico, da mudança de conceito dos neuropeptídeos, que passaram a se chamar simplesmente de peptídeos, por não agirem somente no circuito neuronal, e da introdução, em 1.984 por Francis Schmitt (do Instituto Tecnológico de Massachussets – MIT), do termo “substâncias informativas”: as “moléculas da informação”. Descobriu-se que o sistema imune se comunica com o cérebro (incluindo o nosso cérebro emocional – sistema límbico) via “imunopeptídeos” e que recebe informações dele via neuropeptídeos, configurando um mecanismo de intercomunicação englobando também o sistema endócrino.

Hoje, a psiconeuroimunologia estuda a íntima intercomunicação e repasse de informações entre seis sistemas informacionais principais (o cérebro químico e os sistemas endócrino, imunológico, intestinal, cardíaco e tegumentar – pontos nodais dessa rede de informações). Cada um conta com uma produção própria de peptídeos circulando através do espaço extracelular, sangue, linfa e líquor. Considera-se que os peptídeos (como as endorfinas, encefalinas, somatostatina, gastrina, secretina, grelina, neuropeptídeo Y, leptina, etc.) constituem cerca de 95% de todas as substâncias informacionais, que funcionam em rede, numa escala de tempo e espaço muito mais ampla do que a do cérebro elétrico.

A fisiologia dos peptídeos anda junto com a fisiologia dos receptores (que também são proteínas), sendo essas moléculas muito maiores do que aquelas primeiras. Já foram identificados cerca de 70 tipos diferentes de receptores, situados aos milhões por toda a extensão da membrana celular de todas as cerca de 75 trilhões de células de nosso corpo. São nossos órgãos dos sentidos a nível celular e sua estrutura molecular (cerca de 2,5 mil vezes mais pesada que a molécula da água) funciona como uma fechadura onde somente determinados peptídeos podem se acoplar, como num binômio chave-fechadura.

Como toda molécula, peptídeos e receptores apresentam determinados padrões vibratórios. Quando os peptídeos se chocam com os seus respectivos receptores (encaixando-se e soltando-se algumas vezes), esses mudam suas propriedades moleculares mudando, conseqüentemente, seus padrões vibratórios e suas próprias formas tridimensionais, e é essa mudança de conformação (em duas ou três conformações principais) que transfere a informação para o interior da célula ocasionando uma cascata de eventos com profundas mudanças no meio intercelular (abertura ou fechamento de canais iônicos, mudanças energéticas de produção ou gasto de fosfatos, etc.), podendo afetar até o próprio núcleo da célula (tomando decisões acerca da divisão celular ou síntese protéica). Uma fantástica sinfonia vibratória está ocorrendo ininterruptamente em todas as células de nosso corpo.

Mais fantástico ainda é o fato de que os peptídeos são produzidos por todo o corpo, ligando-se e desligando-se de seus receptores, de forma sincrônica e simultânea. Não é um processo linear de produção, distribuição e ligação a receptores distantes, mas um processo simultâneo em rede que ocorre totalmente inconsciente em pontos conhecidos como pontos nodais. Sim, comprovadamente o fluxo das substâncias informativas surge simultaneamente em diversos pontos nodais nos diferentes sistemas orgânicos: imune, endócrino, gastrintestinal, nervoso, etc., e não de uma forma hierárquica a partir do SNC. Esses pontos nodais são regiões de grande afluxo de informações elétricas e químicas sendo influenciados por quase todos os neuropeptídeos, priorizando, ou não, determinadas informações que vão produzir, ou não, determinadas mudanças fisiológicas.

Em nosso sistema nervoso central todos os pontos nodais servem como uma espécie de filtro sensorial, estando presentes em nosso córtex pré-frontal, sistema límbico, tálamo, hipotálamo (relacionado com o nosso processo de aprendizado), tronco cerebral e por toda a extensão da medula espinhal (em seu corno posterior), por onde chegam as informações sensoriais do mundo externo (pelo tato) e do mundo interno (dos nossos órgãos internos). Por exemplo, estímulos nos núcleos pontinos de Barrington, dependendo de qual peptídeo está agindo, podem fazer surgir desejos sensuais ou miccional (com imagens mentais associadas), desde uma forma inconsciente até a de urgência consciente, configurando uma inter-relação multidirecional entre sensações e desejos corporais com emoções e pensamentos conscientes.

Somente 0,0000005% do processamento cerebral é integrado conscientemente. Na verdade, apenas o que atinge nossos centros corticais é o que se torna um pensamento consciente da forma como o percebemos. É o processo de filtragem nodal, que nasce da interação receptor-peptídeo, que diz o que deve se tornar, ou não, uma sensação, sentimento ou emoção consciente. Essa interação receptor-peptídeo depende da quantidade e da qualidade dos receptores nos pontos nodais, que, por sua vez, depende da forma como reagimos às nossas experiências sensoriais cotidianas (alimentação, tato, música, odores, etc.). Como assim!?

Fabricamos peptídeos de acordo com o fluxo informacional que chega nos pontos nodais e esses peptídeos podem produzir toda a enorme variedade de estados emocionais que experimentamos cotidianamente. Há peptídeos para raiva, para tristeza, para desejo, para vitimização, para alegria e bem estar, etc., sintetizados em todo o nosso corpo e, no sistema nervoso central, principalmente em nosso hipotálamo.

Se um determinado grupo de receptores for estimulado por um longo tempo e com grande intensidade, paulatinamente seu número diminuirá, perderão sua sensibilidade e até a sua eficiência, de forma que a mesma quantidade de peptídeo interno vai produzir uma resposta menor. Ou, de uma outra forma, quando essa célula finalmente resolver se dividir, as novas células terão mais receptores para aqueles peptídeos neurais daquela emoção em particular e menos receptores para vitaminas, minerais, nutrientes, troca de fluidos, ou mesmo para a liberação de toxinas.

Em resumo, com o tempo haverá uma necessidade celular bioquímica intrínseca por certos peptídeos (dependência química) que alterará o nosso comportamento para que consigamos fabricar esses determinados peptídeos. Se estivermos dependentes bioquimicamente de raiva, inconscientemente buscaremos provocar situações que nos impulsionem a síntese de peptídeos de raiva, e assim por diante. Criamos hábitos e padrões de conduta para satisfazer nosso vício endógeno emocional, para satisfazer as necessidades bioquímicas das células de nosso corpo.

Na realidade, todos os nossos pensamentos, idéias e sentimentos são construídos de uma forma associativa e interconectados em rede. Por exemplo, associamos o prazer e o bem estar de degustar uma determinada iguaria com o prazer que sentimos advindo de nossos outros sentidos (da companhia que tivemos, das alegrias que sentimos, etc.) no dia que a experimentamos pela primeira vez. Ou seja, todos os nossos conceitos são armazenados nessa vasta rede corporal usando peptídeos como sinais, associando-os com outros eventos que ocorreram simultaneamente ou previamente, recuperando ou reprimindo emoções e padrões comportamentais.

Esses hábitos e condicionamentos, quando repetidos freqüentemente, acarretam uma verdadeira mudança na configuração de nossa rede sináptica neuronal cortical, literalmente reconfigurando o nosso cérebro (um processo conhecido como aprendizagem) com esse padrão de resposta e atitude perante nossos estímulos externos (e internos). As emoções são um importante componente nesse mecanismo de aprendizado. Assim, para muitos neurocientistas, as mudanças bioquímicas que ocorrem ao nível dos receptores são a base molecular de nossa memória, numa rede psicossomática que se estende por todas as nossas células em todo o nosso corpo.

“A decisão acerca do que se torna um pensamento subindo para a consciência e o que permanece um padrão de pensamento ‘não-digerido’ e submerso nas profundezas do corpo é mediada pelos receptores. Eu diria que a memória ser codificada ou armazenada ao nível de receptores, significa que os processos de memória são movidos por emoções e são inconscientes, mas (como outros processos mediados por receptores) podem, às vezes, tornarem-se conscientes... A mente seria o fluxo de informações que se move entre as células, órgãos e sistemas do corpo...

Candace Pert

Aqui, então, começa a convergência entre a neurociência e as tradições sapienciais, quando passamos a perguntar quem é que está experimentando as sensações e construindo hábitos e condicionamentos. De onde vem essa inteligência que permeia toda essa rede informacional bioquímica e dirige aquilo que conhecemos como corpo e mente? Quem é esse Observador que percebe o mundo e observa suas aparentes diferenças?

Tanto a física quântica quanto a teoria da informação já incluem o Observador em suas equações, como um nível inteligente capaz de introduzir mudanças no sistema, através do influxo de informações. O Observador é o princípio inteligente capaz de reconhecer hábitos, condicionamentos e vícios, e o único capaz de, através do fluxo de novas informações, mudá-los, criando novos hábitos e comportamentos. Da mesma forma que a informação existe além do tempo e do espaço, além da matéria e da energia, o Observador, orientador desse fluxo informacional, também deve habitar além de nossa tridimensionalidade.

Categoria: Cláudio Azevedo