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Ano novo, promessas de coisas novas, vida nova, novas realizações, novas metas, novo, novo, novo... Será que estamos realmente preparados para o novo em nossa vida, ou o novo em nossa vida deve ser estritamente controlado por nossas velhas concepções do que seja aceitável? Dessa forma o novo é novo ou é uma nova forma de maquiar o velho. Estamos preparados para aceitar uma nova forma de ser e estar na vida de nossos cônjuges, filhos ou pais?

 

Criamos o novo com a nossa mente, idealizamos algo e perseguimos esse objetivo. Está comprovado pela física que a mente influencia no surgimento das partículas, logo a consciência está relacionada com a formação da matéria. Mas a matéria, dessa forma, não pode ser considerada algo “real”, pois está a mercê da mente e pode ser aniquilada ou formada por ela. Para o budismo, assim como para São Tomás de Aquino, tudo que for impermanente, tudo o que está sujeito a mudanças, não pode ser considerado real: é ilusório. Vemos que, então, as partículas, assim como a nossa mente, são ilusões, pois são passíveis de mudanças. E o que faz a mente mudar?

Talvez o plano real esteja no nível de comando de nossa mente mutável. Existe um plano imutável de nossa mente? Existe um plano que decide a mudança de nosso estado mental e assim influencia o nosso mundo físico, influencia o nosso futuro? Mais ainda, segundo o físico John Archibald Wheeler, tanto o futuro quanto o passado estão indeterminados. Da mesma forma que o observador influencia a trajetória e o comportamento das subpartículas, nas experiências realizadas nos aceleradores, na medida que a mente humana esmiúça o seu passado na busca da origem de tudo, ele influencia e seleciona uma entre as infinitas possibilidades de explicações.

Estaríamos criando o Big-Bang!? A comunidade científica continua dividida, pois a “incerteza” da teoria quântica não explica satisfatoriamente essa certeza do início do tempo e do espaço. Stephen Hawking admite hoje que sua teoria é “limitada no passado, e provavelmente no futuro, por regiões onde os efeitos quânticos são importantes”. Teoricamente, é possível a um elétron ir ao futuro, da mesma forma que à sua anti-partícula, o posítron, é possível viajar ao passado, continuando interligados e sincrônicos. Tanto o nosso passado quanto o nosso futuro são ilusões??!

Da mesma forma que criamos, podemos mudar. Estamos vivendo uma nova era de mudança de paradigmas, na ciência e mudança de comportamento e consciência na humanidade, ou estamos atolados numa guerra e mentalidade primitiva egocêntrica que já dura centenas de anos? Se há mudança, ela é real? Ou a reaproximação entre ciência e espiritualidade é um ardil, feito por mentes brilhantes, querendo fazer parecer verdade o que é apenas mais uma ilusão: um belo sofisma?

Psicologia, física quântica, tradições sapienciais. Se o observador tem um papel fundamental na concepção e no desenvolvimento de fatos, o que garante que tudo isso não seja apenas uma bela ilusão? Apenas novas formas de “re-velação” da Verdade, escondendo-a e não desvelando. Tudo o que percebemos com nossos sentidos são interpretações próprias e individuais de fenômenos ilusórios. Interpretar uma ilusão é uma ilusão da ilusão. E seguimos, historicamente, quebrando paradigmas tão somente para perceber, ao cabo de mais alguns anos, que o novo paradigma deve ser quebrado novamente. Prisioneiros de nossa própria mente.

O Amor, o Belo, a Bondade, o Ódio, o Feio, a Maldade. Será que há algo substancial que seja imutável e, por isso mesmo, real. Existem pensamentos ou valores que persistem além de todos os paradigmas, conceitos, filosofias, tradições, não sendo influenciados pela mente, logo, fortes candidatos ao título de “reais”?

Talvez no dia que a humanidade mudar a sua mente para esses pensamentos e valores imutáveis o realmente novo surgirá, e poderemos falar de “ano novo” e vida nova. Da mesma forma que uma criança só perceberá que não pode colocar o dedo na tomada no dia que “levar um choque”, a humanidade só perceberá que a ilusão é causa de sofrimento depois que experimentar todos os sofrimentos possíveis e se conscientizar que está num ciclo sem fim. Então o salto quântico ocorrerá...

Que a nossa mente possa se libertar da ilusão da lógica e transcendê-la alcançando a realidade abstrata do mundo das causas, a realidade que projeta suas sombras no nosso mundo de ilusão. Que o ano seja realmente novo, que a vida nova seja realmente nova, que o novo seja realmente novo.

Feliz ano novo...

 

Categoria: Cláudio Azevedo