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Todas as filosofias têm a mentira como algo condenável, e que deve ser evitado, mas no budismo e hinduísmo a mentira é explicitamente condenada e comentada. No budismo faz parte das dez ações não virtuosas e no hinduísmo faz parte da ética iogue a prática de satya: ser verdadeiro em pensamentos, palavras e ações.

 

Apesar disso, a mentira é uma transgressão considerada plenamente normal e utilizada livremente no trato dos homens entre si. Ninguém acredita mais em ninguém e, assim, toneladas de papel e de dados são produzidas anualmente em todos os cartórios do mundo. A mentira já é uma instituição, um artífice do nosso modelo sócio-econômico e político. Não se concebe que exista um político que não minta. Mas o mundo é uma projeção holográfica nossa como seres individuais. Se há mentira no mundo é apenas porque ela existe em nós e não há ninguém que não a pratique, conscientemente, de forma velada ou não, ou inconscientemente.

Aprendemos quando crianças que é feio mentir. Mas a mentira existe na sociedade e a criança começa a perceber que os pais sempre mentem. Eles prometem e não cumprem. E a criança começa a mentir, mas como ela aprendeu que a mentira é algo repreensível, ela sempre vestirá uma máscara de verdadeira. A mentira surge sempre como mecanismo de defesa, para fugir de castigos, repreensões ou julgamentos. A criança tem medo de perder o amor e o respeito dos pais por ela ter mentido. Mas ela prossegue mentindo e dizendo que não mente.

Embora a mentira seja produzida, inicialmente, como mecanismo de proteção ante uma sociedade que critica, julga oprime e condena, ela é a origem do mal porquanto fomenta a falsidade, a corrupção, o roubo e o assassinato. Exige muito gasto energético pessoal, manter uma mentira e procurar meios de manter uma mentira, com mais justificativas falsas: outras mentiras. E o mecanismo segue como uma avalanche, envolvendo outros, muitas vezes inconscientemente, para manter uma simples mentira. O medo do julgamento, o medo de ser excluído da sociedade, o medo de se tornar alguém inferior ante os seus iguais.

Atualmente vemos a mentira quase como uma virtude. Quem não engana os outros não é esperto, e não pode ser incluído entre os poderosos, ricos e famosos: meta atual de nossa sociedade. Mente-se como se fosse uma prática saudável da mais nobre virtude, da mesma forma que se mente quanto aos nossos reais sentimentos e desejos mais íntimos. Somos levados como marionetes por um sistema social excludente que separa e divide pobre e ricos, famintos e abastados, e assim muitas vezes oprimimos e mentimos a nós mesmos quanto aos nossos verdadeiros sentimentos, desejos e ideais, para podermos continuar participando e sermos aceitos como pertencentes à sociedade: o velho medo infantil de perder o respeito, amor e admiração dos outros. E assim nos agredimos para não agredir o outros, mas esquecemo-nos que, na maioria das vezes, o outro representa um sistema social excludente fadado à extinção.

Mas a mentira não é expressão única do mal, pois algumas vezes ela é necessária e imprescindível, para proteger e para cuidar. Não dizer a verdade a alguém, ainda não preparado psicologicamente, sobre uma doença fatal própria ou de um parente próximo, ou não revelar o paradeiro de uma pessoal a um pretenso assassino, passam a ser ações virtuosas, pois embutem sentimentos de compaixão e de cuidado, e não de medo e cobiça. Antes de tudo deveríamos constantemente vigiar e orar. Vigiar no sentido de tornarmo-nos conscientes de todos os nossos pensamentos, palavras e ações, detectar inclinações e hábitos e, se tivermos que mentir, fazê-lo conscientemente, cientes de todas as conseqüências desse ato. E orar no sentido de pedir proteção e discernimento, quanto à decisão correta em momento cruciais. Pedir a Si mesmo ou a um Poder Superior.

Podemos mentir, mas nunca mentir porque é socialmente recomendável. Podemos mentir, mas nunca para auferir lucros pessoais, em qualquer nível (psicológico, emocional ou material). Podemos mentir, mas nunca porque nos sentimos inferiores. Podemos mentir, apenas porque somos imperfeitos e reconhecer a falha procurando vigiar-se mais intensamente. Podemos mentir, apenas porque, ainda não entramos em contato pessoal com Aquela Fonte inesgotável de sabedoria e de discernimento que temos em nosso interior. Podemos mentir, apenas porque ainda não encontramos Deus...

Categoria: Cláudio Azevedo