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O amar. Ah! o amar. Será que existe mais doce sensação? Qual palavra abrange mais significados do que o amar? Há mais de 3.000 anos, por achados arqueológicos, foi inaugurada a linguagem poética do amor em antigas canções de amor egípcias, em que metáforas são belamente utilizadas para comparar partes do corpo do ser amado com pedras preciosas, ervas aromáticas, frutas e flores. Até nas Escrituras religiosas o amor entre o homem e a mulher é tratado como algo sagrado, como vemos no taoísmo, no cristianismo e no tantrismo, por exemplo.

 

Para os gregos, quatro formas básicas de amar seriam possíveis, às quais eles davam nomes diferentes: Philia, Storgé, Eros e Ágape. Philia é usado para descrever a afinidade existente entre amigos. Aquela forma de amor que se sente em uma profunda amizade, a afeição aonde sentimos alegria em encontrar, conversar, partilhar, ajudar, abraçar. Aqueles encontros entre amigos afins, onde, entre brincadeiras e risos, sentimos uma satisfação profunda por algo que toca em nosso mais íntimo recôndito de uma forma amena e prazeirosa. Uma intensa troca entre seres que partilham profundas afinidades.

Já Storgé tem o sentido de amor entre consangüíneos, entre seres de uma mesma família. O amor materno, o amor paterno, o amor entre irmãos, etc., numa intensidade proporcional ao grau de consangüinidade e de contato diário. Eros é a face do amor que, geralmente, recebe outro nome derivado do latim passio: paixão. A palavra paixão denota a conexão inevitável entre o amor e o sofrimento: sofrer por amor. Por isso a expressão “Sexta-Feira da Paixão” onde Jesus sofre e morre por amor à humanidade. Sofrimento e felicidade estão intimamente conectados em Eros, um estado psico-neuro-bioquímico amplamente investigado pela ciência desde a década de 1.960. Sabe-se hoje que Eros mexe com toda a química do organismo, causando aceleração dos batimentos cardíacos e da respiração, insônia e perda de apetite (pelo aumento da dopamina e da noradrenalina), só para dar exemplos de algumas alterações físicas.

Mas essa revolução química não perdura a vida toda. Em média, uma paixão dura de dois a três anos, no máximo. Eros é representado na mitologia grega como uma divindade brincalhona que passa o tempo todo flechando o coração das pessoas, fazendo-as, contra a sua vontade consciente, se sentirem atraídas por alguém de seu convívio. Os franceses batizaram a essa paixão incontrolável de amour fou (amor louco), sentimento que derruba todas as barreiras e convenções para se fazer presente entre pessoas que convivem entre si, geralmente pessoas que satisfazem um conjunto de expectativas nossas, semeadas durante a nossa infância e construídas ao longo de uma vida.

É uma das mais poderosas forças da existência, é uma aventura, um legítimo impulso de doação e afeição que traz embutido um desejo intenso de conhecer mais profundamente o outro e de unir-se com ele. É a busca de se conhecer a outra alma. Enquanto se suspeitar haver algo novo para ser conhecido no outro, Eros permanecerá e se manterá ativo. No momento que se acreditar que já se conhece tudo sobre o outro a paixão se dissolverá. Esse é o grande e simples segredo de se manter sempre apaixonado: constatar que o outro sempre será um desconhecido. Manter Eros aceso numa relação é manter um contínuo revelar-se para o outro. E para esse contínuo revelar-se é imprescindível um contínuo autoconhecer-se. Juntos se autoconhecer, revelar-se um ao outro, ajudarem-se mutuamente e purificarem-se conjuntamente.

A experiência erótica, a paixão, muitas vezes é confundida com o desejo sexual. Mas sexo é independente de Eros. Eros é o primeiro contato de alguns com o legítimo impulso de doação e afeição, que de outra forma nunca experimentariam por seu semelhante e muito menos por outro ser vivo. O mais vil criminoso, quando apaixonado, experimenta doação e afeição. É o sentimento mais próximo de Ágape, o amor desinteressado, que uma alma pouco evoluída pode experimentar. O sexo puro, sem Ágape e sem Eros somente existe nas plantas e nos animais. Eros surge no reino humano e coexiste harmoniosamente com o desejo sexual e com Ágape no homem desenvolvido espiritualmente. Eros é  uma força divina que intervém na vida humana, mas que precisa ser orientada pela inteligência, sob pena de a alma entrar em sofrimento.

Para Platão, Eros, que se manifesta primeiro como amor por um físico bonito, deve ascender intelectualmente e espiritualmente, sob responsabilidade do ser humano, para algo superior. Em sua obra “O Banquete”, Platão defende que o verdadeiro amor seria a afeição elevada a um plano ideal que transcende o contato físico, mas não o exclui. Esse é o ideal platônico de amor, comumente e erroneamente interpretado como um amor impossível, a afeição sem contato físico. Ágape, o amor desinteressado, de doação sem espera de recompensa, é o amor divino, muito relacionado com os conceitos de compaixão e caridade. Compaixão não no sentido de se sentir dó e pena do companheiro, mas no sentido de se colocar no lugar do outro e entendê-lo como uma alma em evolução humana. Igual a nós mesmos. Caridade no sentido de doar e doar-se sem esperar nada em troca. Ver o outro como uma expressão de Deus.

É algo para se refletir e lembrar não somente em algumas datas, mas permanentemente. O amor humano, é a única forma de encontrar Deus através do outro. A real finalidade da união entre duas almas é capacitá-las a se auto-revelarem mutuamente e revelar-se a Deus: uma partícula de Deus se revelando a outra partícula Dele mesmo. Ágape é o amor entre aspectos do mesmo e incognoscível Deus.

 

Categoria: Cláudio Azevedo