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No começo do século XX, a American Medical Association  encomendou uma pesquisa nacional sobre as escolas médicas, objetivando dar a este ensino uma sólida base científica. O resultado dessa pesquisa foi o relatório Flexner, publicado em 1.910, que serviu de embasamento decisivo para o ensino médico no ocidente. A estrutura do ensino médico, daí resultante, impulsionou o estudo e a pesquisa nas ciências básicas e especializações, com desenvolvimento de uma forma fantástica e sem precedentes, mas totalmente fragmentado.

 

A abordagem pedagógica do ensino médico, com disciplinas fragmentadas numa estrutura fracionada em ciclo básico e profissionalizante, forma profissionais com uma visão segmentada do paciente. O cenário da prática médica ocorre no hospital (modelo hospitalocêntrico), com enfoque voltado para os aspectos biológicos das doenças. Até o processo ensino-aprendizagem reflete essa fragmentação, pois o professor é “detentor do saber”, tendo o aluno um papel inteiramente passivo.

A Ciência Tradicional, fundamentada numa ótica cartesiana que separava o todo em partes que evoluíam em um tempo linear, ficou estupefata ante a revolução ocorrida na década de 1.920 com a descoberta do mundo subatômico (quântico). Surgiu um novo paradigma, em que o tempo não mais é linear, onde o espaço é relativo, onde a mente influencia o surgimento da matéria, onde existe a possibilidade real da existência de mais de quatro dimensões em nosso universo e onde todas as coisas existentes estão interconectadas. Surgiu uma forma nova de abordagem em todas as áreas do conhecimento humano.

No bojo dos movimentos sociais e com o advento da medicina preventiva nas décadas de 1.960-1.970 ocorreram duas conferências mundiais em educação médica (1.988 e 1.993 em Edimburgo) e cinco sobre promoção de saúde (1.986 em Ottawa, 1.988 em Adelaide, 1.991 em Sundsvall, 1.997 em Jacarta e 2.000 no México). No Brasil, a VIII Conferência Nacional de Saúde (1.987), o movimento da Reforma Sanitária,  a nova Constituição Brasileira (1.988) e a aprovação de novas diretrizes curriculares para os cursos universitários da área de saúde pelo Conselho Nacional de Educação em 2.001, mudaram o cenário nacional com vistas a promover a saúde integral do ser humano, valorizando prioritariamente as necessidades de saúde da população, com ênfase na ação preventiva.

Entende-se por saúde integral,  pelo conceito da Organização Mundial de Saúde, como um estado de bem-estar psicossomático, social, ambiental e cósmico. Perdemos nossas origens, pois a medicina hipocrática considerava a doença como um desequilíbrio entre as influências ambientais, os modos de vida e os vários componentes da natureza humana, sendo o processo de cura algo que surgiria das profundezas do Ser. Ao médico caberia ajudar, assistir e cuidar dessas forças naturais, dentro de um rigoroso código de ética.

No sentido de reencontrar com as bases originais da prática médica (um cuidar físico, emocional, mental, social e espiritual), propusemos esse resgate em nossa Faculdade, resgate que, longe de ser mágico ou místico, é atual, científico e amplamente pesquisado. Nessa abordagem, a dimensão espiritual seria a dimensão da aceitação do desconhecido, do inesperado, do imprevisível, com abertura, tolerância e diálogo.

A medicina ocidental se defronta hoje com uma infinidade de abordagens estranhas ao seu conhecimento. Na medida em que a medicina oriental se faz conhecida no ocidente, pesquisas surgem em todo o mundo detectando fatos e realidades aparentemente novas. A homeopatia e a acupuntura, que se fundamentam nesse outro paradigma, já são especialidades médicas. Já se pesquisa a influência da fé e da oração na cura. Não a fé do doente, mas a fé de terceiros na cura do doente, desmistificando o simples efeito dito placebo. Pesquisas em neurociência buscam desvendar o mistério do que seja mente e consciência: como surge a consciência das sensações, das percepções e as experiências mentais de expansão da consciência.

Já existe uma fisiologia propondo um sistema mental que envolve o sistema nervoso, o sistema endócrino e o sistema imunológico, estabelecendo as bases da psiconeuroimunologia, a qual sustenta teoricamente a bioquímica das emoções. Já se pesquisa também, como os pensamentos e as emoções alteram os parâmetros biofísicos do Ser e como as tensões musculares, a alimentação correta, a respiração correta e a correção de posturas físicas, influenciam na dimensão emocional e mental do Ser. Mais ainda: como a dimensão espiritual do Ser influencia em todos esses níveis.

Ter espiritualidade é perceber subjetivamente o mundo que nos cerca e reagir a ele. É perceber internamente que podemos ser corpo, mas também somos pura energia, pois, na nova física, partícula (matéria) é onda (energia vibratória) e onda não é diferente de partícula. Ter espiritualidade é perceber o mundo, e o próprio ser humano, nessa perspectiva  integral.

Assim, em 2004-1 iniciou-se a disciplina opcional “Medicina e Espiritualidade”, inserida no currículo de graduação de medicina da UFC e sob a coordenação da Professora Eliane Oliveira. Na disciplina estuda-se a relação Médico-Paciente, tecem-se considerações sobre o novo Paradigma, refletindo sobre a visão de ser humano integral e multidimensional, e que somos em essência seres espirituais, interligados uns com os outros, com o meio ambiente e com o cosmos. Reflete-se acerca de Saúde e Fé, Oncologia e Espiritualidade,  Doença, Cura e Espiritualidade, Psiconeuroimunologia, Meditação, autocuidado, Tanatologia  e experiências de quase-morte. 

 

Categoria: Cláudio Azevedo

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