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Eu sou feliz? O que é a felicidade? É pelo abandono de nossas imperfeições que alcançamos a felicidade. Não se pode superar aquilo que se desconhece possuir. Então o primeiro passo é buscar perceber todas as nossas fraquezas, pois ignoramos quase todas elas, ou simplesmente não as queremos ver. A primeira pergunta a nos fazer é: será que tenho sido honesto comigo mesmo?

 

Só poderemos perceber nossas fraquezas através da análise de nossas ações e reações. Será que minhas reações estão apoiadas pelos meus sentimentos, ou será que tenho motivos por trás dessas ações que não correspondem ao que gostaria de acreditar a meu próprio respeito ou ao que gostaria que as outras pessoas acreditassem que eu fosse. A causa mais profunda de nossa infelicidade é o medo da rejeição: o medo de ser julgado! E esse medo do julgamento, e de uma provável rejeição, dá origem a estratégias de defesa que visam mostrar aos outros o que julgamos que os outros querem ver em nós. Temos medo da dor e da punição: estamos vivendo no futuro. Formamos uma auto-imagem, uma máscara, para evitar uma provável infelicidade.

Diversos filósofos, psicólogos e doutrinas espirituais já descreveram, com sua própria nomenclatura, diversas atitudes de defesa nossas, que escondem uma intenção oculta. A mais freqüente intenção oculta é querer ser bom o suficiente para ser aceito em sociedade. Revestimo-nos de máscaras e representamos papéis, mas permanecemos infelizes, pois embora passemos a acreditar que somos aquilo que representamos, na realidade não o somos.

A auto-imagem que formamos, que visa, primordialmente, ser bem visto, aceito, admirado e respeitado, à primeira vista, nos dá um certo prazer. Por isso fazemos questão de mantê-la. Mas à medida que repetimos o papel de “perfeito”, mais acreditamos sê-lo e mais energia temos que empreender na tarefa de manter essa imagem. O que vão pensar e dizer de mim se descobrirem que não sou nada disso que venho dizendo que sou há anos?? Que vergonha? Nunca mais vão olhar para mim... E assim a auto-imagem, que foi construída devido ao medo, não consegue acabar com o medo, mas o perpetua. E seguimos mantendo uma imagem externa que não reflete em nada aquilo que na verdade somos: seres imperfeitos.

Vemos, então, que existe uma parte nossa, que geralmente se esconde por detrás de perguntas como: “mas não é certo agir com amabilidade e compreensão, sem nunca ter raiva e muito menos demonstrá-la?” Não está certo não ter defeitos e querer ser sempre decente?” Essas perguntas são feitas por nossa máscara (nossa auto-imagem), criada para esconder aquela outra parte que se considera feia e imperfeita: nosso eu inferior. Perguntas dessa natureza mais atrapalham que ajudam, pois embutem um medo de nos vermos como realmente somos. E assim seguimos reprimindo nossas raivas, nossos ciúmes, invejas e negatividades e criando um depósito delas: nosso barril interno de pólvora.

Mas existe uma outra parte nossa que em geral está silenciosa, mas que pode ser acessada quando entramos em silêncio externo e interno. Essa parte, nosso Eu Superior, é capaz de fazer outros tipos de perguntas como: estou realmente em paz fazendo isso? Se estou com raiva agora, o que realmente estou querendo, praticando essa ação? Estou agindo em busca de minha paz ou em busca de demonstrações externas de perfeição e virtude? Essas perguntas são formuladas por aquela parte nossa que sabe, naturalmente, que nosso ego é imperfeito e sofre por isso, não querendo mostrar isso a ninguém. Não haverá solução para a busca do auto-aperfeiçoamento se nosso ego não se aceitar da forma que ele é. Se não conseguir se aceitar e agir consciente de suas imperfeições não haverá um ponto real, uma base firme onde se apoiar o início de nossa autotransformação.

O que fazer então, na prática? A primeira coisa a fazer é observar o surgimento de sentimentos de frustração, fracasso, culpa ou vergonha, (sentimentos que flagram a ação de nossa auto-imagem) e observar o surgimento de sentimentos raiva, inveja, vingança, orgulho, egoísmo ou indolência (sentimentos que flagram a ação de nosso eu inferior). Quando essa observação se torna consciente, já é sinal de que nosso Eu superior, nossa centelha divina, já está atuando. Enquanto não desenvolvermos esses mecanismos internos de auto-observação constante, não poderemos falar de autoconhecimento e muito menos de autotransformação. Observar não é julgar. Se houver julgamento é sinal de que é a nossa máscara quem está observando. O Eu superior não julga, pois não há certo nem errado em nenhuma escolha: há somente escolhas a serem feitas.

É somente após o domínio da capacidade de se auto-observar é que seremos capazes de, verdadeiramente, termos o livre-arbítrio e não mais sermos regidos pelos hábitos de nossa auto-imagem ou pelos impulsos de nosso eu inferior. Observemo-nos, sem nos autojulgar.

 

Categoria: Cláudio Azevedo