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Por Cláudio Azevedo

Extraído de Azevedo, Cláudio; A Caminho no Ser: Uma Visão Transpessoal

da Psicologia no Yoga S?tra de Pat?ñjal?, Editora Órion, Fortaleza, 2.007

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Até agora vimos a importância da auto-observação na detecção e atenuação de todos os nossos desejos por busca de prazer e repulsa de dor (frutos de nossa auto-identificação e ignorância), como pré-requisito para considerarmo-nos entrando no caminho de descoberta de nosso Eu mais profundo. Vimos também que esses desejos são hábitos emocionais e mentais: são vícios presentes em nosso subconsciente e inconsciente que são a fonte ininterrupta de todos os nossos pensamentos. Pat?ñjal? afirma:

 

A Caminho no SeryaegiíÄv&iÄinraex>.2.

yoga? citta-v?tti-nirodha?

(I-2) Yoga é a cessação (nirodha?) [da identificação com] dos processos reativos (v?tti) da mente (citta).

Nossa mente tem padrões reativos já determinados (hábitos) que a habitam subconsciente e inconscientemente. Para podermos ‘visualizar’ nosso Eu mais profundo, que habita em nosso mais íntimo recôndito, faz-se mister que acalmemos a agitação de nossa mente através de abhy?sa (perseverança na prática – estudo e exercícios) e vair?gya (desapego ao visto e ao não visto) YS I:12.

Essa prática da auto-observação já se inicia, no Yoga preliminar (kriy?-yoga? de Pat?ñjal?), em nossas dimensões mais perceptíveis: nosso corpo físico e nossa mente consciente. Quais os hábitos e tendências que eles têm? Quais os vícios posturais de nosso corpo e de que hábitos e complexos mentais eles se originaram? Onde nosso corpo físico está tenso e onde ele dói? Todas as nossas posturas e atitudes mentais e emocionais se refletem em nossas posturas e atitudes físicas e, maravilhosamente, o inverso também é verdadeiro.

A consciência desse fato levou a tradição hindu ao desenvolvimento do Ha?ha Yoga como uma disciplina preliminar para o corpo e para a psique, composta de exercícios e posturas psico-físico-energéticas: os ?sanas. A realização dos exercícios posturais e alongamentos, presentes nessa arte milenar, interfere em bloqueios musculares, liberando energias acumuladas e interferindo na psique (pela própria movimentação de energias sutis que é produzida), além de comprimir pontos específicos do organismo, liberando energias e estimulando centros (cakras) e canais energéticos sutis do organismo (n???s), que vão acarretar alterações hormonais e neuro-endócrinas específicas.

Trabalhar o corpo interfere em nossa mente. Quanto mais agitada estiver nossa mente, mais agitado será o nosso corpo. Mas, inversamente, quanto mais calmo e relaxado estiver o nosso corpo, mais calma e relaxada estará a nossa mente. A consciente reeducação muscular na prática de Ha?ha Yoga, durante o Yoga preliminar (kriy?-yoga?), prepara o corpo para a meditação, pois acalma os processos reativos da mente possibilitando uma auto-observação mais clara.

Essa reeducação também proporciona um novo veículo físico ao praticante, pois desfaz couraças de tensão muscular (e psíquica), hábitos e condicionamentos posturais (e psíquicos), através do alinhamento do corpo físico com uma postura ideal. Esse alinhamento, por si só, pode trazer à consciência todas as tendências (sa?sk?ra) que moldaram a nossa estrutura muscular e óssea, e despertar a intuição, trazendo experiências sensoriais desconhecidas, até então, ao corpo físico.

Mas para o buscador que já venceu as etapas preliminares do kriy?-yoga? e está no caminho do Yoga, Pat?ñjal? apenas recomenda que se busque a posição mais estável e relaxada possível, que seja firme e confortável. Aqui, o objetivo não é mais tanto acalmar a mente, com seus pensamentos, pois se julga que ela já deva estar bastante serena devido à prática preliminar do kriy?-yoga? e dos yamase niyamas. O objetivo agora é preparar o corpo para as longas horas de imobilidade necessárias para que o buscador atinja a visão interna do Eu, pela prática de interiorização: “quando o movimento cessa, o Eu começa a se manifestar... A imobilidade é o altar do Espírito...”.

O ?sana (da raiz sânscrita ‘?s’ que significa literalmente ‘sentar’) deve ser executado de tal forma que não gere desconfortos, com o passar do tempo na prática, que originem reações mentais (v?ttis). Todos os comentadores indicam padm?sana (postura de lótus) ou siddh?sana (postura perfeita) como posturas que devem ser praticadas até que se consiga mantê-las durante longos períodos. O objetivo é manter a postura sem a mais leve tendência a fazer qualquer movimento devido a algum desconforto físico, até que o buscador esqueça o corpo por completo.

  • Padm?sana: sentado com a parte lateral do pé direito sobre a coxa esquerda, o mais perto do abdômen deixando sua planta voltada superiormente, e com a parte lateral do pé esquerdo sobre a coxa direita.

  • Siddh?sana: sentado com a planta do pé direito tocando o lado interno da coxa esquerda, encaixa o pé esquerdo entre a perna e a coxa direita, deixando o seu calcanhar à altura do púbis.

Tanto esse esquecimento quanto a imobilidade acontecem diariamente durante o sono, mas de uma forma inconsciente. O objetivo agora é desenvolver uma prática consciente dessa postura. Outras posições indicadas para a prática da interiorização são: svastik?sana (postura auspiciosa), sthir?sana (postura firme), sukh?sana (postura agradável), sam?sana (postura sem perturbação mental) e até ?av?sana (postura do cadáver) frontal. São posições em que se é possível manter a estabilidade física sem tensão muscular.

Eliminar a tensão muscular pelo relaxamento é imprescindível. O relaxamento é o exercício pleno da força de vontade passiva agindo sobre o corpo físico e é somente assim que o controle do corpo pode passar da mente consciente para a subconsciente, de forma que a consciência perceptiva possa se retirar do corpo sem afetar sua imobilidade, livre para concentrar-se nos processos internos.

O domínio dessa prática só será obtido quando se conseguir mantê-la facilmente por, no mínimo, quatro horas, mas para se atingir a perfeição na prática, Pat?ñjal? afirma que o relaxamento corporal deve levar a mente a não mais focar no corpo, mas, em meditação, no Infinito (ananta) YS II:47.

Outro significado para a palavra ananta é ‘serpente’. Na mitologia indiana, Ananta é o rei das serpentes, em cujo longo corpo, flutuando no oceano e enrolado em si mesmo, o deus Vi??u confortavelmente descansa. Ao mesmo tempo, suas mil cabeças se estendem para cima e se abrem protegendo Vi??u e sustentando firmemente o planeta Terra. Nesse caso, Pat?ñjal? pode estar fazendo referência à energia espiral oculta que repousa na base da espinha, conhecida como ku??alin? ?akt?, como objeto de meditação.

Nesse caso, meditar subjetivamente numa energia espiral ascendendo a partir da base de nossa coluna vertebral, passando por toda a coluna e envolvendo o corpo até chegar ao topo de nossa cabeça (como no princípio do giroscópio), faz manter todo o corpo, que naturalmente tende a inclinar-se para os lados, imóvel, relaxado e ereto sem esforço. A coluna ereta facilita com que a sensação da espiral ascenda pelo corpo e essa sensação, por si só e sem esforço físico, torna a coluna cada vez mais ereta.

Essa sensação da espiral, por si só, já fará com que a consciência saia totalmente do corpo, que permanecerá firme, imóvel e totalmente relaxado, e deixará a mente plenamente serena. Ao mesmo tempo em que a mente se torna plenamente serena, o padrão respiratório se altera, se tornando abdominal, com movimentos lentos e profundos.

No ápice da prática de ?sana (quando se torna perfeito nela) atinge-se um estágio em que nada que afete o corpo físico afetará a serenidade mental obtida YS II:48. O corpo se torna plenamente resiliente à fadiga e à tensão, devido à imensa quantidade de energia assim obtida. Aumenta muito a força de vontade e isso impulsiona, sobremodo, o buscador em direção aos níveis mais profundos de sua mente, em ‘Busca do Eu’.

BIBLIOGRAFIA

  • As referências bibliográficas acham-se assim indicadas: xx:yy, onde ‘xx’ é o número da referência contido na BIBLIOGRAFIA (no final do livro) e ‘yy’ é a página onde se encontra.

  • Quando precedendo ‘xx’ estiver escrito YS, a obra referenciada é o Yoga S?tra de Pat?ñjal?, BG quando for Bhagavad G?t?, VC quando for o Viveka Ch?d?mani, TB quando for o Tattvabodha? e SS quando a obra referenciada for o ?iva S?tra (obra de referência no ?ivaísmo de Cachemira). Nesses casos ‘xx’ é o capítulo e ‘yy’ é o s?tra.

  1. Desikachar, T. K. V.; o Coração do Yoga, Editora Jaboticaba, São Paulo, 2007.

Categoria: A Caminho no Ser

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