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Por Cláudio Azevedo

Extraído de Azevedo, Cláudio; A Caminho no Ser: Uma Visão Transpessoal

da Psicologia no Yoga S?tra de Pat?ñjal?, Editora Órion, Fortaleza, 2.007

Para melhor visualização faça o download das fontes usadas no site: tahoma, tahoma bold, sanskrit98, sanskrit2003

Praticar a verdadeira concentração, ou dh?ra??, implica que já se consegue manter a mente livre de obstruções e distrações e totalmente voltada para o interior (pratyakcetan?) YS I:29. Dh?ra?? é a prática de manter a mente fixa em um objeto, inibindo qualquer atividade associativa vinda de nosso envoltório mental, ou, nas palavras de Pat?ñjal?:

 

A Caminho no Ser

dezbNxiíÄSy xar[a . 1.

de?a-bandha? cittasya dh?ra??

(III-1) Concentração (dh?ra??) [ou perfeita percepção] é a fixação (bandha) da mente (citta) [abstraída dos sentidos] em um ponto (de?a) [ou objeto de concentração].

 

Não é para se ficar surpreso, então, quando a maioria dos iniciantes relata que não conseguem se concentrar durante suas ‘práticas meditativas’. O índice de desistência da ‘Busca do Eu’, depois de algum tempo de prática, não importa qual caminho tenha sido escolhido para isso, é altíssima. O buscador se vê sempre insatisfeito, pensando não ter se adequado à prática, e buscando outras formas de prática. Na realidade ele não cumpriu os passos necessários à sua busca.

No caminho do Yoga, para se conseguir essa perfeita percepção, ou concentração, subentende-se que o buscador já tenha atenuado seus kle?as (pela prática do Yoga preliminar – kriy?-yoga?) e todas as formas de medos, raivas, apegos e aversões (pela prática de yamas e niyamas). Que já atenuou as causas de distração provenientes do corpo físico-energético e do corpo vital (pelas práticas de ?sana e pr???y?ma), desligou a mente das distrações provenientes dos órgãos dos sentidos (através da prática de praty?h?ra), voltou sua mente para seu interior (pratyakcetan?) e já desfez todos os bloqueios (antar?ya) e distrações mentais (citta vik?epa).

Isso é um longo caminho... Mas essas etapas, embora necessárias nessa seqüência, não impedem que sejam praticadas concomitantemente, pois estão todas interconectadas. A melhora na prática de uma delas leva à melhora na prática das outras de uma forma tal que, a evolução se dá como um todo. Por exemplo, o sucesso em, pelo poder da vontade, se conseguir manter a mente voltada para o interior mantendo afastados pensamentos associados a kle?as, automaticamente fecha a porta dos sentidos, sereniza a mente e a respiração e mantém a imobilidade do corpo.

De?a-bandha

Dh?ra?? vem da raiz sânscrita ‘dh?’ que significa ‘sustentar’. É a sustentação da mente, focada em um único objeto (vi?aya). Mas fixar a mente em qualquer objeto ainda permite certa mobilidade da mesma, pois qualquer objeto em que se fixe a mente apresenta inúmeros aspectos a serem observados. Então, na realidade, o ponto em que se fixa a mente é um território limitado (de?a-bandha) por onde a mente ainda se permite percorrer, analisando os diversos aspectos de um mesmo objeto.

Em geral se utiliza diversas técnicas para se praticar a concentração da mente em um único objeto. Até agora vimos Pat?ñjal? citar várias delas. Vamos citá-las novamente:

  1. Exercícios de concentração (o estar presente), como na prática de geração de energia mental (tapas) em kriy?-yoga?;

  2. Auto-observação (dhy?na) YS II:11,incluindo os aspectos físico, emocional, mental, como na prática de sv?dhy?ya em kriy?-yoga?.

  3. A investigação das causas dos kle?as (pratiprasava) YS II:10 pela meditação analítica, como a existente no ‘Pathwork’, na Dinâmica Energética do Psiquismo (DEP) e em ‘Um Curso em Milagres’, visando a descoberta, observação e remoção dos condicionamentos mentais (as próprias crenças);

  4. Auto-observação dos próprios medos, raivas e desejos, na prática de yamas e niyamas YS II:30-32, com a ponderação nos opostos (pratipak?a-bh?vana?) YS II:33-34;

  5. Observar a própria postura física e tensões musculares na prática da imobilidade (?sana) YS II:46;

  6. Focar a mente no Infinito ou na energia espiral oculta sentida na coluna vertebral (ananta) YS II:47;

  7. Observar o próprio padrão respiratório, buscando focar a mente na cessação espontânea da respiração (k??bhaka) YS II:49;

  8. Visualizar mentalmente o fluxo de energia vital nos canais sutis (ou, num estágio posterior, concentrar-se na sensação desse fluxo), durante a respiração;

  9. Focar a mente na luminosidade emitida pelos próprios envoltórios (ko?as) e centros psíquicos sutis (cakras) YS II:52;

  10. Focar a mente nas próprias imagens mentais (pratyaya), tornadas vívidas pela prática de pr???y?ma YS II:53;

  11. Focar a mente nas sensações visuais luminosas ou sons superfísicos percebidos YS I:35-36;

  12. Focar a mente em imagens de homens considerados Encarnações Divinas e em suas virtudes YS I:37;

  13. A constante repetição (japa?) mental do símbolo verbal místico (v?caka?) continuamente novo (pra?ava?), junto com a evocação mental (bh?vana?) de seu (tad) significado objetivo (artha). Ou seja, repetir mentalmente o som O? mentalizando ??vara YS I:24-29.

Na verdade, a prática de dh?ra?? é o exercício constante de suprimir (nirodha) todas as distrações que surgem e manter a concentração mental no território (de?a-bandha) que foi delimitado (no objeto). Dh?ra?? visa reduzir progressivamente as distrações até obter-se a sua eliminação completa. Mas não só isso, visa a aquisição de uma perfeita nitidez da imagem mental que é objeto de concentração. Esse processo dinâmico de gradual desaparecimento das distrações e surgimento da unidirecionalidade é conhecido como sam?dhi pari??ma YS II:11: o objeto de concentração escolhido passa a ser a semente (b?ja) do sam?dhi.

Em geral, é muito difícil manter-se o foco mental em objetos subjetivos ou abstratos, sendo mais fácil iniciar a prática fitando o olhar fixamente em objetos concretos, símbolos ou imagens de ídolos que representem a idéia subjetiva em questão. Então, despertada a capacidade associativa e discriminativa da mente, colocar-se-á o foco mental nas diversas partes do objeto e nas diversas idéias associadas com o mesmo, buscando não tirá-las da mente: isso é concentração no objeto.

Buscando evitar a dispersão da mente, levando-a a imagens mentais que não condigam com o objeto, deve-se manter o olhar fixo nele até esquecer-se do próprio olhar. Concentrar-se na idéia subjetiva por detrás do objeto concreto é uma boa dica. Somente então se fecham os olhos suavemente, mantendo a imagem mental do objeto associado à idéia correspondente. Se a imagem e a idéia subjetiva desaparecerem, simplesmente se reabrem os olhos e se recomeça novamente.

Essa prática é conhecida como tr??aka. Quando se fixa o olhar em algum objeto, as ondas cerebrais naturalmente lentificam-se e pode surgir um estado de sonolência ou de total esquecimento, pelo desligar-se progressivo do cérebro físico. O desafio é manter-se desperto e concentrado no objeto.

Com o tempo se conseguirá manter a imagem mental sem visualizá-la externamente, pois essa imagem estará impressa (sa?sk?ra) na própria mente. Transformamo-nos naquilo em que pensamos, desde que essa prática seja feita com vair?gya (desapego) e abhy?sa: por longo tempo, de forma apropriada e sem interrupção YS I:12-14. Praticar com desapego é praticar sem ficar frustrado com as inumeráveis vezes em que as distrações surgirão como imagem na tela mental.

Quando a unidirecionalidade surge plenamente, ou seja, há completo domínio das distrações em sam?dhi pari??ma, a imagem mental (pratyaya) que surge na mente, em cada espaço de tempo sucessivo (k?a?a), será a mesma. A esse processo mental, Pat?ñjal? denomina ek?grat? pari??ma. Aqui surge uma importante definição, discutida atualmente pela ciência: a descontinuidade do tempo (krama?) YS IV:33.

Todo o Universo aparece e desaparece continuamente num intervalo de tempo tão pequeno (k?a?a), como num filme, que dá a ilusão de continuidade. Assim, ek?grat? pari??ma é uma condição mental onde o pratyaya (imagem mental) que surge é idêntico ao que sumiu no k?a?a anterior: entramos em dhy?na avasth? (estado meditativo).

 

BIBLIOGRAFIA

  • As referências bibliográficas acham-se assim indicadas: xx:yy, onde ‘xx’ é o número da referência contido na BIBLIOGRAFIA (no final do livro) e ‘yy’ é a página onde se encontra.

  • Quando precedendo ‘xx’ estiver escrito YS, a obra referenciada é o Yoga S?tra de Pat?ñjal?, BG quando for Bhagavad G?t?, VC quando for o Viveka Ch?d?mani, TB quando for o Tattvabodha? e SS quando a obra referenciada for o ?iva S?tra (obra de referência no ?ivaísmo de Cachemira). Nesses casos ‘xx’ é o capítulo e ‘yy’ é o s?tra.

 

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