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Por Cláudio Azevedo

Extraído de Azevedo, Cláudio; A Caminho no Ser: Uma Visão Transpessoal

da Psicologia no Yoga S?tra de Pat?ñjal?, Editora Órion, Fortaleza, 2.007

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Enquanto o homem comum, iludido, pensa que o corpo é ele, o homem instruído percebe a existência de um Observador por detrás de seu corpo e de suas ‘máscaras’ e a Grande Alma (um Mah?tma) vê no Absoluto o seu próprio Ser VC:162. Além da necessidade de estarmos cônscios de nossa verdadeira natureza espiritual, à qual os hindus chamam ?tman, devemos ser conscientes de sua Divindade e perceber a Consciência e o Poder cósmicos presentes Nela. Quando surge o verdadeiro conhecimento (prajñ?-?tambhar? YS I:48-49 ou viveka-khy?ti YS II:26), as dualidades irreais ?tman e J?va, e Brahma? e ?tman, criadas pela ilusão, desaparecem.

 

A Caminho no Ser

O Yoga S?tra disserta magistralmente sobre o caminho que devemos fazer até percebermos a Verdade por detrás do mundo manifestado, mas não dá uma idéia clara quanto ao que seja essa Realidade Última: a Consciência e o Poder cósmicos, aos quais o ?aivismo da Cachemira denomina ?iva e ?akt? SS I:5-6. Ele simplesmente utiliza a denominação Kaivalya YS III:51 e IV:34 (Isolamento ou Emancipação) para definir esse estado supremo pelo qual despendemos toda uma vida (ou várias vidas para a doutrina reencarnacionista), dizendo que atingi-lo é o meio de se libertar de todas as misérias da vida humana.

Kaivalya vem da palavra sânscrita ‘keval’ que significa ‘absolutamente um’, sem outros, um estado de não-dualidade. É traduzida como Isolamento porque agora a Consciência (Puru?a), livre das influências do Poder (Prak?ti), age sem a mente (citta) e percebe sem os órgãos dos sentidos (indriyas), não sendo mais perturbado pelo mundo manifestado. Não é um isolamento emocional, mas um Isolamento espiritual da esfera do mundo manifestado: o alvo do Yoga.

O Yoga S?tra dá o mapa dos estágios pelos quais se passa nessa caminhada para além de nosso próprio centro (manobindu), em nirb?ja sam?dhi YS I:51, até atingir a ‘superconsciência numa nuvem de virtudes’ (dharma-megha?-sam?dhi) YS IV:29, penetrando na Realidade Suprema e unindo-se à Consciência Cósmica e a seu Poder Cósmico inerente, mas não esclarece sobre a natureza dessa Realidade ou sobre os métodos para percebê-la e investigá-la. Ou seja, Pat?ñjal? descreve o aspecto negativo de Brahmavidy? (conhecimento divino), de como nos livrar dos kle?as, enquanto o ?iva S?tra descreve o aspecto positivo: a natureza extremamente sutil e perene da Auto-Realização, conhecida como Sat-Cit-?nanda SS III:16.

Mesmo sabendo e percebendo que todas as experiências mundanas são fonte direta ou indireta de du?kha, pois a vida é, inerentemente, sujeita a mudanças (pari??ma), fonte permanente de ansiedades (t?pa), hábitos (sa?sk?ra) e conflitos (gu?av?tti-virodha?) YS II:15, tudo isso não é suficiente para que desperte em nós a Vontade Espiritual para ideais mais avançados. Nunca sonharemos com ideais mais elevados se nunca nos disserem que existe Algo muito mais elevado.

Sem esse conhecimento, o iniciante se resigna com a impermanência de uma vida alternante de alegrias e dores, e o aspirante se conforma em sofrer com as vicissitudes de uma vida de ilusões esperando a compensação nas experiências com o amor humano, com as artes, com a boa música ou até com os prazeres físicos. O iniciado se contenta com os momentos estáticos de êxtase em ampliação da consciência e o iogue se contenta com a onipotência e onisciência obtidos.

Somente o conhecimento da existência de um Supremo estado ampliado de consciência que dá a Suprema Bem-aventurança de Ser e Conhecer (Sat-Cit-?nanda), uma experiência infinitamente superior a qualquer experiência percebida em estados inferiores de ampliação da consciência, é que o caminhante poderá se dispor a sacrificar qualquer experiência agradável de sua vida ilusória no reino de Prak?ti em busca da Suprema Bênção de ultrapassar o Grande Centro (Mah?bindu) e emergir Emancipado no Supremo Oceano Abstrato Imanifesto: a Pura Consciência em estado não-modificado (a citi-?akt? da filosofia Yoga) YS IV:34.

Emancipação (Kaivalya) significa que ?tman, estabelecido em seu próprio Centro e no Grande Centro comum, ultrapassa esse último e emerge na Consciência Pura. É a partir desse Grande Centro que o Poder (?akt?), oriundo do Imanifesto, onde existe em estado potencial, desce e cria a complexa engrenagem de um Universo Manifestado, com o fim de manifestar o Imanifesto (?iva).

“Nesse elevadíssimo Estado, a Consciência da Mônada existe em unificação constante com a Consciência Universal de ?iva, adquirindo todos os atributos e poderes divinos inerentes à Consciência Pura e podendo preencher qualquer função no Universo manifestado como um Adhik?r?-Puru?a”.

Igbal Kishen Taimni (1.898-1.978) 2:25

O ?ivaS?tra descreve problemas espirituais de natureza mais elevada do que aqueles focalizados no YogaS?tra, métodos a serem usados quando se quer entrar em contato com o Poder Cósmico (?akt?) e um método direto para entrar na Consciência Cósmica (?iva) sem passar pelo método que é a base do Yoga S?tra: a inibição das modificações da mente (citta-v?tti-nirodha) YS I:2. Esse tratado parte do pressuposto de que existe um processo reencarnatório e de que existem almas reencarnantes que já passaram pela disciplina do Yoga, estando nos mais diversos estados intermediários de evolução.

Assim, antes de obter a sua Emancipação, o iogue que atingiu a percepção de seu Centro Individualizado (manobindu) ainda está obscurecido pelas sutilezas de moha (como a ilusão mental de apego ao Si-mesmo) e ainda não está apto à completa Liberdade SS III:6-7. Nesse estágio ele está perfeitamente desperto (j?grat) para sua Individualidade (?tman) e cônscio de sua atuação como ator no ‘grande teatro cósmico’, sem ser afetado por seu papel nesse palco SS III:9-11.

Sua evolução, agora, passa por desenvolver esse estado desperto, adquirindo perfeito controle de seu poder de percepção, para aprofundar mais ainda sua interiorização penetrando em Si-mesmo e percebendo-se como um Centro Individualizado da Realidade (dh?va??t) SS III:12, senhor do complexo mecanismo corpo-mente (?ar?ra?) através do qual se manifesta (svatantra-bh?va?) SS III:13. Nesse estágio avançado, o caminhante pode criar, instantaneamente, outros mecanismos corpo-mente temporários de acordo com a sua vontade SS III:14 e até ocupar o corpo-mente de outras pessoas YS III:39.

Aliás, esse poder de criar outros mecanismos corpo-mente separados (nirm??a-citt?ny) YS IV:4 depende de se ter obtido a pura consciência de existência (asmit?-m?tra) atingida no mais alto nível de sab?ja sam?dhi. Toma-se consciência do próprio Centro Individualizado (Mahat-tattvana filosofia S??khya) e, a partir desse Centro YS IV:5-6, através da manipulação de forças sutis pelo processo de sa?yama, o iogue passa a operar simultaneamente nos diversos mecanismos criados, colhendo todos os frutos armazenados e ainda não colhidos (sañcita karma), acelerando o processo de esvaziar toda a própria memória profunda (karm??aya?). Atingiu-se a onipotência relativa ao mundo manifestado.

Esse seu poder, mesmo que incomensurável, ainda não é ilimitado, pois ainda não transcendeu seu próprio centro, emergindo na Realidade Suprema. Ademais, esse próprio poder ainda é causa de escravidão e o iogue ainda está sujeito a limitações sutis que poderão produzir efeitos futuros. Aqui, o próprio Poder Supremo (M?he?vary?dy?), em seu aspecto escravizante da Mãe Divina (Pa?um?tara?), poderá amorosamente, através de sua mágica (m?y?), conservar o iogue escravo do mundo manifestado SS III:19 podendo, inclusive, involuir devido ao apego e orgulho YS III:52.

Mas quando for capaz de, pelo humilde desapegar-se até de sua onipotência e onisciência, manter um foco perceptivo no seu Centro Individualizado (manobindu), esperando que todas as sutilezas de moha se desvaneçam e esse Centro se torne nítido e claro, o iogue conseguirá ultrapassá-lo e emergir na Realidade Suprema YS IV:29. Somente então, tornar-se-á apto a unir-se com o Centro dessa Realidade e adquirir Seus atributos absolutos SS III:25, atingindo com êxito o fim da busca como um atikranta bhavaniya 1:206.

Quem são esses Homens Auto-realizados (j?vanmuktas), livres das limitações de espaço e tempo a que estamos confinados? Com imensos e extraordinários poderes, livre da compulsoriedade de encarnar-se SS III:26 prisioneiro das ilusões e sofrimentos, como é ou se comporta aquele que foi ‘competente’ (Adhik?r?-Puru?a), quando manifestado fisicamente a fim de ajudar a humanidade ainda em evolução?

O j?vanmukta também sente fome, sede, irritação, etc., mas elas são percebidas como algo que está acontecendo na periferia de seu Ser SS III:33. Sua vida continua sendo uma sucessão de eventos, mas Ele não está apegado a nada e apenas assiste ao que se passa como a um divino jogo (l?l?). Numa simples conversa, as respostas vêm-lhe à mente junto com as perguntas, sem passar pelo intelecto racional.

Um j?vanmukta necessariamente não exibe um exemplo de vida espiritual, porque, na verdade, a verdadeira espiritualidade é uma percepção interna individual e não um comportamento externo específico: está ocupado em viver e não em cuidar do externo. O que é autêntico não faz esforço por parecer autêntico, mas cabe ao falso se fazer parecer autêntico nos mínimos detalhes: a coisa mais parecida com a Verdade é a mentira! Um j?vanmukta harmonizou em si mesmo o caminho da transformação interior (nirv?tti m?rga) com o caminho de estar no mundo cotidiano (prav?tti m?rga).

Esse estado integral ampliado de consciência se manifesta exteriormente por uma sensação invisível e não mensurável de paz e felicidade, que é despertada naqueles que se aproximam Dele. Esse efeito intangível, por si só, é capaz de despertar nos outros profundos anseios e insights. Esse é o grande poder exibido por essas Grandes Almas (Mah?tmas) e um voto eterno, assumido como um puro ato de devoção por Elas: sempre voltar ao convívio físico com os caminhantes (?ar?ra-v?ttir-vratam) SS III:26 para repetir a transmissão da Verdade de que Para??tmanse manifesta como ?tmane que são unos SS III:27-29.

Mas quando um Adhik?r?-Puru?a reencarna para alguma missão específica, Ele não mais necessita passar por todo processo disciplinar da filosofia Yoga, pois já atingiram Kaivalya em encarnações anteriores. Nesses casos, existe uma técnica de acesso direto a esse altíssimo estado ampliado de consciência, à qual o tratado ?iva S?tra dedica a sua primeira parte. É um método específico que o ‘relembra’ da capacidade que ele já tem de atingir o estado de consciência denominado no Yoga S?tra de dharma-megha?-sam?dhi YS IV:29.

BIBLIOGRAFIA

  • As referências bibliográficas acham-se assim indicadas: xx:yy, onde ‘xx’ é o número da referência contido na BIBLIOGRAFIA (no final do livro) e ‘yy’ é a página onde se encontra.

  • Quando precedendo ‘xx’ estiver escrito YS, a obra referenciada é o Yoga S?tra de Pat?ñjal?, BG quando for Bhagavad G?t?, VC quando for o Viveka Ch?d?mani, TB quando for o Tattvabodha? e SS quando a obra referenciada for o ?iva S?tra (obra de referência no ?ivaísmo de Cachemira). Nesses casos ‘xx’ é o capítulo e ‘yy’ é o s?tra.

  1. Satchidananda, Swami; Yoga Sutra de Patañjali, Gráfica e Editora Del Rey Ltda., Belo Horizonte, 2.000;
  2. Taimni, I. K.; Shiva-sutra: Realidade e Realização Supremas; Grupo Annie Besant, Rio de Janeiro, 1.982;
Categoria: A Caminho no Ser

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