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A Expansão da Consciência e as Emergências Espirituais

Por Cláudio Azevedo

 

Extraído de Azevedo, Cláudio; A Caminho no Ser: Uma Visão Transpessoal

da Psicologia no Yoga S?tra de Pat?ñjal?, Editora Órion, Fortaleza, 2.007

Para melhor visualização faça o download das fontes usadas no site: tahoma, tahoma bold, sanskrit98, sanskrit2003

         A real busca de todo ser humano é a obtenção de uma felicidade e paz duradouras (reais), que só serão obtidas através de um consciente re-direcionamento de seus desejos, desfazendo hábitos e crenças cristalizados nas profundezas de seu ser e encarando seus próprios apegos e repulsas, sua auto-identificação egóica e o seu profundo medo da morte.

A Caminho no Ser

À medida que avança nesse processo, surge um entendimento e uma re-significação de aspectos de sua personalidade, transmutando-os e levando a sua consciência a um novo patamar, uma nova dimensão interior. A cada vez que isso ocorre, podemos dizer que houve um processo de expansão da consciência, um mais abrangente estado de percepção de si mesmo e do mundo à sua volta, através da aquisição de um discernimento proveniente de suas próprias experiências.

Emergem, de si mesmo, conteúdos antes inconscientes proveniente de diversos níveis transpessoais. Essas conexões da consciência individual com o próprio inconsciente emergente podem se dar tanto de uma forma gradual, enfrentando progressivamente seus medos e sombras por um período de meses ou até anos, tempo necessário para que a pessoa se perceba modificada quanto a seus padrões, valores e visão de mundo, ou através de um influxo expansivo (emocional e energético) e geralmente abrupto da consciência, de tal intensidade que a rotina do dia-a-dia passa a ser por demais opressiva: as Emergências Espirituais.

“As emergências espirituais podem ser definidas como estágios críticos, experimentalmente difíceis e de uma transformação psicológica profunda, que envolve todo o ser da pessoa. Tomam a forma de estados incomuns de consciência e envolvem emoções intensas, visões e outras alterações sensoriais, pensamentos incomuns, assim como várias manifestações físicas”.

Stanislav Grof 1

Aqui, o termo emergência é usado tanto no sentido de crise (urgência) quanto no sentido de ascensão a novos níveis de consciência (surgimento). Na psiquiatria convencional, esses estados geralmente são diagnosticados como distúrbios mentais, mas, se convenientemente entendidos e acompanhados, podem levar a efeitos curativos e altamente benéficos para a pessoa. Na realidade, esses momentos são crises, durante as quais, o processo de crescimento e mudança se torna caótico e muito intenso, ocasionando uma reação do ego a essa experiência.

Essa imersão nas profundezas do inconsciente, se defrontando com sentimentos difíceis e penosos, pode causar opressão, sentimentos de medo, solidão, a impressão de se estar ficando louco ou até fazer surgir preocupação com o tema ‘morte’. Esses sintomas provêm da própria experiência egóica de profunda autopercepção consciente: as ‘noites escuras’ mencionadas por São João da Cruz.

Quando essa experiência, conscientemente, tem um nível de intensidade e profundidade que fica claro para si mesmo, freqüentemente leva, de uma forma dramática, a novos reinos de experiências místicas ou ao despertar de potencialidades adormecidas. Aflora então uma dimensão sagrada com sentimentos de eternidade e amor, êxtase ou paz, ou uma suprema sensação de unidade com toda a criação que pode, por si mesma, gerar grande pânico caso exista uma grande auto-identificação egóica.

“O místico dança ao sol, ouvindo a música que os outros não ouvem. Insanidade? Dizem esses outros. Se for, é uma forma muito gentil e que nos nutre”.

Rumi

Esses estados mentais, conhecidos e vivenciados pelos místicos, freqüentemente são confundidos com desordens psiquiátricas, mas enquanto o místico sabe o que fazer acerca do que está vivenciando o doente psiquiátrico se desintegra mentalmente na experiência. Essas mesmas experiências podem ser vividas por usuários de drogas alucinógenas, sendo experiências muito difíceis de descrever por quem as vive, pois toda e qualquer palavra não consegue fazer sentido nem descrevê-la corretamente. Fazem parte dessa dimensão sagrada as seguintes experiências:

  • Sensação intensa de êxtase, alegria e celebração ou sofrimento, medo e perdição;

  • Sensação noética, entendida como uma nova percepção da mesma realidade ou o acesso a novos conhecimentos: insights com relação à natureza da realidade ou do cosmos;

  • Capacidade perceptiva visual, auditiva e etc. aumentadas;

  • ‘Alucinações’ visuais, auditivas, olfativas, etc., ou ilusões com temas relacionados à mitologia ou à dimensão arquetípica;

  • Perda do Self-object que é a sensação de não estar limitado ao seu corpo, perdendo-se a sensação de um ‘eu’ separado;

  • Sensação distorcida do tempo (como experimentar a eternidade em um instante);

  • Sensação de ser transportado de uma realidade normal para uma nova realidade;

  • Sensação de comunicação e comunhão com o Divino (Deus, anjos, santos, seres de luz, etc.).

Apesar de serem sensações totalmente individuais e únicas, Grof & Grof categorizam e descrevem alguns tipos:

  • Experiências de dissolução do ego (de pico): sensação de bem-estar associada com uma percepção de unidade com a humanidade, com a natureza (uma árvore, por exemplo), com o cosmos, com Deus;

  • Despertar da ku??alin?: sensação espiral de calor (ou frio) subindo pela coluna a partir de sua base coccígea, trazendo inúmeras repercussões psíquicas à medida que ascende e energiza centros psico-energéticos específicos (cakras), descritos na literatura vêdica hindu;

  • Experiências de Quase-morte: acontecem quando há morte clínica do corpo físico (parada cárdio-respiratória e cerebral), mas a consciência permanece ativa. Estudos mostram que essas pessoas passam por, no mínimo, três estados psicológicos. Inicialmente ocorre uma resistência e luta devido ao temor de perder o controle, perder a vida. Aceito o inevitável, surgem lembranças na forma de revisão de toda a vida passada, nos mínimos detalhes: fora do espaço-tempo, cada pessoa vê toda a sua vida lhe passar como num filme, mostrando-lhe todas as causas e efeitos que estiveram em ação na sua vida, vendo-se de fato sem as Máscaras. Ela sente e conhece toda a justiça de todo o sofrimento que o afligiu. É um insight retrospectivo da vida que se levou. Em seguida, para alguns, vem uma experiência mística de êxtase e transcendência.

  • Emergência de Memórias de Vidas Passadas: surgem pensamentos que podem ser categorizados como lembranças, devido à sensação de se ter participado deles. A filosofia Yoga (Yoga dar?ana) memória inconsciente profunda (karm??aya?), a qual não se extingue após a morte do corpo físico. Para quem não aceita a possibilidade de reencarnação, essa experiência pode ser encarada como um acesso à dimensão transpessoal do Inconsciente Coletivo. afirma que todos os nossos pensamentos, desejos, sentimentos e ações ficam registrados na

  • Integração Bem x Mal: percepção ampliada de unidade, em que se transcendem as noções de certo ou errado, ou bem e mal, pois se percebe o ‘bem’ dentro de cada ‘mal’ e o ‘mal’ dentro de cada ‘bem’. Então se passa a perceber que todas as experiências são internas, que tudo somente consiste de percepções mentais com seus sentimentos associados. Quando se é consciente de que todas as dores e alegrias são apenas os próprios processos mentais, e se consegue inibi-los, é plantada a semente da equanimidade.

  • Crises Xamânicas: geralmente estão associadas com o surgimento de doenças desconhecidas (geralmente de cunho neurológico ou psiquiátrico) que levam a uma total inconsciência (ou estado de coma) ou a sofrimentos físicos (ou psicológicos) intensos. Nesse estado surgem sonhos repletos de mensagens (o tema subjacente geralmente é o da morte e renascimento), premonições, visões de morte ou aniquilação pessoal, geralmente envolvendo um encontro de forças de decadência e destruição seguidas de reconstituição física. Então, de forma inexplicável, se desperta curado. A doença torna-se, assim, um veículo para um plano mais elevado de consciência, em que o xamã percebe que a energia dele é muito maior do que ele percebia e, aliando sua experiência ao conhecimento sagrado recém-adquirido, ele passa a curar realizando mudanças no mundo dos homens. Em culturas nativas é compreendido que a crise xamânica reflete o mais alto chamado e nela está sua natureza curadora e benevolente. O mesmo é verdadeiro sobre o despertar da ku??alin?, como é descrito na literatura do Yoga, sendo enfatizado, em ambas as literaturas, que resistir ao processo pode ser muito perigoso.

  • Percepções Extra-sensoriais: surge a capacidade de poder acessar às três dimensões temporais (gerando retrocognição, clarividência e pré-cognição) e ter visão à distância, tópicos estudados pela parapsicologia, podendo fazer também, à semelhança do xamã, ‘viagens’ por outras dimensões do espaço (mundos paralelos) e até interferir diretamente sobre a matéria (fenômenos de telecinese). Essas capacidades tanto podem ser conseqüência de práticas espirituais como serem espontâneas e precursoras do processo de abertura espiritual. A literatura do Yoga é repleta de descrições acerca dessas capacidades obtidas (siddhis).

  • Mediunidades e Canalizações: a capacidade de se comunicar, através do pensamento, psicografia ou audição superfísica, com seres de outras dimensões transpessoais de consciência.

  • Experiências com OVNIS: David Lukoff relatou, em sua palestra no IV Congresso Internacional da Associação Luso Brasileira de Transpessoal (ALUBRAT), que cerca de 1% da população norte-americana relata ter sido vítima de abdução e 15% relata ter visto OVNIs. A pesquisa ufológica no Brasil é particularmente séria e os fenômenos de comunicação, em geral, são os mesmos envolvidos na mediunidade e canalização, embora os relatos de encontros físicos e seqüestros por espaçonaves também sejam freqüentes e motivo de fortes alterações psicológicas e espirituais.

  • Estados de Possessão: David Lukoff ressalta que 80% das religiões do planeta crêem em possessões, havendo sérios estudos a esse respeito na comunidade espírita brasileira. Em geral a pessoa sente-se invadida por um tipo de energia estranha e hostil, acarretando os mais diversos transtornos psicológicos e espirituais.

As experiências de emergências espirituais podem ser desencadeadas por:

  • Fatores físicos: doenças, acidentes, esforço físico extremo, insônia, experiência sexual intensa;

  • Fatores Emocionais: perdas de pessoas, fracassos, experiências com alucinógenos, psicoterapias experienciais, pânico;

  • Fatores Espirituais: meditações ou outras práticas espirituais ativadoras.

Há semelhança, em vários níveis da fenomenologia, com diversas psicoses, mas, ao contrário dessas últimas, as emergências espirituais (ou crises de transformação), em geral, apresentam um bom prognóstico. Os critérios para isso são:

  • Bom funcionamento prévio (bom relacionamento pessoal, escolar, etc.) e ser desencadeado por estresse;

  • Os sintomas aparecem agudamente (3 meses ou menos);

  • Atitude exploratória positiva: atitude curiosa sobre a própria experiência, se outros passaram pelo mesmo, e não uma atitude de medo, paranóia ou desorganização conceitual a respeito;

  • Não ser um significativo risco para si e para os outros.

 

Psicoses

Emergências Espirituais

Deterioração da consciência e da memória.

Mudanças na memória e consciência, mas sem deterioração.

Confusão e desorientação

Capacidade de se comunicar preservada.

Antecedentes de dificuldades interpessoais.

Antecedentes normais.

Desorganização, descontrole, incoerência.

Distinção entre o interno e o externo; coerência nos insights, sincronicidades.

Confusão e abandono de si.

Aceita ajuda e preserva cuidados com a própria alimentação e higiene.

Desconfiança e hostilidade.

Confiança e ausência de auto e hetero-agressividade

 

Vejamos então cinco orientações que podem nortear a conduta, perante um cliente com uma crise de emergência espiritual:

  • Acolher e criar um continente terapêutico. Mostrar que sua experiência está inserida no contexto de experiências espirituais, como forma de dar a ela um mapa cognitivo do que está acontecendo e ajudá-la a encarar, sem medo, a própria crise. Aqui, é essencial o preparo do profissional, de forma que ele possa acolher o cliente de uma forma compassiva e compreensiva, aceitando o quer que venha do seu inconsciente. A atitude, em geral, é considerar que as pessoas estão ‘malucas’ demais para falarem. É o oposto, falar ajuda a sair do mental e trazer a pessoa para a realidade física:

  1. Contar a história – a maior parte desses clientes, ao ser internado num hospital psiquiátrico, não consegue a atenção dos demais, aliás, nem podem contar suas histórias;

  2. Investigar heranças simbólicas, espirituais e culturais que a pessoa tenha; e

  3. Criar uma nova mitologia pessoal através dos símbolos pesquisados.

  • Reduzir a estimulação ambiental e inter-relacional, bem como parar com todas as práticas espirituais que porventura possam ser associadas com a crise. Deve-se encorajar atividades artísticas, como desenho, fotografia, pintura (mandalas), argila, dança ou poesia, inclusive nas sessões terapêuticas, como forma de fazer ‘ground’, mantê-lo no aqui-e-agora presente. Encorajar o paciente a expressar suas vivências de alguma forma, particularmente pela arte. auxilia a expressar o que se pensa e se sente, permitindo ao cliente certa distância da experiência. Ajuda muito manter o contato visual com o paciente (ground de olho), para ele não fugir para seu mundo interno;

  • Atividades físicas leves, como caminhadas na natureza, jardinagem, etc., também são muito bem vindas, como forma de acalmar o cliente, gastar a energia excedente que aflora e manter o contato da mente com a dimensão física da realidade, ‘enraizando-o’;

  • Recomenda-se instituir uma mudança alimentar para uma forma mais ‘pesada’ (que inclua integrais, lácteos, leguminosas e carnes), pois o jejum leva algumas pessoas a esses estados. Frutas, sucos e saladas não são alimentos que enraízam. Deve-se também evitar o açúcar, o café e o álcool;

  • A medicação pode ser útil em casos específicos (embora seja controverso o seu uso), para reduzir a intensidade da experiência a níveis aceitáveis.


BIBLIOGRAFIA

  • As referências bibliográficas acham-se assim indicadas: xx:yy, onde ‘xx’ é o número da referência contido na BIBLIOGRAFIA (no final do livro) e ‘yy’ é a página onde se encontra.

  • Quando precedendo ‘xx’ estiver escrito YS, a obra referenciada é o Yoga S?tra de Pat?ñjal?, BG quando for Bhagavad G?t?, VC quando for o Viveka Ch?d?mani, TB quando for o Tattvabodha? e SS quando a obra referenciada for o ?iva S?tra (obra de referência no ?ivaísmo de Cachemira). Nesses casos ‘xx’ é o capítulo e ‘yy’ é o s?tra.

  1. Grof, Stanislav & Bennet, Hal Zina; Mente Holotrópica: Novos conhecimentos sobre a psicologia e pesquisa da consciência; Rio de Janeiro, Editora Rocco, 1.992.
Categoria: A Caminho no Ser

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