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Por Cláudio Azevedo

Azevedo, Cláudio; A Caminho no Ser: Uma Visão Transpessoal

da Psicologia no Yoga S?tra de Pat?ñjal?, Órion Edições, Fortaleza, 2.007

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Síntese baseada em dados colhidos, principalmente, na obra Kriya Yoga 1 de Paramahansa Hariharananda, mas também nas notas de rodapé de Humberto Rohden 2 e nas palavras de Svami Satchidananda3 e de Paramahansa Yogananda 4.

 

Vimos particularidades acerca do termo Kriy?-Yoga e vamos nos deter agora na tradição do Kriy?-Yoga que vem de Lahiri Mahasaya, divulgada no ocidente por Paramahansa Yogananda. Em sua essência, o Kriy?-Yoga nos leva a um fácil controle da respiração e ao despertar progressivo da ku??alin?-?akti, nossa energia espiritual latente e situada na base de nossa coluna vertebral, que nos capacita a compreender a presença viva do Ser que nos habita e que passa a agir por nosso intermédio.


A Ku??alin?-?akti

 

A Caminho no Ser      A força vital (pr??a), manifestada no ser humano, se move ao longo de condutos denominados n???s. Normalmente o fluxo da força vital, no eixo cérebro-espinhal, se faz no sentido descendente, a partir do tronco cerebral, passando pelos cakras e se distribuindo pelo corpo e seus órgãos sensoriais. O número total de n???s varia, segundo diversas literaturas, mas todas concordam em três (su?um??, i?? e pi?gal?)  kandak?nda, ou bulbo, estrutura energética oval situada no períneo. como sendo as principais, tendo origem no

Os canais i?? e pi?gal? percorrem, numa espiral ascendente, o espaço em volta de su?um??, a partir do m?l?dh?ra cakra (no períneo) até chegar no ?jna cakra (entre as sobrancelhas - Cf. em cakras). Com a prática do Kriy?-Yoga, i?? e pi?gal? separam-se de su?um?? 1:110 e a energia flui diretamente por esse último canal central, desfazendo, progressivamente, os seus três nós (constrições bioenergéticas que impedem a ascensão da ku??alin?-?akti):

  • Brahm?-granthi: que se estende pela região entre o sv?dhi??hana e o ma?ipura cakras;

  • Vi??u-granthi: que se estende pela região entre o ma?ipura e o ?jna cakras; e

  • Rudra-granthi: que se estende pela região entre o ?jna e o sahasr?ra cakras.

São essas constrições que fazem com que o pr??a e a ku??alin?-?akti se direcionem para o corpo, para os órgãos dos sentidos e para os órgãos sexuais. À medida que se consegue retirar o pr??a dos órgãos dos sentidos e redirecioná-lo para cima, através de su?um??, paulatinamente se alargam essas constrições.

Quando Brahm?-granthi se abre a ku??alin?-?akti ascende, se movimentando até o início do Vi??u-granthi, no ma?ipura cakra, e acompanhando e reforçando o fluxo ascendente de pr??a. Quando isso ocorre, o fluxo vital passa a se fazer em sentido inverso, tanto nos cakras quanto no próprio eixo cérebro espinhal 1:115.

Há uma grande relação entre annamaya? ko?a e m?l?dh?ra cakra (auto-preservação; raiva e medo), entre pr??amaya? ko?a e sv?dhi??hana cakra (preservação da espécie; prazer e dor) e entre manomaya? ko?a e ma?ipura cakra (relacionamento social; poder, apego e crenças mentais). A mente se forma no ma?ipura cakra e enquanto sua atuação no m?l?dh?ra cakra nos dá a autopercepção física, sua permanência no sv?dhi??hana cakra nos dá a autopercepção sinestésica (sensações de prazer e dor).

A ativação desses três centros (cakras) pela ku??alin?-?akti ativa e potencializa os seus aspectos predominantes, suas impressões e tendências subliminares (sa?sk?ras), daí a importância da purificação desses ko?as, antes que a ku??alin?-?akti se erga a partir de kandak?nda. Com a evolução espiritual, a mente se retira dos dois centros inferiores e se mantém focada em si mesma, em manomaya? ko?a (no ma?ipura cakra). Isso faculta ao buscador obter a superconsciência.

Quando a mente, plenamente perceptiva e consciente, ultrapassa seu próprio centro, o buscador atinge o estado de cessação espontânea da respiração (pr???y?ma), atinge o an?hata cakra e passa a perceber uma Presença dentro de si, no ‘coração do coração’ (h?daya) YS III:35. Atinge-se a consciência do vijñ?namaya? ko?a. Quando se percebe a Presença, naturalmente, e de forma intensa, se desenvolve aquele sentimento de saudade (bhakti): há quanto tempo estivemos, inconscientemente, separados dessa Presença, do nosso real Ser!

Se mantivermos esse estado ampliado de consciência, cônscios da Presença do Ser, perceberemos luz por toda parte e atingiremos a vacuidade de ?nandamaya? ko?a: experimenta-se o vazio (?k??a) vibrando por todo o Universo. É um sinal de que se alargou o Vi??u-granthi 1:110 e a ku??alin?-?akti atingiu o vi?uddha cakra. Nesse ponto tomamos consciência de que essa Presença é a Luz da Divina Consciência Cósmica, brilhando em nosso íntimo, no Reino Manifestado do Vazio (sa?prajñ?ta asmit? sam?dhi), e nos orientando no reto caminhar. Então se deve retornar, purificando cada um dos cakras inferiores.

Aprofundando-se nesse ?k??a, atinge-se o ?jna cakra e percebe-se o cid?k??a: o primeiro de cinco estágios de vazio, experimentados pela prática. Entre esse ponto e o sahasr?ra cakra, existem três ?k??as: par?k??a, dar?k??a e ?tm?k??a. Mas o maior estado de ampliação da consciência, em dharma-megha?-sam?dhi, só será atingido quando se ultrapassar o último bloqueio energético em su?um??, o Rudra-granthi, e se passar a perceber, constantemente, a Presença Divina acima do topo da cabeça 1:111, no último estágio do ?k??a: a plenitude do mah?ka?a.

 


Os Kriyas

Kriy?-Yoga é uma prática espiritual baseada no controle respiratório 1:147. Sua principal técnica é o pr???y?ma 1:89, aliás, ele é uma forma de pr???y?ma 1:119. Através da visualização do fluxo respiratório ocorrendo na própria medula, durante o contínuo inspirar e expirar 1:78-79, como um fluxo de energia (pr??a) circulando na medula em movimentos de ascensão (dorsal) e descenso (ventral) 1:141, se transforma o eixo cérebro-espinhal num magneto, com o pólo positivo na caverna divina (o terceiro ventrículo cerebral ou caverna de Brahma?) e o negativo no plexo coccígeo.

 

“As glândulas pituitária e pineal, situadas nos lados opostos da caverna, são os pólos positivo-negativo do conhecimento do Self: solar/lunar; masculino/feminino; K???a/Radha” 1:214... “A letra ‘ham’ está na glândula pituitária e ‘sa’, a última letra, no centro do cóccix... O corpo denso é ‘ham’ e o poder de Deus é a alma, ou ‘sa’ 1:123... Quando o ar é expirado pelo nariz ele é ‘ham’ e quando é inspirado é ‘sa’”. 1:124

Paramahansa Hariharananda

 

Ao contrário das técnicas respiratórias do Ha?ha Yoga, onde existem retenções inspiratórias e oclusões das narinas, a técnica respiratória do Kriy?-Yoga consiste apenas de uma respiração profunda e relaxada 1:96, feita de uma forma naturalmente lenta, semelhante ao sono, focando a mente no ato espontâneo e natural de inspirar 1:101. Isso naturalmente produz uma pausa expiratória espontânea (kevala k??bhaka), relaxa o corpo e acalma a mente: “é a mente quem comanda os cinco sentidos, e quem governa a mente é a inspiração profunda” 1:135. Sob orientação de um mestre, se a inspiração profunda e regular for realizada durante quinze minutos 1:137, o primeiro efeito perceptível será uma sensação de peso no topo da cabeça 1:99.

Esse fluxo vital circulando na medula, nem que seja por uma única vez, já é suficiente para acarretar mudanças físicas e mentais que normalmente só ocorreriam após um ano de qualquer outra prática 1:117. A percepção da coluna como um atrator magnético se dá pela percepção de uma serena felicidade, sentida no interior da coluna vertebral e por sensações energéticas vagas, ou luminosas, ou de frio (ascendente) e calor (descendente), percorrendo a coluna durante a respiração. Esse estado mental é conhecido como ?ubheccha sam?dhi.

 

“Na verdade... não é a respiração comum que circula pela coluna vertebral [e nem poderia ser]. A intensa força vital que resulta da transmutação da respiração é [que é] mentalmente direcionada pela visualização e pela força de vontade para circular para cima e para baixo pela coluna num movimento contínuo”. 1:118

Paramahansa Hariharananda

 

Com a perseverança nessa prática, conhecida como primeiro kriy? 1:112, ocorre a ascensão da ku??alin?-?akti a partir do centro coccígeo, conjuntamente com o movimento da energia vital, e o kriy?-yukt?? (buscador engajado na prática de Kriy?-Yoga) passa a perceber continuamente o divino O?, manifestação conhecida como an?hata dhvani, e desenvolve mumuk?utva?, o desejo firme e indomável de evolução espiritual. Segundo Paramahansa Hariharananda, esse som pode ser ouvido de inúmeras formas 1:118: como um estrondo ou o som de uma concha, um zunido de um mosquito ou o zumbir de uma abelha, um sino ou um gongo, um rugido ou uma tempestade, um violino ou uma flauta, ou qualquer combinação desses ou de outros sons. É ouvir o motor do Universo funcionando.

O atrator cérebro-espinhal passa a funcionar retirando eficientemente a mente e a corrente vital (pr??a) dos sentidos e dos músculos e concentrando-a na medula espinhal. Atinge-se, naturalmente, o estágio de praty?h?ra e, dessa forma, se aprofunda o processo de introspecção (pratyakcetan?) e se torna mais perceptível, em si mesmo, impressões sutis normalmente reproduzidas na medula e no cérebro. O objetivo principal do bahira?gayoga é atingir um estado introspectivo, e Kriy?-Yoga é uma ferramenta aceleradora desse processo, tornando o s?dhana mais bem sucedido.

Dois mudr?s são importantes nesse ponto da prática do Kriy?-Yoga: o mah?-mudr? e o jyot?-mudr?. O mah?-mudr? é uma técnica simples do Ha?ha Yoga, que visa alinhar a coluna vertebral para que o fluxo de pr??a, durante a prática do primeiro kriy?, possa fluir mais apropriadamente e atinja de uma forma equilibrada todas as partes do corpo. Quando realizados conjuntamente (primeiro kriy? e mah?-mudr?), acelera-se a regeneração atômico-molecular e a nutrição celular e despertam-se outras percepções supra-sensoriais ainda latentes. Já quando se pratica o jyot?-mudr?, os cinco sentidos se revertem e pode-se perceber uma luz azulada ou branca na fronte. 1:138

Duas outras sensações, além da sensação do divino O? como um som percebido no topo da cabeça, também passam a ser percebidas: a visão de uma luz brilhante reproduzida pelo mesencéfalo, que se destaca na tela mental enquanto estamos de olhos fechados, e uma sensação de movimento descendente, do alto em direção ao chão 1:137, que provoca uma sensação de peso na região frontal, mais intenso na região entre as sobrancelhas, e, a partir do eixo cérebro-espinhal 1:107, se transforma em uma sensação vibratória que nos percorre todo o corpo 1:79.

Essas sensações têm a capacidade de manter nossa percepção focada (dh?ra??) por tempo suficiente, para que alcancemos o estado meditativo (dhy?na avasth?). Essa experiência é o alvorecer de nossa consciência intuitiva e a primeira percepção do divino que o buscador alcança. A percepção do som (pra?ava? ?abda), da luz (jyot? dar?ana) e da vibração (kampayati), na realidade, é a percepção das qualidades divinas que o kriy?-yukt?? possui dentro de si mesmo 1:59.

Nesse ponto, de acordo com a sua evolução, o kriy?-yukt?? se torna apto a receber uma nova instrução (o segundo kriy?): a prática do controle da ascensão da ku??alin?-?akti 2:35 pelo eixo cérebro espinhal, produzindo sons, luzes e vibrações específicas, à medida que passa por cada cakra 1:112. Com o tempo de prática, o kriy?-yukt?? será capaz de perceber toda e qualquer alteração nos cakras, reconhecendo de qual deles se trata e neutralizando-a quando necessário. Uma sensação de vácuo passa a tomar conta do cérebro, num estado mental conhecido como vic?ran? sam?dhi 1:113.

O Mantra Yoga também está presente no Kriy?-Yoga, através do japa? (repetição mental de certos sons-semente). Enquanto se percorre mentalmente cada cakra, subindo (na inspiração) e descendo (na expiração), e se mantém o foco mental no O? interno 1:92, se repetem determinados sons: o terceiro kriy?. O objetivo é desviar toda a energia vital para o terceiro ventrículo cerebral, mantendo a mente ‘vagando’ no vazio cerebral.

Enquanto a energia se movimenta no interior do cérebro (pelo tronco cerebral, hipófise, tálamo, hipotálamo, cerebelo e pineal), a mente vagueia pelos cinco vácuos do crânio 1:133, experimentando e percebendo diversas e variadas luzes girando e se movimentando de cima para baixo, em asa??akti sam?dhi 1:113.

A iniciação mais elevada é o quarto kriy?, quando o kriy?-yukt?? experimenta o mais alto nível de sam?dhi e atinge Kaivalya em dharma-megha?-sam?dhi.


BIBLIOGRAFIA

1. Hariharananda, Paramahansa; Kriya Yoga; Lótus do Saber, Rio de Janeiro, 2.006;

2. Rohden, Humberto; Bhagavad Gita: a Sublime Canção; Editora Martin Claret, São Paulo, 2.000;

3. Satchidananda, Swami; Yoga Sutra de Patañjali, Gráfica e Editora Del Rey Ltda., Belo Horizonte, 2.000;

4. Yogananda, Paramahansa; Autobiografia de um Iogue, Editora Lótus do Saber, Rio de Janeiro, 2.001.

Categoria: A Caminho no Ser