Avaliação do Usuário
PiorMelhor 

Por Cláudio Azevedo

Extraído de Azevedo, Cláudio; A Caminho no Ser: Uma Visão Transpessoal

da Psicologia no Yoga S?tra de Pat?ñjal?, Editora Órion, Fortaleza, 2.007

Para melhor visualização faça o download das fontes usadas no site: tahoma, tahoma bold, sanskrit98, sanskrit2003

Não nascemos humanos, mas nos tornamos humanos quando investimos na busca da individuação, do ego em rumo do Ser, para caminhar Nele e ter Nele o seu Ser: prosseguir ‘a caminho no Ser’.

Quem sou Eu? Embora pareça ser uma sofisticada interrogação, proveniente de uma mente civilizada e evoluída, essa busca sofisticada por um Eu que sobreviveria à extinção do corpo físico é muito antiga.

 

A Caminho no SerOs fósseis encontrados na Europa e na Ásia atestam que o homem de Neanderthal (Homo sapiens – entre 150 e 35 mil anos atrás) e o homem de Cro-Magnon (Homo sapiens sapiens – há cerca de 35 mil anos atrás) já tinham alguma forma de ‘Busca do Eu’ baseada na sensação íntima da existência de uma vida após a morte. Sepultavam seus mortos na posição de quem está dormindo (ou na posição fetal), com a cabeça pousada sobre uma pedra, lançavam pó de ocre, que tem a cor da vida (pardo, amarelo, vermelho, castanho...), e colocavam flores, alimentos, armas e instrumentos diversos, que serviriam para o ‘Eu’ na viagem para o além.

Pinturas rupestres em Altamira e Lescaux, datadas de 20.000 a.C., também são sinais dessa busca 1:31. A própria cultura xamânica reflete essa realidade, onde os xamãs sempre alegaram contatos mentais, através de estados ampliados de consciência obtidos pelo uso de ervas, chás ou fumo, com entidades supranormais, almas de mortos, espíritos de plantas, animais, rios, montanhas, etc..

O mais antigo, completo e complexo relato acerca dessa ‘Busca do Eu’, através de estados ampliados de consciência, remontaria no mínimo há 8 mil anos, provindo da tradição oral da Antiga Índia (?ryavarta ou Bharatavar?a), e teriam sido escritos a partir de 4.000 a.C.. Essa cronologia provém das datações de esculturas de deuses vêdicos, descobertas, a partir de 1.970, nas escavações arqueológicas indianas de Mehrgarh. No antigo mundo oriental, essa busca sempre fez parte da própria cultura do povo, haja vista a influência da filosofia hermética do antigo Egito, da filosofia taoísta na China e Xintoísta no Japão, e do tantrismo vai??ava, ?aivista e ?akt?sta, cultura vêdica e budismo na Índia, por exemplo.

Provenientes das antigas escolas de mistério do Egito Antigo, esses experimentos com estados ampliados de consciência eram uma constante no Oráculo de Delfos. Estima-se que o oráculo de Delfos tenha começado a funcionar ao fim do segundo milênio antes de Cristo, isto é, entre 1.200 e 1.100 a.C., segundo extenso testemunho do famoso sacerdote de Apolo conhecido como Plutarco (46-120 d.C.).

Já a doutrina da reencarnação e a noção do daemon (sábio ou conhecedor) de um homem, como o lado espiritual da alma, distinto do lado puramente humano, ensinados nas escolas pitagóricas (séc. VI a.C.), tiveram uma clara influência do pensamento vêdico hindu. O daemon seria como um anjo no homem, de uma beleza quase divina, um guia interno capaz de nos tornar como os Daemons, seres incorpóreos com poderes especiais, situados entre os deuses e os homens.

Esses Daemons, super-homens, são conhecidos por todas as tradições. São Seres Superiores que atingiram o ‘céu’ ou ‘nirvana’, níveis transpessoais da existência, e, conscientes de sua imortalidade, decidiram ficar junto à humanidade ajudando-a e inspirando-a. São os Santos, citados no Credo dos Apóstolos da Igreja Católica (que vivem em comunhão), os ‘Homens Perfeitos’ relatados na Bíblia (Gn 6:9 Gn 17:1; Dt 18:13; I Cr 28:9, I Cr 29:19, II Cr 16:9, Jb 9:20s; I Rs 11:11; I Rs 15:3; II Rs 20:3; Is 38:3; II Cr 15:17; I Cor 2:6, Fl 3:12, Cl 1:28 e II Tm 3:17), os Arhats e Bodhisattvas budistas, os R?ja-iogues indianos, os Imortais (Mestres Celestiais) taoístas, o ideal Chun Tzu (Homem Superior) confucionista, os Mah?tmas da teosofia, os discípulos de R?ma que subiram com ele, os profetas do Judaísmo, etc..

No mundo Ocidental, foi na Grécia Antiga que alguns filósofos iniciaram cogitações sobre a alma (psiqué) humana, destacando-se Sócrates (469-399 a.C.), Platão (428-348 a.C.) e Aristóleles (384-322 a.C.) como grandes precursores, grandes filósofos que criaram a base para a psicologia ocidental. Platão (428-348 a.C.) explicava que o homem é composto de um corpo mortal (Soma), um instinto animal irracional (Anoia), uma alma mortal separada (Psiqué) e um princípio ‘imortal’ (Nous). Nous excede à psiqué e esta é mais divina que o corpo. A composição de Nous com Psiqué constituiria a razão (o princípio da virtude e do vício) e de Anoia com a Psiqué a paixão (o princípio do prazer e da dor).

Para Jean-Yves Leloup, haveria três dimensões principais no ser humano (Soma, Psiqué e Nous) que seriam interpenetradas por uma quarta dimensão, essa sim imutável, chamada Pneuma (em grego), Ruah (em hebraico), ou Espírito (em latim) 3:33. Essa seria a nossa Essência, fonte de nossa saúde e dimensão da Eternidade: “aquilo que resta quando já não resta mais nada...”.

O pensamento cristão também concordava com essa idéia. Cristo Jo 2:20ss e São Paulo I Cor 3:16I Cor 15:44-45 compunha o homem com um corpo natural, uma alma vivente e um espírito vivificante: afirmavam a existência de um corpo, templo do espírito, que servia de habitação à alma. Assim, São Paulo

“Amarás o Senhor teu Deus de todo teu coração, de toda a tua alma e de todo teu espírito”. Mt 22:37

Com o domínio secular católico, os poderes ocultos do homem, alguns deles muito bem descritos nos evangelhos cristãos como atos do Espírito Santo (manifestações no plano físico da ação da alma humana consciente de seu Eu, após árdua disciplina espiritual de elevação da consciência a níveis mais ampliados de sabedoria), passaram a ser tolhidos e as pessoas que os manifestavam passaram a ser perseguidas pela Igreja Católica como bruxos e feiticeiros.

Esqueceram-se de que o próprio São Paulo considerava a existência de um rápido caminho (pois “... a julgar pelo tempo, já devíeis ser Mestres” Hb 5:12), que se trilha ficando "arrebatados fora dos sentidos por Deus" II Cor 5:13, conduzindo a um estado iluminado Hb 6:4: “à medida da estatura completa de Cristo” Ef 4:13 e Hb 6:1. A partir de então, toda e qualquer manifestação ou fenômeno sobrenatural do daemon interno das pessoas passou a ser considerado como expressão do mal (demoníaco) e condenada pelo Tribunal da Inquisição através de manuais próprios, como o Malleus Maleficarem (1.484).

Com René Descartes (1.596-1.650), o pai do racionalismo moderno, surgiu o pensamento de que todos os fenômenos observados seriam causados e redutíveis aos seus elementos e todas as explicações seriam redutíveis às suas causas. Não haveria nada que pudesse ser denominado sobrenatural. Assim, Francis Bacon (1.561-1.626), rosa-cruz e alquimista, também sugeria que ‘superstições e semelhantes’ não deveriam ser excluídas das pesquisas. Ele prosseguiu com sua investigação dos sonhos telepáticos, da cura psíquica, e da influência da mente imaginativa no resultado do lançamento de dados: o fenômeno da sorte individual.

Mas foi com Isaac Newton (1.642-1.727) que se dissociou objetividade de subjetividade, razão de coração, ciência de consciência e o homem passou a ser, definitivamente, encarado como um homem-máquina, habitando um universo-máquina determinista. Surgia o racionalismo científico moderno e, no período de 1.832 a 1.860, na Universidade de Leipzig, Alemanha, a psicologia surgia como ciência separada da filosofia, através do estabelecimento de métodos e princípios teóricos aplicáveis ao estudo e ao tratamento de diversos aspectos da vida e da sociedade humana.

Foi dessa forma que o estudo filosófico da psiqué (nossa alma) permaneceu presente no final do século XIX, enfatizando a consciência, a vontade e a introspecção. Enfocava valores subjetivos como a sensação, a percepção, a imagem mental, o desejo e a emoção, o pensamento e a intenção. A teoria psicológica obteve caráter interdisciplinar por sua íntima conexão com as ciências biológicas e sociais e por recorrer, cada vez mais, a metodologias estatísticas, matemáticas e informáticas.

Contudo, não existia uma só teoria psicológica, mas sim uma multiplicidade de enfoques, correntes, escolas, paradigmas e metodologias concorrentes, muitas das quais apresentam profundas divergências entre si. A essa época (1.879) 1:34, Wilhelm Wundt (1.832-1.920), o fundador da psicologia como disciplina acadêmica, afirmava que para tornar-se científica, o estudo da consciência teria que desvincular-se da filosofia, do ocultismo e da hipnose.

Mas o mundo oculto não deixou de se manifestar, com suas mesas girantes e espíritos (1.855), e a russa Helena Petrovna Blavatsky (1.831-1.891) surgiu com a Sociedade Teosófica (1.875), afirmando que o mundo tinha um governo oculto, constituído de Grandes Seres imbuídos de infinita compaixão pela raça humana. O mundo científico alarmou-se com a abundância de fenômenos inexplicáveis cientificamente que então aconteciam e fundou a Society for Psychical Research (1.882) e a American Society for Psychical Research (1.885) com o intuito de investigar dois novos campos de fenômenos: a parapsicologia e ocultismo.

Paralelamente ao estudo do cientificamente inexplicável, Blavatsky, em suas obras ‘Ísis sem Véu’ e ‘A Doutrina Secreta’, demonstrou as contradições e pontos de união entre a ciência, filosofia e religiões, e comprovou a existência de uma Sabedoria Perene, presente em todas as tradições do mundo antigo. Nessa mesma época, o sábio hindu Ramak???a (1.836-1.886) envia o seu discípulo Vivekananda (1.863-1.902) a Chicago (chegou em 1.893) para ensinar o método de se ter a visão do Eu, contida na Lei Eterna (San?tana Dharma): o hinduísmo.

Após a virada do século, surge a Primeira Força da Psicologia, denominada Behaviorismo (John Broadus Watson – 1.878-1.958), que foi inspirada na escola pavloviana da Reflexologia (Ivan Petrovich Pavlov – 1.849-1.936). Essa escola deixou de lado a noção de consciência e introspecção para estudar o comportamento humano unicamente em termos de estímulos do ambiente e respostas físico-químicas, a conexão estímulo/reação e o reflexo condicionado. A Psicologia Comportamental de Karl Spencer Lashley (1.890-1.958), de Edwin Ray Guthrie (1.886-1.959) e de Burrhus Frederic Skinner (1.904-1.990), segundo a qual a conduta humana é composta por reações simples, como os reflexos, sejam eles condicionados ou evolutivos, é derivada também da mesma linha de pensamento. Ou seja, o comportamento humano seria uma reação do indivíduo ao ambiente em que vive.

Embora verdadeiro em essência, é limitado em explicar o ser humano como um todo, pois explica apenas a porção mecanizada do ser humano, explica apenas um dos níveis de energia presente no mesmo:

“A ‘caixa-preta’, como às vezes a mente é referida, ... vinga-se perturbadora e implacavelmente do seu desqualificador, fugindo de seus esquemas e tabelas. ... Os neobehavioristas estão cada vez mais tolerantes... levando mais em consideração o que denominam ‘conduta privada’” .

Roberto Crema 4:20

Enquanto a escola predominante afirmava que o ambiente externo era quem determinava quem o indivíduo iria ser, despontava, em 1.885, um jovem de 29 anos que recriaria, no ocidente, o conceito de que o ambiente interno do Ser, através do inconsciente com seus instintos e pulsões, seria determinante na conduta humana. Surge, criada por Sigmund Freud (1.856-1.939), a escola psicanalítica, que via o homem como um ser de instintos e a sociedade como sinônima de repressão, causando no desenvolvimento humano uma necessidade de se renunciar aos instintos como forma de ser aceito, gerando infelicidade e neurose.

Assim, a Psicanálise, como a Segunda Força em Psicologia, vê o inconsciente como um sistema caótico de tensões, originadas desde a mais tenra infância, a qual se deveria trazer à consciência através de um método analítico, com o intuito de reestruturar a personalidade e entender a própria infelicidade, e não de buscar a própria felicidade. O estudo psicanalítico focaliza prioritariamente a patologia e o extremo sofrimento diante da própria impotência e limitação humana.

Concomitantemente, Wilhelm Dilthey (1.833-1.911) defendia a abordagem hermenêutica, que afirmava que era a consciência quem ditava o valor da experiência, através de complexos simbólicos formados através do contato com a história, economia, política, direito, religião, literatura, poesia, música, filosofia e concepções de mundo. É do interior que se vive e se compreende a realidade e a vida, através da relação do todo com suas partes: o significado do todo está nas partes, o das partes está no todo e a origem de todos os fatos humanos é a alma, a qual é irredutível.

Mais que isso, o homem não está destinado a ser vítima de seus instintos, pois a consciência sempre poderia re-significar a experiência e nem todos os seus problemas teriam origem na infância. O ‘Freud maduro’ percebeu isso. Mantendo um vínculo com a Society for Psychical Research (1.911), Freud passou a estudar os estados ampliados de consciência, se interessando, além da hipnose, pela parapsicologia e estudos sobre telepatia (1.922 - Cf. em Freud, Sigmund, Psicoanalisis y Telepatia, in Obras Completas de Sigmund Freud, tomo III, 4ª Edição, Editorial Biblioteca Nueva, Madrid, 1981 – página 2648-9), pelo significado oculto dos sonhos (1.925 - Cf. em Freud, Sigmund, La Significacion Ocultista del Sueño, in Obras Completas de Sigmund Freud, tomo III, 4ª Edição, Editorial Biblioteca Nueva, Madrid, 1981 – página 2887) e pelo próprio ocultismo (1.933 - Freud, Sigmund, Sueño y Ocultismo, in Obras Completas de Sigmund Freud, tomo III, 4ª Edição, Editorial Biblioteca Nueva, Madrid, 1981 – página 3126), além de uma descrição do ‘sentimento oceânico’ – ou consciência cósmica 1:33.

“Se fosse viver de novo, eu me dedicaria à pesquisa psíquica, em vez da psicanálise...”

Sigmund Freud

Ernest, Jones; A Vida e a Obra de Sigmund Freud, vol. III, Imago Editora, Rio de Janeiro, 1989 – página 384.

Corroborando com esse mesmo ponto de vista, desembarca em Boston, em 1.920, Paramahansa Yogananda (1.893-1.952), enviado por seu mestre ?r? Yukteswar (1.855-1.936) para divulgar a visão oriental do que seria o ser humano, seus poderes latentes e potencial de transcendência, através de acesso a níveis ampliados de consciência. Contemporâneo seu, na Europa, foi ?r? Aurobindo (1.872-1.950), com a divulgação do Yoga Integral.

Vários discípulos de Freud, sem negar a importância da psicanálise, viram que era necessária uma ampliação dos horizontes para que fosse possível se explicar algumas lacunas na teoria psicanalítica. O mundo interno não poderia nunca ser separado do mundo externo, pois eles se interferem mutuamente. Ademais, o processo analítico se esgota quando a simbologia onírica advém do coletivo, sendo necessária a admissão de um mundo arquetípico. E assim surgiram Alfred Adler (1.870-1.937), Carl Gustav Jung, Wilhelm Reich (1.897-1.957), etc., com teorias que explicavam outros aspectos psico-energéticos do complexo misterioso conhecido como ser humano. (1.875-1.961)

Surge, então, a síntese: processo natural de unificação dos opostos, o externo e o interno. Não só o interno e o externo, mas realmente todas as coisas estão inter-relacionadas. Surge o conceito de sincronicidade e simultaneidade, através da observação da existência de coincidências significativas ou conexões acausais (publicado por Jung em 1.950, sob influência das implicações filosóficas do efeito EPR de 1.935, sobre a mecânica quântica). Abriu-se caminho para o trans-humano, para o milagre e a intuição. Ressurge o conceito do daemon no humano:

“[a persona é] o que alguém na realidade não é, mas o que ele mesmo e os outros pensam que ele é... havia em mim um ‘daemon’ [(um sábio)] que, em última instância, era sempre quem decidia”

Carl Gustav Jung (1.875-1.961) 2:69

Nesse ano, em 1.950, após a invasão do Tibete pela China, ocorreu o êxodo em massa de grandes mestres vivos do Budismo Tibetano, inclusive o Dalai Lama, fato esse que selou definitivamente a influência do pensamento oriental nas investigações científicas do pensamento ocidental. O interesse pela busca do verdadeiro ‘Eu’ se intensifica e influencia a busca do ‘Observador’, entidade abstrata que interfere nos experimentos quânticos, detentora de nosso livre-arbítrio e conhecida no Yoga S?tra de Pat?ñjal? como dra???. 

Surgiu então, na década de 1.950, com Carl Ransom Rogers (1.902-1.987) e Abraham H. Maslow (1.908-1.970), a Psicologia Humanista: a terceira revolução da Psicologia Moderna. O Humanismo representou uma reação crítica ante ao mecanicismo behaviorista e pavloviano, que viam o homem como uma máquina, colocando de lado os aspectos afetivos e emocionais, e uma oposição ao pessimismo freudiano, não necessariamente os negando, mas enfocando o potencial criativo e de saúde humano, sua vocação à vida. 

A visão do Ser Humano no humanismo é a de um ser criativo, com capacidades de auto-reflexão, decisões, escolhas e valores. Abraham Maslow é considerado fundador desse movimento. Uma das funções, da forma humanista de se analisar a psicologia, é resgatar o sentido de vida próprio da condição humana. Maslow afirmava que o homem seria um Ser com poderes e capacidades inibidas que adoecia não somente por ter aspectos patológicos, mas, muitas vezes, por bloquear elementos saudáveis.

Reconhecia a existência de capacidades latentes de auto-regulação e autodesenvolvimento no ser humano que poderiam levá-lo ao desenvolvimento pleno com vistas à auto-realização e ocupava-se de pesquisas teóricas e aplicadas sobre valores, autonomia, Ser, Self, criatividade, identidade, crescimento, saúde psicológica, necessidades básicas de satisfação, auto-realização e conceitos correlatos.

Porém, o próprio Maslow afirmou 6:12:

"Considero a Psicologia Humanista, ou Terceira Força em Psicologia, apenas transitória, uma preparação para uma Quarta Psicologia, ainda ‘mais elevada’, transpessoal, trans-humana, centrada mais no cosmos do que nas necessidades e interesses humanos, indo além do humanismo, da identidade, da individuação... Necessitamos de algo ‘maior do que somos’, que seja respeitado por nós próprios e a que nos entreguemos num novo sentido, naturalista, empírico, não-eclesiástico...".

Vitor Emil Frankl (1.905-1.997), Stanislav Grof, James Fadiman e Antony Sutich uniram-se a Maslow e oficializaram, em 1.968, a Psicologia Transpessoal, enfocando o estudo da consciência e o reconhecimento dos significados das dimensões espirituais da psique. Essa quarta força surge do encontro da Psicologia com a ciência moderna e com as tradições de sabedoria, estudando os estados ampliados de consciência, aos quais a sabedoria milenar denomina supra ou superconsciência. A Psicologia Transpessoal adicionou essa outra importante dimensão da espiritualidade, enfocando o reconhecimento do significado das dimensões espirituais e reconhecendo-os como aspectos importantes e legítimos da psique humana.

Esta abordagem traz uma radical diferença da psicologia acadêmica, que destituiu a espiritualidade de sua abordagem e a caracteriza como superstição, pensamento mágico primitivo, imaturidade emocional ou patologia. Outro importante aspecto da Psicologia Transpessoal é que ela estuda o espectro inteiro da experiência humana, incluindo os incomuns estados ampliados de consciência que ocorrem durante as práticas xamânicas e ritos aborígenes de passagem, os mistérios antigos de morte e renascimento, as sessões psicodélicas e as várias formas de práticas espirituais (incluindo diferentes escolas de Yoga, Budismo, Taoísmo, Sufismo, misticismo Cristão, etc.).

Toma corpo, após a chegada de ?r? ?rimad Svami Prabhup?da (1.896-1.977) em Nova York, em 1.965, um novo movimento de divulgação das escrituras e da filosofia vêdica indiana: o movimento Hare K???a. Essa tendência chega ao seu ápice de popularidade quando Paramahansa Satchidananda (1.914-2.002) é convidado para abrir o Festival de Woodstock, em 1.969, fazendo milhares de jovens, embalados por ideais de liberdade para viver o sexo, as drogas psicodélicas e a música, recitarem o  pra?ava? O?.

Stanislav Grof popularizou o termo ‘transpessoal’, após quatro décadas de exploração sistemática do potencial terapêutico, transformativo e evolucionário dos estados ampliados de consciência. Ficou, aproximadamente, metade deste tempo conduzindo terapia com substâncias psicodélicas, primeiro em Praga, Tchecoslováquia, no Instituto de Pesquisa Psiquiátrica, e depois em Baltimore, Estados Unidos, no Maryland Psychiatric Research Center.

Passou então, desde 1.975, a trabalhar com respiração holotrópica, um poderoso método de terapia e auto-exploração que desenvolveu junto com sua esposa Christina Grof. Através dos anos, também apoiou muitas pessoas passando por crises psico-espirituais ou ‘emergências espirituais’, como eles chamavam. O denominador comum destas três situações é que elas envolviam estados ampliados de consciência ou, mais especificamente, uma importante subcategoria delas, que denominou holotrópico. Em terapia psicodélica, estes estados são induzidos pela administração de substâncias ou plantas, que alteram a mente. No trabalho com a respiração holotrópica, a consciência é mudada por uma respiração mais rápida e profunda, combinada com músicas evocativas e liberação de energia através de trabalho corporal. Em emergências espirituais, os estados holotrópicos ocorrem espontaneamente, no cotidiano, e sua causa é usualmente desconhecida. Segundo Grof  5:168:

 “No estado de consciência 'normal' ou usual, o indivíduo se experimenta existindo dentro dos limites de seu corpo físico (a imagem corporal) e sua percepção do meio ambiente é restringida pela extensão, fisicamente determinada, de seus órgãos de percepção externa; tanto a percepção interna quanto a percepção do meio ambiente estão confinadas dentro dos limites do espaço e do tempo. Em experiências psicodélicas de cunho transpessoais, uma ou várias destas limitações parecem ser transcendidas. Em alguns casos, o sujeito experiência um afrouxamento de seus limites usuais de ego e sua consciência e autopercepção parecem expandir-se para incluir e abranger outros indivíduos e elementos do mundo externo. Em outros casos, ele continua experienciando sua própria identidade, mas numa percepção de tempo diferente, num lugar diferente ou em um diferente contexto. Ainda em outros casos, o indivíduo pode experienciar uma completa perda de sua própria identidade egóica e uma total identificação com a consciência de uma 'outra' entidade. Finalmente, numa categoria bastante ampla destas experiências psicodélicas transpessoais, a consciência do sujeito parece abranger elementos que não têm nenhuma continuidade com a sua identidade de ego usual e que não podem ser considerados simples derivativos de suas experiências do mundo tridimensional.”

O mais alto nível de consciência transpessoal é descrito em todas as tradições com diferentes nomes: o pangree africano, o sam?dhi hindu, o sanmai (grande fixação) zen-budista, o nirvana ou jhana budista, o daat judeu hassídico, o êxtase contemplativo cristão (contemplação infusa), o fana muçulmano, a percepção transcendental da meditação transcendental, o turiya vedantino, a superconsciência de ?r? Aurobindo e de Paramahansa Yogananda, a Grande Imobilidade dos taoístas, etc.. Nomes diferentes para a descoberta e comunhão com o Eu.

Diante desse panorama, Roberto Crema, enfim, considera e postula o nascimento de um novo movimento integrativo na psicologia, que ele considera uma Quinta Força:

Considero que o movimento transpessoal foi compensatório, após um século de uma psicologia centrada no fator exclusivamente pessoal. Este foi um movimento, também, de transição para uma quinta força, que transcende a polaridade pessoal-transpessoal, com o mesmo rigor investigando e conjugando a dimensão egóica com as fronteiras expandidas além do ego, aliando raízes e asas, centrada na consciência da inteireza: a abordagem transdisciplinar holística.

Roberto Crema 3:11

 

Dessa forma, urge que remontemos a nossa investigação antropológica do Ser que é, àquela Filosofia Perene, Sabedoria Divina (Theos Sophia), que o hindu denomina San?tana Dharma...

 

BIBLIOGRAFIA

  • As referências bibliográficas acham-se assim indicadas: xx:yy, onde ‘xx’ é o número da referência contido na BIBLIOGRAFIA (no final do livro) e ‘yy’ é a página onde se encontra.

  • Quando precedendo ‘xx’ estiver escrito YS, a obra referenciada é o Yoga S?tra de Pat?ñjal?, BG quando for Bhagavad G?t?, VC quando for o Viveka Ch?d?mani, TB quando for o Tattvabodha? e SS quando a obra referenciada for o ?iva S?tra (obra de referência no ?ivaísmo de Cachemira). Nesses casos ‘xx’ é o capítulo e ‘yy’ é o s?tra.


  1. Azevedo, Cláudio & Macedo, Delzilene (Orgs.); Ciência e Espiritualidade: Psique e Transpessoalidade; Órion Edições, Fortaleza, 2.006;
  2. Claret, Martin; O Pensamento Vivo de Jung, Editora Martin Claret, São Paulo, 1.986;
  3. Crema, Roberto; Antigos e Novos Terapeutas: Abordagem Transdisciplinar em Terapia; Editora Vozes, 2a Edição, Petrópolis, 2.002;
  4. Crema, Roberto; Análise Transacional Centrada na Pessoa ... e mais além; Editora Ágora, 2a Edição, São Paulo, 1.985;
  5. Grof, Stanislav & Grof, Christina; Emergência Espiritual: Crise e transformação espiritual. São Paulo, Ed. Cultrix, 1.992.
  6. Maslow, Abraham H.; Introdução à Psicologia do Ser; Rio de Janeiro, Eldorado Tijuca, [s.d].

Categoria: A Caminho no Ser

Temos 70 visitantes e Nenhum membro online

Informações do Portal

Visitantes
819
Artigos
1368
Weblinks
27
Ver quantos acessos teve os artigos
10065362