O Ilusório e o Real (Deus)

Observe a chama de uma vela. A cada momento ela é uma nova chama e a vela também já não é a mesma, mas aparentemente é a mesma chama. Observe um rio passando ao longo de seu curso. A cada instante já não é mais o mesmo rio, mas ainda é o mesmo rio.

Órion: Filosofia, Religião e Ciência (Volume 1)

Podemos entender o ambiente em que vivemos como uma extensão de nosso próprio corpo. A cada vez que respiramos, inalamos centenas de milhões de átomos de ar exalados anteriormente por alguém em outro lugar do planeta. A cada momento estamos “fazendo e desfazendo nossos corpos”, o que nos leva a concluir que o corpo é um processo, não um objeto estável. Isso significa que somos, basicamente, um vórtice de consciência dentro e em torno do qual circula a matéria. A cada momento que passa, estamos liberando partículas materiais de volta ao Universo, ao mesmo tempo em que recolhemos outras tantas de que necessitamos nas inúmeras funções vitais (Cf. "IMPERMANÊNCIA").

Observemo-nos. A cada instante somos uma nova pessoa. Fisicamente inúmeras células nossas morreram e outras tantas nasceram. Inúmeras moléculas e átomos deixaram nosso corpo e outras tantas foram incorporadas a ele. As nossas emoções já mudaram (nosso “corpo” emocional) e nossos pensamentos também (nosso “corpo” mental). Veja uma foto sua de criança, outra há 15 anos atrás, se veja hoje e se imagine amanhã. Seu físico é o mesmo? Suas emoções giram pelo mesmo ponto? Você pensa e aspira às mesmas coisas? Nós não somos os mesmos, mas ainda somos os mesmos. Tudo é uma grande ilusão? O que vemos como real não é real? Segundo São Tomás de Aquino (1.225-1.274), toda a matéria é ilusória.

Se nos aprofundarmos um pouco mais, lembraremos que mesmo os átomos, que entram e saem de nosso organismo, e que compõem todo o Universo, são compostos de subpartículas ilusórias, ditas irreais. No mínimo não obedecem às leis conhecidas que regem a natureza macrocósmica, a qual se convencionou chamar de real.

“O homem, considerando o Universo de que é simplesmente uma partícula, observa que tudo se transforma em matéria, em forças e em estados mentais. Ele sabe que nada é real, mas que, pelo contrário, tudo é MÓVEL e CONDICIONAL. Nada está parado, tudo nasce, cresce e morre. No momento em que uma coisa chega a seu auge, logo começa a declinar, a lei do ritmo está em constante ação, não há realidade, qualidade duradoura, fixidez ou substancialidade em qualquer coisa que seja, nada é permanente, tudo se transforma, há uma constante ação e reação, um fluxo e refluxo, uma criação e destruição. Se o homem for um pensador ativo, ele perceberá todas essas coisas como mutáveis, que são, contudo, aparências ou manifestações exteriores da mesma força oculta, da mesma Realidade substancial (grifo nosso)”.

 

“A substância é aquilo que se oculta debaixo de todas as manifestações exteriores, a essência, a realidade essencial, a coisa em si mesma, etc.. Substancial é aquilo que existe atualmente, que é elemento essencial, que é real, etc.. A realidade é o estado real, verdadeiro, permanente, duradouro, atual de um ente. Debaixo e dentro de todas as aparências ou manifestações exteriores, sempre houve uma Realidade substancial. Esta é a Lei”.

os três Iniciados

 

Existe uma necessidade de ser admitida a existência de uma Realidade substancial. Vamos designar esta Força Oculta, esta Realidade substancial sob o nome de “O TODO”, termo para designar Aquele que excede todos os nomes e todos os termos.


DEUS, O TODO

“Ninguém afirma que Deus não existe sem antes ter desejado que Ele não existisse realmente”.

Joseph de Maistre (1.753-1.821)

 

Tentar explicar o inexplicável. Todos os pensadores em todas as épocas compreenderam a necessidade de se admitir a existência de uma Realidade substancial, que permaneceria imutável e incondicional, oculta debaixo de todas as manifestações exteriores.

Essa Realidade já recebeu inúmeras denominações, a Divindade sob diversos títulos: a eterna e infinita Energia, ou simplesmente Matéria; mas todos concordam que Ela existe. Já foi descrito poeticamente como o Dançarino Divino, cíclico, a Natureza; como um Dramaturgo, tendo como palco o sistema solar, no qual é representado o drama da vida; como um Jardineiro, com Suas Hostes Angélicas cultivando o jardim do Seu Universo, semeado com todas as espécies de sementes de Sua própria criação, destinadas a produzir a Sua cópia. Um Arquiteto, o Mago, o Ponto Omega, o Ritualista que tem o Universo como um templo de muitos santuários, o Profundo.

 

“O ser humano não conseguiu, em nenhuma de suas buscas, atingir a essência do Ser... mas quem quiser fixar o olhar sobre a Essência soberana ficará cego antes mesmo de vê-lo” ... “A Essência divina é, para a alma, o maior dos bens: apreender a Deus é saber que é inapreensível, vê-lo é saber que é invisível”.

Fílon de Alexandria (20 a.C.-40 d.C.)

 

“Um Princípio Onipresente, Sem Limites, Eterno e Imutável, sobre o qual toda especulação é impossível, porque transcende o poder da concepção humana e porque toda expressão ou comparação da mente humana não poderia senão diminuí-Lo. Está além do horizonte e do alcance do pensamento..., é Inconcebível e Inefável.”

Helena Petrovna Blavatsky (1.831-1.891)

 

As antigas cosmogonias, egípcia, grega, hebraica, hindu e cristã, O representam trazendo Seu mundo à existência por meio do som. Mas o que Ele é, talvez nunca saberemos nem nunca provaremos fisicamente a Sua existência – “...esforços inúteis da mente finita para compreender o Infinito...”. O ESPÍRITO, que no início é O NADA, mas ao mesmo tempo é O TODO, pois contém, Nele mesmo, TUDO.

 

“O Círculo Cósmico [Deus] é um círculo cujo centro está em toda a parte e a circunferência em parte alguma”.

 

A maioria das pessoas opina que o Universo tem um Criador. Todavia, os atributos desse Criador, e a nossa relação com Ele, são coisas que incitam discórdias, ferrenhas disputas e até guerras. Voltaire (1.694-1.778) diz que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança e o homem quer ver Deus à sua própria imagem e semelhança.

 


VISÃO ATUAL DA CIÊNCIA

A fusão entre matemática e religião vem dos tempos de Pitágoras (580-500 a.C.), como característica do pensamento filosófico grego. Em Platão (428-348 a.C.), Santo Agostinho (354-430), São Tomás de Aquino (1.225-1.274), Descartes (1.596-1.650) e Pierre Teilhard de Chardin (1.881-1.955), por exemplo, o raciocínio e a religião estavam inegavelmente ligados. Atualmente a ciência chegou à fronteira da matéria, com a certeza, com raras exceções, da existência de uma Divindade Superior, como visto anteriormente. Mas para ir adiante, ela está tendo que estudar a filosofia oriental, pois a partir daqui, tudo o que for descoberto não pode ser comprovado pelos nossos sentidos ordinários.

 

“Todas as coisas são números” – Pitágoras (580-500 a.C.). Segundo ele Deus era “A UNIDADE”, o Indivisível que continha Nele todo o infinito e o chamava de Pai, o Criador.

 

“...se o homem mutável, destrutível, é capaz de atingir verdades eternas, sua razão deve ter algo que vai além dela mesma, não se origina no homem nem no mundo externo, mas em Deus”.

Santo Agostinho (354-430)

 

“Penso, logo existo... Deus existe; e, dado que a idéia de Deus é a de um ser perfeito, ele é incapaz de enganar-se ou de enganar-me. Portanto, posso ter plena certeza da validade de meu conhecimento”.

René Descartes (1.596-1.650)

 

“O homem é o centro e a razão da evolução: sua alma o liga a esse Universo, que ela domina, a seus semelhantes e a seu fim último, que é Deus”.

Pierre Teilhard de Chardin (1.881-1.955)

 

“Eu acredito em Deus... que se revela na harmonia ordenada do Universo. Eu creio que a Inteligência está manifestada em toda a Natureza. A base do trabalho científico é a convicção de que o mundo é uma entidade ordenada e compreensível e não uma coisa ao acaso. ...Definitivamente Deus não joga dados com o Universo...”.

Albert Einstein (1.879-1.955)

 

“Se chegarmos a uma teoria completa, com o tempo ela deveria ser compreensível para todos e não só para um pequeno grupo de cientistas. Então todos poderiam tomar parte na discussão sobre porque nós e o Universo existimos... Nesse momento, conheceríamos a mente de Deus”.

 Stephen Hawking

 


VISÃO DO BRAMANISMO

“Ó Tu, diante de quem todas as palavras recuam”

  Shankaracharya

 

Os antigos sábios (rishis) hindus se dedicaram à tarefa de defini-Lo como Parabrahman ou Brahman, a Consciência não manifesta, que pelo poder de sua Maya (mágica ou ilusão) atua como Ishvara, o Senhor do Universo. Brahman é Aquele que, manifestado na criação, combina os poderes de Criador (Brahma), Preservador ou Sustentador (Vishnu) e Destruidor ou Transformador (Shiva), representações dos diversos poderes do mesmo e único Deus, constituintes da sagrada trindade, a Trimurti hindu.

Afirmam que o mundo foi criado através de uma energia vibratória, representada por uma sílaba: o AUM ou OM. No Bhagavad Gita 13:13-18, há uma linda descrição do Criador: “... o Brahman supremo e eterno, que não é existência nem inexistência. Deus não existe nem inexiste. Embora residindo em todas as formas, é Ele sem forma... É Ele que abrange, sustenta e ilumina o mundo, glorioso em todo o Seu poder, porém não limitado por coisa alguma; Senhor de toda a obra e não ligado por obra alguma. Movente de tudo e não movido por nada; Ele que ninguém pode abranger e que tudo abrange, o Único, o Indivisível. ...é Ele o poder que tudo cria e tudo destrói. É Ele a Luz das luzes, para além de todas as trevas; o Conhecedor... o próprio Conhecimento, que reside no âmago de todas as coisas”.

 


VISÃO DO BUDISMO

A doutrina budista se centra muito mais na ética do que na religião, por isso Buda foi criticado como niilista (nada existe de absoluto), descrente em Deus. Buda se recusava a falar em Deus, assinalando secamente que os poucos momentos do homem na Terra seriam melhor empregados no aperfeiçoamento de sua natureza moral. Sathya Sai Baba, em seu discurso de 7 de maio de 1.997, disse a respeito disso: “Certa vez, algumas pessoas se aproximaram de Buda e fizeram-lhe algumas perguntas acerca de Deus. Ele lhes disse: ‘Por que estão perdendo tempo nestas fúteis controvérsias? Se lhes contasse sobre Deus, não acreditariam. Por que deveria perder o meu tempo com esse assunto? Os requisitos básicos para se viver nesse mundo são a Verdade, a Retidão e a Não-violência (Satya, Dharma e Ahimsa). Considerem a Verdade como Deus. Apeguem-se à Verdade. Vocês realizarão tudo' ”.

“A mente em formação pode assimilar a idéia de um Universo guiado por uma Lei imutável com a mesma facilidade com que assimila o conceito de um Deus distante que talvez nunca veja, que mora onde não ela sabe e que criou do nada um Universo...”.

O budismo Mahayana chama de Dharmakaya e o tibetano de Fohat ao Poder deífico, infinito, criador, vitalizante e transformador, que tem duas formas de existência, uma passiva e uma ativa, que se alternam sem cessar através da eternidade – as Noites e Dias nas cosmogonias do mundo.

 


VISÃO DOS EGÍPCIOS

Hermes ensinava que O TODO, em si mesmo, é e sempre será incognoscível. Todas as teorias, conjecturas e especulações dos teólogos e metafísicos a respeito da natureza íntima d’O TODO, são esforços inúteis de mentes finitas para compreender o segredo do Infinito. Como tal, se desviarão sempre de suas finalidades como humanos, aqui na Terra.

 

“Uma pessoa que prossegue em tais investigações vai, de circuito em circuito no labirinto do pensamento, prejudicar o seu são raciocínio, a sua ação e a sua conduta, até ficar totalmente inutilizada para o trabalho da vida. É um prisioneiro. ... Nenhum de nossos pensamentos pode conceber a Deus, nem língua alguma pode defini-Lo. O que é incorpóreo, invisível, sem forma não pode ser percebido por nossos sentidos; o que é eterno não pode ser medido pelo tempo. Deus é, pois, inefável”.

 

Mas Hermes dá certas verdades conexas acerca de Sua existência, que a mente humana é obrigada a aceitar: O TODO é tudo que é real, O TODO é infinito no tempo (sempre existiu), no espaço (tudo está contido nele, pois se houvesse algo fora d’Ele, então existiria outro TODO) e infinito em poder pois nada pode limitá-lo, restringi-lo ou acondicioná-lo, pois não há outro poder, sendo então imutável. Afirma que O TODO está acima dos conceitos humanos de matéria ou energia, que O TODO é Mente Vivente, a Infinita Mente a que o iluminado chama de ESPÍRITO. Hermes afirmava que O TODO tinha criado todo o Universo através de sua mente e a mitologia, posteriormente, disse que Ele o tinha criado através de sua palavra vibratória: “Aton fala e suas palavras se transformam no mundo, o começo de Aton é o começo dos começos, ele é eterno”.

 


VISÃO DO ZOROASTRISMO

Zoroastro (628-521 a.C.), ou Zaratustra, dizia que no início havia apenas o Eterno, o Ser Supremo. Desse Ser Supremo emanaram Ormuz e Ahrimán, sendo que este, a segunda emanação do Eterno, criado puro, por sua ambição e soberba foi castigado pelo Ser Supremo a habitar as regiões das trevas. Ormuz, a inteligência e o conhecimento personificados, mediante a palavra, criou um mundo puro, em seis etapas ou períodos, do qual é o Conservador e Juiz.

Mas do Ser Supremo Zoroastro não teceu nenhum comentário.

 


VISÃO DO JUDAÍSMO

Abraão, o primeiro patriarca judeu, que vivia em Ur, na Caldéia, abandona o politeísmo vigente e institui a crença em um Deus único, o Deus Altíssimo que criou o Céu e a Terra (Gn 14:17-22). Dizia também haver um Sacerdócio Sagrado, e eterno, a ordem de Melki-Tsedek (vide na parte II), que venerava ao Deus Altíssimo. Esse Deus Altíssimo criou o mundo manifestado em seis dias, à semelhança do dito por Zoroastro (628-521 a.C.).

Na idade Média, uma tradição esotérica, repassada oralmente, é escrita e atribuída ao Rabi Shimon ben Yohai, com o nome de Sefer Ha-Zohar (Livro do esplendor). O Zohar, assumido pelo movimento místico-esotérico Kabbalah, diz que a Divindade, o Absoluto, é a base de todas as coisas. É encarado como Existência negativa ou o Nada, um “ilimitado abismo de glória”. Essa Existência tem três máscaras: AIN, o negativamente existente, AIN SOPH, o Ilimitado, sem forma, ser ou semelhança com algo mais, e AIN SOPH AUR, a Luz Ilimitada. Dele surgem dez emanações, dez aspectos do Universo manifestado. Esse Universo se manifesta em quatro “mundos”: o Mundo Divino, o Mundo da Criação, o Mundo dos Anjos e o Mundo de Matéria.

 


VISÃO GREGA

Ensinavam, nas escolas de mistérios, a existência de uma Divindade Superior e Única, Zeus para as massas, o grande Demiurgo, e que Ele reinava desde o mais profundo Céu até o abismo da Terra, Sopro das coisas, Rei, Poder, Deus. Pitágoras (580-500 a.C.) acreditava num Ser Uno e supremo em sua virtude intrínseca e ativa, fonte de toda a harmonia. Segundo ele, Deus tinha por número “A UNIDADE”, a Substância indivisível que continha Nele todo o infinito, e o chamava de Pai, o Criador, símbolo do Espírito e essência do Todo. Já Platão (428-348 a.C.) via a Divindade como a idéia do Verdadeiro, do Belo e do Bem que seriam três raios partindo e retornando a um mesmo foco – Deus.

A despeito de seu panteão, conheciam a existência e veneravam em todo os templos o “Deus desconhecido”, a quem não temiam, mas respeitavam acima de todos os outros, como o Supremo, que não habita em templos construídos pelas mãos humanas (At 17:23s).

 


VISÃO DO TAOÍSMO

Os chineses, como os indianos, acreditam na existência de uma realidade última, subjacente e substancial, que unifica os fatos e coisas observadas. Em Chuang Tsé menciona-se Coisa Única, em cujos nomes, “Completo”, “Abrangente” e “O Todo”, procura se referir à mesma realidade. Essa realidade enquanto oculta não tem nome (Tao Te Ching XLI), mas enquanto manifesta recebe o nome de TAO, a ordem da natureza, a realidade última e indefinível, equivalente ao Brahman hindu e ao Dharmakaya budista 2:85. Dele provém o conteúdo da vida, gera todas as coisas e Nele estão todas as coisas (Tao Te Ching XXI). Tao, tem uma qualidade dinâmica intrínseca, um processo cósmico no qual o mundo é visto numa mudança ou fluxo contínuo, um padrão cíclico de movimento entre dois opostos, que são aspectos do Tao: o Yin e o Yang. Lao-Tsé O chama por três nomes: I, Hi e We (semente, sutil e pequeno) “inseparáveis... entrelaçadas formam o Um” (Tao Te Ching XIV).

“Oculto, o TAO não tem nome. Mas o Tao é quem prodiga e realiza” (Tao Te Ching XLI). “O grande TAO é onipresente... Todas as coisas lhe devem a existência... Ele veste e alimenta todas as coisas...” (Tao Te Ching XXXIV). “O TAO que pode ser pronunciado não é o TAO eterno... Ao princípio do Céu e da Terra chamo ‘Não-Ser’. À Mãe dos seres individuais chamo ‘Ser’... Pela origem, ambos são uma coisa só, diferindo apenas no nome. Em sua unidade esse Um é... o mistério dos mistérios...” (Tao Te Ching I).

 


VISÃO ISLÂMICA

Diz o Corão:

“O Criador dos céus e da Terra! De vós próprios tirou vossas esposas para que vos multiplicásseis. As rezes também, Ele as fez machos e fêmeas. Ninguém pode ser comparado a Deus. Ele ouve tudo e vê tudo” (42:11). “Deus! Não há deus senão Ele, o Sempre-Vivo, o Eterno. Nunca dorme e nunca cochila. A Ele pertence tudo o que está nos céus e tudo o que está na Terra. Ninguém pode interceder junto a Ele senão com Sua permissão. Conhece o passado dos homens e seu futuro. E de Seu saber, eles só alcançam o que Ele permitir. Seu trono abrange os céus e a Terra, e Ele os mantém sem esforço algum. Ele é o Altíssimo, o Glorioso” (2:255). ...“Deus perdoa todos os pecados. Ele é compassivo e misericordioso” (39:53). “Deus não perdoa a quem Lhe atribui semelhantes e perdoa as faltas menores a quem quiser. Quem atribui semelhantes a Deus comete enorme delito” (4:48).

“Ante Deus, prostram-se, de bom grado ou de mal grado, todos os que estão nos céus e na Terra. Mesmo suas sombras prostram-se pela manhã e ao entardecer” (13:15). “Glorificam-No os sete céus e a Terra e todos os que estão neles. Nada existe que não Lhe dirija louvores. Mas vós não compreendeis esses louvores. E Ele é perdoador e compassivo” (17:44). “Glorificam Deus todos os habitantes dos céus e da Terra. Seu é o reino. A Ele é devido o louvor. E Ele tem poder sobre tudo” (64:01).

Deus não é apenas o Deus dos árabes ou de qualquer outra tribo; é o Vigilante e Sustentador de todo o Universo. O Islamismo ensina a pura e simples Unicidade de Deus. Ele apresenta uma concepção de Deus que está liberta de fantasias antropomórficas ou mitológicas. Afirma a Unicidade de Deus e diz que Ele não tem parceiros em Sua Deidade. Ele é só um Ser e só uma Essência – os dois sendo inseparáveis e indistintos. É Auto-suficiente, de quem tudo depende, e que não depende de ninguém. O Criador, o Provedor de tudo, o Beatíssimo, o Todo-Poderoso, o Onisciente, o Amantíssimo, o Misericordioso, o Eterno e o Infinito. Ele não se gerou nem foi gerado e nada pode se originar d’Ele e tornar-se Seu igual na Deidade. Deus é a presença divina que a todo o momento recria o mundo.

Já os drusos ensinam: “Deus não tem qualquer atributo que nós possamos conceber. Ele é aquele que não se nomeia, que não se vê nem se ouve, sobre a natureza do qual a religião proíbe que se façam perguntas, porque o criado não pode conceber seu Criador. Ele não é nem grande, nem bom, nem justo, nem indulgente, nem inteligente, porque essas qualidades humanas, e criadas por Deus, não podem ser qualidades do próprio Deus”.

 


VISÃO CRISTÃ

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo 1:1); “Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou” (Jo 1:18); “...e o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheia de graça e de verdade” (Jo 1:14).

 

Todos os místicos cristãos, numa tradição conhecida como teologia da negação que se origina em São Dionísio (?-258) e tem seu expoente em São João da Cruz (1.540-1.591), afirmam: “Deus é o meu ser, embora o meu ser não seja o Ser de Deus” (citado da obra cristã “The Cloud of Unknowing”). Santo Agostinho (354-430) dizia: “Quando pensas em Deus, tudo quanto se possa apresentar a ti em forma de corpo, expulsa-o, repudia-o, evita-o... Ele não pode ser dito ou definido: é o que é, em todos os tempos e em qualquer lugar”. São Tomás de Aquino (1.225-1.274) afirma, na Suma Teológica I, q.2, a.a. 1, 2, 3 e 4, poder-se provar que Deus existe de cinco formas: a prova do movimento, da causalidade eficiente, da contingência, dos graus de perfeição dos entes e pelo governo do mundo. Aperfeiçoou uma antiga verdade filosófica, segundo a qual Deus não se encontra em nenhum lugar, ou seja, Ele não está “lá”, da mesma forma que eu estou ”aqui”.

A primeira, parte do princípio de que tudo muda de um estado para outro e que, nessa mudança, as coisas adquirem um estado que já a tem em POTÊNCIA. Então passam a tê-la em ATO. Por exemplo, uma parede branca é branca em ATO e vermelha em POTÊNCIA. A tinta vermelha, que o é em ATO, quando em contato com a parede branca a transforma em vermelha em ATO. Ou seja, tudo o que muda é movido por algo. É movido aquilo que estava em potência para uma perfeição. Em troca, para mover, para ser motor, é preciso ter a qualidade em ATO. É, portanto, impossível que uma coisa seja motor e móvel, ao mesmo tempo, para a mesma perfeição, ou seja, que uma coisa mude a si mesma. Retrocedendo para saber a causa primeira em ATO que transformou a primeira coisa, que o era em POTÊNCIA, teremos duas possibilidades: uma seqüência finita ou uma infinita. Nessa constataríamos não haver uma causa primeira que deu início às mudanças e a POTÊNCIA sempre antecederia ao ATO, e isso não seria possível pois um ser em POTÊNCIA não dá origem a nenhum movimento, este tem que partir de um ser em ATO. Logo esta hipótese é impossível, a seqüência não pode ser infinita. Aliás tudo no nosso Universo tem de ser finito, pois a matéria, o tempo e o espaço são mensuráveis, logo finitos. Que o Universo é finito se comprova pela teoria do Big-Bang e pela lei da entropia. O Universo teve um início e terá um fim.

O primeiro motor que dá início a toda série de mudanças não pode ser movido, porque não há nada antes do primeiro. Portanto, esse primeiro ente não podia ter potência passiva nenhuma, porque, se tivesse alguma, ele seria movido por um anterior. Logo, o primeiro motor só tem ATO. Ele é apenas ATO, isto é, tem todas as perfeições de modo absoluto.

A prova da causalidade eficiente diz que toda causa é anterior a seu efeito. Para uma coisa ser causa de si mesma, teria de ser anterior a si mesma. Por isso, neste mundo sensível, não há coisa alguma que seja causa de si mesma. Além disso, vemos que há no mundo uma ordem determinada de causas eficientes.

Se a série de causas concatenadas fosse indefinida, não existiria causa eficiente primeira, nem causas intermediárias, efeitos dela, e nada existiria. Ora, isto é, evidentemente falso pois as coisas existem. Por conseguinte, a série de causas eficientes tem que ser definida. Existe então uma causa primeira que tudo causou e que não foi causada.

Deus é a causa das causas não causada. A negação da Causa primeira leva a ciência materialista a contradizer a si mesma, pois ela concebe que tudo tem causa, mas nega que haja uma Causa do Universo.

As outras provas (da contingência, dos graus de perfeição dos entes e pelo governo do mundo) chegam à conclusão da existência de uma Causa primeira, de modos análogos. Da compreensão de que Deus é ATO puro vêm algumas conclusões:

  1. Deus é tudo o que é real, pois todo o mundo material está sujeito a mudanças, logo toda a matéria é ilusória; é puro espírito, pois toda matéria tem POTÊNCIA e Deus não tem nada em POTÊNCIA;
  2. Deus é imutável, pois não tendo nada em POTÊNCIA, não está sujeito a mudanças; é eterno, pois o tempo é a medida da passagem de algo em POTÊNCIA para algo em ATO. Deus não tendo potência passiva não pode mudar e logo não está sujeito ao tempo;
  3. Deus é absoluto, posto que é ATO; é infinito, pois infinito é aquilo que não pode aumentar nem diminuir, e Deus tem qualidades em sentido absoluto.

O Concílio de Nicéia (325 d.C.), em seu credo, afirmou a existência de uma Santíssima Trindade, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, três Pessoas consubstanciais que na realidade são Um, “criador de todas as coisas visíveis e invisíveis”. Já o Concílio Vaticano I (1.869-1.870) assim fala de Deus:

 

“A Santa Igreja Católica Apostólica Romana crê e confessa que há um [só] Deus verdadeiro e vivo, Criador e Senhor do céu e da Terra, onipotente, eterno, imenso, incompreensível, infinito em intelecto, vontade e toda a perfeição; o qual, sendo uma substância espiritual una e singular, inteiramente simples e incomunicável, é real e essencialmente distinto do mundo, sumamente feliz em si e por si mesmo, e está inefavelmente acima de tudo o que existe ou fora dele se possa conceber [cânone. 1-4].

1783. Este único e verdadeiro Deus, por sua bondade e por sua ‘virtude onipotente’, não para adquirir nova felicidade ou para aumentá-la, mas a fim de manifestar a sua perfeição pelos bens que prodigaliza às criaturas, com vontade plenamente livre, ‘criou simultaneamente no início do tempo ambas as criaturas do nada: a espiritual e a corporal, ou seja, os anjos e o mundo; e em seguida a humana, constituída de espírito e corpo’ [IV Concílio de Latrão].

1784. Tudo o que Deus criou, conserva-o e governa-o com sua providência, atingindo fortemente desde uma extremidade a outra, e dispondo de todas as coisas com suavidade [Sb 8,1]. Pois tudo está nu e descoberto aos seus olhos [Hb 4,13], mesmo os atos dependentes da ação livre das criaturas”.

Categoria: Órion Volume 1