Os Gregos

A Grécia antiga compreene o sul da península balcânica, a costa oeste da Ásia Menor (atual Turquia), as ilhas do mar Jônico e do mar Egeu e as regiões sudoeste e sul da península itálica (Magna Grécia). Durante o reinado de Alexandre, o Grande, incorpora também o norte do Egito. Os povos helênicos estabelecem-se em ondas sucessivas nessas regiões, assimilam e reelaboram a cultura local.

Órion: Filosofia, Religião e Ciência (Volume 1)

A cidade universitária de Taxila, há 2.500 anos atrás (500 a.C.), acolhia estudiosos de todas as partes do mundo. Muitos gregos passaram a morar na Índia e adotaram o hinduísmo ou o budismo. A doutrina da reencarnação de Pitágoras (580-500 a.C.) tem, sem dúvida, origem hindu. Diz-se que Platão (428-348 a.C.), grande admirador da escola pitagórica, em viagem aos países asiáticos, visitou a Pérsia e demorou-se na Índia; seu pensamento reflete a filosofia Shânkia e sua tese “A República” reafirma idéias hindus, como a divisão da sociedade em corporações, que nada mais é do que o sistema hindu de castas.

Uma história de prática de magia e feitiçarias, “o culto do lobisomem”, sacrifícios animais e humanos e o uso de objetos, por sacerdotes e videntes mendicantes, para invocar poderes malignos e infligir males aos outros (semelhantes ao Vodu haitiano) estão registrados em descobertas arqueológicas. Os deuses gregos representam forças e fenômenos da natureza, divindades protetoras de algumas profissões, impulsos e paixões humanas e os quatro elementos (a terra – Deméter, a água – Poseidon, o ar – Hera e o fogo – Hefaístos). São provavelmente fragmentos, restos de mitos selvagens relativos à origem das coisas e do homem, muitos deles vindos de outras culturas: Zeus era Enlil ou Bel dos sumérios ou Marduk dos babilônios; Afrodite era a Ishtar suméria; Apolo era o Xamaxe sumério, ou o Hórus egípcio. Antes de ser uma religião patriarcal, a partir do século 12 a.C., há indícios arqueológicos que mostram um matriarcado por volta do século 20 a.C. a 14 a.C., em torno da deusa Potnia, a Grande Mãe que governava o mundo.

A religiosidade grega não se expressa através de textos sagrados. Os deuses estão presentes em todos os aspectos da vida cotidiana, e são reverenciados por um conjunto de práticas e rituais realizados em bosques sagrados, templos ou cumes de montanhas. Os sacerdotes consagram a vida ao culto de um deus específico e, nos templos, presidem sacrifícios, transmitem e interpretam oráculos. As divindades evoluem com o tempo e assumem diferentes significados. Embora exista um panteão de deuses comum a todos os gregos, cada Cidade-Estado tem seu próprio deus protetor, com seus cultos, rituais e festas específicos (à semelhança das divindades protetoras egípcias e dos santos padroeiros cristãos). As mais importantes são a Panatenéia, em honra de Atena, as Olimpíadas, celebradas a cada quatro anos em Olímpia, com a organização de jogos em homenagem a Zeus, e as Dionisíacas, grande festa popular que inclui representações dramáticas, em homenagem a Dionísio, celebrada em Atenas e também em áreas camponesas. Os principais santuários do mundo grego são Delos e Delfos, em homenagem a Apolo, Olímpia, em homenagem a Zeus, Epidauro, a Asclépio e Elêusis, a Deméter.

Segundo sua mitologia, no início era o Caos, não havia a natureza, nem os deuses nem os homens. Caos deu origem a Nix (noite) e Érebo (Trevas). De Nix surgiu Geia (ou Gaia – Terra) e ela dá a luz Urano (Céu). “De início Urano era supremo, e fazia sucessivos filhos em Gaia. Como não se afastasse de Gaia, seus filhos ficavam retidos no ventre dela. Cansada da situação, Gaia incentivou seu filho mais novo, Cronos, a castrá-lo. Nasceram então os onze filhos, os Titãs (Oceano, Ceos, Crio, Hipérion, Jápeto, Tétis, Febe, Têmis, Teia, Mnemósine e Réia), e do sangue derramado nasceram os três Cíclopes. Cronos, por sua vez, devorava seus próprios filhos, até que sua esposa Réia deu-lhe de comer uma pedra, em lugar de Zeus. Zeus, criado em Creta, obrigou seu pai a vomitar seus cinco irmãos, e, junto com estes e com ajuda adicional, derrotou Cronos e seus Titãs, lançando-os no ‘Tártaro’. Para derrotar os Cíclopes teve ajuda de seu filho com uma mortal, Hércules (Héracles)”.

Para o povo grego, o principal deus é Zeus, o pai e rei dos deuses e dos homens, o guardião da ordem e dos juramentos, senhor dos raios e dos fenômenos atmosféricos. Hera, sua irmã e esposa, preside os casamentos, os partos, protege a família e as mulheres. Atena, ou Palas Atena, nasce da cabeça de Zeus, já completamente armada. É a deusa da inteligência, das artes, da indústria e da guerra organizada. Apolo, filho de Zeus e da deusa Leto, é o deus da luz da juventude, da música, das artes, da adivinhação e da medicina. Dirige o “carro do Sol” e preside os oráculos. Artemis, irmã gêmea de Apolo, é a deusa-virgem, símbolo da vida livre, das florestas e da caça. Afrodite, deusa da beleza, do amor e da volúpia sexual, é casada com Hefestos (Hefaísto), filho de Zeus e de Hera, feio e disforme, protetor dos ferreiros e dos ofícios manuais. Hares (Ares), filho de Zeus e Hera, é o deus da guerra violenta. Poseidon ou Posídeon, irmão de Zeus, é o deus do mar. Hades, irmão de Zeus, governa a vida após a morte e a região das trevas – inferno grego. Deméter (Ceres), irmã de Zeus, é a deusa da agricultura. Dionísio ou Baco, deus da videira e do vinho. Hermes, filho de Zeus e da ninfa Maya (Perséfone), é o mensageiro dos deuses, protetor dos pastores, dos negociantes, dos ladrões e inspirador da eloqüência. Apesar desse panteão, sabiam da existência de uma Divindade Superior, à qual chamavam de Deus desconhecido, de quem nada sabiam, mas que adoravam sem O conhecer (At 17:23).

Já a raça humana, segundo Hesíodo (800 a.C.) em seu poema “Os Trabalhos e os Dias”, era uma raça de ouro: “...como deuses viviam, com almas felizes, despreocupadas, livres de labuta e de dor; a desditosa velhice tampouco os acercava, mas toda a sua vida festejando passavam...”. Segundo a mitologia grega, Epimeteu aceitou como esposa a bela Pandora, um presente de Zeus. Ela abriu uma caixa de onde escaparam todas as miséria e aflições das quais a humanidade jamais se recuperaria (semelhante ao pecado original bíblico).

Mas uma sabedoria, oculta ao povo e disponível aos buscadores da Verdade, foi exposta por três Mestres durante toda a história da Grécia. “Para cada estágio – seu alvorecer, seu meio-dia e seu crepúsculo – houve um iniciado. Orfeu é o do amanhecer, Pitágoras (580-500 a.C.) o do meio-dia e Platão (428-348 a.C.) o do anoitecer da Grécia”. Contemporâneo de Pitágoras foi Heráclito de Éfeso (540-480 a.C.) cujos pensamentos nos chegaram de forma muito fragmentada.

Sócrates (469-399 a.C.) morreu dizendo: “Causa das causas, tem pena de mim”, alusão ao Deus desconhecido. Platão, após a morte de seu mestre, Sócrates, viajou pelo mundo antigo atrás de conhecimento, iniciando-se nos mistérios de Ísis (cuja essência é a mesma dos mistérios de Elêusis), embora não tenha alcançado o grau superior de Adepto que Pitágoras alcançara. Sabendo que Pitágoras tinha sido o maior de todos os sábios gregos, através de uma escola pitagórica da Índia, comprou a peso de ouro um manuscrito de Pitágoras, tomando deste filósofo as idéias mãe e o esqueleto de seu sistema.

Em seu trabalho Simpósio, Platão apresenta o mito grego da criação. Relata que originalmente o ser humano era uma criatura esférica, composta, de três tipos: dois homens, duas mulheres e um homem e uma mulher. Por castigo dos deuses, essas criaturas foram separadas e agora cada metade sai em busca de sua outra metade.

Paulatinamente os mistérios se corromperam, com os gregos se tornando idólatras, supersticiosos e decadentes. Alexandre, o Grande, concebeu fazer de seu império uma unidade, na filosofia, na religião e na ciência, tentando levantar o mundo antigo de seu estado. A síntese de seu pensamento esteve na fundação de Alexandria, no Egito, que se tornou centro da cultura do império grego. Após a sua morte, no reinado dos ptolomeus do Egito, a biblioteca de Alexandria abrangia mais de meio milhão de papiros. Buscou fundir a filosofia oriental, o judaísmo e o helenismo com os mistérios egípcios. Sonho perdido após a conquista romana do império grego, no qual a religião não passava de um instrumento de dominação e espoliação. Um império materialista em que o imperador, não satisfeito com sua dominação secular, queria também a dominação espiritual: intitulou-se sumo pontífice, o próprio deus.


OS ENSINAMENTOS DE ORFEU

O conhecimento da cosmogonia grega advém dos poemas atribuídos a Homero (século IX a.C.) e Hesíodo (800 a.C.) e dos atribuídos a Orfeu, músico da Trácia. Orfeu, que provavelmente viveu no tempo de Moisés, é considerado filho de Apolo com uma sacerdotisa – Clio (ou de Eagro, rei da Trácia, com Calíope – segundo alguns), e considerado o Salvador dos homens. Naquele tempo as sacerdotisas que adotavam o culto a Baco, as bacantes, evocavam as forças da natureza, eram magas, sedutoras e dominavam pelo terror, sacrificando sangrentamente vítimas humanas. Orfeu transformou por completo o culto a Baco. Purificando-o, restituiu a majestade de Zeus, a consagração a Apolo em Delfos e instituiu os mistérios (os Mistérios de Dionísio), fundindo a religião de Zeus com a de Dionísio (Baco) em um pensamento universal. A tradição oral conta que Orfeu apreendeu suas doutrinas da Índia, associando Dionísio a Rama.

Em seus mistérios, Orfeu afirmava, como sendo o primeiro mistério, que Zeus era o grande Demiurgo, que Ele reinava desde o mais profundo céu até o abismo da Terra, Sopro das coisas, Rei, Poder, Deus. O segundo mistério afirmava que Dionísio era o Filho de Zeus, Seu Verbo manifestado. Espírito radiante, Inteligência viva, resplandecia nas mansões de Seu Pai, o palácio do Éter imutável. Dionísio tinha descido ao abismo terrestre, vindo do Éter, atraído por Sua própria imagem refletida na profundidade azul. Aqui chegando se deteve, mudo de admiração ante Maya (Perséfone), a Virgem divina, que tecia um véu onde se viam as imagens de todos os seres. Nesse momento os ferozes Titãs e as Titânidas, admirados com sua beleza e loucos de amor, se lançaram sobre Ele furiosamente, desmembrando-O, e enterrando Seu coração. Zeus aniquilou a todos os Titãs e Palas levou de volta ao Éter o coração de Dionísio que se tornou um sol radiante. Dionísio ressuscitará, mais vivo e poderoso que nunca, quando as sombras se unirem ao coração flamejante Dele, o terceiro mistério (sua ressurreição).

Afirmava, como parte do terceiro mistério, que os bons homens eram o corpo e o sangue de Dionísio, sendo os maus homens seus membros perdidos, que se retorciam no crime e no ódio, na dor e na paixão, através das existências, sendo atraídas cada vez mais pelas forças malignas do abismo. Porém todos os que conheciam os mistérios eram salvadores de almas, os “Hermes” dos homens, à semelhança dele mesmo. Orfeu, que se considerava médico de almas, cantava hinos de louvor a Zeus e a Dionísio (três vezes revelado: nos infernos, na Terra e no céu). Dizia ser duro o escarpado caminho que levava até Deus, que Ele só podia ser visto com os olhos do espírito e que esses precisavam ser abertos às custas de grande trabalho e grandes dores, pois não sabíamos mais ver com eles. Era preciso manter casta a vida e limpa a alma, sendo necessário também muito estudo.

A luz de Deus espanta os fracos e mata os profanos. Todos os que então são merecedores de ver a Deus, recebiam a Iniciação, onde renasciam, depois de vencidos, pelo esforço pessoal, todos os sofrimentos passados e as dores terrenas, para uma nova vida. Nessa nova vida se uniriam, como um só corpo e uma só alma, à luz de Dionísio, livrando-se afinal do doloroso círculo das existências.


O PENSAMENTO DE HERÁCLITO

“A única coisa permanente é a própria mudança”.

Heráclito (540-480 a.C.)

 

Ridicularizou o panteão de deuses e os seus cultos. Afirmava que “tudo flui”, mas de uma forma cíclica, em uma constante mudança. Ninguém toma banho mais de uma vez num mesmo rio pois as pessoas e o rio mudam sem cessar. O cosmos é mudança e o Logos é o Supremo, livre de mudanças, essência racional do cosmos que guia “a marcha e a ordem dos acontecimentos”.

Comparava essa ordem do mundo com o fogo, “eternamente vivo, acendendo-se em medidas e extinguindo-se em medidas”, o qual seria a substância fundamental, o princípio único (arkhé) de que todas as coisas são feitas. O fogo, como elemento divino, é capaz de criar, destruir e transformar.

Dizia que os opostos estavam unidos e eram apenas pólos de uma mesma coisa, e essa oposição seria a própria força criadora do Logos. Dessa forma seriam conceitos meramente relativos, semelhante aos quarto e quinto Princípios Herméticos do antigo Egito.

Todas as coisas constituem o Um, que se desdobra no múltiplo, para mais uma vez se reduzir à Unidade. Foi o primeiro filósofo a ver o mundo com uma visão dialética.


OS ENSINAMENTOS DE PITÁGORAS

“O que Orfeu foi para a Grécia sacerdotal, Pitágoras (580-500 a.C.) foi para a Grécia mundana”. Como filósofo do século VI a.C. sua revelação consistia numa exposição dos princípios ocultos contidos na ciência dos números – os Mistérios de Delfos, em cujo templo se lia: “Conhece a ti mesmo e conhecerás o Universo e os deuses”. Nascido em 582 a.C. em Samos, estudou em Tebas no Egito de 531 a 529 a.C., onde atingiu o grau de “Iluminado”. Os gregos antigos afirmavam que ele passara pela Índia, de onde teria recebido forte influência da cultura védica, pela Fenícia, Babilônia e Pérsia. Fundou sua irmandade, por volta de 530 a.C. em Crotona, no sul da Itália, ao mesmo tempo religiosa e filosófica, visando a uma reforma social e política da região. Consistia sua doutrina numa espécie de reforma do orfismo vigente. A confraria foi desfeita por uma conspiração que pôs fim à sua hegemonia. Faleceu por volta de 500 a.C..

Chamava a seus discípulos de matemáticos, mas de uma matemática sagrada. Se o Número – considerado como essência das coisas – é constituído da soma de pares e ímpares, as coisas também encerram noções opostas, como as de limitado e ilimitado, daí elas serem vistas como conciliação de opostos, ou seja, como harmonia. A harmonia, para Pitágoras, era o que Heráclito chamava de força criadora do Logos.

Dizia que o Número não era apenas uma cifra abstrata e sim o Uno supremo, em sua virtude intrínseca e ativa, Deus, fonte de toda a harmonia. Segundo ele, A UNIDADE era o número de Deus, a Substância indivisível que continha Nele todo o infinito. O chamava de Pai, o Criador.

Símbolo do Espírito e essência do Todo, a Mônada, que é a essência do Ser incriado, agia como Díade criadora, essência invisível e substância divisível, princípio Eterno Masculino ativo e Eterno Feminino passivo de Deus. A Mônada seria a essência de Deus e a Díade sua faculdade geradora, que gera todo o mundo visível no espaço e no tempo, semelhante ao sétimo Princípio Hermético. Uma ordem, ou Cosmos (do grego kosmos, termo que contém as idéias de ordem e beleza, além de ilusão e aparência), dominaria o Universo.

Do mesmo modo que o mundo era dividido em natural, humano e divino, o homem também tinha três partes – corpo, alma e espírito. Essa era a base de toda a sua ciência esotérica – a Tríade ou lei do ternário. Para ele, cada número era um princípio universal, uma força ativa, mas nos quatro primeiros estariam os princípios divinos essenciais (os quatro mundos da Cabala judaica). Dessa maneira, a soma dos quatro primeiros números, igual a dez, seria o número que conteria todo o Universo, o número perfeito por excelência, todos os princípios da divindade reunidos e evoluídos em uma nova unidade (a árvore da vida cabalística); e a união do homem com a divindade seria representada pelo número sete, a união do três humano com o quatro divino.

Observaram também que havia uma relação entre a altura dos sons e o comprimento das cordas da lira. Da associação do número à música e à mística surgiram os termos matemáticos “média harmônica” e “progressão harmônica”. Acreditavam que em todo o Universo devia haver essa harmonia, responsável por sua existência e manutenção.

Dividiu o ano em quatro estações, ensinava que se devia orar duas vezes ao dia, voltado sempre para leste e formulou quatro graus de iniciação: o dos Ouvintes, o dos Instruídos (que aprendiam matemática e música), o dos Perfeitos (que aprendiam cosmogonia, psicologia e a evolução da alma) e um raro chamado o do Adepto. O noviço passava por um teste de um ano antes de ser aceito na irmandade.

Ensinava a pureza, o uso de roupas brancas que não procedessem de animais mortos, a castidade (“o sexo deve ser satisfeito no inverno, moderadamente na primavera e no outono, mas não no verão, embora seja prejudicial em todas as estações”), o ascetismo, o silêncio e o vegetarianismo (suas refeições eram comunitárias). Ensinava também que a alma é imortal e evolui através de diferentes encarnações, vidas que se seguem, sem semelhanças, mas que se encadeiam numa lógica implacável, regido por uma lei singular que explicaria as aparentes injustiças do destino como conseqüências das ações em cada existência anterior, recompensas e castigos. Ia mais além admitindo a reencarnação inclusive em animais ou vegetais, como resultado de atos em vidas anteriores (a metempsicose). Ensinava também que o mal, em desacordo com a lei divina, não era obra de Deus e sim do homem, apresentando uma existência aparente e transitória ao contrário da real e eterna lei divina.

A noção do daemon (sábio) de um homem como o lado espiritual da alma, distinto do lado puramente humano, era ensinado nas escolas pitagóricas. Esse “Eu superior” teria que ser alcançado pela consciência física como um passo necessário antes da união com o próprio espírito. Seria o nosso guia interno capaz de nos tornar como os Daemons, seres incorpóreos com poderes especiais, situados entre os deuses e os homens. Aqui um paralelo entre as figuras cristãs dos Santos, Mártires e Anjos, pode ser feito com os Heróis, Daemons e Deuses da iconografia grega. Segundo Apolônio de Tyana, o daemon seria como um anjo no homem, de uma beleza quase divina, a somatória das melhores e mais delicadas feições já tidas em todas as encarnações de um homem na Terra (Cf. em  “A Natureza Humana”).


OS ENSINAMENTOS DE SÓCRATES

 “O pensamento correto produz a ação correta”.

Sócrates

 

Grande pensador grego (469-399 a.C.), tratou de questões que iam desde a natureza da amizade até a organização política de um estado, passando pela investigação do Universo, da alma, da vida e do homem.

Ensinava que o conhecimento levava à razão e ao discernimento entre o certo e o errado. Mas o verdadeiro conhecimento era se conectar com o deus interno (Cf. em  “O AUTOCONHECIMENTO”), existente em cada ser humano. Com essa conexão a noção de certo e errado brotaria, como uma convicção vinda das profundezas do ser. A essa convicção chamava de razão. Essa seria a única verdade, pela qual ele entregou a própria vida.


OS ENSINAMENTOS DE PLATÃO

Com os Mistérios de Elêusis, Platão (428-348 a.C.) imprimiu à verdade religiosa e filosófica uma feição mais popular – exposta no Fedro. Mas com o juramento do silêncio, cerrou os lábios ao público, pois eles não o compreenderiam e profanariam indignamente os mistérios teogônicos da geração dos mundos, da Tétrada sagrada de Pitágoras (os quatro mundos cabalísticos).

Platão substituiu a doutrina dos três mundos de Pitágoras por três conceitos, como três caminhos abertos a Deus, dizendo respeito tanto ao mundo humano quanto ao plano divino: a idéia do Verdadeiro, do Belo e do Bem como três raios que partem e retornam a um mesmo foco – Deus. Sustentava existirem dois mundos: o visível, objeto dos sentidos, e o das idéias, objeto da inteligência.

Criou a categoria do Ideal e da Iniciação. Aquele como uma moral, uma poesia e uma filosofia, e este como a ação, uma visão e sentido direto da presença sublime da Verdade. Aquele o sonho e a saudade da divina pátria e este a sua recordação e posse. Assim criou um refúgio, que abre caminho a milhões de almas que não podiam alcançar nessa vida a Iniciação divina, mas que aspiravam com amargura à Verdade, gerando uma imensa popularidade e força às suas idéias. Instituiu vários graus de iniciação, sendo o título Chrestos (o bom ou o ungido) um título nobre de seus mistérios. Admitia, como símbolos da completa iniciação nos mistérios, os seguintes objetos:

  • O Cetro, representando o Falo (a imagem material do Verbo);
  • O Globo e a Cruz como formas da Cruz Ansata egípcia, o símbolo da imortalidade conferida pela Iniciação;
  • A Coroa seria Kether, a Primeira Sephira, o Ancião dos Dias, o Pai (ver adiante na Cabala judaica e no volume 3);
  • O Manto Púrpura, ornado de estrelas ou flores representava o Céu Noturno, a Aura do Sacerdote de Nut (deusa egípcia com corpo coberto de estrelas – a deusa do céu); e, finalmente,
  • As roupagens rubro-douradas eram o símbolo do Corpo Solar, o Corpo de Glória do Iniciado – vermelho e ouro sendo as cores heráldicas do Sol.

Em sua obra Timeu, XXXI, 69 c, escreveu que o homem é constituído de uma parte externa (corpo físico e instinto animal irracional – Anoia) e uma interna. Esta última seria composta de um princípio mortal e corruptível (psique) e de um imutável, formado da mesma substância da Divindade (Nous). Quando a psique, a alma, se aproxima de Nous, ela faz tudo de forma correta e feliz, o oposto ocorre quando a psique se aproxima de Anoia (ver a Natureza Humana no Volume 2).

Em seus pequenos mistérios de Elêusis, celebrados no equinócio de primavera em Agrae, próximo a Atenas, Ceres (ou Deméter) e Perséfone (ou Maya) eram os personagens principais, formando o núcleo do culto de Elêusis. Aquela era vista como a luz celeste, mãe das almas e dos deuses cosmogônicos, a Inteligência Divina, e esta, Perséfone, simbolizava a alma humana, divina, filha amada da Deusa. Ceres diz à filha para não sair da gruta e não ceder aos encantos do astuto, e de conselhos pérfidos, Eros. Perséfone segue bordando num véu azul a história dos deuses, as figuras sem conta de todos os seres e o Caos pavoroso de onde saem os seres mortais, que nascem de Eros. Mas na ânsia de conhecê-lo para poder bordar também o seu rosto ela se perde na lábia de Eros, e, a despeito dos conselhos das ninfas, é arrebatada por Hades ao umbral.

Nos grandes mistérios, celebrados no grande templo de Deméter, também chamados “orgias sagradas”, estavam encerrados os segredos da vida. Era detalhada a passagem de Perséfone nos umbrais subterrâneos – “Para compreenderdes bem a vida futura, e a vossa condição presente, é mister que atravesses o império da morte...”. Era mostrada a vida de Perséfone no meio dos terrores e suplícios dos “Prados de Hades”, a representação simbólica da história da alma, descendo à matéria com seus sofrimentos e seu regresso à vida divina. Demonstra a imagem da alma humana, escrava das suas paixões, uma expiação de vidas passadas e que, pela disciplina, pelo esforço, intuição, razão e vontade, se podia relembrar as vastas verdades, tornando-se novamente pura e luminosa: a Virgem inefável de amor e alegria.

Antes da revelação final dos Mistérios de Elêusis, o Hierofante Iniciador, chamado “Pai” e considerado uma pessoa santa, apresentava o vinho e o pão aos candidatos, que o comiam e bebiam para testemunhar que o espírito devia vivificar a matéria, o “Eu superior” devia penetrar no “Eu inferior”, tomando posse dele, revelando a si mesmo. O vinho representava Dionísio (Baco) e o pão, ou trigo, Ceres (Deméter). Ceres como princípio produtor feminino da Terra, esposa de Zeus, e Dionísio o filho de Zeus, seu Pai manifestado, eram as personificações da matéria e do espírito, os dois princípios vivificantes da Natureza e da Terra.

Nas festas romanas em honra de Ceres (as Ambarvalias), segundo Helena Blavatsky (1.831-1.891), o Arval, assistente do Grande Sacerdote, vestido de branco imaculado, colocava sobre o altar um bolo de trigo, água e vinho em um cálice, a oferenda do sacrifício (Hostia); colocava a água lustral e depois o vinho no cálice, provava o vinho da libação e dava-o aos outros para provarem. Incensava-se o altar e a oferenda, o bolo representando o reino vegetal, o cálice o reino mineral, com a estola do Grande Sacerdote sobre o cálice, feita de pura lã branca de carneiro (representando o reino animal), era então erguida por ele, que em seguida lavava os dedos dizendo: “Eu lavarei minhas mãos entre o Justo e rodearei teu altar, Ó Grande Deusa!”. Em seguida dava três voltas no altar com as oferendas elevadas acima de sua cabeça. Repetia durante a cerimônia sete orações cada uma três vezes – as sete comemorações ternárias. Três vezes seu “Redemptor mundi” a Apolo, – o Sol, seu “Mater Salvatoris” a Ceres – a Terra, seu “Virgo Partitura” à Virgem deusa, etc..


O ESTOICISMO

O estoicismo foi criado pelo cipriota Zenão de Cício por volta do ano 300 a.C., devido à necessidade de um guia moral à Grécia, agora decadente. O termo tem origem em Stoà poikilé, espécie de pórtico adornado com quadros de várias cores, onde Zenão se reunia com seus discípulos. Cleantes e Crisipo, entre os discípulos oriundos da Anatólia, tiveram papel relevante na escola estóica.

Os estóicos, de vida agrícola, se vangloriavam da coerência de seu sistema filosófico. Afirmavam que o Universo pode ser reduzido a uma explicação racional, uma estrutura racionalmente organizada. A capacidade do homem de pensar, projetar e falar (logos), está plenamente incorporada ao Universo. A natureza cósmica, ou Deus, e o homem se relacionam um com o outro, intimamente, como agentes racionais. O homem pode alcançar a sabedoria e harmonizar sua racionalidade com a natureza, onde reside a justiça natural ou Lei natural.

Como doutrina ética, visa ajudar o indivíduo a aceitar a adversidade. Ele deve viver de acordo com a razão e ser indiferente a desejos e paixões, autocontrole (apathia). Na verdade rejeitavam a procura do prazer, pregando o celibato ou então condenando o prazer no casamento e todo o sexo extraconjugal, exigindo a fidelidade dos cônjuges. A verdadeira felicidade não está no sucesso material, mas na busca da virtude. Alegrias e infortúnios deveriam ser igualmente aceitos, porque seguem o ritmo natural do Universo.

O homem político, segundo Cícero (106-43 a.C.), só atinge a virtude suprema se sua atuação estiver voltada para o bem de seu povo. Na pax romana, ante a dissolução dos princípios morais da sociedade, Musônio Rufo, Sêneca (4 a.C.-65.d.C.), Epicteto (55-135 d.C.) e Marco Aurélio (121-180 d.C.) criaram os alicerces teóricos, baseados no estoicismo, que deveriam dignificar o poder imperial. Alguns preceitos de sua poderosa doutrina moral foram adotados pela igreja cristã.


O GNOSTICISMO

A palavra gnose (do grego gnosis, “conhecimento”) designa o conhecimento adquirido não por aprendizagem ou observação empírica, mas por revelação divina, opondo-se à pistis, ou mera crença. Privilégio dos iniciados, os gnósticos experimentavam uma iluminação que era regeneração e divinização, e conheciam simultaneamente sua verdadeira natureza e origem. Reconheciam-se em Deus, conheciam a Deus e apareciam diante de si mesmos como emanados de Deus e estranhos ao mundo, rejeitando todos os seus prazeres. Assim, adquiriam a certeza definitiva de sua salvação para toda a eternidade.

Herdeiros dos mistérios de Elêusis e governados por um pessimismo profundo, consideravam que a vida não era boa, afirmando que “o corpo era um cadáver com sentidos, o túmulo que carregamos conosco”, rejeitando a idéia de ressurreição do corpo. Consideravam o mundo como tendo sido criado por um demiurgo perverso, e a alma por um Deus bom e desconhecido, que teria sido capturada pelos poderes malignos e aprisionada em trevas. Acreditavam assim na inutilidade e inferioridade de tudo o que existe, pregando o celibato e proibindo o consumo da carne e do vinho. Preparavam-se para o dia em que o mundo perverso seria substituído pelo reino divino. Os pneumáticos (conhecedores puros da gnose) ascenderiam até o pleroma, reino da luz e da perfeição, e o fogo latente oculto no cosmos se avivaria e consumiria toda a matéria.

Até a descoberta de diversas coleções de manuscritos, entre os quais os de Nag Hammadi, no Egito em 1.945, era comum considerar o gnosticismo como uma forma de heresia cristã inspirada na filosofia grega neopitagórica e neoplatônica. Atualmente, tende-se a falar num conjunto de escolas que, em virtude de princípios comuns mas empregando diferentes métodos de especulação, formavam o movimento gnóstico.

 A maior parte dos estudiosos tende a considerar a existência de uma gnose não cristã, que englobaria movimentos como o hermetismo e o maniqueísmo, e de uma gnose cristã, herética. Esta última, formulada no século II por Basilides e Valentim, afirmava a realidade de um Deus transcendente e desconhecido, enquanto identificava o demiurgo criador do mundo físico com o Iaweh bíblico. As teses enunciadas por Orígenes de Alexandria (séculos II-III), segundo as quais o objetivo da encarnação e morte de Jesus teria sido trazer o conhecimento ao homem enganado por seus sentidos, constituíram na realidade uma tentativa de assimilar a gnose à ortodoxia cristã. Os ataques a essa tese por parte de teólogos cristãos dos séculos II e III, como Hipólito e Santo Irineu, fizeram com que o gnosticismo tenha sido considerado um desvio do cristianismo.


O NEOPLATONISMO

Última grande corrente filosófica da Grécia antiga, o neoplatonismo é a doutrina que se definiu no século III da era cristã e predominou na filosofia “pagã” do período tardio da antigüidade, até o ano 529. Na época, três correntes ideológicas disputavam a primazia: o cristianismo, em ascensão, as religiões “politeístas” do paganismo e as correntes filosóficas gregas, em particular o estoicismo.

Ammonius Sacca (175-242), fundador da escola de Alexandria (em torno do ano 200), foi o mestre com quem Plotino (205-270), o grande expoente do neoplatonismo, estudou por 11 anos (de 232 a 243) e de quem recebeu influência decisiva. Em 244, Plotino mudou-se para Roma e fundou sua própria escola. Após ensinar por dez anos, escreveu 54 tratados que foram, posteriormente, dispostos em seis grupos de nove por seu discípulo Porfírio (234-305), o qual deu à obra o título de Enéadas.

Outras escolas neoplatônicas se formaram, como a da Síria, fundada por Jâmblico (250-328) pouco depois do ano 300, a de Pérgamo, fundada por Edésio discípulo de Jâmblico, e a de Atenas, iniciada por Plutarco (46-124), que teve em Proclo (410-485) seu representante mais insigne.

Foi Plotino que elaborou a teoria da emanação ou panteísmo neoplatônico, segundo a qual o Ser divino e o mundo são, em última análise, idênticos. Para ele, o mundo não foi produzido do nada, mas emanou do próprio Uno, a Divindade e Bem Supremo do qual procedem, por emanação, todas as coisas. Do Uno deriva, primeiramente, o nous ou espírito, explicação de todas as coisas ao nível ideal e que equivale claramente ao mundo das idéias platônico. Do nous emana a alma, nome genérico que abrange três níveis distintos e hierarquizados: a alma suprema, que permanece em estreita união com o nous, a alma do todo, criadora do Universo físico, e as almas particulares, que animam os corpos, os astros e todos os seres vivos.

O mais inferior grau da emanação divina é a matéria, ou o mundo perceptível pelos sentidos, onde a potência do Uno está enfraquecida a ponto de exaurir-se. A matéria sofre, pois, essa privação do Bem Supremo. Poder-se-ia chamar de mal, não uma força negativa autônoma que se opõe ao bem, mas a ausência do bem, um desvio da Verdade.

Se der atenção apenas a seu corpo, o verdadeiro homem, a alma (preexistente) que habita um corpo, se vincula ao mal e esquece suas origens. Por isso exigia de seus seguidores uma vida abstinente e ascética. A alma precisava despojar-se da ilusão da matéria, e só o conseguiria por meio do êxtase místico, no qual seria exaltada e preenchida pelo Uno. Esse êxtase não é um dom gratuito de Deus, mas fruto do esforço do homem para unir-se à Divindade.

Categoria: Órion Volume 1