O Nascimento das Civilizações

                                                          Atualmente, o sentido de civilização se contrapõe ao de barbárie e ao de selvageria. Será que já somos civilizados? Um dia já o fomos?

 

Órion: Filosofia, Religião e Ciência (Volume 1)

Vamos caminhar por um breve relato de como a história e a paleontologia atual concebem o início das primeiras civilizações. Seus auges e suas decadências, no pequeno mundo antigo, cujos vestígios podem ser estudados na atualidade. Aqui a ciência tem como aliado importante o estudo da língua e de documentos escritos (filologia) para esclarecer os pontos obscuros das migrações e da evolução das nações no tempo.

No século passado, antropólogos vitorianos adotaram o termo selvageria para a época em que o homem vivia da Natureza mediante a caça e a coleta. Esta deu lugar à barbárie das primeiras comunidades agrícolas até o advento da escrita que marcaria o surgimento da civilização. Este marco não é o único critério para determinar esta, pois está intimamente ligada ao ato de viver em cidades. A arquitetura monumental (templos, túmulos e palácios) e a divisão hierárquica das sociedades são também elementos importantes.

Durante mais de 3 milhões de anos o antepassado do homem viveu caçando animais e colhendo frutas, sementes e mel. Analisando o DNA mitocondrial, geneticistas comprovaram, através da análise das mutações, que a incrível semelhança existente hoje, comprova que houve uma redução populacional de grandes proporções há cerca de 80 ou 70 mil anos atrás. Essa data coincide com a maior erupção vulcânica que se tem notícia, ocorrida há 74 mil anos no vulcão Toba. Admite-se que a população humana tenha sido reduzida à cerca de 5 ou 10 mil humanos. Coincide também com o provável segundo cataclismo na Atlântida lendária (Cf. “A Quarta Raça”).

De qualquer forma, talvez o marco mais importante, como fator agregador e socializante, tenha sido o domínio do fogo pelo homem. Vestígios de fogueiras foram encontrados na Hungria e norte da China, datando de cerca de 400 mil anos atrás. O fogo trouxe uma “segurança psicológica” enorme, como proteção contra outros animais. O homem pôde dormir, sonhar e desenvolver sua psique. Reunidos em volta dele para se aquecerem e confeccionarem suas armas, viram a necessidade de se comunicarem uns com os outros. Enfim, possibilitou a sua sobrevivência à época das glaciações e até a sua migração para áreas mais geladas, onde normalmente não iriam.

A última glaciação terminou há cerca de 10 mil anos atrás, quando então começaram a surgir vegetações nos desertos que rodeavam o equador, época em que o homem começou a adotar a agricultura como meio de vida. É surpreendente como ela se desenvolveu de forma independente em zonas do mundo distantes e na mesma época: Oriente Médio há 10 mil anos, Mesoamérica há 9 mil anos e China há 8 mil anos.

Recentemente, um dos observatórios astronômicos mais antigos da Europa foi encontrado por uma equipe de arqueólogos ao norte de Leipzig, na Alemanha. Acredita-se que ele tenha sido construído há 7.000 anos, dois milênios antes das famosas ruínas de Stonehenge (Reino Unido). O observatório é formado por dois conjuntos de círculos concêntricos, um com quatro círculos grandes (o maior tem 120m de diâmetro) e o outro, com dois menores. Os quatro círculos têm duas aberturas, uma voltada para nordeste e outra para sudeste. Para os homens pré-históricos, observar a posição dos astros era fundamental para entender a mudança das estações do ano – que determinava os períodos de caça e coleta.

Povos nômades já existiam há cerca de 8.000 anos (2 mil anos após o término da última glaciação), nas margens dos rios Tigre e Eufrates e do rio Nilo, no vale do Indo, no norte da China e na ilha de Creta. A civilização conhecida teria começado a surgir ao norte da Grécia (nas planícies da Tessália e Macedônia, ao sul da Península Ibérica), no Vale do Indo (Índia), ao leste da China (vale do Rio Amarelo, período Chang, 2.500 a.C.), na Mesopotâmia dos rios Tigre e Eufrates e no Egito do rio Nilo. Nessa época viviam povos nômades no deserto da Arábia e do Egito, nas estepes russas, e inúmeros povoados agrícolas no planalto iraniano, sul da Índia, no leito do rio Ganges, na Indochina, no Vale do Amur – leste russo, na Mongólia, no Cazaquistão, Escandinávia, Anatólia e Europa.

Desenvolveram-se independentemente, atingindo o seu apogeu por volta do terceiro milênio antes de Cristo, de uma forma harmônica e espiritualizada no respeito às forças da Natureza, no conhecimento do bem e do mal, e na crença de Algo incognoscível e infinitamente superior a eles próprios (Cf.  RELIGIÕES “PAGÃS” e RELIGIÕES ANTIGAS).

Mas logo a lei do ritmo (vide adiante na religiosidade egípcia) levou a uma tendência oposta, deturpando a espiritualidade na idolatria e em cultos espúrios e dando origem a uma seqüência de guerras internas e conquistas, principalmente na Mesopotâmia. Esse período, de grandes impérios, fez florescer o império Babilônio e o Egípcio. Devido a suas guerras internas e à política expansionista em voga, o império egípcio sofreu domínio do império babilônio, seguido pelo arquemênida persa e posteriormente pelo selêucida grego, seguido do romano. Nesse período, quase intocado permaneceu o reino da Índia e da China, e, de uma forma humilde, florescia um povo fortemente unido, os hebreus, apesar de sofrerem, seguidamente, domínio egípcio, babilônio, persa, grego e romano.

Vemos que sempre houve uma inter-relação entre todos os povos, uma interdependência entre eles. O que acontecia a um sempre era conseqüência de algo que aconteceu em outro, que por sua vez interferiria em todas os demais. Vemos isso nos dias de hoje, num mundo em que a globalização nada mais é que a conscientização coletiva desse princípio quântico de interdependência. As nações não mais resolvem os seus problemas sozinhas, precisando sempre das outras para caminhar e evoluir.

Vamos, agora, passear por um breve resumo da história das civilizações que contribuíram na formação de nossa atual cultura mundial.

 


O EGITO

A pré-história egípcia remonta a um período anterior ao quarto milênio antes da era cristã, período esse denominado pré-dinástico. Há aproximadamente 10.000 anos, quando terminou o último período glacial, já deveriam existir no Nilo homens caçadores e coletores, conhecidos como “nomos”, que se organizavam em pequenas divisões regionais, com seus próprios deuses e chefes. Entre os anos 5.000 e 3.000 a.C. surgiu vagarosamente um Estado unificado, que se dividia em um reino no Alto Egito, ao sul, e um no Baixo Egito, ao norte, com as Cidades-Estado de Tebas e Tânis sendo as mais importantes. Pouco depois do ano 3.000 a.C., o Baixo Egito foi conquistado pelos reis do Alto Egito, sendo fundada a cidade de Mênfis, na divisa entre os reinos. Para isso foi necessário o desvio do curso do Rio Nilo, primeira das grandes façanhas hidráulicas egípcias.

Inicia-se, então, um período dinástico, cujas datas mais fidedignas se devem a Maneton, alto sacerdote egípcio do século III a.C., embora várias outras datações existam. Phildelphus, seu mestre o incumbiu de compilar a história do Egito, escrita em três volumes na língua grega. Fragmentos dessa obra nos foram transmitidos por Flavius Josephus – 37-100 (intitulada “Oposição a Apion”) e Julius Africanus.

Foram 3 mil anos, 30 séculos e 30 dinastias, até ser conquistado por Alexandre Magno em 332 a.C.:

 

I e II dinastias: 3.000-2.778 a.C., ditas tinitas;

III dinastia: 2.778-2.723 a.C., primeira das dinastias menfitas. Nesse período teria sido construída a primeira pirâmide egípcia em Sakkara para o faraó Djoser, cujo arquiteto, venerado 1,4 mil anos depois como um deus, foi Imhotep;

IV dinastia: 2.723-2.563 a.C., concretizou a passagem para o Antigo Império do Egito, caracterizado pela provável construção das famosas pirâmides e da Grande Esfinge, no Planalto de Gisé. Foi um período de estabilidade social e grande mudança na política egípcia: o poder centralizado no faraó, considerado um deus vivo na Terra, se fortaleceu. O primeiro soberano desta família foi o rei Snefru, construtor de duas pirâmides nas regiões de Dahshur e Maidum. Um grande governante; durante o seu reinado o Egito prosperou. Suas campanhas na Núbia resultaram na expansão do território egípcio ao sul. A capital, centro econômico, político e religioso da nação, foi transferida para Mênfis (atual Cairo). Destacam-se, ainda neste período, os faraós Quéops (Khufu), Quéfren (Khafre) e Miquerinos (Menkaure), respectivamente filho, neto e bisneto de Snefru. Estes teriam sido os construtores das três grandes pirâmides de Gisé (Quéfren teria construído a Esfinge), a única das Sete Maravilhas do Mundo Antigo ainda existente;

V dinastia: 2.563-2.423 a.C., apenas citada por Maneton;

VI dinastia: 2.423-2.280 a.C., começa o declínio dos menfitas;

VII dinastia: apenas citada por Maneton;

VIII dinastia: 2.280-2.240 a.C., período obscuro;

IX e X dinastias: 2.240-2.060 a.C., ditas heracleopolitanas. Por volta de 2.100 a.C., o poder dos nobres se sobrepôs ao do faraó, o que causou lutas e revoltas sociais, além de crises. O Egito é então dividido em 3 reinos, marcando o fim do Antigo Império;

XI dinastia: 2.060-2.000 a.C., de origem tebana, elimina os heracleopolitanos e reunifica o Egito que era assolado por invasões estrangeiras, principalmente de um povo de origem asiática, conhecidos como Hicsos. Inicia-se o chamado Médio Império, com a dominação egípcia se estendendo, sobretudo, em direção ao mar Vermelho;

XII dinastia: 2.000-1.785 a.C., período de prosperidade, com o Egito estendendo sua influência até a Núbia e Síria;

XIII e XIV dinastias: 1.785-1.674 a.C., período obscuro, época provável da chegada dos hebreus ao delta do Nilo;

XV e XVI dinastias: 1.674-1.580 a.C., fundada pelos Hicsos, invasores vindos da Palestina. Época em que os sacerdotes difundiram os vários mitos e lendas, escondendo dos Hicsos sua teogonia, nos Mistérios egípcios;

XVII dinastia: 1.580-1.520 a.C., de origem tebana, vitoriosa sobre os Hicsos;

XVIII dinastia: 1.520-1.320 a.C., início do Novo império, período que representa o apogeu da civilização egípcia na política, economia, religião, arquitetura, artes, etc.. Reconhece, por breve período (1.372-1.350 a.C.), um culto monoteísta a Aton, instituído por Amenófis IV. Sua civilização floresce sob a regência de excelentes governantes e guerreiros. Entre as realizações arquitetônicas, no período dessa dinastia, destacam-se, principalmente, os templos de Lúxor e Karnak, situados na margem oriental do Nilo. Quanto aos regentes, temos os grandes Thutmosis III (o maior conquistador egípcio, que subjugou os povos sírios, fenícios entre outros; em seu governo o império egípcio estendia-se até o rio Eufrates, atual Iraque), Hatshepsut (uma mulher forte e corajosa, que assumiu o trono como rainha e, mais tarde, como faraó, passando até mesmo a usar e ser retratada com os trajes masculinos), Amenófis IV (Akenaton), o “grande herético” (vide adiante na religiosidade egípcia) e Tutankhamon, provavelmente seu filho;

XIX dinastia: 1.320-1.200 a.C., o Egito conhece Ramsés II, o Grande, o maior faraó egípcio, grande guerreiro e construtor, e pai de mais de 100 filhos; seu reinado durou prováveis 66 gloriosos anos. Vencedor da famosa batalha de Kadesh, contra os hititas, fundou a cidade de Pi-Ramsés, reformou o templo de Karnak, construiu o monumento em Abu Simbel e inundou o Egito com imagens suas e de sua esposa preferida, Nefertari. Sob seu reinado, os hebreus foram transformados em trabalhadores cativos;

XX dinastia: 1.200-1.100 a.C., inicia a decadência egípcia, após a saída dos hebreus do Egito, segundo Maneton, expulsos devido a uma dermatose proveniente de seu consumo de carne suína;

XXI dinastia: 1.100-950 a.C.;

XXII e XXIII dinastias: 950-730 a.C., dinastias bubastita e tanita. A primeira pilha Jerusalém em 930 a.C., à época do Rei Salomão;

XXIV dinastia: 730-715 a.C., se inicia a dinastia saíta;

XXV dinastia: 715-663 a.C., fundada pelos etíopes;

XXVI dinastia: 663-525 a.C., dinastia saíta, é derrotada pelo rei babilônio Nabucodonosor II (630-561 a.C.), em 605 a.C.;

XXVII dinastia: 525-404 a.C., conquista do Egito pelos persas, através de Cambises II, fundando a dinastia dos arquemênidas;

XXVIII dinastia: 404-398 a.C., originária de Mendes, elimina os arquemênidas;

XXIX dinastia: 398-378 a.C.;

XXX dinastia: 378-332 a.C., retomada do Egito pelos persas, Artaxerxes III expulsa o último faraó em 341 a.C. e permanece até que os gregos, com Alexandre Magno, tomam o vale do Nilo em 332 a.C.. O domínio romano é estabelecido em 30 a.C..

 

Admite-se que as grandes pirâmides de Gisé, foram construídas na IV Dinastia por Quéops, Quéfren e Miquerinos, entre 2.589 e 2.504 a.C., como jazigos funerários, e que as inscrições nas pirâmides foram realizadas posteriormente, na V dinastia, quando os faraós começaram a se autodenominar “filhos de Rá”. As mais famosas, escritas provavelmente na XV dinastia, dos Hicsos, relatam as lendas divinas sobre a criação do mundo até o aparecimento de Osíris, Seth, Ísis e Hórus. Uma inscrição da IV dinastia menciona a Esfinge de Gisé como um monumento cuja origem se perdia no passado e que havia sido encontrada, fortuitamente, enterrada nas areias do deserto, quem sabe por quantas gerações, obra da primeira civilização egípcia na mais remota antigüidade (F. Lenormant, Hist., Peupl. D’Orient, II 53).

Seu grande legislador era conhecido como Manes. Sua escrita hieroglífica, teria surgido por volta de 3.200 a.C., segundo a lenda, um presente do deus Thoth. No templo de Abydos, no sul do Egito, são vistos indícios de que conheciam a existência de aparelhos voadores, conhecidos como Vimanas pelos hindus. O arqueólogo inglês Flinders Petri, em sua obra “Pesquisas no Sinai” de 1.906, nos mostra a existência de minas de enxofre, como a de Gnefru, em atividade desde do ano 5.000 a.C.. A partir do enxofre, carvão e salitre os egípcios já conheciam a pólvora há mais de 6.000 anos.



A CALDÉIA

Sua história é a história da Mesopotâmia, região delimitada pelos vales férteis dos rios Tigre e Eufrates (atual sul da Turquia, Síria e Iraque). Ali se fixaram povos nômades, aproximadamente em 8.000 a.C., e floresceram civilizações tão antigas como a do Egito: os sumérios e os semitas (acádios, assírios e babilônios).

Suas primeiras cidades teriam sido criadas durante a última parte do IV milênio a.C., até que floresceram importantes Cidades-Estado sumerianas como Ur e Lagash no sul, Umma ao norte e outras como Nippur e Kish. Pouco a pouco Ur surgiu como potência dominante, estabelecendo um império. Os sumérios, os primeiros a inventar a escrita – os caracteres cuneiformes (3.100 a.C.), possuíam também um sistema numérico sexagesimal que usavam para medir o dia, dividindo o ano em 12 meses e o círculo em 360 graus.

Com sua queda, por volta do ano 2.000 a.C., várias dinastias distintas estabeleceram-se, com a Assíria e a Babilônia sendo as de maior importância e sendo esta última a cidade mais importante durante o reinado de Hamurabi (rei de 1.792-1.750 a.C.), reinado que conseguiu unificar os semitas e os sumérios.

Após uma sucessão de guerras, que ocorreram após a queda do primeiro império babilônio em 1.595 a.C., em que os amorreus, elameus, hititas e os cassitas dominaram, seguiu-se a dinastia dos assírios, o segundo império babilônio. Os assírios dominaram desde o Egito até a Pérsia, prosperaram e fizeram a cidade da Babilônia sua capital. Sua queda foi abrupta, com Nabopolasar, atacando a Assíria pelo sul, destruindo-a e retomando a coroa da Babilônia, em 625 a.C.. Os babilônios imperaram até o reinado de Nabucodonosor II ((630-561 a.C.), filho de Nabopolasar, 602-562 a.C.), quando então Ciro II, príncipe da Pérsia na época, fundou o primeiro Império Persa conquistando a Babilônia (538 a.C.) – período arquemênida. Em 323 a.C. a Mesopotâmia é conquistada por Alexandre, e posteriormente anexada ao reino dos selêucidas, fundado por Seleuco I Nicator,  um dos generais de Alexandre Magno, o Grande.

 


 

OS PERSAS

Na Pérsia, atual Irã, fixaram-se povos nômades aproximadamente em 8.000 a.C.. Situada ao norte da Mesopotâmia, foi governada por reis que também eram sacerdotes, chamados magos, os Reis magos. Seu primeiro rei foi Khodorlahomor. Sofrem domínio meda sob Ciáxare e Astíage (633-549 a.C.). Sob Ciro II, os persas derrotam os medas (550 a.C.) e conquistam a Ásia Menor (queda do reino da Lídia em 546 a.C.), situada entre o mar Mediterrâneo e o Negro, o Afeganistão e o grande império Babilônio em 538 a.C. – período arquemênida. Porém seu apogeu se deu no reinado de Cambises II, em 528-521 a.C., quando a Pérsia invade e conquista o Egito (525-404 a.C.), fundando então a XXVII dinastia, dita arquemênida. Seguiram-no, Dario I (522-486 a.C.), que invade a Índia (517-516 a.C.), sem êxito durável, e inicia a guerra contra os gregos, Xerxes (486-465 a.C.) e Artaxerxes I (465-424 a.C.), que assina a paz com os gregos, após a derrota final de 480-479 a.C.. Os persas, que haviam perdido o domínio do Egito, com Artaxerxes III o reconquistam definitivamente, em 341 a.C., até que sob o reinado de Dario III é, então, invadido e dominado pelos gregos, em 334-331 a.C. – período selêucida.



A ÍNDIA

Os árias, de origem controvertida, vindos do oeste, após terem, possivelmente, experimentado forte influência persa, espalharam-se lentamente no noroeste da Índia. Sítios arqueológicos no vale do Indo (Harappa e Mohenjodaro), descobriram vestígios de construções de tijolos, com utilização de abóbada, ruas cortadas em ângulo reto, casas providas de piscinas e poços, com um aperfeiçoado sistema de distribuição de água, além de provas de relações comerciais com a Mesopotâmia, todos datados de entre 2.500 a 1.200 a.C..

Traziam um sistema social baseado em castas (os brâmanes – brahmanas, os guerreiros – kshatriyas, os agricultores – vaishyas, os servos – suras e os sem casta – párias) e uma legislação (extraídos do Sutra Manarva Dharma Sastra – código de Manu), uma língua chamada indo-européia com 50 letras (o sânscrito), uma cultura literária, científica e filosófica e uma tradição religiosa. Sua história é quase desconhecida com seus textos fornecendo narrativas lendárias com cronologia e autores impossíveis de serem determinados. Foi um povo próspero, com quem todos os povos antigos buscaram comércio. O bramanismo, baseado nos Vedas, favoreceu o desenvolvimento dos cultos populares a Krishna e Rama. Deixou-nos um legado e uma história essencialmente espiritual e não político-guerreira.

Os livros sagrados dos indianos (Shastras) contêm a “Tradição-Sabedoria” existente em todos os escritos da Humanidade. De antigüidade desconhecida, versam sobre história, ciência, mitologia e filosofia. Eles compõem-se em quatro classes de escrituras:

  1. Os shrúti, que são os Vedas, escrituras diretamente “ouvidas”, ou “reveladas”, pelos rishis (sábios videntes) em antigüidade indeter­minável. Sua tradição oral remontaria 10 mil anos, tendo sido escrito há seis mil anos. Os Vedas consistem em quatro: o Rigveda (hinos às divindades), o Yajúrveda (fórmulas sacrificiais), o Samaveda (o veda da ciência musical) e o Atharvanaveda (orações mágicas e simbologia esotérica). Desses quatro antigos Vedas subsistem cerca de 100 livros canônicos, com aproximadamente 100 mil estrofes; 
  2. Os smiritis ou lendas “rememoradas”, que foram escritas num passado remoto. São equivalentes ao Novo Testamento cristão: o Mahabharata que se passaria há mais de 5.000 anos (do qual faz parte o Bhagavad Gita, literalmente “O Canto do Senhor”, o 63º capítulo, considerado o “evangelho” hindu, que cita os conselhos de Krishna a Arjuna) e o Ramayana (sobre Rama) que se passa eras antes;
  3. Os dezoito puranas, alegorias antigas (como a história do primeiro casal humano, no Srímad Bhagávata Purana, ou a história de Jesus Cristo, do século 5 d.C., no Bhavishyat Maha-Purana­ – aqui com o nome de Isa-Masih), apresentam as diferentes vias para o aperfeiçoamento pessoal e para a libertação total do ciclo das reencarnações; e
  4. Os tantras (ritos ou rituais), são textos hindus esotéricos e teológicos. Deram origem ao tantrismo, ou shaktismo, que prega o aperfeiçoamento espiritual pela completa transcendência dos impulsos corporais (vide adiante em “HINDUÍSMO”). Compreendem também os Araniaka (rituais para serem recitados longe de aglomerações, nas florestas) e Sutras (discursos – manuais práticos sobre os ritos cerimoniais e preceitos jurídicos).

 Os Brahmana são comentários com interpretações dos Vedas, uma literatura teológica. Os Upanishad ou Vedanta (literalmente, “parte final dos Vedas”), de posterior redação, aparecem no final dos quatro Vedas e são sumários essenciais que formam a base doutrinária da religião hindu. Sua filosofia se divide em seis sistemas ortodoxos, ou darshanas: Shânkia e Yoga, Vedanta e Mimânsa, Nyáya e Vaisesíka (nesses dois últimos se encontra a teoria da estrutura atômica da matéria). Cada filosofia tem os seus próprios sutras e formam pares complementares, pois enquanto o primeiro dos pares estuda as leis que regem espírito e matéria, o segundo mostra os métodos práticos de se obter a visão da realidade. A filosofia Shânkia se diferencia um pouco por não discorrer sobre a existência de um Deus, mas somente na existência de Espírito e Matéria (Purusha e Prakriti) como entidades primeiras e eternas. Ela é chamada de filosofia realista, ao contrário dos sistemas Yoga e Vedanta, filosofias conhecidas como idealistas por discorrerem sobre a existência de Algo acima de Purusha e Prakriti.

Outros livros que tratam de ciência, incluem tratados astronômicos como o Jyotish (um dos livros do Jyotish, o Brama Gupta, versa sobre o movimento heliocêntrico dos planetas de nosso sistema solar, a forma esférica da Terra, a luz refletida da Lua, o movimento de rotação diário da Terra, a lei da gravitação e outros assuntos que só vieram à luz no Ocidente com Nicolaus Copernicus (1.473-1.543) e Isaac Newton (1.642-1.726)), os Ayurveda – tratados de medicina hindus surgidos por volta de 800 a.C. (rituais mágicos, uso de plantas, prática de cirurgia plástica, cesarianas e operações cerebrais, métodos para neutralizar efeitos de gases venenosos, etc.), o Dhanurveda – ciência militar, o Artha Shastra – ciência de governo e política, o Gandharva Veda – arte da música, dança, drama etc., o Vastu Shastra – arquitetura, o Ratha shilpa – carros, o Nauka shilpa – barcos, o Vimana shilpa – aeroplanos, o Durga shilpa – fortes, o Nagara shilpa – cidades, o Murthy shilpa – escultura e o Manu Samhita – código de leis. Todos eles considerados tradições orais (smiritis).

Hipócrates (460-377 a.C.), no século V a.C., tomou emprestadas muitas fontes hindus para sua bagagem médica. Até os “algarismos arábicos” foram formulados pelos indianos, por volta do século V d.C., escritos no Brahmasphutasidanta (A abertura do Universo) por Brahmagupta, provavelmente no século VII d.C., e levados ao Ocidente pelos árabes. Relevos de Vimanas (navios ou naves voadoras) se encontram num templo em Abydos no sul do Egito, e são muito semelhantes aos mais modernos aparelhos de aviação e navegação.

A idolatria a diversos “deuses” bramânicos desvirtua a religião bramânica até que dois reformadores religiosos surgiram no século VI a.C., fundando o budismo (Sidarta Gautama) e o jainismo (Jina).

Uma época de invasões sem sucesso ocorre com os persas (Ciro, Dario I) e gregos (Alexandre Magno) entre 517 e 305 a.C.. Ashoka (273-232 a.C.) assume como príncipe soberano em 264 a.C. e, convertido ao budismo, promulga numerosos editos que pregam a moral. Ele manda erguer mais de 84.000 mosteiros budistas na Índia e patrocina o quarto concílio budista (249-242 a.C.), com a participação de milhares de monges, restabelecendo a unidade ao budismo. Organiza a expansão do budismo nos mais longínquos países, como na Síria, Grécia, Egito (em Alexandria, escolas budistas eram conhecidas como Viharas) e Judéia (onde teriam influenciado alguns judeus: os primeiros essênios), através da Rota da Seda, e cria os primeiros textos budistas, o esboço do Triptaka em páli, a língua falada, mais evoluída que o sânscrito. O Triptaka atual, conjunto de três textos, o Vinaya-pitaka (regras monásticas), o Sutta-pitaka (coletânea de sermões e diálogos de Buda) e o Abhidhamma-pitaka (tratados de teologia), foram redigidos a partir do século V d.C. (veja mais detalhes quando falarmos do BUDISMO).

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