O Yoga e o Tantra

O YOGA

O Yoga é o coração da religião. Ensina que a nossa essência, e a de tudo o que existe, é a “Consciência Pura”. O nível quântico seria um “vácuo”, vibrando energia cósmica e consciência, de forma que todo o Universo é uma “mente viva”.

 

Órion: Filosofia, Religião e Ciência (Volume 1)

 

Temos um “programador interno” (Atma) que é quem dirige a nossa existência, tarefa que era dada até recentemente ao nosso DNA. Na realidade não somos quem pensamos que somos. O Yoga é a arte de acessar esse “programador interno” (I Cor 3:16 – ver a Natureza Humana, no Volume 2), presente no superconsciente, transcendendo os níveis consciente e subconsciente de nossa mente, como meio de se atingir a união, ou unicidade com o Infinito. É o meio de se alcançar momentos raros de bem-aventurança e êxtase, estado chamado pelos hindus como Samadhi, em vida, ou Nirvana, após a morte. Esse acesso, por vezes, se utiliza de visualizações, sons (mantras) e gestos (mudras).

Essa união com Deus (Yoga), segundo as Escrituras, poderia ser conseguida por quatro caminhos:

  1. Bhakti-yoga, caminho onde o ideal que leva à unicidade com o Divino passa pelo cultivo de uma intensa e contínua devoção e amor a Deus e a todas as suas criaturas e criações, de uma forma absolutamente desinteressada. Caminho da maioria dos crentes de todas as grandes religiões, visa à companhia eterna de Deus, afirmando que de alguma forma permanece um traço de separatividade entre o espírito e a Divindade após a união final;
  2. Jnana-yoga, ou caminho da Sabedoria (gnosis ou sophia dos gregos), onde a análise e eliminação, como ilusórios, de todos os fenômenos considerados transitórios e sua distinção do que é eterno e real, faz o homem concretizar a união com o aspecto impessoal da Divindade. O conhecimento libertador seria de que não somos o nosso corpo físico. Um “Eu” maior existe, o espírito humano (Atma), e Esse e o mundo divino (Brahman) são a mesma essência. Visa à completa absorção em Deus, com a dissolução completa de todos os predicados separatistas de Atma;
  3. Karma-yoga, ou caminho do trabalho abnegado, onde cada ação e todos os frutos do trabalho, sem nenhum apego a eles, são oferecidos a Deus como um sacramento, ou são atribuídos a Ele como verdadeiro executor, como forma de se alcançar a pureza de coração e a união divina (IC I,3:3). Mas o karma iogue necessita saber qual tipo de trabalho mais o preenche, o trabalho afetivo ou o reflexivo. Vemos então que o Karma-yoga necessita de Bhakti e de Jnana; e a
  4. R?ja-yoga, Yoga Real (raj) ou Ashtanga (oito passos) Yoga, o caminho da meditação formal, o mais alto caminho do Yoga, sistematizada no século II d.C. por Patañjali em seu Yoga-s?tra. É um método de concentração exclusiva na Realidade Suprema, até que se alcance a absorção completa Nele. Combina os três outros caminhos, pois usa ação dedicada a Deus, a adoração e o discernimento de que Deus é o Ideal. Exige a abstenção da ofensa aos outros, da falsidade, do roubo, da incontinência e da gula, e a observação da pureza e da devoção como meio de ajuda à obtenção da concentração em um único ponto: Deus.

Resumem-se os Yoga Sutras de Patañjali em uma Senda Óctupla:

  1. Yama, ou conduta moral: não ofender ou prejudicar outrem, não mentir, não roubar, conservar a castidade e não ambicionar o alheio;
  2. Nyama, ou observâncias religiosas: pureza de corpo e de mente, autodisciplina, estudo de si mesmo, devoção a Deus e ao mestre e estudo metafísico do Yoga;
  3. Ásana, ou posição correta: estável e confortável, com a coluna ereta, visando a estabilidade do corpo e reduzir ao mínimo o esforço físico. Acalmar o corpo – o “irmão traseiro”, segundo São Francisco (1.181-1.226);
  4. Pranayama, ou controle de prana (vide Volume 2): as correntes vitais, que fluem junto com a respiração. Visa acalmar a respiração e, conseqüentemente, o coração;
  5. Pratyahara, ou abstrair-se dos cinco sentidos e dos objetos exteriores;
  6. Dharana, ou concentração: manter a mente focalizada num só objeto, que pode ser um símbolo (yantra), um diagrama geométrico (mandala) ou uma vocalização (mantra), ou na observação da própria respiração. O uso de gestos (mudras) neuro-musculares tem por finalidade a facilitação psíquica por ativação de acupontos presentes nas mãos (vide volume 2). O objetivo final é acalmar a mente de sua turbulência usual de pensamentos, lembranças, devaneios e distrações mentais, transformando-a num calmo rio de um único pensamento. Agora é só a mente e o objeto focalizado;
  7. Dhyana, ou meditação (“o fluir da mente”): com a concentração se aprofundando cada vez mais, chega um momento em que se percebe que a mente e o objeto se fundem numa coisa só. A separatividade se dissipa, “a dualidade conhecedor/conhecido se resolve numa unidade perfeita”. Nessa hora se dissolve o espaço-tempo físico. Entramos na eternidade infinita; e
  8. Samadhi, ou experiência superconsciente de libertação ou iluminação. Nessa hora a mente se liberta de todas as formas e atinge um estágio sem definições. Difícil de se descrever em palavras, mas é o momento em que sobrevem uma calma sobre o espírito fadigado, quando, num silêncio profundo, vem a certeza do sucesso, do encontro do Caminho. Uma voz que fala onde não há ninguém que fale. A flor da alma que se abre. A mente se enche daquilo que “é separado de todas as qualidades, nem isso nem aquilo, sem forma e sem nome” (Upanishad).

Os passos 1 e 2 são iniciais e muito importantes. São pré-requisitos morais a qualquer uma das quatro formas de Yoga. Na busca do “programador interno”, os passos 3, 4 e 5 são intermediários, visam acalmar todos os fatores externos que possam distrair o iogue. Enfim o iogue se vê frente a frente com o interno, com a sua mente, para a maior batalha que existe: acalmá-la (6), para atingir o estado meditativo (7) e a superconsciência (8). No estado de superconsciência não há o tempo e perde-se a noção de um Universo físico, tal como o concebemos. Atinge-se o ponto da singularidade einsteiniana sem se precisar atingir a velocidade da luz.

 

“A mente é como um macaco enlouquecido por uma mordida de escorpião”.

Sri Ramakrishna (1.834-1.886)

 

A meta é: negar o falso e afirmar o verdadeiro e abster-se de tudo em meditação, até atingir a comunhão espiritual da consciência com o nosso verdadeiro Eu, o Deus interior, o “programador interno”. Mas a mente é um “ser” incontrolável, pelo menos no início. Ela divaga, muda seus pensamentos, suas emoções, observa tudo o que se passa ao redor do corpo que habita, sons, luzes, odores, e sensações táteis. Mantê-la concentrada é tarefa aparentemente impossível. Como então conseguir “abster-se de tudo em meditação”? Só a prática ininterrupta proporcionará esse desenvolvimento mental.

Patañjali, em seus Yoga Sutras incentiva à busca da virtude e da Verdade (Deus): “A prática ininterrupta da procura da Verdade é o caminho para a libertação” (II-26) ou “Quando a mente é perturbada por pensamentos impróprios, o remédio é a constante ponderação sobre os opostos” (II-33). A abstenção, na meditação, é a prática e a busca da desconexão de todos os centros de reação, dor ou prazer, razão e irracionalidade, fantasia e memória, buscando estabelecer a nossa essência natural, o equilíbrio.

Um outro sistema de Yoga, mais popular, cuja única proposta é purificar o corpo, dando controle e total conhecimento sobre todos os estados internos, trazendo saúde física e preparando o corpo adequadamente para a meditação é conhecido como Hatha-yoga. Trabalha-se o corpo físico dando-lhe uma postura firme, saúde e flexibilidade para que o verdadeiro Yoga, que se realiza na mente, nos torne aptos a alcançar níveis maiores de consciência. Se a mente perturbada é capaz de gerar tensões musculares, o alongamento muscular é capaz de diminuir as tensões da mente. Se a mente agitada acelera e superficializa a respiração, a respiração profunda e ritmada consegue acalmar a mente. Uma vez que qualquer postura (ásana) é feita com total concentração no movimento e na respiração, que é sincronizada com o movimento, qualquer ásana é importante para a meditação.

Outro sistema, conhecido como Mantra-yoga, consiste na repetição de certos sons universais, com ou sem significado, representando aspectos particulares do Espírito. O Mantra-yoga usa o som como meio de liberar a mente e elevá-la à mente superconsciente (vide volume 2). Para se ter uma idéia de como o som influencia nosso estado mental, pode-se comparar o que sentimos quando ouvimos sons de explosões ou colisões de carro, quando ouvimos uma música agitada, quando ouvimos uma música clássica e quando ouvimos músicas de relaxamento.

Os mantras teriam três efeitos principais na mente: efeito pulsativo, ressonante e ideativo 68:23. No primeiro haveria uma identificação das fases da respiração com a entoação do som, levando à concentração da mente na fase de pausa respiratória. Haveria também uma ressonância da vibração do som com a vibração das ondas mentais, normalmente muito diferentes em todas as partes do cérebro vígil. Essa ressonância acalmaria a mente, diminuindo o ritmo cerebral como um todo. E por fim a mentalização no ideal divino, diminuindo a falsa identificação com o ego, até a “fusão” na Consciência Cósmica (Samadhi) – “somos aquilo que pensamos”.

Uma técnica avançada de Raja-yoga, que reforça e revitaliza as correntes sutis de energia vital no corpo possibilitando uma calma natural das atividades do coração e pulmões, é conhecida como Kriya-yoga. Visa à atração da consciência a níveis mais elevados de percepção, trazendo “o despertar” de uma profunda satisfação e de uma felicidade maior do que qualquer das experiências que a mente, os sentidos ou as emoções do homem comum sejam capazes de oferecer.

Divulgada no século passado por Paramahansa Yogananda (1.893-1.952), reúne disciplina física, respiração rítmica controlada como exercício de pranayama (controle de prana ou energia vital – vide Nadis no Volume 2) e meditação em Aum. Na prática da respiração material, transformada em prana espiritual, é concomitantemente exercitado o “olho simples”, cujo veículo material se acha localizado na fronte, entre as sobrancelhas (conhecido também como olho místico ou olho do Cristo). Tem quatro graus ou Kriyas, sendo a sua mais alta meta o completo domínio das forças vitais do Kundalini (vide Chakras no Volume 2), pela compreensão espiritual. Paramahansa Yogananda afirmava que se o discípulo praticasse a Kriya-yoga durante oito horas por dia equivaleria a mil anos de evolução, perfazendo 365 mil anos de evolução, durante um ano de prática ou mais de um milhão de anos de evolução, durante três anos de prática.

De um modo geral, os hindus consideram a vida dividida em etapas. Segundo Paramahansa Yogananda o ser humano deve:

 

  1. Dos 5 aos 25 anos de idade, receber treinamento intensivo do caráter e impregnar-se de ideais e hábitos espirituais. É considerado um segundo nascimento. Deve receber educação geral, aprender pelo estudo e pela observação, e procurar treinamento especializado em alguma profissão pela qual se sinta inclinado.
  2. Dos 25 aos 40 anos de idade, cumprir suas obrigações para com a família e para com o mundo (satisfazer a busca por prazer, sucesso e dever), enquanto se esforça por manter um equilíbrio espiritual através da meditação.
  3. Dos 40 aos 50 anos de idade, deve viver com mais tranqüilidade, estudar obras inspiradoras, manter-se atualizado com o progresso nas artes e nas ciências e passar mais tempo em meditação, sozinho ou em companhia da esposa.
  4. Dos 50 anos em diante, passar a maior parte do tempo meditando profundamente e, com a sabedoria e espiritualidade assim adquiridas, prestar serviço social e espiritual aos outros. Rompe todos os laços em busca do Divino, não odiando nem amando coisa alguma, vivendo o presente sem se importar com o futuro, perambulando e sobrevivendo de esmolas ou do que juntara até então.
Categoria: Órion Volume 1

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