As Religiões Pagãs

A história acontece e se repete, num ciclo espiral,

acompanhando a evolução da mente humana. 

 

Órion: Filosofia, Religião e Ciência (Volume 1)

Os fósseis encontrados na Europa e na Ásia atestam que o homem de Neanderthal e o homem de Cro-Magnon (vide anteriormente na época do Pleistoceno) já tinham alguma forma de religiosidade, de crença numa vida após a morte: sepultavam seus mortos na posição de quem está dormindo, com a cabeça pousada sobre uma pedra, sobre o cadáver lançavam pó de ocre que tem a cor da vida (pardo, amarelo, vermelho, castanho...) e junto ao defunto colocavam flores, alimentos, armas, instrumentos diversos e figuras ornamentais, que lhe serviriam na viagem para o além. Já acreditavam na vida após a morte, há cerca de 150 ou 35 mil anos atrás. As tradições bramânicas citam que a nossa civilização iniciou-se há cerca de 50.000 anos atrás e que há cerca de 7 ou 8 mil anos ela chegou a seu auge na Índia e no Egito.

Segundo Edouard Schuré (1.841-1.929) existem duas correntes que trouxeram até a atualidade nossas idéias, mitologias e religiões, artes, ciências e filosofias. Ele as chama de corrente semítica e ária, cada uma com uma concepção oposta da vida, válidas e complementares, facetas de uma mesma verdade, compostas para as diferentes mentalidades existentes.

A mentalidade semita desce Deus ao homem e a corrente ária eleva o homem a Deus. O arcanjo justiceiro que desce à Terra, armado de espada e raio, representa a primeira, e Prometeu que sobe ao Olimpo e volta à Terra com o fogo, a segunda. Remontando à corrente semítica se chega a Moisés no Egito e ascendendo pela segunda se chega à Índia. Egito e Índia foram as grandes mães das religiões humanas.

Da mesma forma, a transformação humana, necessária ao encontro com Deus, segue duas correntes. Numa o combate ao mal com o bem é necessário, tanto para contê-lo, como para vencê-lo. Na outra corrente, o combate não se faz necessário. O mal perde por si mesmo quando deixado sob observação e encarado com compaixão e compreensão. Numa se chega ao Yoga hindu, ao Budismo, ao Zen e à maioria das religiões do mundo. Na outra se chega ao Tantra hindu e budista, ao taoísmo e à tendência atual de se ver o todo (Holística).

Mas todas as religiões ensejam a uma união com a Divindade, através de experiências místicas: o pangree africano, o samadhi hindu, o êxtase contemplativo cristão, o nirvana budista, o fanan muçulmano, a superconsciência de Sri Aurobindo (1.872-1.950), etc..

 

AS RELIGIÕES “PAGÃS”

“A base primitiva, para mentes primitivas, o conhecimento

verdadeiro para mentes evoluídas”.

 

O termo “pagão” é uma denominação cristã que se refere àqueles que professavam uma religião onde não havia batismo. Hoje em dia, a moderna teologia chama às religiões primitivas de religiões primais. O homem primitivo mais evoluído achava que o Sol, a Lua e as estrelas eram manifestações de um Ser Supremo, bondoso. Por outro lado, a maioria achava que as forças da natureza eram manifestações de vida de espíritos vingativos e egoístas aos quais tinha que conquistar a amizade e acalmar a ira (animismo, do latim animus, alma ou espírito). O culto aos antepassados, seria uma forma de animismo.

Enquanto o povo passeava entre o animismo vulgar e se aproximava de um politeísmo ignorante, os eleitos viam tudo como manifestações da Divindade. O Edda escandinavo, o livro das lendas, proclama a idéia de um Deus único, pai do Universo, ser de amor e bondade. Da junção entre o politeísmo popular e o monoteísmo verdadeiro, formas mistas surgiram. Havia os que acreditavam em vários deuses, mas com um deles predominando, o deus do clã ou da tribo, o deus principal (monolatria), e havia os que passaram a ver a Divindade manifestada, como que dissolvida, em tudo o existente (panteísmo). A monolatria ainda é vista hoje em alguns povos de Uganda, e por fiéis menos esclarecidos de quase todas as atuais religiões.

Pode-se enquadrar na categoria de “pagãs”, tanto as religiões mais primais, confinadas a tribos e clãs, como as mais institucionalizadas e espiritualizadas, como a religião finlandesa, celta e escandinava, a egípcia, a persa, a mesopotâmica, a grega e a romana. Essas serão detalhadas mais adiante. A rigor, o termo pagão, para os cristãos, incluiria o hinduísmo, o budismo, o xintoísmo, o taoísmo e até o islamismo.

Para a maioria, o Sol, como fonte e sustentação de toda a vida, passou a ser a divindade principal, ou a manifestação visível da Divindade (Ez 8:16). Observavam o Sol e em sua honra foram construídos templos e instituídas festas e cerimônias. O curso do Sol pelo zodíaco originou o mito das 12 encarnações de Vishnu (Cf. em BRAMANISMO), os 12 trabalhos de Hércules, etc.

À aparente perda de calor do Sol durante o inverno, se seguia seu reaquecimento (renascimento) a partir do solstício de inverno, que corresponde ao dia mais curto do ano (no hemisfério Norte entre 22 e 23 de dezembro), que perdurava até o equinócio da primavera (21 de março no hemisfério Norte, data em que dia e noite têm a mesma duração devido ao fato de o Sol nascer precisamente no leste e se por precisamente no oeste), chegando ao seu apogeu no solstício de verão (22 ou 23 de junho no hemisfério Norte, o dia mais longo do ano). Esse ritmo fez os antigos dizerem que o Sol nascia e era o mesmo para todas as nações no solstício de inverno, fortificava-se até o equinócio da primavera chegando à sua glória no solstício de verão, para então morrer e descer aos infernos durante o equinócio do outono (23 de setembro). Daí teria surgido a lenda da morte, descida ao inferno e ressurreição dos diversos deuses de quase todas as religiões (citados anteriormente).

Da relação das fases da Lua com as datas dos Solstícios e Equinócios, no hemisfério Norte, originaram-se as datas de todas as festas e cerimônias pagãs, que nomeavam seus dias da semana com o nome dos astros até então conhecidos.

Outra forma de religiosidade era o culto a homens-deus que vinham à existência e se sacrificavam em prol do povo. Desse modo personificaram-se figuras mistas de divindade e humanidade como Hórus, Osíris, Hermes, Apolo, etc., representando homens que existiram e foram elevados à categoria de deuses por suas ações pelo bem da humanidade. Esses deuses, após a morte, ressuscitavam em glória, para o bem da humanidade.

Paulatinamente a degradação tomou conta dos ritos, que originariamente tinham um significado simbólico que se tornou deturpado. Pã era a “Natureza Absoluta, o Único e o Grande Todo”. Os festivais ao grande deus da Natureza Pã, celebrados nos Equinócios e Solstícios, em que se celebrava a Natureza como criação divina, se transformaram em festas orgiásticas (daí sua popularidade), e Pã foi transformado no princípio do mal dos cristãos (Cf. em CRISTIANISMO). Da mesma forma o Falicismo, que era o culto ao falo como símbolo da fecundidade da Natureza, se deturpou.

O deus sacrificado, outra fórmula antiquíssima, já foi uma deturpação do culto aos homens-deus. Um sacrifício humano anual, para ajudar a colheita, era então um rito genérico entre todas as tribos agricultoras da Europa e da Ásia Menor há cinco mil anos, e mesmo nos primórdios do romanismo ainda era praticado por tribos indo-européias. O sacrificado era, originalmente, o rei da tribo, reinava durante o ano, e era executado nos Ritos da Primavera, ou Páscoa. Era tratado como encarnação do deus tribal, e adorado até o momento de sua morte. Com seu sangue os campos de cultivo eram salpicados, sua carne era comida por nobres e sacerdotes e o povo tinha de contentar-se em respirar a fumaça de certas partes queimadas e oferecidas à divindade que ele havia encarnado (estas partes variavam: algumas tribos queimavam os órgãos sexuais, outras o coração). Eventualmente uma fórmula tornou-se mais conveniente para os reis: concebeu-se a idéia de um vicário e, desde então, um rei substituto era simbolicamente ungido para a ocasião, para ser sacrificado no lugar do rei verdadeiro. Primeiro usaram voluntários, depois velhos e doentes ou criancinhas, a seguir inimigos, e, por último, animais.

Em muitas tribos os pais, em vez de se sacrificarem, sacrificavam seus primogênitos (neste caso os pais eram os chefes ou patriarcas das tribos). Esse costume foi abolido na tribo do Abraão bíblico, por Iaweh (Gn 22:9-13), e substituído pelo sacrifício animal. Sacrifícios humanos, acompanhados de antropofagia ritual, eram costume no continente indo-europeu, na Austrália, no continente africano e no Novo Mundo. A presença universal de tal rito, numa época em que a arte da navegação era praticamente nula, indica uma origem comum na Antigüidade.

Já a religiosidade monólatra fenícia se baseava no culto às forças naturais divinizadas. A divindade principal era El, adorado junto com sua companheira e mãe, Asherat ou Elat, deusa do mar. Desses dois descendiam outros, como Baal, deus das montanhas e da chuva, e Astarte ou Astar, deusa da fertilidade, chamada Tanit nas colônias do Mediterrâneo ocidental, como Cartago. Entre os rituais fenícios mais praticados, tiveram papel essencial os sacrifícios de animais, mas também os humanos, principalmente de crianças. Em geral os templos, normalmente divididos em três espaços, eram edificados em áreas abertas dentro das cidades. Havia ainda pequenas capelas, altares ao ar livre e santuários com estrelas decoradas em relevo. Os sacerdotes e sacerdotisas freqüentemente herdavam da família o ofício sagrado. Os próprios monarcas fenícios, homens ou mulheres, exerciam o sacerdócio, para o que se requeria um estudo profundo da tradição.

Para os finlandeses, no princípio havia somente Luonnotar (a Filha da Natureza), completamente sozinha num enorme vazio. Flutuou no “oceano cósmico” durante eons, até que uma águia fez um ninho em seu joelho. Assustada terminou quebrando os seus ovos, dos quais surgiram o céu, a Terra, o Sol, a Lua e as estrelas. No Kalevala (pátria dos heróis), o mais antigo poema épico finlandês, fala-se dos deuses do ar, da água, do fogo e das florestas, do céu e da Terra. Nele Mariatta, Virgem-Mãe das Terras Nórdicas, é escolhida por Ukko, o Grande Espírito, como veículo para se encarnar por meio dela em Homem-Deus. Repudiada pelos pais, dá nascimento a um “Filho imortal” numa manjedoura de estábulo. Mais tarde o menino desaparece e Mariatta se põe aflita a procurá-Lo perguntando a uma estrela, à Lua, até que quando pergunta ao Sol este diz onde achá-Lo.

De um modo geral, as religiões primais, além dos conceitos acerca da Divindade, tinham as mais diversas formas de explicar a origem, a finalidade e até a extinção do mundo e do homem. Usavam uma água lustral, ou santa, para purificar suas cidades, seus campos, seus templos e a si próprios. Nas suas cerimônias sacrificiais, o pontífice (curion) aspergia essa água em todos os presentes com um ramo de louro; possuíam em seus templos altares para a consagração aos deuses. Muitos sacerdotes pagãos se castravam, com o fito de serem mediadores puros e santos entre o povo e deus ou a deusa. A castração ritual era encontrada na Babilônia, no Líbano, na Fenícia, no Chipre, na Síria e no culto frígio de Átis e Sibele.

Muitas tribos primitivas, como os aborígenes da Austrália, os zulus da África do Sul e os peles-vermelhas da América celebravam também algumas cerimônias tribais de mistérios, que consistiam na escolha de um lugar isolado, marcação dos direitos e deveres da virilidade dos rapazes, um período de instrução e exercícios de resistência à dor. Então os candidatos, em transe, passavam por uma morte simbólica e após se erguerem (ressurreição) recebiam um novo nome (uma nova vida) junto com a exibição de algum objeto sagrado sob juramento. Além desses ritos, conhecidos como “ritos de puberdade”, outros ritos, conhecidos como “ritos de passagem”, eram também importantes: nascimento, casamento e morte.

 

Categoria: Órion Volume 1

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