Taoísmo

“Um taoísta é um homem que busca a imortalidade na vida presente, não como longevidade, na qual não morre, mas um estado no qual o homem não vai aos ‘infernos’ após a morte”.

Michael Saso

Originalmente, o taoísmo é uma escola de sabedoria chinesa centrada no antigo conceito de “caminho”, ou Tao. Possui uma forma pessoal, uma forma filosófica e uma forma religiosa.

Enquanto prática de vida pessoal, o taoísmo visa aumentar o Te (poder) pessoal, aumentando o fluxo da energia vital (ch’i) que corre no corpo humano. Trabalham esse incremento no ch’i com exercícios físicos e pelo cuidado com a alimentação, com a relação sexual, com a respiração e com a mente. O objetivo final é a realização, a harmonia entre a mente e sua fonte cósmica, daí o termo Yoga taoísta.

Enquanto filosofia (Tao chia), sua origem é atribuída aos ensinamentos do sábio Erh Li, conhecido como Lao Tsé (velho mestre), que teria vivido no século VI a.C.. A ele é atribuído o Tao Te Ching (Clássico do Caminho e do Poder), livro fundamental do taoísmo. O segundo livro mais importante é o Chuang Tsé, obra mais ampla cujo autor homônimo deve ter vivido dois séculos após Lao Tsé. Chuang Tsé aprofundou os conceitos do Tao e explicou os conceitos de Yin e Yang apresentados no I Ching (obra confucionista).

O Tao é a única fonte do Universo. Os pontos essenciais da sua cosmogonia são:

  1. “O Tao ... Parece ser anterior a Deus”. Tao Te Ching IV;
  2. “O Tao gera o Um, o Um gera o Dois, o Dois gera o Três, o Três gera todas as coisas”. Tao Te Ching XLII;
  3. “Ao princípio do Céu e da Terra chamo ‘Não-Ser’. À Mãe dos seres individuais chamo ‘Ser’. ... Pela origem, ambos são uma coisa só...,. em sua Unidade, esse Um é mistério”. Tao Te Ching I;
  4. “... ‘semente’ ... ‘sutil’ ... ‘pequeno’. Essas três coisas são inseparáveis... [e] formam o Um. [Com] Seu aspecto superior... [e] Seu aspecto inferior... [nascem] continuamente... [e] retorna ao Não-Ser”. Tao Te Ching XIV;
  5. “Há uma coisa invariavelmente perfeita, que já existia, silenciosa e solitária, antes do Céu e da Terra. Ela continua sozinha, imutável, e pode ser chamada de ‘Mãe do Mundo’... chamo-a de Grande”. Tao Te Ching XXV; e
  6. “O mundo tem uma origem, que é a Mãe do Mundo”. Tao Te Ching LII.

Dessa forma vemos um paralelo com a doutrina hindu e judaico-cristã, de que o Tao, impronunciável e eterno gera o Um. Ele oscila continuamente entre seus dois aspectos, o “Não-Ser” e o “Ser” (superior e inferior). Por isso diz-se que o ‘Um gera o Dois’. Quando na fase do “Ser”, Mãe do mundo, o Um se torna Três: ‘semente’, ‘sutil’ e ‘pequeno’ (I, Hi e We), que não se vê, não se ouve nem se sente. É necessário que o Dois exista para surgir o Três, aquele que “gera todas as coisas”. Da relação entre o Pai (Um) e a Mãe (Dois) gera-se um Filho (Três), que é o (Verbo) Criador.

Tudo no mundo é composto pelos elementos opostos Yin e Yang (aspectos da Mãe e do Pai). Esses elementos transformam-se uns nos outros e estão em eterno movimento, equilibrado pelo invisível e onipresente Tao; a melhor maneira de agir é seguir as leis da natureza, em cuja aparente mutação se oculta a unidade do Tao.

O Yin é o inverno frio e escuro, o receptivo, o feminino, o maternal, representado pela Terra, o repouso, a mente intuitiva e complexa, a tranqüilidade contemplativa do sábio, enquanto o Yang seria o verão claro e quente, o masculino, o poder criador associado ao Céu, o movimento, a mente racional e clara, a vigorosa ação criativa do rei. Mas esses mesmos opostos são apenas faces de uma mesma coisa, uma relação polar em que um está dinamicamente vinculado ao outro, e que as mudanças cíclicas da natureza são manifestações dessa interação, semelhante aos quarto e quinto Princípios Herméticos do Egito antigo. Mas enquanto esses recomendavam a meditação em um pólo para se livrar do seu oposto, o taoísmo recomendava a meditação em um pólo para se livrar dele mesmo, nas palavras de Lao Tsé:

 

“Para contrair uma coisa, devemos, certamente, primeiro expandi-la. Para enfraquecê-la, devemos, certamente, primeiro fortalecê-la. Para derrotá-la, devemos, certamente, primeiro exaltá-la. ... Essa é a chamada sabedoria sutil... Fiquem curvos e permanecerão retos. Fiquem vazios e permanecerão cheios. Fiquem gastos e permanecerão renovados”.

Tao Te Ching XXXVI

 

Desse ponto de vista o taoísmo reconhecia, como nos conceitos do tantra hindu e budista, uma relatividade entre os conceitos de bem e mal, que interagiriam entre si do mesmo modo que o Yin e o Yang. Dessa forma o sábio taoísta não se esforça para alcançar o bem, mas para manter um equilíbrio dinâmico entre esse e o mal. A frase “Não devemos seguir e honrar os que asseguram o certo e pôr de lado o errado?” seria como uma exaltação extremada ao divino deixando de lado o aspecto humano. O taoísmo deixa à Natureza a decisão de quando predomina o bem e quando predomina o mal. Dessa forma implica passividade e não atividade. Esse conceito, conhecido como wu wei, o não-agir, consiste em se estar pronto, para quando o momento oportuno surgir, sem forçar nada, sem tomar iniciativa nenhuma. Esse conceito foi absorvido pelo Zen como vontade passiva, vazio pleno, de grande importância para a psicologia Gestalt.

O taoísmo religioso (Tao chiao) surge durante a dinastia Han, no século II d.C.. Com Chang Ling, que teria ascendido em vida ao céu, iniciou-se a crença nos “mestres celestiais” e o surgimento de uma sociedade secreta que praticava curas mágicas e alquimia na procura de um elixir da imortalidade. Com o budismo atingindo a China, o taoísmo adotou a crença nos Oito Imortais (Pa Hsien), no deus do lar (Tsao Shen), nos deuses da cidade (Ch’eng Huang) e nos guardiões da porta (Men Shen). O Tao Chiao tomou então forma, com textos religiosos escritos e chefes religiosos, cuja sucessão continua até hoje em Taiwan.

Milenar, o taoísmo filosófico continua influenciando a vida cultural e política da China até hoje. Suas manifestações mais populares são o Chi-kung, uma tradicional arte chinesa de autoterapia, as artes marciais Wo-shu ou Kung-fu, o Yoga taoísta e a arte de meditação em movimento T’ai Chi Ch’uan. Como sistema religioso, figura como um sistema de crenças que assimila os antigos elementos da religião popular chinesa: culto aos ancestrais, rituais de exorcismo, alquimia e magia. Diferente de outras religiões, não professa a vida após a morte, mas busca a longevidade e a imortalidade física pela perfeita submissão à ordem natural universal. Perseguido na República Popular da China, a partir de 1.949, ainda é muito popular na Tailândia e em Hong Kong.

Categoria: Órion Volume 1

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