O Judaísmo - Os Manuscritos do Mar Morto

MANUSCRITOS DO MAR MORTO

Entre 1.947 e 1.956 são descobertos nas cavernas Qumran, no Mar Morto, 800 pergaminhos, escritos entre 250 a.C. e 100 d.C., contendo os mais antigos fragmentos da Bíblia hebraica. Eles descrevem atividades, regras, cultos e crenças de uma seita judaica, os essênios, e revelam certos aspectos até então considerados como exclusivos do cristianismo. Apresentam grandes semelhanças com os Evangelhos do Novo Testamento e referem-se a práticas que lembram a Santa Ceia, o Sermão da Montanha e a cerimônia do batismo.

Os Manuscritos são considerados um dos mais importantes achados arqueológicos já realizado. Sete manuscritos encontrados na primeira gruta estão expostos no Museu de Israel, em Jerusalém: “Manuscrito de Isaías e de São Marcos” (150 a.C.), um segundo “Manuscrito de Isaías”, um “Comentário ao Livro do Profeta Habacuc”, o “Serek Hayyahad” (Regra da Comunidade), a “Regra da Assembléia” e o “Hodayot” (Cânticos de Louvor). Vieram, estes últimos, fortalecer as teorias mais avançadas sobre as origens do cristianismo, como tendo sido um movimento surgido em interação com o essenismo. Outros manuscritos, intitulados os “Testimonia”, o “Livro das Bênçãos”, o “Horóscopo Aramaico do Messias”, “Melquisedeque”, “Salmos de Salomão”, uma paráfrase, em aramaico, do “Gênesis”, o “Escrito de Damasco” e o “Regulamento da Guerra dos Filhos a Luz contra os Filhos das Trevas”, o “Livro de Meditação”, o “Livro secreto de João Gnóstico”, o “Livro Sagrado do Grande Espírito Invisível”, o “Livro dos Gigantes”, o “Livro dos Mistérios”, textos de astrologia, “Livro de Enoch”, “Livro da Divisão das Épocas”, tratados atribuídos a Hermes Trismegisto, textos mazdeístas, “Rolo de Lamec apocalíptico”, diversos livros do Antigo Testamento e apócrifos do mesmo, também foram encontrados, mostrando versões da Bíblia massorética, da Bíblia dos Setenta e do texto original samaritano.

Vários pergaminhos apresentavam-se tão fragmentados, que algumas partes tinham cerca de um centímetro de tamanho. Apenas 12 pergaminhos apresentavam-se em bom estado, correspondendo a 813 documentos, a maioria em hebraico, alguns em aramaico e grego. Atualmente, a maioria encontra-se preservada no Museu do Livro, no campus da Universidade Hebraica de Jerusalém, especialmente construído para manter preservados os manuscritos. Escritos em materiais pouco duráveis como o pergaminho e o papiro, apesar disso subsistiram a 19 séculos, graças à pouca umidade das grutas de Qumran.

Pelo conteúdo do termo, essênio significa piedoso ou curandeiro. Trata-se da grecização do termo sírio khasi (piedade). No plural, duas formas: khasem e khasuya. Flavius Josephus (37-100) diz Essene. Fílon de Alexandria (20 a.C.-40 d.C.) grafou Essaens. Outra versão seria uma derivação do aramaico assaya (curandeiro).

Achavam que eram uma “elite espiritual” e assim, procuravam manter-se distantes do resto do mundo, adotando regras rígidas à admissão de novatos na sua comunidade, como hoje ainda se fazem nos mosteiros hindus e cristãos. Se auto-intitulavam os Convertidos, os Penitentes, os Pobres, os Justos, os Eleitos de Deus, Filhos da Luz ou a Comunidade Santa – também os cristãos chamavam a si mesmos de santos (Rm 1:7).

Concentravam-se nas proximidades do Mar Morto, e tinham três graus: a Criança ou Noviço (o postulante, o noviço do primeiro ano e o do segundo ano), o Irmão (ou membro definitivo) e o Perfeito. Alguns afirmam que haveria um quarto grau, raro, concedido apenas em caso de missões proféticas, desejada por um Irmão e confirmada pelos Perfeitos (teria sido concedida a Jesus).

Tinham um “Conselho da Comunidade” composto de 12 homens e três sacerdotes chamados “Perfeitos”. Tiveram um Chefe, tanto político quanto religioso, que fundou a Comunidade de Qumran e que foi conhecido como o “Mestre de Justiça”, tendo provavelmente nascido por volta de 105 a.C.. Esse personagem fora o instrutor que iniciara os adeptos da seita nos “Mistérios maravilhosos”, mostrando-lhes como interpretar a Lei. Devido a perseguições políticas e religiosas, o Mestre de Justiça foi preso, julgado e condenado ao exílio, pelos saduceus e fariseus, junto com sua comunidade, em Damasco. Lá Deus teria feito uma “Nova Aliança” com o Mestre de Justiça. É provável que ele tenha morrido em Damasco, na mão de seus inimigos, antes da tomada de Jerusalém por Pompeu em 63 a.C., tornando-se então esperado, no final dos tempos, como o Messias (o Ungido de Aarão e de Israel), que seria a um só tempo Sacerdote e Rei. Há teorias que apontam Jesus como o próprio “Mestre de Justiça”.

Espécie de monges com extrema devoção às práticas ascéticas da oração e da contemplação, os essênios alcançaram grande desenvolvimento extra-sensorial, de forma semelhante aos faquires e aos iogues hindus, praticando intensamente suas curas. Em seus “Cânticos de Louvor” anunciavam o “evangelion” (boa-nova) na plenitude da compaixão de Deus, que eles denominaram “A Nova Aliança”. Há indícios de que os escribas sagrados e Hierofantes egípcios, possuidores dos segredos herméticos, após as invasões estrangeiras ao Egito, erraram sobre a face da Terra e encontraram refúgios entre as confrarias essênias, pois muitos de seus conceitos e costumes se pareciam. Era fato que eles rezavam mais de uma vez ao dia voltado para o nascente, como ensinou Pitágoras ((580-500 a.C.) iniciado egípcio) e o faziam os seguidores de Hermes Trismegisto e os brâmanes da Índia, além de basearem o seu calendário no Sol, como os brâmanes.

 

“São muito religiosos e piedosos para com Deus, só falam de coisas santas; antes que o Sol desponte fazem orações, que receberam por tradição, para pedir a Deus que o faça brilhar sobre a Terra”.

Flavius Josephus (Guerra Judaica, livro II,12)

 

Pregavam a caridade fraternal (“Sim, eles cuidarão... de amar cada irmão como a si mesmo e de apoiar o indigente, o pobre e o estrangeiro, e de buscar o bem estar de seu irmão” – Escrito de Damasco, A, VI, 14 e 20-21), o desprezo pelos prazeres dos sentidos e das riquezas e uma preocupação com a pureza (“Desprezavam as riquezas... e consideravam a pele lavada tão importante quanto suas vestes brancas e limpas” – Flavius Josephus (Guerra Judaica, livro II,12); “E a alma de teu servo detestou as riquezas e o ganho, e no orgulho dos prazeres ela não se regozijou” – Hino R, X, 29-31), um culto e estudo constante da Lei (e de obras dos antigos que ensinavam raízes e pedras para curar doenças) e a celebração do Sabá e das festas sagradas segundo um calendário solar, diferente da dos outros judeus. Toda palavra que pronunciavam era considerada mais forte que um juramento, e eles se negavam a jurar (“... Aquele em quem não se pode crer sem que se tome Deus como testemunha condena-se por isso mesmo” – Guerra Judaica, II, VIII parágrafo 135) e muitos se dedicavam à astrologia e a prever o futuro, sendo-lhes raro o engano. Eram vegetarianos e adotavam quatro ritos principais: o rito de entrada na Comunidade, um anual de classificação dos adeptos e dois outros essenciais e diários: a purificação por banhos e as refeições. Nessas, sob o comando de um sacerdote, eram servidos pão, uma porção de comida e vinho, com um número mínimo de 10 participantes.

Uma das doutrinas fundamentais da Comunidade era a crença de que os Mistérios, um conhecimento (gnose) divino, estariam ocultos nas Sagradas Escrituras e que teria sido revelado a eles. Havia também a crença, à semelhança do zoroastrismo persa, em um “Príncipe das Luzes” e um “Príncipe das Trevas” que comandavam espíritos bons e maus, transformando o mundo num campo de guerra e utilizando os homens para seus propósitos, como os “Filhos da Luz” e os “Filhos das Trevas”. Esse recrutamento seria determinado pela livre escolha de Deus (a predestinação), beneficiando somente a alguns, os Eleitos, que no dia do Julgamento seriam vingados de todos os males a que foram submetidos pelos “Filhos de Belial” (as retribuições). Tinham uma doutrina oral sobre os anjos, na qual eles exerciam o papel de mensageiros.

Eram convencidos de que o corpo morre e a matéria não é durável, ao contrário da alma, imortal e eterna. Essa, vinda do éter mais sutil, liberta da escravidão da carne, voaria nas alturas em júbilo (Guerra Judaica II, 12). Tinham também uma doutrina do Carma e do céu e inferno, dando a possibilidade ao homem de mudar a sua própria vida ou continuar nos ciclos de reencarnações (criam também na transmigração das almas), podendo ser condenado no Dia do Juízo. Nesse dia, ou a carne tornar-se-ia também imortal, a ressurreição, ou sofreriam o castigo eterno da dissolução. Proibiam a pena de morte a quem desrespeitasse o sábado. Sua vida e ensinamentos comprovam, como vimos, uma forte influência hindu e pitagórica.

Acreditam alguns que houvesse comunidades essênias na Síria, as quais teriam se transformado globalmente em igrejas cristãs, após os insucessos da guerra judaica de 66 a 70, em que os essênios declinam e os cristãos se liberam. Então os cristãos passam a se desenvolver, no meio judaico, como seita bem caracterizada.

A tradução completa dos manuscritos, editada recentemente pela Universidade de Oxford, na Inglaterra, não demonstra nenhuma ligação entre os primeiros cristãos, João Batista ou Jesus com a seita essênia. Em parte a omissão se explica, como já dito, porque Jesus poderia ter sido visto apenas como um dos muitos essênios, ainda que fosse uma variedade profunda dos mesmos.

Categoria: Órion Volume 1

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