O Judaísmo

A Revelação (Torah) no monte Horeb constitui o evento fundador da religião de Israel, ocorrida após a saída do povo judeu do jugo egípcio (veja anteriormente, em OS HEBREUS). Ela incluía os dez mandamentos de Jeovah dados a Moisés no monte Sinai, semelhantes aos escritos pelos rishis indianos (no Rigveda) e por Hamurabi (em seu código), e mais de 600 leis que formavam um extenso código de conduta com requisitos espirituais, morais e físicos.

Toda a Torah mostra que provavelmente houve influência babilônia no mito da criação, no mito do dilúvio e no código de leis dos hebreus, provavelmente resquícios do amálgama cultural, que resultou do seu cativeiro na Babilônia (587-538 a.C.)

Rezavam sempre voltados para o Templo e seguiam um calendário baseado na Lua. Após 538 a.C., com o fim do exílio na Babilônia e início do domínio persa e dos medos, cresceu em importância entidades intermediárias, como os anjos, provavelmente devido às suas influência religiosas. A essa época os samaritanos, descendentes do Reino de Samaria (vide anteriormente na história dos Hebreus), preservaram o culto antigo e erigiram seu próprio templo no monte Gerizim, sendo considerados hereges pelos judeus. Posteriormente, todos sofreram domínio grego (331-64 a.C.) e romano (a partir de 64 a.C.).

Sob domínio grego, foi iniciada (século III a.C.) a tradução da Bíblia para o grego (a Septuaginta) e se tornaram, os judeus, familiarizados com a língua, cultura e filosofia gregas, como pode se ver nas crenças dos fariseus e nos escritos de Fílon de Alexandria (20 a.C.-40 d.C.).

O judaísmo diversificou-se, de forma que nos primeiros anos da nossa era haviam quatro seitas. Vale salientar que esse termo não tem o significado de oposição à religião, mas é usada no sentido de escola ou facção, uma vez que não haviam definições dogmáticas obrigatórias e as exigências doutrinárias eram limitadas a duas: fidelidade ao Deus de Israel (Jeovah) e observância dos rituais e prescrições morais da Lei (Torah).

  • Os saduceus (conservadores), do ponto de vista político, eram pacifistas, mesmo porque não tinham razões profundamente ideológicas de oposição ao espírito heleno-romano. Eram antes uma classe social, a dominante, rica, mentalmente evoluída e ajustada ao desenvolvimento helênico, composta de aproximadamente 4.000 membros, descendentes do sacerdote de Davi, Sadoc. Rejeitavam a ressurreição e a vida futura (pois a alma morria com o corpo), os anjos, o culto com ritual muito rigoroso, etc., pois “não procedem de Moisés”, da Torah. Seu conceito de Deus era mais filosófico, ou metafísico, que o das seitas inovadoras. Deus seria pessoa distante e de raras interferências milagrosas no mundo. Dominavam no Templo de Jerusalém como sacerdotes.
  • Os fariseus (nacionalistas e reformistas moderados), como grupo já definido no decurso do governo de João Hircano (136-106 a.C.), buscavam manter a identidade do judaísmo na fidelidade à lei e aos profetas, com oposição ao espírito heleno-romano. Como oposição, situavam-se fora do círculo dos sumos sacerdotes, os quais dependiam diretamente dos governantes. Eram em geral encarregados nas funções de escribas e rabinos (mestre ou doutores da lei), com sua influência se estendendo especialmente às sinagogas. Os fariseus tinham o aspecto de uma sociedade, com caráter de escola religiosa. Acreditavam que a alma era imortal e que após a morte eram recompensadas ou castigadas segundo os seus atos, demonstrando clara influência do pensamento helênico em suas crenças. Umas seriam eternamente prisioneiras no pós-morte e outras voltariam à vida. Ao tempo de Jesus teriam sido cerca de 6.000 membros.

Doutrinariamente os fariseus admitiam não somente os livros sagrados da Lei (Torah), mas também os Profetas (Nebim). Valiam-se ainda das tradições orais, das quais o Talmud é um depósito por eles criado. A manutenção dos Profetas e das tradições representava a crença nas doutrinas que tiveram desenvolvimento após o cativeiro de Babilônia. Quando os judeus estiveram em contato com os persas, e respectiva religião mazdeísta, deles tomaram novos desenvolvimentos para a doutrina sobre os anjos, os demônios, a ressurreição e a ritualística, que passaram ao elenco doutrinário dos fariseus. Seu expoente foi Saulo de Tarso.

As prescrições legais foram rigidamente praticadas pelos fariseus. O jejum e a observância do sábado são rígidos, sendo em geral avessos ao ascetismo. Não consideravam o mundo e a matéria como maléficos, mas sim como uma criação boa, feita por um Criador bom que não pode ser representado com substâncias perecíveis, imagens, mas tão-somente concebido com a mente. Casavam-se, em geral aos 18 anos para “não serem contaminados por pensamentos pecaminosos ... pois o homem está sempre na escravidão do desejo que só o casamento liberta” (Talmud).

O mesmo rigor é apregoado com referência às prescrições bíblicas de não contaminação com os gentios, aos quais procuravam converter. Dizia o rabino Hillel, do século I a.C.: “Aquilo que não queres que te faça, não faças ao outro. Esta é toda a lei e o resto é apenas comentário”. Segundo Tácito (56-120), os judeus eram extremamente leais entre si e sempre prontos a demonstrar compaixão, mas perante todas as outras pessoas só sentiam ódio e inimizade. “Embora como raça sejam propensos à luxúria, exaltando a fertilidade feminina, aceitando o concubinato e o divórcio e protegendo todos os recém-nascidos, gostam de guerrear, exaltando também a coragem masculina”.

  • Os zelotas (ativistas, subversivos, guerrilheiros), sem organização definida, ligados apenas a uma idéia de força messiânica, passaram a contar com elementos de todos os demais grupos à medida que se intensificaram os incidentes com as tropas dos procuradores romanos, formando-se um partido da revolução contra o domínio romano. Uma facção mais extremista, conhecida como Sicarii (“homens do punhal” em grego), matavam romanos e seus simpatizantes na rua, espalhando o pânico. Deram os seus primeiros passos à luta aberta em 66 d.C..
  • Os essênios (escatologistas, celibatários, rurais), surgidos por volta de 150 a.C., habitaram as grutas de Qumran, no deserto, por volta de 100 a.C.. Foram citados pelo historiador romano Plínio (23-79), o Velho (História Natural), por Flavius Josephus (Antigüidades Judaicas XVIII, 2 e Guerra Judaica II,12) e nos escritos rabínicos. Fílon de Alexandria (20 a.C.-40 d.C.) chamava-os de atletas da virtude e teriam chegado a 4.000 membros. Passaram uma época de exílio em Damasco, devido a conflitos com adversários judeus, detentores do poder leigo e religioso em Jerusalém (época do despertar da espera messiânica), e após sua volta a Qumran, lá permaneceram até 68-70 d.C., quando foram expulsos pelos romanos. Sua comunidade será descrita com mais detalhes posteriormente.

Em aproximadamente 100 a.C. surgiu entre os judeus um homem conhecido como Jeschua Ben Pandira, que teria realizado inúmeros milagres e se voltado contra eles, motivo pelo qual teria sido apedrejado até a morte e enforcado em uma árvore pelos próprios judeus.

Os rabinos mantinham a resistência espiritual do povo judeu, contra várias seitas emergentes. Após a guerra aberta contra Roma, o judaísmo, que até então subsistia como organização religiosa com um governo títere, perdeu sua velha estrutura, desaparecendo tanto o suporte saduceu, que controlava o governo religioso, como também o essênio, porquanto também se desmonta a vida rural. As comunidades essênias foram dispersas com a guerra, sendo assimiladas pelo judaísmo farisaico, que toma a liderança, e pela seita cristã emergente.

Às seitas judaicas se acrescentou a dos cristãos. Considerada similar a dos essênios, era constituída pela população urbana, a dos nazarenos, que em Antioquia passaram a ser denominados cristãos. Com a particularidade especial de serem fortemente escatológicos, acreditavam em Jesus como o Messias ressuscitado que logo voltaria. O total silêncio sobre os essênios no Novo Testamento, e também, o total silêncio sobre os cristãos e Jesus nos escritos essênios, nos faz pensar numa identidade entre eles. Já então era claro o conflito entre os cristãos e os judeus fariseus, nada ganhando estes com a expansão daqueles.

Em face de que os primeiros cristãos não diferiam muito dos essênios e que os zelotas não eram definidos senão como ativistas, arrolando seus membros entre as demais seitas, Flavius Josephus (37-100) reduzia as seitas a apenas três: “...a primeira era a dos fariseus, a segunda a dos saduceus e a terceira, a o dos essênios, que é a mais perfeita de todas.” (Guerra Judaica II,12).

Já o judeu Fílon de Alexandria (20 a.C.-40 d.C.) cita a existência dos, por ele denominados, Terapeutas de Alexandria, os “padres do deserto”, adeptos da vida contemplativa, filósofos em busca da Inteligência criadora e médicos que cuidam do corpo através do cuidar do sopro (pneuma) que o anima, a dimensão espiritual. Para eles, saúde plena era a saúde do corpo (soma), da alma (nephesh), da psique (nous) e do espírito (pneuma) – vide Volume 2.

Como os essênios, se dedicavam ao estudo das Escrituras, sem a dimensão escatológica essênia e sem a figura do Messias que viria combater os “exércitos do mal”. Não há o “Mestre de Justiça” e há um incentivo à vida solitária e não em comunidade, como o faziam os essênios. Praticavam a cura, mas não visando apenas o corpo, mas também os males do psiquismo, do “Ser que É”. Oravam ao nascer do Sol e ao seu pôr, e dedicavam o dia a exercícios e à interpretação das Escrituras por meio de alegorias, nunca literalmente, num santuário em suas residências, sozinhos, durante seis dias da semana. No sétimo dia se reuniam em assembléia, onde o mais sábio discorria sobre o verdadeiro sentido de alguma alegoria das Escrituras. Diferentemente dos outros judeus, as mulheres (terapêutridas) participavam em tudo com os homens.

Reservavam tão somente a noite para as necessidades do próprio corpo, como a alimentação, havendo aqueles que se alimentavam somente no sétimo dia, considerado santo para eles. Um dia de festa, em que finalmente cuidariam do corpo, massageando-o com óleos para relaxá-lo e alimentando-o com água da fonte e pão temperado com sal, mas fugindo da saciedade como um inimigo astucioso.

A cada sete semanas se reuniam, vestidos de branco, com gravidade e alegria, para um banquete sagrado em que se servia água fresca (morna para os mais velhos), pão com fermento e sal para tempero. Antes se era lida ou discutida alguma parte das Escrituras e cantavam-se hinos de louvor. O canto retornava ao final da refeição, em forma de coros, perdurando até a aurora, quando então se voltavam ao nascente e observavam o Sol nascer. Levantavam as mãos ao céu, oravam pedindo um dia favorável aos seus estudos e retornavam aos seus santuários em suas residências.

O judaísmo, espalhado pelo mundo, foi perseguido, do século XII em diante, principalmente pelos católicos. No século XVIII, como forma de revigorar a religião e o povo de um período negro, surgiram, como dito anteriormente, dois movimentos: o hassidismo e o caminho de Hascalá, defendido pelo filósofo alemão Moisés Mendelssohn (1.729-1.786). Esse afirmava que os judeus tinham que se adequar à cultura ocidental se quisessem sobreviver. Devido às perseguições o movimento centrou forças na busca de um Estado judeu originando o conceito de sionismo, sob a inspiração de Theodor Herzl (1.860-1.904). O hassidismo baseou-se nos ensinamentos de Israel ben Eleazar (1.700-1.760), conhecido como Ba’al Shem Tov (Mestre do bom nome), escritos na Cabala.

O judaísmo, sem dogmas aceitos universalmente, professa a fé na Shema, oração baseada numa passagem do livro da Torah: “Ouve, ó Israel: O Senhor nosso Deus, é Um só” (Dt 6:4). Paulatinamente o conceito de uma alma imortal, dos gregos, foi aceita por todos os judeus, enquanto a ressurreição dos mortos não o foi. A literatura cabalística acrescentou o conceito de reencarnação, proveniente dos hindus.

Atualmente (cerca de 20 milhões de seguidores) estão divididos em ortodoxos (que ainda esperam o Messias), os hassidins (cabalistas), os reformistas (seguidores de Mendelssohn) e os conservadores (ramificação dos reformistas)


LIVROS SAGRADOS

Os cinco livros da Revelação, ou Pentateuco (Torah), e os textos de “Os profetas” (Nebim) são escritos antes do exílio na Babilônia. Os livros dos profetas menores, os livros poéticos e outros textos escritos (Ketubim) são redigidos depois de 538 a.C., quando surge a imagem do anjo ao modo persa. Acontecia portanto, já no curso do Antigo Testamento, uma espécie de Novo Testamento, em função às inovações introduzidas pelos profetas. Esses escritos sagrados hebreus são conhecidos como a “Tenakh”.

Os saduceus, peculiarmente tradicionais, admitiam apenas os livros da Lei. Os livros dos Profetas são do elenco mais moderno, aceito pelos fariseus, zelotas, essênios e cristãos. Quando Jesus se referiu à Lei e aos Profetas (Mt 5:17), provavelmente tenha se situado em um contexto claramente não saduceu, por conseguinte mais próximo dos fariseus, zelotas e essênios.

Uma versão grega da Bíblia hebraica foi iniciada sob o reinado de Ptolomeu II, Philadelphus (285-247 a.C.), na primeira metade do século III a.C., e terminada por volta do final do século II a.C.. Realizada por 72 tradutores, seis de cada tribo, enviados a Alexandria pelo sacerdote Eleazar, substituiu vários antropomorfismos da Divindade por circunlóquios. Essa versão foi conhecida como a Bíblia dos Setenta, ou Septuaginta, confeccionada em 70 dias para compor a grande biblioteca de Alexandria. Esta informação se infere de uma narrativa que consta na Carta de Aristeas, do século II a.C., hoje considerada espúria. Pode-se contudo aceitar o conteúdo no que afirma de mais genérico, e é citada pelo judeu Flavius Josephus (37-100), em suas “Antigüidades judaicas” XII, 2, e pelo cristão Eusébio de Cesaréia (263-339) em sua “Preparação Evangélica”, III, 2-5.

A Septuaginta se fez conhecida também como “versão grega” ou ainda como Vulgata. Depois que São Jerônimo (347-420) traduziu a Bíblia para o latim, passou a ser mais conhecida como Vulgata a versão latina. Mas esta melhor se diz Vulgata latina. A grande validade da Septuaginta, sobretudo na antigüidade, foi ter servido para melhor compreensão do texto em hebraico, porquanto os próprios judeus já não o falavam.

A Bíblia hebraica é finalmente fixada no final do século I d.C., no sínodo de Yabnéh – hoje Yebnah. Os trabalhos de fixação do texto, retomados no século VI, terminaram no século X no estabelecimento de um texto oficial que abrangia um sistema de pontos vocálicos, para não alterar o texto original. O texto recebeu o nome de Massorá (tradicional) e seus autores ficaram conhecidos como massoretas, sendo destruídos todos os textos que não estavam segundo essa regra. Até a descoberta dos Manuscritos de Qumran o texto em hebraico mais antigo estava datado de 895 d.C.. A Bíblia hebraica foi revisada, por eruditos judeus, no Sínodo de Jamnia, na década de 1.990, ficando constituída por 24 livros, divididos na Torah, Nebim e Ketubim.

Após a diáspora, findo o domínio saduceu, a lei oral dos fariseus, com seus comentários e comentários dos comentários (o Talmud), tornou-se a peça central da religião, sendo, por volta da Idade Média, considerado mais importante que a própria Bíblia.

Na Espanha da Idade Média, as comunidades judaicas produzem textos de grande importância, como Sefer Ha-Mitswot (Livro dos mandamentos), uma síntese do judaísmo com o aristotelismo, do filósofo e médico Moisés MaimônidesSefer Ha-Zohar (Livro do esplendor), atribuído a Shimon ben Yohai, um rabino do século II. O Zohar, assumido pelo movimento místico-esotérico Kabbalah (ou “tradição”, derivado da raiz GBL, “receber”), também é chamado de “Bíblia cabalística”. (1.135-1.204), e o


A TORAH E O TALMUD

A Torah é o conjunto dos cinco primeiros livros do Antigo Testamento (o Pentateuco – a Bíblia hebraica): o Gênesis, sobre a origem do mundo e do homem, e a história dos patriarcas; o Êxodo, que narra a fuga dos judeus escravizados no Egito; o Levítico, que trata das práticas sacerdotais; Números, que traz o recenseamento do povo judeu e pormenoriza os rituais e a vida social dos judeus; e o Deuteronômio, com discursos de Moisés e um código de leis familiares, civis e militares. A autoria do Pentateuco é atribuída ao próprio Moisés, embora a repetição de trechos e o estilo mutável façam parecer ser uma compilação. Modernamente é mais aceita a tese da múltipla autoria, num processo de escrita que teria terminado por volta de 400 a.C..

O Talmud é composto por duas sessões principais, a Mishnah e a Guemarah, escritos a partir do século III. A Mishnah é uma coletânea de comentários à Torah baseada em explicações de rabinos (tannaim) e a Guemarah é uma coleção de comentários à Mishnah. Posteriormente foram acrescentados comentários à Guemarah no século XI e XII, fazendo do Talmud uma obra mais acessível aos judeus.


A CABALA

 

A Cabala significa a prática de transmissão de conhecimentos esotéricos pela palavra falada. É um conhecimento que proclama ser de origem celestial e ter chegado aos hebreus através dos anjos.

Os reis Davi e Salomão, diz-se terem sido iniciados na Cabala e o Rabi Shimon ben Yohai ousadamente deu os passos no sentido de escrever parte dos ensinamentos. Seu filho, Rabi Eleazar, seu secretário e seus discípulos reuniram seus tratados e deles compuseram o Zohar, a fonte do cabalismo.

Segundo ele, a Luz Ilimitada, AIN SOPH AUR (veja anteriormente na VISÃO DO JUDAÍSMO sobre Deus), dá origem à arvore da vida. A árvore da vida representa simbolicamente as dez emanações da divindade (como nos ensinamentos de Pitágoras (580-500 a.C.)), dez aspectos do Universo manifestado e dez elementos da psicologia humana, constituindo a chave para decifrar os mistérios da Cabala, sistema místico judeu. Cada uma das dez emanações é definida como um Sephira: um número ou grupo de idéias elevadas, Forças ou anjos (veja Volume 3). Cada Sephira tem uma quádrupla natureza que se associa com os quatro mundos da Cabala, a saber:

  1. Atziluth: o Mundo Arquetípico ou das Emanações, o Mundo Divino;
  2. Briah: o Mundo da Criação ou Khorsis, o Mundo dos Tronos;
  3. Yetzirah: o Mundo da Formação e dos Anjos e
  4. Assiah: o Mundo da Ação, o Mundo da Matéria.

Assim, a árvore assume uma imagem antropomórfica, conhecida como o Adão Kadmon, o homem perfeito, o homem celeste, que é o Mensageiro de Deus, o Cristo (o Messias). Seria o “primeiro Adão”, citado em Gn 1:26s e I Cor 15:45, do qual a Tríade Superior permanece no Mundo Arquetípico como a futura Trindade. Os outros Sephira criam o mundo manifesto. São o “setenário” que cria o “segundo Adão” (Gn 2:7 e I Cor 15:45).

A Cabala encerra um estudo da relação das letras e números, na interpretação dos significados ocultos. Há 32 caminhos, ditos místicos, representados pelas 22 letras e dez números hebraicos, que quando combinados podem ser interpretados de três maneiras: tomar as palavras como acrósticos, atribuir valores numéricos às letras de uma palavra, fazendo relação entre palavras de mesmo valor numérico, e manipular palavras por anagramas.

O cabalismo formou uma tendência, caracterizada pela busca do êxtase, que leva a Deus e à libertação, e pela procura de um Messias que redimiria o povo e o mundo. Sob essa influência surgiriam mais tarde movimentos como os dos falsos messias e o do hassidismo.

Juntamente com os Grimórios (figuras e palavras “mágicas”), a Cabala seria um poderoso mecanismo de conhecimento e poder. Alquimistas e cientistas estariam fundindo os conhecimentos secretos dessas “ferramentas” e estariam chegando às grandes descobertas humanas. Essa elite de “estudiosos”, já há muitas décadas, formaria uma verdadeira ordem que estaria caminhando para revelar a verdadeira essência desses sinais; um grupo de pessoas, em sua maioria sionistas, “conspirando” para descobrir a verdade. Um fato, coincidente ou não, é que quase todos os cientistas envolvidos com Energia Atômica são judeus. Einstein nada mais teria feito do que desvendar parte do segredo da Cabala.


MANUSCRITOS DO MAR MORTO

Entre 1.947 e 1.956 são descobertos nas cavernas Qumran, no Mar Morto, 800 pergaminhos, escritos entre 250 a.C. e 100 d.C., contendo os mais antigos fragmentos da Bíblia hebraica. Eles descrevem atividades, regras, cultos e crenças de uma seita judaica, os essênios, e revelam certos aspectos até então considerados como exclusivos do cristianismo. Apresentam grandes semelhanças com os Evangelhos do Novo Testamento e referem-se a práticas que lembram a Santa Ceia, o Sermão da Montanha e a cerimônia do batismo.

Os Manuscritos são considerados um dos mais importantes achados arqueológicos já realizado. Sete manuscritos encontrados na primeira gruta estão expostos no Museu de Israel, em Jerusalém: “Manuscrito de Isaías e de São Marcos” (150 a.C.), um segundo “Manuscrito de Isaías”, um “Comentário ao Livro do Profeta Habacuc”, o “Serek Hayyahad” (Regra da Comunidade), a “Regra da Assembléia” e o “Hodayot” (Cânticos de Louvor). Vieram, estes últimos, fortalecer as teorias mais avançadas sobre as origens do cristianismo, como tendo sido um movimento surgido em interação com o essenismo. Outros manuscritos, intitulados os “Testimonia”, o “Livro das Bênçãos”, o “Horóscopo Aramaico do Messias”, “Melquisedeque”, “Salmos de Salomão”, uma paráfrase, em aramaico, do “Gênesis”, o “Escrito de Damasco” e o “Regulamento da Guerra dos Filhos a Luz contra os Filhos das Trevas”, o “Livro de Meditação”, o “Livro secreto de João Gnóstico”, o “Livro Sagrado do Grande Espírito Invisível”, o “Livro dos Gigantes”, o “Livro dos Mistérios”, textos de astrologia, “Livro de Enoch”, “Livro da Divisão das Épocas”, tratados atribuídos a Hermes Trismegisto, textos mazdeístas, “Rolo de Lamec apocalíptico”, diversos livros do Antigo Testamento e apócrifos do mesmo, também foram encontrados, mostrando versões da Bíblia massorética, da Bíblia dos Setenta e do texto original samaritano.

Vários pergaminhos apresentavam-se tão fragmentados, que algumas partes tinham cerca de um centímetro de tamanho. Apenas 12 pergaminhos apresentavam-se em bom estado, correspondendo a 813 documentos, a maioria em hebraico, alguns em aramaico e grego. Atualmente, a maioria encontra-se preservada no Museu do Livro, no campus da Universidade Hebraica de Jerusalém, especialmente construído para manter preservados os manuscritos. Escritos em materiais pouco duráveis como o pergaminho e o papiro, apesar disso subsistiram a 19 séculos, graças à pouca umidade das grutas de Qumran.

Pelo conteúdo do termo, essênio significa piedoso ou curandeiro. Trata-se da grecização do termo sírio khasi (piedade). No plural, duas formas: khasem e khasuya. Flavius Josephus (37-100) diz Essene. Fílon de Alexandria (20 a.C.-40 d.C.) grafou Essaens. Outra versão seria uma derivação do aramaico assaya (curandeiro).

Achavam que eram uma “elite espiritual” e assim, procuravam manter-se distantes do resto do mundo, adotando regras rígidas à admissão de novatos na sua comunidade, como hoje ainda se fazem nos mosteiros hindus e cristãos. Se auto-intitulavam os Convertidos, os Penitentes, os Pobres, os Justos, os Eleitos de Deus, Filhos da Luz ou a Comunidade Santa – também os cristãos chamavam a si mesmos de santos (Rm 1:7).

Concentravam-se nas proximidades do Mar Morto, e tinham três graus: a Criança ou Noviço (o postulante, o noviço do primeiro ano e o do segundo ano), o Irmão (ou membro definitivo) e o Perfeito. Alguns afirmam que haveria um quarto grau, raro, concedido apenas em caso de missões proféticas, desejada por um Irmão e confirmada pelos Perfeitos (teria sido concedida a Jesus).

Tinham um “Conselho da Comunidade” composto de 12 homens e três sacerdotes chamados “Perfeitos”. Tiveram um Chefe, tanto político quanto religioso, que fundou a Comunidade de Qumran e que foi conhecido como o “Mestre de Justiça”, tendo provavelmente nascido por volta de 105 a.C.. Esse personagem fora o instrutor que iniciara os adeptos da seita nos “Mistérios maravilhosos”, mostrando-lhes como interpretar a Lei. Devido a perseguições políticas e religiosas, o Mestre de Justiça foi preso, julgado e condenado ao exílio, pelos saduceus e fariseus, junto com sua comunidade, em Damasco. Lá Deus teria feito uma “Nova Aliança” com o Mestre de Justiça. É provável que ele tenha morrido em Damasco, na mão de seus inimigos, antes da tomada de Jerusalém por Pompeu em 63 a.C., tornando-se então esperado, no final dos tempos, como o Messias (o Ungido de Aarão e de Israel), que seria a um só tempo Sacerdote e Rei. Há teorias que apontam Jesus como o próprio “Mestre de Justiça”.

Espécie de monges com extrema devoção às práticas ascéticas da oração e da contemplação, os essênios alcançaram grande desenvolvimento extra-sensorial, de forma semelhante aos faquires e aos iogues hindus, praticando intensamente suas curas. Em seus “Cânticos de Louvor” anunciavam o “evangelion” (boa-nova) na plenitude da compaixão de Deus, que eles denominaram “A Nova Aliança”. Há indícios de que os escribas sagrados e Hierofantes egípcios, possuidores dos segredos herméticos, após as invasões estrangeiras ao Egito, erraram sobre a face da Terra e encontraram refúgios entre as confrarias essênias, pois muitos de seus conceitos e costumes se pareciam. Era fato que eles rezavam mais de uma vez ao dia voltado para o nascente, como ensinou Pitágoras ((580-500 a.C.) iniciado egípcio) e o faziam os seguidores de Hermes Trismegisto e os brâmanes da Índia, além de basearem o seu calendário no Sol, como os brâmanes.

 

“São muito religiosos e piedosos para com Deus, só falam de coisas santas; antes que o Sol desponte fazem orações, que receberam por tradição, para pedir a Deus que o faça brilhar sobre a Terra”.

Flavius Josephus (Guerra Judaica, livro II,12)

 

Pregavam a caridade fraternal (“Sim, eles cuidarão... de amar cada irmão como a si mesmo e de apoiar o indigente, o pobre e o estrangeiro, e de buscar o bem estar de seu irmão” – Escrito de Damasco, A, VI, 14 e 20-21), o desprezo pelos prazeres dos sentidos e das riquezas e uma preocupação com a pureza (“Desprezavam as riquezas... e consideravam a pele lavada tão importante quanto suas vestes brancas e limpas” – Flavius Josephus (Guerra Judaica, livro II,12); “E a alma de teu servo detestou as riquezas e o ganho, e no orgulho dos prazeres ela não se regozijou” – Hino R, X, 29-31), um culto e estudo constante da Lei (e de obras dos antigos que ensinavam raízes e pedras para curar doenças) e a celebração do Sabá e das festas sagradas segundo um calendário solar, diferente da dos outros judeus. Toda palavra que pronunciavam era considerada mais forte que um juramento, e eles se negavam a jurar (“... Aquele em quem não se pode crer sem que se tome Deus como testemunha condena-se por isso mesmo” – Guerra Judaica, II, VIII parágrafo 135) e muitos se dedicavam à astrologia e a prever o futuro, sendo-lhes raro o engano. Eram vegetarianos e adotavam quatro ritos principais: o rito de entrada na Comunidade, um anual de classificação dos adeptos e dois outros essenciais e diários: a purificação por banhos e as refeições. Nessas, sob o comando de um sacerdote, eram servidos pão, uma porção de comida e vinho, com um número mínimo de 10 participantes.

Uma das doutrinas fundamentais da Comunidade era a crença de que os Mistérios, um conhecimento (gnose) divino, estariam ocultos nas Sagradas Escrituras e que teria sido revelado a eles. Havia também a crença, à semelhança do zoroastrismo persa, em um “Príncipe das Luzes” e um “Príncipe das Trevas” que comandavam espíritos bons e maus, transformando o mundo num campo de guerra e utilizando os homens para seus propósitos, como os “Filhos da Luz” e os “Filhos das Trevas”. Esse recrutamento seria determinado pela livre escolha de Deus (a predestinação), beneficiando somente a alguns, os Eleitos, que no dia do Julgamento seriam vingados de todos os males a que foram submetidos pelos “Filhos de Belial” (as retribuições). Tinham uma doutrina oral sobre os anjos, na qual eles exerciam o papel de mensageiros.

Eram convencidos de que o corpo morre e a matéria não é durável, ao contrário da alma, imortal e eterna. Essa, vinda do éter mais sutil, liberta da escravidão da carne, voaria nas alturas em júbilo (Guerra Judaica II, 12). Tinham também uma doutrina do Carma e do céu e inferno, dando a possibilidade ao homem de mudar a sua própria vida ou continuar nos ciclos de reencarnações (criam também na transmigração das almas), podendo ser condenado no Dia do Juízo. Nesse dia, ou a carne tornar-se-ia também imortal, a ressurreição, ou sofreriam o castigo eterno da dissolução. Proibiam a pena de morte a quem desrespeitasse o sábado. Sua vida e ensinamentos comprovam, como vimos, uma forte influência hindu e pitagórica.

Acreditam alguns que houvesse comunidades essênias na Síria, as quais teriam se transformado globalmente em igrejas cristãs, após os insucessos da guerra judaica de 66 a 70, em que os essênios declinam e os cristãos se liberam. Então os cristãos passam a se desenvolver, no meio judaico, como seita bem caracterizada.

A tradução completa dos manuscritos, editada recentemente pela Universidade de Oxford, na Inglaterra, não demonstra nenhuma ligação entre os primeiros cristãos, João Batista ou Jesus com a seita essênia. Em parte a omissão se explica, como já dito, porque Jesus poderia ter sido visto apenas como um dos muitos essênios, ainda que fosse uma variedade profunda dos mesmos.


FESTIVIDADES E COSTUMES

Baseadas na Bíblia, são comemorações de eventos históricos ou festas periódicas. O Sabath (sétimo dia da semana judaica, do pôr do Sol da sexta ao pôr do Sol do sábado, lembra o sétimo dia da Criação), o Rosh Hashanah (ano novo judaico que cai em setembro, lembrança da Criação), o Iom Kipur (dia da Expiação, 10 dias após o ano novo, com jejuns e auto-exame), o Sucot (ou Tabernáculo, em outubro, que comemora a colheita e lembra a passagem pelo deserto), o Hanucah (festa da Dedicação, que comemora a reconstrução do Templo), o Shavuot (ou Pentecostes judaico, 50 dias após a Páscoa, em memória ao recebimento da Torah) o Purim (festa das Sortes, que comemora a libertação dos judeus do domínio persa) e o Pesach (a Páscoa, que comemora durante 8 dias a libertação do cativeiro no Egito) são exemplos de festividades.

Até 70 d.C., o Templo era o único local em que se ofereciam os sacrifícios animais, fossem particulares ou, durante as festividades, coletivos. Após sua destruição eles extinguiram-se, permanecendo os cultos restritos à prece, leituras e comentários às Escrituras e aos rituais das festas periódicas. A prática persiste apenas no monte Gerizim, montanha sagrada samaritana, onde ainda hoje oferecem-se ovelhas em sacrifício, na Páscoa judaica, pelos cerca de 600 samaritanos que vivem precariamente entre as sociedades israelense e palestina.

Costumam circuncidar os meninos com oito dias de vida, e no 12o (meninas) e 13o (meninos) aniversário, outra cerimônia os promovem a “filhos do mandamento”. Usam um rolo de madeira, contendo os mandamentos, nos braços, na testa e pregado em suas portas e uma cobertura na cabeça tanto fora como dentro da sinagoga. O casamento é considerado o modo de vida ideal.

O serviço religioso é executado nas sinagogas seguindo a liturgia contida no Sidur, cujas orações mais importantes são o credo (Shema) e as 18 Bênçãos. No total existem 613 “mandamentos”, sendo 365 proibitivos e o restante afirmativo.

Categoria: Órion Volume 1