O Islamismo

É uma religião e um projeto de organização de sociedade expresso na palavra árabe Islã, a submissão confiante a Alá (Allah, Deus em árabe, “a divindade”). Seus seguidores, hoje cerca de 1,3 bilhão no mundo, chamam-se muçulmanos (muslimun, em árabe): os que se submetem a Alá para render a honra e a glória que Lhe são devidas como Deus único.

Ibrahim (o Abraão judeu) renuncia aos deuses e, iluminado, afirma a existência de um único Deus, diferente de todos os cultuados à época (Alcorão 6:74-80). O prenúncio da religião veio com Ismael, o primeiro filho de Ibrahim. Os dois são considerados modelos perfeitos de devoção: “levantaram os alicerces da Casa” (Alcorão 2:127; a Caaba com sua pedra negra, em Meca). A Caaba teria sido construída por Adão e destruída após o dilúvio, para ser reconstruída pelos dois. Segundo a maioria dos muçulmanos, Ismael, filho de Ibrahim com sua escrava Agar, é quem seria sacrificado, como prova de amor a Deus. Como recompensa, Deus impede o sacrifício e lhe promete outro filho, Isaac.

Maomé (570-632, corruptela hispânica de Mohammed, nome próprio derivado do verbo hâmada e que significa “digno de louvor”) nasceu em Meca, na tribo árabe coraixita, e trabalhou como mercador e condutor de camelos. Segundo a tradição, aos 40 anos, durante um retiro que fazia anualmente nas cavernas do Monte Hira, próximo a Meca, recebe a missão de pregar as revelações trazidas de Deus pelo arcanjo Gabriel. Escreve o Alcorão de forma que o livro apresenta 18 mil camadas de significados (um significado para cada um dos 18 mil universos criados). Seu monoteísmo choca-se com as crenças tradicionais das tribos semitas (cheia de deuses, seres sobrenaturais e ritos em torno de pedras sagradas, supostamente vindas do céu) e, em 622, Maomé é obrigado a fugir para Iatribe, atual Medina, onde as tribos árabes vivem em permanente tensão entre si e com os judeus. Chamada Hégira (busca de proteção) marca o início do calendário muçulmano (o ano em curso – 2.001/2.002 – é o 1.422o da Hégira). Medem o ano pelas 12 revoluções completas da Lua (Alcorão 6:96) em torno da Terra. É em média 11 dias menor do que o ano solar e indica a passagem de uma comunidade pagã para uma comunidade que vive segundo os preceitos do Islã.

A doutrina do profeta e a idéia de comunidade do Islã (al-Ummah) formam-se durante a luta (Jihad) pelo controle de Meca: todos os muçulmanos são irmãos e devem combater todos os homens até que reconheçam que só há um Deus (Tauhid). Maomé estabelece a paz entre as tribos árabes e com as comunidades judaicas e começa uma luta contra Meca, conquistando-a em 630. Fez então de Caaba (com sua Pedra Negra), sem seus ídolos, um ponto de peregrinação e culto a Alá. Morre dois anos depois, deixando uma comunidade espiritualmente unida e político-socialmente organizada em torno dos preceitos do Corão.

Consideram Adão, Abraão (Ibrahim), Noé, Hud, Saleh, Lot, Chuaib e Moisés (Musa) como grandes profetas e Jesus como o último grande profeta de Israel e precursor de Maomé. Os profetas seriam enviados especiais de Deus, Mensageiros, aos homens, para reconduzi-los de volta à Lei (Alcorão 10:47), algo similar aos Avatares hindus já mencionados. Jesus, conhecido como Issa ou Isa, derivado da palavra síria Yeshu, não teria morrido mas teria sido elevado aos céus por Alá (Alcorão 4:157-158), enquanto Judas foi crucificado como seu sósia.

Em apenas 200 anos os exércitos árabes haviam conquistado o norte da África, a península arábica e a Ásia Central, seguido da Espanha (entre os séculos VIII e XV), Portugal, parte da Índia e China, sendo a tolerância religiosa uma regra, principalmente entre judeus e cristãos (“Não fazemos distinção entre eles, e a Ele nos submeteremos” – Alcorão 2:136). O estímulo à busca de conhecimento, feito por Maomé (“aquele que sai de casa em busca de conhecimento está trilhando o caminho de Alá”), fez os árabes viverem uma época áurea na matemática, astronomia, medicina e química, fundando centros de conhecimento como o da Universidade de Azhar no Cairo, no século X, que atraiu muçulmanos de todo o mundo.

Em 1.095 o Papa Urbano II ordenou um ataque para retomar Jerusalém, dando início às Cruzadas, que duraram dois séculos, iniciando a decadência do Islã. Um profundo ressentimento pela perda de sua glória se formou no coração dos muçulmanos, estimulando o fechamento mental religioso, através de uma interpretação mais dura do Corão.

Em 1.453, com a conquista de Constantinopla pelos árabes, iniciou-se o Império Otomano sob o comando do sultão Osman, de etnia turca, o qual retomou quase todas as terras do antigo império árabe. Em 1.492 a rainha Isabel e o rei Fernando, da Espanha, reinstalam o catolicismo, com a conversão forçada sob a égide da Santa Inquisição. Com o progresso europeu, a partir da metade do século XIX, quase todos os países islâmicos foram dominados, primeiro economicamente, e depois militarmente por potências européias. Apesar disso o islamismo sobreviveu em muitas regiões e desde então, até hoje, tentativas de se criar estados baseados no livro sagrado do Corão fracassaram, fazendo surgir movimentos de resgate dos fundamentos da religião, que ignoram preceitos básicos como respeitar as “religiões do Livro” (cristãos e judeus – Alcorão 29:46) ou não matar inocentes – os fundamentalistas.

De acordo com a facção e a época histórica, vários títulos religiosos e políticos surgiram no mundo islâmico. Quando falece Maomé, seu discípulo Abu Bakr assume como Califa (Khalifah), “sucessor”. O termo Imã é um dos mais polêmicos. Para os sunitas (vide adiante) é conferido aos Califas, aos teólogos e figuras notáveis, e para os xiitas o Imã é um iluminado que detém o poder secular e espiritual. Às autoridades na teologia islâmica, os termos Mulá (mawla, senhor chefe), xiita, e Ulemáulama (detentor de conhecimento), sunita, são equivalentes, enquanto Aiatolá (ayat Allah, manifestação de Deus) designa o mais alto grau dos Mulá. O termo Xeque (shaykh, ancião) é atribuído a qualquer autoridade religiosa e Xá (do termo persa xah, rei) designa líderes políticos, no Irã. Para líderes políticos, outros termos são atribuídos, como: Marajá e Rajá, ao norte da Índia, Vizir e Grão-vizir, no Império Otomano, Emir, no Qatar e Bahrein, o Sultão, em Omã e Brunei, e Paxá, na Turquia.


DOUTRINA

Todo muçulmano deve:

  1. Prestar o testemunho (Shahada ou Kalimat), ou seja, professar publicamente que Alá é o único Deus e Maomé é seu profeta: “La illáha ila Al-lah. Mohammadan rassulul-lah” (“Não existe divindade senão Deus. Mohammed é o Profeta de Deus”);
  2. Deve fazer a oração ritual (salat) cinco vezes ao dia (ao nascer do Sol, ao meio-dia, no meio da tarde, ao pôr do Sol e à noite), voltado para Meca e prostrado com a fronte por terra, após a convocação pública vinda dos minaretes;
  3. Dar a esmola legal (zakat) para a purificação das riquezas e a solidariedade entre os fiéis. Na realidade a esmola legal é um imposto de 2,5% sobre a riqueza e a propriedade, uma forma de diminuir as desigualdades entre ricos e pobres;
  4. Jejuar do nascer ao pôr do Sol (sawm), durante o nono mês do calendário muçulmano (Hamadan), mês em que Maomé começou a receber a revelação. Simboliza o retiro que todos deveriam fazer; e
  5. Todo varão deve fazer uma peregrinação (hadjdj) à Pedra Negra de Caaba, em Meca, ao menos uma vez na vida, seja pessoalmente, se tiver recursos, ou por meio de procurador, se não tiver.

A Grande Festa ou Festa do Sacrifício (Eid Al-Adha) é celebrada no dia 10 do mês de Thul-Hejjah (maio/junho). A Pequena Festa (Eid Al-Fitr), celebrada nos três primeiros dias do mês de Shaual (março/abril), ao final do jejum do mês de Hamadan (fevereiro/março), comemora a revelação do Corão. Celebra-se ainda a Hégira, o Ano Novo do calendário muçulmano, no dia 1o do mês de Al-Moharam (junho/julho), e o aniversário de nascimento do Profeta, no dia 12 do mês de Rabi’I (agosto/setembro). Após o rompimento com os judeus, alterou-se o dia dedicado à oração do sábado para a sexta-feira. Nesse dia os homens afluem à mesquita para oração, após ouvirem o chamado. Nos demais dias da semana, a oração ritual pode ser feita em qualquer lugar. Antigamente, a convocação às orações era feita por uma pessoa denominada muezim. Hoje em dia foi substituída por uma gravação.

A quintessência da espiritualidade do Islã está centrada no princípio do Tauhid, ou seja, do monoteísmo, e no âmago da espiritualidade religiosa está Alá. A Shahada, profissão de fé, define claramente esta posição que está escrita de forma magnífica e explícita na Surata 112ª do Corão Sagrado: “Dizei: ‘Ele é o Deus Único, Deus, o eterno refúgio. Não gerou nem foi gerado. Ninguém é igual a Ele’”.

A Surata 2ª, versículo 163 diz: “Vosso Deus é o Deus único. Não há Deus senão Ele, o Clemente, o Misericordioso”. Dessa forma ataca veementemente o conceito de Trindade dos “adeptos do Livro” (os cristãos) e rejeita o conceito de co-divindade de um Filho de Deus (Alcorão 4:171 e 5:73).

O Corão retrata de forma clara e objetiva a intenção de Alá, quando Este anuncia aos Seus anjos o Seu propósito de criar um mundo e nele instalar um legatário para fazer a Sua vontade. Os anjos retrucaram que este legatário, que mataria, faria o mal e derramaria sangue, seria indigno de ser criado e estabeleceram uma diferença entre esse legatário e eles, que jamais se desviam do ato de cumprir a vontade divina (Alcorão 2:30).

Alá quis deixar esse legado aos céus, à Terra, às montanhas e aos rios, mas estes foram tomados de medo e de pânico e rejeitaram a verdade. Somente o homem, que detém a lei moral, pôde desempenhar tal função. Por causa dessa dotação moral, o homem ocupou um grau mais alto do que o dos anjos e as criações materiais irracionais, pois ele pode agir em liberdade e já as criações materiais são predestinadas. O homem e o mundo são positivamente bons ou neutros, jamais maus, nenhum homem e nenhuma criatura está um átomo mais próximo de Alá que qualquer outro e a única superioridade entre um indivíduo e outro, é aquela baseada na moral, que é algo acessível e aberto a todos, sem exceção. Mas o homem tanto é capaz de respeitar quanto de desrespeitar a vontade de Alá: “Fizemos descer sobre ti o Livro, com verdade, para a instrução de todos os homens. Quem seguir a senda da retidão, fá-lo-á em seu benefício; e quem se desencaminhar, fá-lo-á em seu prejuízo...” (Alcorão 39:41).

Para que conhecesse a vontade de Alá, o homem recebeu uma exposição direta e imediata daquilo que Ele queria que se realizasse na Terra. Sempre que essa revelação foi corrompida, distorcida ou esquecida, Deus a repetiu, levando em consideração as relatividades da história e as mudanças de espaço e tempo, com o propósito de manter ao alcance do homem a consciência da Lei. Da mesma maneira, ao homem foi dado os sentidos, a razão, a compreensão e a intuição necessárias para buscar e descobrir a vontade divina, engastada na natureza causal e igualmente nas relações e nos sentimentos humanos. Enquanto a primeira metade faz um outro exercício de disciplina chamado “ciência natural”, para descobri-lo, a segunda metade faz o exercício do senso moral e da disciplina ética.

O homem começa a vida eticamente são e salutar, no estado de Fitrat, ou seja, de natureza pura e não sob o peso de qualquer pecado original. A sua Falah (felicidade) consiste no seu preenchimento com o divino. Ele deve esperar pelo perdão e pela misericórdia de Alá, mas tem que cumprir os mandamentos. Sua sorte e seu destino são exatamente o que ele quer que seja, embora a graça de Alá é que determina o surgimento da fé e da salvação. A natureza do Cosmos é teológica, servindo ao propósito do Criador. Não foi criado em vão, nem é obra do acaso.

O rigoroso Tauhid, monoteísmo, é perceber apenas a vontade de Alá como mandamento, apenas o Seu padrão como constituindo o anseio ético da criação e não a natureza ou outra criatura. Alá perdoa todos os pecados, mas não a violação do Tauhid. Condena o ascetismo e ensina que essa vida é apenas uma preparação para uma outra, no paraíso ou no inferno, que se segue após um julgamento, logo após a morte. O homem é totalmente responsável por seus atos, sendo que suas boas ações cancelam as más (Alcorão 11:114), doutrina semelhante à do karma hindu.

O propósito exclusivo da criação do homem é tão somente para o serviço de Alá. Apenas Ele é digno de louvor, apenas Ele é digno de ser servido. Contemplar a Sua causa deve ser o objetivo de toda ação humana. O Tauhid, em toda a sua essência, expressa então três significados fundamentais:

  1. Cada componente da criação é bom;
  2. A criação não é apenas o que há de melhor em todos os possíveis mundos; ela é impecável e perfeita; e
  3. Essa criação, preenchida com os valores do homem, pela sua ação ética e moral, é o divino propósito da criação.

Um mundo pleno de valores constitui um monumento a Alá e sua preservação e intensificação constituem atos de louvor e adoração da parte do homem.

A partir do século XII, devido às interpretações de Averróis de Córdoba, ensinou-se que Alá não é um Ser antropomórfico essencialmente intelectual, mas Vontade pura que trabalha do melhor modo que quiser. Entre duas coisas diferentes, Alá elege a melhor, mas entre duas iguais, escolhe uma ou outra e, quando escolhe assim, sem motivo algum, é que se vê Sua vontade pura. Tudo quanto existe o é por pura vontade de Alá, já que as coisas criadas não são necessárias nem possíveis por si mesmas e o que faz possível a sua existência é o puro ato da vontade divina, ao criar livremente.

Sendo assim, segundo o islã, somente pode-se compreender a criação quando munido de uma razão iluminada pela fé, a qual conduz à sabedoria, pois, somente a fé pode proporcionar a solução dos problemas fundamentais. Não é a razão pura dos filósofos que conduz à sabedoria, mas a razão iluminada pela luz da revelação. Nosso intelecto somente vibra ao contato com a vibração divina. Tendo como ponto de partida a fé, podemos ter plena confiança no esforço racional.

Como diz o grande sábio sufi AL-GHAZZALI (Radyia’Llahu’anhu):

“No santuário do coração humano, purificado por seu próprio esforço espiritual e iluminado pela luz divina, se mostram as maravilhas de Alá e tem-se o gozo da felicidade do espírito. A vontade absoluta de Alá é rigorosamente onipotente e nada escapa ao poder de Alá que pode fazer tudo que quiser, inclusive o mal, e só não o faz por sua infinita bondade e misericórdia. A providência divina alcança a todas as coisas, tendendo a manter a harmonia das coisas criadas. O mundo é o melhor possível, porque pensar o contrário seria duvidar da infinita misericórdia de Alá que tudo conhece. Alá vive, fala, vê e ouve, mas não de um modo relativo como os humanos, senão de um modo total”.


LIVROS SAGRADOS

ALCORÃO E A SUNA

 Livro sagrado do islamismo, o Alcorão (Corão – recitação) é revelado a Maomé pelo arcanjo e redigido ao longo dos cerca de 20 anos de sua pregação. É fixado entre 644 e 656, sob o califado de Uthman ibn Affan, com 6.236 versos em 114 suras (capítulos), organizadas por temas. Traz o mistério do Deus-Uno e a história de suas revelações de Adão a Maomé, passando por Abraão, Moisés e Jesus, e também as prescrições culturais, econômicas, jurídicas, estéticas e morais que dirigem a vida individual, familiar e social dos muçulmanos.

Por volta de 650 uma comissão fixou o primeiro texto oficial do Corão, mandando cópias para todas as cidades. Mas só no século X essa versão foi uniformemente aceita. Sua primeira impressão data de 1.923, classificando as Suras por ordem de extensão, as mais longas no início, com seus títulos sendo apenas palavras encontradas no texto da Sura.

A Suna é a segunda fonte doutrinal do islamismo. É um compêndio de leis e preceitos, baseados nos hadith (ditos e feitos), palavras e exemplos do Profeta.

A Shariah, lei canônica que usa o Corão como fonte de leis regentes da ética e da política, aplicável a toda comunidade, classifica todos os atos humanos em cinco categorias: dever absoluto (fard), ações elogiáveis (mustahabb), ações permissíveis (jaiz, mubah), ações repreensíveis (makruh) e ações proibidas (haram).

Para solucionar os impasses legais não previstos, são utilizados dois métodos: a analogia com exemplos semelhantes nos livros sagrados e o consenso coletivo. Os xiitas consideram também que a palavra de seu líder, o Imã, como um método de interpretação dos impasses.


DIVISÕES DO ISLAMISMO

SUNITAS E XIITAS

Os muçulmanos estão divididos em dois grandes grupos, os sunitas e os xiitas. Essas tendências surgiram da disputa pelo direito de sucessão a Maomé. A divergência principal diz respeito à natureza da chefia: para os xiitas, o líder da comunidade (Imã) é herdeiro e continuador da missão espiritual do Profeta enquanto para os sunitas é apenas um chefe civil e político, sem autoridade espiritual, a qual pertence exclusivamente à comunidade como um todo (umma).

Os sunitas são os partidários dos Califas abássidas, descendentes de all-Abbas, tio do Profeta. Em 749, eles assumem o controle do Islã e transferem a capital para Bagdá. Justificam sua legitimidade apoiados nos juristas (alim, plural ulemás) que sustentam que o califado pertenceria aos que fossem considerados dignos pelo consenso da comunidade. A maior parte dos adeptos do islamismo é sunita (cerca de 85%). No Iraque a maioria da população é xiita, mas o governo é sunita.

Os xiitas são partidários de Ali ibn Abi Talib, primo de Maomé casado com Fátima, sua filha, e não aceitam a direção dos sunitas. Argumentam que só os descendentes do Profeta são os verdadeiros Imãs, guias infalíveis em sua interpretação do Corão e do Suna, graças ao conhecimento secreto que lhes fora dado por Deus. São predominantes no Irã e no Iêmen.

A rivalidade histórica entre sunitas e xiitas se acentua com a revolução iraniana de 1.979 que, sob a liderança do Aiatolá Khomeini (xiita), depõe o Xá Reza Pahlevi e instaura a República Islâmica do Irã.

Sunitas e xiitas fazem juntos os mesmos ritos e seguem as mesmas leis (com diferenças irrelevantes), mas o conflito político é profundo. Além dos sunitas e xiitas, existem outras divisões do islamismo, entre eles os zeiitas, hanafitas, malequitas, chafeitas, bahais, sufis, drusos e hambaditas. Algumas destas linhas surgem no início do Islã e outras são mais recentes. Todos esses grupos aceitam Alá como Deus único, reconhecem Maomé como fundador do Islamismo e aceitam o Corão como livro sagrado. As diferenças estão na aceitação ou não da Suna como texto sagrado e no grau de observância das regras do Corão.

DRUSOS

Segundo artigo publicado no jornal libanês O Dia, de 31 de março de 1.967, intitulado “os drusos: sua história e seus textos sagrados”, os drusos formam uma seita à parte, sendo também conhecidos como Filhos da Luz ou Discípulos de Ismael, ismaelitas (Ismael, filho de al-Sadry, que viveu no século VIII). Dividem-se em corporais, também chamados profanos ou iniciáveis, os discípulos (muta-darassin), os adeptos (refik), os mestres (day) e os iniciados (akkal).

Ensinam a existência de cinco seres, emanações direta da divindade suprema, que “levam o trono de Nosso Senhor”, sendo o primeiro deles Iman, ou Gabriel. Iman, ministro superior o qual Deus dotou de onipotência e transmitiu uma parte de Sua essência divina, já teria aparecido à humanidade por sete vezes para anunciar o evangelho, definindo as verdades e mantendo a humanidade no sentido de seu verdadeiro destino. Elas foram: na época de Adão como Chatniel, na de Noé como Pythagore, na de Moisés como Shwaib, na de Jesus como Eleazar, na de Maomé como Salman El-Farzi, na de El-Hakem como Hamza e na de Said como Saleh. Acreditam na volta de Iman, o Messias (Mahdi), como próxima.

Acreditam também que Deus periodicamente toma a aparência humana, na forma de um enviado divino, um Messias, e já o fez 10 vezes (Al-Ali, El-Bar, Alia, El Haala, El Kaiem, El-Maas, El-Aziz, Abazakaria, El-Mansour e El-Hakem), semelhantemente aos Avatares hindus. Hakem teria vindo por volta do ano 997, como califa do Egito e da Síria, tendo desaparecido misteriosamente, por volta do ano 1.037.

Com forte influência do zoroastrismo, crêem em dois princípios o Rival, o Espírito do Mal, oposto à mais Alta Razão, o Espírito de Deus, e que o homem após sucessivas reencarnações, e com a alma purificada, se unirá com a divindade, em graus diversos, de acordo com o saldo de seus bons atos. No centro, na vizinhança imediata de Deus, ficarão os perfeitos, vizinho a eles ficarão os muito puros, depois os puros e além desses reinará o deserto de sofrimentos, onde os maus errarão para sempre.

Negam a predestinação, pois cada homem é livre para escolher entre o Bem e o Mal, para isso prescrevem sete preceitos de obrigação e quatro de convite. Não mentir (portanto não roubar, não matar e não ser adúltero), amar seus irmãos na fé, não acreditar em outras religiões, não desvendar os mistérios, renunciar ao Rival, ser submisso à vontade divina e ser forte e resignado tanto diante da felicidade como diante da adversidade, são os preceitos de obrigação. Ser humilde, caridoso, não se embriagar e evitar a luxúria são os preceitos de convite.

SUFIS

“Embora freqüentemente confundidos com uma seita muçulmana, os sufis sentem-se à vontade em todas as religiões”.

Robert Graves (1.895-1.985) – poeta, mitologista e estudioso das religiões

 

Surgidos como uma reação à racionalização externa do Islã, como o luxo na corte do califa de Bagdá, sendo adotada, sobretudo, durante os séculos VIII e XIII, sofreu influência do cristianismo (Jesus como ideal ascético), do pitagorismo, do neoplatonismo, do zoroastrismo, do taoísmo e do hinduísmo. Com adeptos entre os xiitas e sunitas, o século XIII viu o florescimento da poesia mística e foi a idade de ouro do sufismo, quando começaram a surgir as ordens sufis (tariqahs), com seus mestres espirituais (shaikhs) e discípulos (faqirs em árabe ou darvish em persa), desde a Índia até o norte da África. (428-348 a.C.), Plotino (205-270) e Jâmblico (250-328) são considerados shaikhs. Segundo Robert Graves, Platão (1.895-1.985), muitos cristãos ilustres, entre eles Hugues de Payns (1.070-1.136, foi o fundador da Ordem dos Cavaleiros Templários em 1.119), São Francisco de Assis (1.181-1.226) e o filósofo franciscano Roger Bacon (1.220-1.292), foram influenciados pelo Sufismo.

Nascido do ascetismo, o sufismo incentivava o jejum, a oração e a meditação, é considerado hoje um movimento místico (atitude espiritual que tem por objetivo realizar a união da alma com a divindade, por diversos meios, como o ascetismo, a devoção, o amor e a contemplação). Considera o espírito humano como uma emanação do divino, ao qual se esforça por se reintegrar. Essa reintegração é buscada por três meios: pelo amor, pelo êxtase e pela intuição.

A poesia mística sufi trata Alá como o Bem-amado que ama suas criaturas muito mais do que elas O amam. Usa o amor e a dor aguda gerada pela aparente separação de nossa alma de Alá, como uma forma de aproximação. É o caminho do amor dos poetas árabes persas.

A doutrina sufi distingue entre o que denomina “etapa” (os esforços para avançar no “caminho”) e “estado” (os dons outorgados por Alá). As principais etapas são o arrependimento, a abstinência, a renúncia, a pobreza, a paciência, a confiança em Alá e a satisfação. Os estados são, segundo Muhammed Iqbal (1.877-1.938), a crença Naquele que não se vê, a busca Daquele que não se vê, o conhecimento Daquele que não se vê e a real percepção Daquele que não se vê 28:xvi.

Para seguir esse caminho, é necessária a orientação de um shaikh, a quem se deve obedecer em tudo. A meditação nas escrituras, a purificação do coração e o desenvolvimento da percepção levam ao objetivo último do faqir, que é a contemplação de Alá, alcançada após a experiência do êxtase (estado de arrebatamento da pessoa que, alheia ao mundo sensível, parece estar em comunicação com, ou diante de um ser espiritual), na qual se descobre que Alá mora dentro do homem (Halladj).

Usa exercícios especiais, como a recitação de orações repetitivas, acompanhados de movimentos respiratórios, como forma de se entrar em transe: o Zikhr (veja em MEDITAÇÃO). Um dos mais conhecidos rituais dos dervixes (seguidores do sufismo) é a dança do Sema, onde alguns giram durante horas, imersos em profundo êxtase, com os braços estendidos, a palma da mão direita elevada e voltada ao alto e a palma da mão esquerda mais baixa e voltada ao chão. O propósito, segundo dizem, é permitir que a energia divina de Alá atravesse o corpo, entrando pela palma da mão direita e saindo pela palma da mão esquerda, para espalhar-se por toda a Terra. Também têm, como prática espiritual, as reflexões, as orações, o jejum e os retiros.

Enquanto o primeiro meio de reintegração com o divino leva ao contato com Alá através do sentir (amor) e o segundo meio através do êxtase contemplativo (Yoga muçulmano), a terceira forma usa a intuição que traz o “conhecimento mental” de Alá, usando símbolos, objetos visíveis para se falar do invisível, e a lembrança (dhikr) contínua de Alá, pela repetição de Seu nome. Visa à extinção (fana) da noção de separatividade do eu e a intuição de que Alá está presente em tudo.

Categoria: Órion Volume 1