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A acupuntura, especialidade médica reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina de nosso país em 1.995, também é filosoficamente distinta da alopatia, na medida em que encara os órgãos como conceitos energéticos e não anatômicos. O diagnóstico em acupuntura está baseado na medida do fluxo de energia e o seu tratamento tradicional visa manipular este fluxo energético utilizando áreas aonde essa energia chega perto da superfície do corpo: os chamados pontos de acupuntura.

Baseia-se nos conceitos filosóficos da existência de uma energia sutil e vital (Prana, Ch’i ou Ki) polarizada em Yin e Yang, que percorre canais sutis de energia, cujo equilíbrio é necessário para a harmonia e a saúde. Assim, a inserção de agulhas de acupuntura em vários pontos ao longo dos meridianos corrige o fluxo de Ch’i, levando ao equilíbrio energético e à saúde. Detalhes dessa energia foram dados nos capítulos anteriores.

Seis abordagens são comumente usadas: a acupuntura da Medicina Tradicional Chinesa (MTC), a energética francesa, a acupuntura de mão coreana, a teoria dos cinco elementos, a acupuntura auricular, e a acupuntura miofacialmente-baseada. Na MTC, a história do paciente, qualidades da fala, aparência global (fascies) e odor ajudam a formular um diagnóstico. Isto é completado com o diagnóstico do pulso, no qual são usadas as qualidades das seis pulsações radiais para correlacionar predisposição para infecções (as 6 pulsações consistem em três superficiais e três pulsações profundas, cada um responsável por um sistema orgânico). A partir do diagnóstico, então se escolhem pontos apropriados nos meridianos.

A acupuntura energética francesa está baseada nos princípios da bioenergética bioquímica. Neste sistema, o corpo é considerado um ambiente de eletrólitos que está em equilíbrio dinâmico. Um bloqueio na circulação de eletrólitos em um meridiano é corrigido com inserção de uma agulha de acupuntura que funciona como um eletrodo. Já a acupuntura de mão coreana está baseada no princípio de que toda a energia que circula no corpo passa nas mãos e pés. Assim, o agulhamento de pontos específicos nas mãos ou pés pode ser usado para tratar enfermidades.

A teoria dos cinco elementos afirma que todo ser vivo e objetos inanimados têm uma de cinco qualidades: madeira, fogo, terra, água e metal. Além disso, supõe-se que há uma correspondência entre os cinco elementos e os órgãos. Os elementos são unidos em uma sucessão específica de caminhos de energia circulante e esta sucessão pode ajudar a determinar o diagnóstico e a escolha de pontos para usar como tratamento. Já a acupuntura auricular, foi descrita no ocidente, em 1.957, pelo médico francês Paul Nogier. Ele informou uma correlação extensa entre pontos na orelha e outros locais anatômicos. Foram escritos textos inteiros descrevendo tratamentos de acupuntura auricular para uma variedade larga de enfermidades, com mais de 200 pontos na orelha sendo usados.

O tratamento miofacialmente-baseado começa com uma avaliação dos meridianos que podem estar envolvidos na produção das queixas do paciente. Os meridianos são apalpados cuidadosamente à procura de pontos dolorosos que representem áreas de fluxo de energia anormal. O agulhamento destes pontos dolorosos é usado para restabelecer o fluxo energético correto.

Embora existam mapeamentos padrão dos meridianos e dos pontos de acupuntura, na prática eles variam individualmente. Em geral, eles são localizados por um sistema de medida proporcional, por marcos anatômicos e através da palpação de locais dolorosos (shi ah). Desde a década de 1.970 o Dr. Hiroshi Motoyama (Tóquio), fundador da Associação Internacional de Religião e de Parapsicologia, já mede eletricamente o estado dos meridianos, utilizando esses resultados para diagnosticar desequilíbrios e planejar tratamentos de acupuntura, e o Dr. Victor Inyushin (Cazaquistão) já mostra visualmente o estado dos pontos de acupuntura através de fotografias 10:38 (Cf. em “PRANA”, no Capítulo I).

Estudos com fotografias Kirlian, já demonstram a existência de uma correlação entre os meridianos que chegam em cada dedo e órgãos específicos, embora todas as tentativas em se demonstrar correlações entre neuroanatomia, pontos e meridianos tenham fracassado. Por exemplo, se uma afecção estiver ocorrendo no intestino delgado, os detalhes com as características específicas da afecção irão surgir apenas no dedo mínimo. A fotografia Kirlian de qualquer outro dedo não apresentará o detalhe característico dela.

Um tratamento completo pode exigir de 20 a 30 sessões com a introdução de 10 a 20 agulhas. As agulhas de acupuntura variam em comprimento (1,25 a 15 cm) e diâmetro (26 a 36 Gauge), são de aço inoxidável e podem ter manivelas embutidas em fios de cobre. As agulhas podem ser manipuladas por movimentos giratórios manuais ou por excitação direta e são mantidas de alguns segundos a uma hora, dependendo das metas do tratamento. A moxabustão é uma técnica também usada, em que uma erva (Artemisia vulgaris) é queimada diretamente em um ponto de acupuntura ou é usada para aquecer um ponto de agulhamento e facilitar o fluxo de Ch’i e sangue.

Em geral, o agulhamento produz uma sensação de sonolência e entorpecimento ou um formigamento local chamado de “qi”. Acha-se que essas sensações, consideradas essenciais para um efeito terapêutico, sejam devido à ativação de pequenas fibras nervosas aferentes mielinizadas tipo II e III. Essas fibras, em tese, transmitiriam impulsos à medula espinhal o que causaria uma ativação em cascata de vários centros do Sistema Nervoso Central (SNC). O bloqueio do “qi”, com a injeção de anestésico no local de inserção da agulha, suprime a analgesia da acupuntura.

Na medula espinhal, a acupuntura conduz à secreção de endorfinas que ajudam a bloquear sinais dolorosos aferentes. A analgesia da acupuntura pode ser bloqueada ou pode ser revertida pela administração de drogas antagonistas da endorfina, em uma quantidade dose-dependente. A acupuntura estimula o SNC (a massa cinzenta peri-aquedutal) a secretar duas monoaminas principais: serotonina e norepinefrina. Lesões na rafe do núcleo magno, o local da síntese dessas monoaminas, bloqueia a analgesia da acupuntura. Semelhantemente, a inibição da ação das monoaminas afeta a analgesia da acupuntura. 

Também implicada no mecanismo de ação da acupuntura está a região hipófise-hipotalâmica e o Sistema Nervoso Autônomo (SNA). Lesões do núcleo arqueado do hipotálamo aboliram a analgesia da acupuntura. O agulhamento na acupuntura também estimula a hipófise a secretar beta-endorfinas e o hormônio adrenocorticotrófico (ACTH). Esse hormônio é um precursor biológico do cortisol, o qual tem a sua concentração sérica aumentada com a acupuntura. A eletro-acupuntura inibe a permeabilidade vascular, prejudica aderência de leucócitos no endotélio vascular, e suprime a reação exsudativa do mesmo modo que antiinflamatórios como a indometacina, a aspirina ou o piroxicam. Nas doenças alérgicas, entre elas a asma, a acupuntura consegue diminuir a quantidade de neutrófilos e eosinófilos. Com a estimulação de alguns pontos na mão, aquecem-se as mãos bilateralmente, inferindo uma ação do SNA na neurofisiologia da acupuntura.

A acupuntura é considerada pela Medicina Oriental como um sistema completo de tratamento de doenças, abrangendo problemas respiratórios, oculares, gastrintestinais, e neuromusculares. Escolas diferentes de acupuntura podem tratar um paciente com técnicas diferentes. Um médico de MTC pode tratar a dor ciática usando quaisquer de 20 combinações de pontos diferentes que pode depender dos achados clínicos associados. Poderia se pensar que o efeito obtido pela acupuntura fosse decorrente da simples estimulação cutânea, mas o agulhamento de pontos inespecíficos, que também conduz a secreções de neuro-hormônios, não o faz no mesmo nível que ocorre no agulhamento correto. Assim, há uma maior eficácia dos pontos de acupuntura clássicos quando comparados com pontos teoricamente incorretos.

Vários estudos clínicos apóiam a acupuntura como um tratamento adicional junto com terapias convencionais. No Brasil, um centro de referência em pesquisas em acupuntura está na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), vinculado ao Centro de Dor e sob a responsabilidade do Dr. Hong Jin Pai, atual vice-presidente da Sociedade Médica Brasileira de Acupuntura. Dor crônica, asma, obesidade, ansiedade, estresse, agressividade e déficits de memória e de aprendizado são indicações cientificamente comprovadas da acupuntura.

Um estudo de acupuntura no tratamento de dor nos joelhos devido à artrite reumática, evidenciou que a acupuntura foi mais efetiva que o tratamento com esteróides administrados por via intra-articular [Man SC, Baragar FD: Preliminary study of acupuncture in rheumatoid arthritis. J Rheumatol 1974; 1:126-129]. Estudos de pacientes com enxaqueca de tensão crônica, mostram que a acupuntura conduz a uma redução significante da tensão muscular em gravações de eletromiograma, que persistem durante 28 semanas depois de descontinuar-se o tratamento [Ahonen E, Hakumki M, Mahlamaki S, et al: Effectiveness of acupuncture and physiotherapy on myogenic headaches: a comparative study. Acupunct Electrother Res 1984; 9:141-150]. Um efeito terapêutico significativo também foi mostrado no tratamento da dor ciática com acupuntura. Aliás, já se sabe que se pode obter resposta clínica satisfatória para várias síndromes de dor em 50% a 80% dos casos [Richardson PH, Vincent CA: Acupuncture for the treatment of pain: a review of evaluative research. Pain 1986; 24:15-40].

A acupuntura também pode atuar como um potente antiemético, sendo eficaz em pacientes em quimioterapia. Neste estudo, 97% de 130 pacientes tiveram uma diminuição das náuseas com acupuntura. [Dundee JW, Chestnut WN, Ghaly RG, et al: Traditional Chinese acupuncture: a potentially useful antiemetic? BMJ Clin Res 1986; 293:583-584] Além disso, a náusea trans-operatória em procedimentos ginecológicos foi aliviada significativamente por acupuntura.

Categoria: Órion Volume 2

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