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O silêncio é o pai do som, existia antes deste e existe apesar deste.

As palavras estragam a beleza do que é...

As palavras nem de perto descrevem o que é...

As palavras são somente palavras...

Quando se aprende a ouvir a voz do silêncio, encontramos o Vazio.

Quando se aprende a conversar com o silêncio, experimentamos a Paz.

Quando nos fundirmos com o silêncio, encontraremos Deus...

 

“O silêncio surgiu antes da criação...”  12:29

Madre Teresa de Calcutá (1.910-1.997)

 

 

O critério de classificação básico se baseia na identificação do objeto de atenção usado. Ele pode ser um objeto externo (mental ou não), um objeto interno (auto-observação) ou a integração de ambas. As mais diversas tradições filosóficas, religiosas e psicológicas desenvolveram métodos similares, quanto ao objetivo final das mesmas, mas com alguns nuances diferentes em suas técnicas. Para cada cultura, para cada personalidade, para cada época, uma técnica diferente para conduzir à mesma meta: o verdadeiro estado de Bem-aventurança do homem.

Qualquer dessas técnicas pode fazer com que se sinta uma paz no corpo, nas emoções e nos pensamentos. Mas nenhuma técnica faz surgir o êxtase divino. A Bem-aventurança da comunhão divina vem quando menos se espera, como uma graça divina:

“Você pode dividir o caminho em três passos: o corpo, a mente e o coração. O quarto acontece por si mesmo. Ninguém pode fazê-lo. Se você puder preencher os três passos completamente, de súbito acontecerá um salto quântico. Você se encontrará no centro de seu próprio ser”.

Mohan Chandra Rajneesh – Osho (1.931-1.990)

Na realidade podemos, intelectualmente, dividir as técnicas que levam à meditação em dois tipos diferentes de abordagem. Em uma delas se usa, principalmente, a energia proveniente do cérebro, através de técnicas mentais cerebrais de concentração, atenção e percepção: técnicas de concentração em alguma coisa definida. A outra, que inevitavelmente se segue à primeira, mas que pode ser praticada independentemente daquela, pode ser chamada de técnica de abertura e usa predominantemente a energia do coração. Nela, não se fixa a atenção em nada específico, mas se observa o que acontece no exato momento presente, conhecido como “período quantum” (7 ± 2 segundos) 74:175, sem julgamentos ou avaliações que fariam o pensamento voltar a atuar.

O ponto em comum que une qualquer forma de meditação é a busca de se alcançar um ponto além da consciência emocional e intelectual, onde habita a consciência intuitiva. O silêncio é a primeira busca. O silêncio externo, o silêncio do corpo, o silêncio das emoções, o silêncio dos pensamentos e o silêncio da alma. Precisamos silenciar cada um, para conseguir “ouvir o Vazio”, “conversar com a Paz” e “encontrar a Felicidade Suprema”.

Madre Teresa de Calcutá afirmava: “nós não podemos nos colocar diretamente na presença de Deus sem que nos imponhamos silêncio interno e externo... 12:20 Nós também somos chamados a nos recolher, em determinados períodos, para ficarmos em profundo silêncio e a sós com Deus... e não [a sós] com nossos livros, nossos pensamentos e memórias, mas completamente despojados de tudo, para habitarmos amorosamente em sua presença – em silêncio, no vazio, com esperança e quietude 12:23.

O Mestre, ou o Diretor Espiritual, tem o dom do discernimento (I Cor 12:10) e assim, junto com algumas normas psicológicas, julga a aptidão do aprendiz, intuitivamente, à mudança de técnica. Ninguém deve entrar precocemente nas mansões interiores sem ter recebido o chamado do Espírito. O tantrismo refere-se a esse perigo como o perigo da ascensão prematura da Kundalini (“não desperteis nem acordeis o amor até que o queira” – Ct 2:7). Há o perigo real de autodestruição ou de entrada numa senda descendente para o mal (Cf. em “KUNDALINI” no capítulo anterior).

Esses caminhos não são fáceis, pois à alegria e paz conseguidas no início da prática se segue uma fase de apatia e desencorajamento. Essa fase era chamada por São João da Cruz de “noite escura” 87. Relatada por todas as tradições, é a fase mais difícil, mas se for usado o poder da vontade na persistência, com ajuda de um Mestre instrutor, um Guru, o Roshi do Zen, um bom confessor e/ou psicoterapeuta, se chegará a um estado de bem-estar e de paz. Mas essa ajuda, necessariamente, deve vir de alguém que já tenha trilhado esse caminho, passado por essa experiência, e que por isso consegue manter a serenidade e a tranqüilidade.

Total dedicação ao bem é o primeiro requisito para que se inicie alguma técnica. O desejo de solidão e a perda da vontade de ler livros ou ouvir comentários espirituais, acompanhado pelo anseio ao infinito faz com que se inicie a conversa interior. A incapacidade de pensar discursivamente, ou a falta de gosto por fazê-lo, faz com que se inicie o silêncio interno. O surgimento da experiência contemplativa faz com que esse movimento interior cresça e domine todo o ser.

Mas o despertar para esse mundo novo começa com experiências de relaxamento. Quando relaxamos entramos num estado de consciência em que observamos uma profunda paz, que facilmente pode nos levar a um sono profundo e revigorador. Mas para passarmos a um estado meditativo devemos renunciar ao sono e nos manter relaxados, mas completamente despertos. Daí não se aconselhar a prática meditativa na posição deitada, em que o convite ao sono pode se tornar praticamente irrecusável.

A meditação deve ser iniciada em horários de quietude, em que as vibrações do ambiente estejam pacificadas. Para o taoísmo, essa época corresponde ao solstício de inverno, “quando as árvores estão sem folhas, mas suas raízes começam a se mover”. Corresponde também à meia-noite, horário em que a força espiritual (o tan ou elixir interior, presente no Tan-t’ien) brota e o Ch’i (Prana) é mais intenso.

Na prática, antes dos exercícios espirituais, se deve procurar limpar o corpo, o coração e a mente. Procura-se um local calmo e silencioso, nem quente nem frio, sem muito vento, nem muito iluminado nem muito escuro: um pequeno canto num quarto que seja sempre usado para esse fim. Plantas são benéficas no recinto, mas animais podem distrair a meditação. O taoísmo recomenda forrar o local em que se está com cobertores de lã e se acomodar sobre uma superfície macia e confortável.

“Retirai-vos para um lugar solitário... qualquer local sagrado. O lugar deve ser protegido do vento e da chuva e deve possuir um chão suave e limpo, livre de pedras e poeira. Não deve ser úmido e deve estar livre de ruídos perturbadores. Deve ser agradável à vista e tranqüilizador para a mente. Sentados ali, praticai a meditação e outros exercícios espirituais”. 71:144

Swetasvatara Upanishad

Deve-se evitar meditar com o estômago cheio (até duas horas após as refeições) ou com fome ou sede e deve-se procurar usar roupas folgadas e confortáveis. Idealmente quatro vezes por dia e no mínimo duas, a meditação deve ser uma prática diária. Não se deve dormir sem ela e deveríamos aproveitar todos os horários ociosos do dia para ela. Além disso, é importante meditar durante seis horas pelo menos uma vez por semana 100:20.

Tradicionalmente, alguns horários são melhores à concentração mental. O taoísmo recomenda o horário entre 23 horas e uma hora da madrugada, início do período Yang do dia, embora esse período encerre uma maior predisposição a interferências mediúnicas e influências externas: mediunidade e meditação são pólos opostos. Outros horários podem ser mais favoráveis, como entre quatro e seis horas da manhã (hora de Brahman) e no final da tarde, entre 17 e 18 horas (a hora da Ave-Maria e do Terço católico). Em conventos e mosteiros, invariavelmente, a preparação começa à noite antes de dormir, levando para o sono o pensamento e a intenção corretas para que o despertar traga a mente e o coração perfeitamente sintonizados com o Amor Divino, no qual existimos.

Parece haver um consenso de que a melhor hora é pela manhã cedo ao acordar, após aquela preparação antes de dormir, nem que seja na própria cama por alguns minutos. Então se assume uma posição que deixe a coluna tão ereta quanto possível, dando-se o devido desconto aos portadores de deficiências físicas da coluna. Patânjali considera qualquer posição que deixe a coluna ereta como boa para a meditação 100:19.

Assim como nos exercícios respiratórios, quanto melhor a postura maior o benefício da meditação. O pescoço deve ser mantido também ereto (para a energia subir ao crânio, mantendo a mente alerta), como se algo puxasse o ápice do crânio para cima, mas mantendo-o relaxado da mesma forma que o restante do corpo físico. O relaxamento deve ser priorizado a regiões como os ombros, que devem estar caídos e ligeiramente deslocados para trás, e a face, principalmente as pálpebras, sobrancelhas e mandíbulas (os músculos da mastigação).

Com a coluna ereta, se é possível assumir a postura ajoelhada, sentada numa cadeira (com os joelhos e pés juntos – posição egípcia – ou separados, com as mãos sobre os joelhos), sentada no chão com as pernas cruzadas (posição indiana), sentada sobre as pernas (posição japonesa conhecida como seiza), ou até ficar em pé, parado, caminhando ou correndo. Essa postura ereta facilita o fluxo energético sutil da coluna vertebral (retifica os Nadis) e alinha as dimensões física, emocional e mental (corpos físico-etérico e astral) do ser humano com sua dimensão intencional (dimensão hárica), o corpo causal (Cf. nos ANEXOS).

Embora com a coluna ereta, nas posições em que se fica deitado de costas, deitado de lado e prostrado (de bruços com os braços abertos em forma de cruz), não há alinhamento hárico (Cf. “A DIMENSÃO HÁRICA”, no Capítulo II) e induz ao sono. Essas posições deveriam ser limitadas, embora as tradições taoísta e tibetana descrevam técnicas de meditar dormindo – o Yoga do sono. Parece haver um consenso de que a melhor posição é a sentada com as pernas cruzadas, onde se pousa o dorso de cada pé sobre a coxa oposta (Posição de Lótus). Essa posição parece impedir o fluxo do raciocínio e do pensamento discursivo.

“Sentai-vos eretos, mantendo o peito, o pescoço e a cabeça erguidos. Voltai os sentidos e a mente para o interior, na direção do lótus do coração. Meditai sobre Brahman com o auxílio da sílaba OM” 71:144.

Swetasvatara Upanishad

Mas independente da postura que se assuma (Cf. figuras nos ANEXOS), ela deve se manter inalterada e relaxada durante todo o exercício. Para isso, é bom que o corpo tenha um pequeno preparo prévio, que consiste na contração intensa e voluntária de toda a musculatura, pelo menos por três vezes, de forma a se desfazer bloqueios musculares e fazer circular Prana pelo corpo físico, seguido de um relaxamento muscular profundo (Cf. anteriormente em “RELAXAMENTO”). Os únicos músculos que devem agir, a partir de então, são os respiratórios e os mantenedores da própria postura.

A mente deve ficar concentrada em algum ponto energético específico. Um erro comum é se fixar o olhar, mesmo com os olhos fechados, e não a mente no ponto energético escolhido. O Yoga taoísta descreve cinco pontos no organismo onde se pode fixar a atenção: o Ni-wan (sétimo Chakra hindu), o Tzu-chiao (sexto Chakra hindu), o Chung-kung (terceiro Chakra hindu), o Tan-t’ien (3,5 cm abaixo do umbigo) e o Yang-kuan (o primeiro Chakra hindu), mas qualquer Chakra pode ser utilizado para esse fim. A concentração em cada um produz uma sensação e um resultado diferentes. Algumas escolas diferem quanto ao local aonde o principiante deve concentrar-se. A maioria delas recomenda a concentração no sexto Chakra, o ponto entre as sobrancelhas, mas alguns mestres defendem a concentração no Tan-t’ien ou no plexo solar (terceiro Chakra).

A concentração no sexto Chakra é a mais natural, pois, automaticamente, para esse ponto dirigimos o olhar quando fechamos os olhos. Mohan Chandra Rajneesh – o Osho (1.931-1.990) aconselha a não dirigir o olhar para esse ponto, enquanto não se tiver uma verdadeira percepção da existência do corpo etérico e do corpo astral, sob o risco de desajuste e problemas mentais, como a esquizofrenia. Outras escolas, como o budismo tibetano, aconselham não fechar os olhos, pois o assim proceder facilita a divagação da mente. E ainda outras, como o taoísmo e o Zen, advogam que os olhos devem estar semicerrados, com o olhar dirigido para baixo, na direção da ponta do nariz. Diferenças do olhar a parte, todas as tradições afirmam que a boca deve estar fechada e com a língua tocando levemente o palato.

Ao contrário do que se pode pensar, o estágio de não pensar (chih taoísta), o esvaziar a mente de todos os pensamentos, é obtido somente nos estágios mais elevados da prática, quando se experimenta o Samadhi hindu (a Grande Imobilidade taoísta). O importante, no início, é centrar a concentração, focar a mente em alguma tarefa que pode ser a respiração, a entoação mental ou verbal de sons sagrados ou orações (Mantras), a visualização de imagens ou do fluxo de Prana pelos canais sutis, a análise de algumas Verdades Universais (como o Amor) ou até o próprio pensamento (focando a atenção no espaço silencioso entre dois pensamentos).

Se durante a meditação surgirem pensamentos sobre o cotidiano, deve-se recusá-los e retornar a centrar a concentração na tarefa escolhida. Se surgir algum problema emocional antes inconsciente, deve-se aproveitar para meditar nesse problema específico, nesse caso, mudando o foco de concentração (meditação analítica). Se surgir um intenso calor, geralmente causado pelo circular de energia vital pelo corpo, purificando-o, deve-se passar a expirar pela boca como forma de dissipar esse calor.

Outras pessoas, mais perceptivas, têm mais facilidade de acalmar a mente abrindo-se à percepção. Elas simplesmente observam suas sensações, os estímulos externos que entram pelas portas dos sentidos, as emoções, pensamentos e insights que surgem espontaneamente, deixando-os sumir espontaneamente, da mesma forma que surgiram. No máximo aquietam o seu corpo, regularizam a sua respiração e centram a sua atenção no coração, ouvindo e sentindo o seu pulsar.

Da mesma forma que a preparação à meditação, o modo correto de sair do exercício meditativo é extremamente importante. Retornar suavemente à consciência vigil, mexer lentamente as extremidades, abrir os olhos e permanecer em silêncio por alguns minutos é de extrema importância para não se desperdiçar o ouro obtido durante a meditação.

Alguns sinais demonstram o nosso progresso na prática meditativa, como por exemplo: sensação de leveza do corpo, ou de estar levitando ou fora do corpo (perda de consciência do corpo) ou vibrações internas que podem se converter em sons, músicas ou luzes que parecem vir de uma região no topo da cabeça, mas que não são percebidas pelos olhos ou ouvidos, mas com sentidos não físicos. Esses sinais devem vir espontaneamente, sem influência do pensamento, senão serão somente frutos de nossa imaginação e não avanço espiritual. Ademais se deve procurar o avanço espiritual e não os sinais.

Categoria: Órion Volume 2