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“Meditando centrado no vazio e no não vazio, livre de pensamentos e sem movimento, o sábio fica firme e estável, profundo como um poço d’água”  50:148.

Kaulajnana Nirnaya, 84

 

“Quando você sabe que está orando, você não está orando adequadamente”  74:245.

David Steindl-Rast

monge beneditino

 

“Seja um nada. ... O amor subsiste apenas no nada. Quando você  está vazio, há amor. Quando você está cheio de ego, o amor desaparece. O nada é a fonte de tudo, o nada é a fonte do infinito... nada é Deus”  72:91.

Mohan Chandra Rajneesh – o Osho (1.931-1.990)

 

Ponto mais alto a ser praticado, a meditação no Vazio pode ou não ser precedida de várias das etapas anteriores. Pode-se resumir o caminho percorrido até aqui em estágios a serem percorridos para que se obtenha o silêncio do corpo, o silêncio da mente e o silêncio do coração, de forma que se possa ouvir o silêncio do Espírito.

Na visualização criativa, se deixa, indômita, a mente correr livre, mas contida numa certa direção. Procura-se centrá-la no mundo da imaginação, o mundo próprio da mente. Com o passar do tempo se consegue centrar a mente em palavras, sua sonoridade, seus sentidos e interpretações. Entra-se no caminho da Bhakti-yoga, o caminho da devoção e do amor divinos, presente em todas as religiões.

Para outros tipos de personalidade, há uma identificação com caminhos racionais, que possam ser investigados intelectualmente. Assim se centra a mente no processo investigativo da própria psique, das Leis da Natureza ou das Verdades Universais presentes em todas as tradições filosóficas e religiosas. É o caminho que os hindus denominam Jnana-yoga, o caminho da Sabedoria Divina.

E para os que julgam não ter tempo para devoção ou para o uso do intelecto, pois se julgam atarefados demais, há o caminho do trabalho abnegado, onde a mente é centrada em cada ação executada. Como dito antes, a atenção no acordar, no escovar os dentes, no alimentar-se, no trabalhar, no caminhar, nos exercícios físicos, na prática de artes marciais e nos rituais, religiosos ou não, etc., conhecido pelos hindus como Karma-yoga, visa a se viver o momento presente, centrado no que se está fazendo no momento, podendo se concentrar também no significado da ação, ou não.

Com o passar dos anos, e com a evolução espiritual pessoal, muitos tipos de meditação, que antes nos eram benfazejas, não nos interessam mais, e não conseguimos mais nos concentrar na meditação dirigida, por exemplo. Santa Teresa d’Ávila afirma que quando o buscador vislumbra o divino dentro de si, passa a encontrar enorme dificuldade em se concentrar nas práticas de visualização criativa que antes realizava 92:188.

Então ocorre o que a ciência atual chama de salto quântico: de repente, sem nenhum controle pessoal, se experimenta, durante as práticas de meditação dirigida, o Vazio, o Silêncio, o Nada. Começa a verdadeira experiência meditativa da percepção direta da Verdade. Morihei Ueshiba, o fundador do Aikido, a chamava de odo no kamuwaza 86:62 (técnicas divinas de se estar colocado no vazio), um estado natural de liberdade de todo o esforço consciente em que técnicas extraordinárias surgem espontaneamente. A manifestação física do verdadeiro vazio é sumikiri: “perfeita clareza de corpo e de mente”  86:70.

A verdadeira meditação é aquela em que se pára a mente e se experimenta o “silentium mysticum” de alguns autores católicos. São João da Cruz (1.540-1.591) o denomina de “a chama viva do amor” 43:42 que possuía todo o seu ser e o lançava num completo esquecimento de si, numa quietude e profunda concentração para além de todo o pensamento: um “sono espiritual”. Santa Teresa d’Ávila, como vimos, a chama de oração de quietude e Madre Tereza de Calcutá de prece silenciosa 12:21.

Essa técnica é conhecida na filosofia hindu como Raja-yoga. Na Escola budista chinesa T’ien-t’ai, esse tipo de meditação é conhecido como Chi-kuan, que visa parar a mente (chih) e aperfeiçoar a consciência. Técnicas de introdução ao êxtase místico até a completa imobilidade que faz “perceber a Realidade” são praticadas pelas tradições sufis Qadiri e Suhrawardi. É focar a concentração no espaço entre a expiração e a inspiração, entre um pensamento e outro. É nesse local que reside o vazio.

Para o Buddha, a libertação e a experiência da Realidade última somente viria quando, após ultrapassarmos nosso barulho interno, ultrapassássemos também a paz interior e a tranqüilidade, ganhos com a prática da Meditação Dirigida. Mergulhar no Vazio além da tranqüilidade.

Trazer para a vida cotidiana, para todas as nossas atividades, a todos os momentos de nossa vida, a visão do que é real, nos trará o nosso autoconhecimento e o desenvolvimento de nossa visão intuitiva. O interesse desperto levaria à atenção e esta aumentaria o interesse, que aumentaria a atenção, continuamente. Atenção, vigilância e consciência plena conduziriam à completa libertação da mente, ao Nirvana.

“Uma palavra disse o Pai, que foi seu Filho [o Verbo] e esta Palavra o Pai a diz no eterno silêncio e em silêncio é preciso que pela alma ela seja ouvida” 87:18.

São João da Cruz (1.540-1.591)

A Sociedade dos Amigos procurou por uma espiritualização maior do cristianismo. Acreditam que Deus está em todos os seres humanos, uma realidade viva na forma de uma luz interior. Seu culto, silencioso, dura uma hora, numa forma de meditação que descrevem como sendo uma “relação de amor entre Deus e a alma“ 22:33, só interrompida quando alguém experimenta o impulso interno da palavra, a palavra provinda do Espírito Santo, ouvida reconditamente por cada um.

Nos retiros (sesshin) do Zen-Budismo japonês (escola Soto), os participantes geralmente se sentam em seiza (em cima dos calcanhares), ou em posição de lótus, por dez períodos de 40 minutos, iniciando-se às três da manhã e encerrando-se às nove da noite, durante sete dias 43:9. Até mesmo as refeições são feitas em posição de meditação. Privilegiam a busca do Vazio na meditação, onde a atenção é desviada de quaisquer pensamentos ou imagens, os quais são simplesmente ignorados. Nesse sentido se busca apenas estar e viver no presente, no agora eterno, até culminar na experiência do Nada (das trevas, do silêncio ou vazio), conhecida como Sanmai, e vivida quando se atinge as profundezas do próprio ser.

Transcendem-se as palavras, visualizações e pensamentos, e se eles ocorrem não mais se originam da persona, mas das divinas profundezas do ser. São sons e palavras internos, imagens vívidas e por demais realistas, semelhantes às imagens hipnogógicas, pensamentos intuitivos que nos trazem a certeza da Verdade. Nesse estado podem surgir também fantasmas e monstros, santos e anjos, medos, tristezas, alegrias, queixas infantis, julgamentos autoritários inconscientes, que antes inacessíveis à meditação analítica, passam a “flutuar” livremente para o nível consciente.

Nesse momento pode-se procurar auxílio de um Mestre, Diretor Espiritual ou de um psicoterapeuta, ou simplesmente seguir inebriando-se na alegria e satisfação desse novo estado, de forma que todos os hábitos e equívocos se tornam distantes, infantis, insignificantes. Mas isso só é possível se existe um autoperdão ou consciência de que se é amado, embora se seja ainda imperfeito.

“Por si mesmos gritarão até morrer, ou morrerão por se verem expostos à luz... e eu fico liberto e curado. Talvez a percepção de meus problemas (mas ao mesmo tempo deixando-os tais quais) leva a um tipo de iluminação em relação a eles e assim perdem o poder” 44:117.

William Johnston – jesuíta

Aqui se constata a superioridade da meditação “religiosa” sobre a meditação terapêutica, pois essa é limitada à “cura mental e emocional” enquanto aquela, em seu caminho ao Infinito, cura mental e emocionalmente o praticante. Focar na meta final dispensa todo o resto.

Meditar no vazio é “contemplar com o coração”. É um estado exclusivamente receptivo e passivo, de espera, sem pré-julgamentos, sem expectativas, sem desejos, no máximo percebendo o pulsar do coração, com a atenção em todas as sutis sensações que ocorrem o corpo, todas as sutis emoções e pensamentos, indefinidamente, num estado físico de perfeito relaxamento muscular e harmonia respiratória. O processo físico intelectual já é insuficiente e o processo sutil de sentir com o coração está em plena atividade.

A cardiocontemplação é um processo de deixar o coração aberto à sua ressonância natural com todas as energias do momento presente, o “período quantum”, e, desse modo, fazer uma “pausa espiritual” que permitirá a total imersão no momento quântico presente. É um sentimento de absoluta conectividade com tudo à volta, que gera um estado de completa absorção em que o tempo, o espaço e a noção do “eu” somem. Pressupõe um “deixar acontecer”, sem pressa alguma de chegar em algum lugar, pois simplesmente se está.

Não necessariamente é um processo que necessita que fiquemos imóveis, mas pode ocorrer durante qualquer atividade. O espírito de observação atenta e espera atenta é o importante: vigiar. Mas esse vigiar em atividade requer algumas coisas: diminuir o ritmo de vida diária (acalmar-se), não levar as coisas muito a sério (as boas nem as ruins), parar de falar (principalmente de si mesmo), parar de julgar (a si mesmo e aos outros), prestar atenção a tudo o que ocorre a nossa volta (sintonizar-se com o sistema natural que nos cerca) e, principalmente, tentar detectar aquela força interior que nos traz uma profunda sensação de unidade com tudo e com todos.

“Em sua forma mais simples, a prece é uma atitude do coração – uma questão de ser, não de agir”  74:235.

Larry Dossey

 

Mas o que muda no meditador que faz com que o progresso pessoal ocorra? Na realidade a prática diária do exercício meditativo faz com que o filtro etérico dos Chakras (Cf. em “FLUXOS ENERGÉTICOS E VAMPIRISMO” no capítulo anterior), que impede o livre tráfego de informação entre os corpos sutis, se desvaneça tornando-se cada vez mais tênue, a fim de permitir uma “imperceptível entrada de maior realidade dentro da consciência intuitiva”.

Aprende-se a orar com o coração, a mais alta forma de oração devocional, descrita anteriormente. De repente esse lento processo cede, devido a uma brusca ruptura do filtro, causando uma percepção direta da Verdade, ou experiência mística, para em seguida se fechar parcialmente, novamente. E esse processo continua até que não exista mais o filtro e se fique com o canal permanentemente aberto à superconsciência, à Consciência Crística e, por fim, à Consciência Cósmica.

Categoria: Órion Volume 2