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“Somos espaço-luz, olhando para um espaço-luz através do espaço-luz”.

Pierre Weil

 

Há milênios se discorre acerca de quem somos e qual o nosso papel nessa vida. No aspecto maior, a discussão também existe: de que é constituído o Universo e para que ele existe? Os sábios hindus da antigüidade criaram então o conceito de Espírito e Matéria (Purusha e Prakriti, da filosofia Shânkia hindu), para explicar suas observações. Para a filosofia Yoga, Purusha e Prakriti são apenas manifestações do Absoluto (Cf. no Volume 1). Seriam o “Pai Celestial” e a “Mãe Divina”, ou o Deus Pai e a Natureza Mãe, ou Deus e o Espírito de Deus da Bíblia Sagrada (Gn 1:2), o Pai e o Espírito Santo dos cristãos. Essas duas “entidades” seriam a base de todo o mundo manifestado, físico e sutil.

Esse mundo físico manifestado, no homem, é representado pelo corpo físico, e o mundo sutil pela mente. René Descartes (1.596-1.650) perpetuou o conjunto mente/corpo de Platão (428-348 a.C.), separando filosoficamente a mente e o corpo. Assim seríamos um ser composto, constituído de uma parte material e outra espiritual. Essa é a visão da filosofia dualista. Outras filosofias foram criadas, como o monismo, que reduz todas as coisas à unidade, e o pluralismo, que considera como conceito fundamental, a diversidade das coisas, as quais não podem ser reduzidas a dois aspectos e muito menos a um único.

Toda a criação é ilusória, feita de “nada”. Toda a Criação é Una, feita da mesma substância. Toda a Criação é dual, apresenta dois pólos. Todas as coisas são diferentes entre si. A Unidade, vinda do Nada, está presente na Dualidade. De um pólo ao outro da Dualidade está a Pluralidade de todas as coisas. Assim toda a manifestação e todos os caminhos são diferentes, mas inerentemente iguais e ilusórios.

 

“Desde que a mente e o cérebro passaram a serem vistos como entidades isoladas, as pesquisas nestas áreas foram, de maneira geral, inerentemente separadas. Bioquímicos têm se preocupado com mecanismos somáticos; psicólogos têm se esforçado com as propriedades subjetivas da mente; filósofos e teólogos trazem com eles o espírito e a alma”.

Sílvia Helena Cardoso, Ph.D.

Psicobióloga da UNICAMP

 

“Há quem Me compreenda através do dualismo. Outros Me conhecem através do monismo, mas Minha Realidade está além do dualismo e do monismo” 50:188.

Kularnava Tantra, I:10

 

Milênios se passaram e a mesma discussão continua. Do que afinal o Universo é constituído? Do que afinal nós, seres humanos, somos constituídos? Que existe algo subjetivo a que denominamos mente e consciência, nós já sabemos. Mas existe alma? E espírito? O que é alma e o que é espírito? E o que é mente e o que é consciência? Enfim, quem somos nós?

A visão de cada um, acerca do que seja o ser humano, fica explícita na atitude individual perante o próximo. Podem-se ter três visões diferentes do que seja o ser humano: uma visão física, uma visão psíquica e uma visão além da psíquica.

O pressuposto antropológico materialista afirma que o ser humano seria o cérebro, o qual comanda o corpo, sendo as emoções, os sentimentos e a consciência, reflexos subjetivos do objetivo. Essa escola afirma que a felicidade e a realização pessoal pode advir de fármacos que interfiram no funcionamento cerebral. Remonta ao Soma, bebida sagrada hindu, a origem do termo somático, que pode dar nome a essa linha de pensamento, que eleva o aspecto físico. Para muitos neurocientistas, espírito e alma são interpretações teológicas e metafísicas da mente, e essa não passa de um conjunto de funções mentais do cérebro físico. A aceitação ou rejeição da existência de algo como alma ou espírito dependeria de fé ou convicção religiosas, as quais não podem ser provadas ou desaprovadas por métodos experimentais.

A visão psíquica afirma que o corpo somático seria habitado por um outro corpo, o corpo dos sonhos (Psique ou ânima), onde as aventuras e imagens transcenderiam o tempo e o espaço. Esse corpo dos sonhos seria dotado de um composto de memórias, emoções e sentimentos de nossas dimensões emocional e mental. Seria a mente, habitando o universo dos pensamentos e sonhos, enquanto o cérebro habitaria o universo da vigília. Dessa forma, os pensamentos no universo dos sonhos complementariam o pensamento vigil, e nele encontramos pessoas distantes de nós, tanto no tempo quanto no espaço.

Tanto a psique quanto o soma, inter-relacionados em mútua interdependência, são inquietos por natureza. Pelo aquietar desses dois corpos vivenciamos uma paz, que perdura até durante o pior dos terremotos. Essa outra dimensão de nós mesmos, conhecida pelos gregos como Nous, só tem a sua existência comprovada por aqueles seres humanos que desenvolvem a capacidade de realmente escutar o outro, silenciosamente, tanto com soma quanto com psique. Essa visão silenciosa da realidade, alcançável pela contemplação/meditação (silêncio absoluto), é a verdadeira fonte de paz individual, geradora da inteligência intuitiva que leva à libertação (despertar) do sonho da existência psicossomática.

“Não há melhor e mais útil estudo que conhecer-se perfeitamente... [pois] o humilde conhecimento de [si] mesmo é o caminho mais certo para Deus que as profundas pesquisas da ciência”, já dizia Tomás de Kempis (1.380-1.471), monge agostiniano do século XV. Para ele havia um homem interior e um homem exterior que oprimia aquele com as necessidades corporais. Mestre de noviços durante toda a sua vida, Tomás de Kempis ensinava-os a desprezar as coisas exteriores e a se entregar às interiores, onde, segundo o próprio Cristo, estava o Reino de Deus (Lc 17,21): “O Reino de Deus está dentro de vós”. Para São Paulo, o “Reino de Deus é a paz e o gozo no Espírito Santo” (Rm 14:17) e para Tomás de Kempis (IC II,1:1), o Cristo viria a nós somente se preparássemos, em nosso interior, digna morada para Ele (Jo 14:23), na qual Ele permanecerá eternamente (Jo 12:34).

 

“Quem sabe andar recolhido dentro de si, e ter em pequena conta as coisas exteriores, não precisa escolher lugar nem aguardar horas para se dar a exercícios de piedade. O homem interior facilmente se recolhe, pois nunca se entrega de todo às coisas exteriores. Não o estorvam trabalhos externos nem ocupações, às vezes necessárias, mas ele se acomoda às circunstâncias, conforme sucedem. Quem tem o interior bem disposto e ordenado não se importa com as façanhas e crimes dos homens. Tanto o homem se embaraça e distrai, quanto se mete nas coisas exteriores”.

Thomas de Kempis (IC II 1:7)

 

Se olharmos atentamente, facilmente observaremos que vários níveis de consciência existem em nós: uma consciência do plano físico, outra do plano emocional, uma consciência do plano mental concreto (aquele que observa racionalmente empregando a lógica), uma consciência do plano mental abstrato e uma consciência intuitiva. Os dois últimos servem de porta a um nível mais superior, chamado supramental, e só se desenvolvem à medida que passamos a redescobrir as verdades espirituais. Mas a maioria da humanidade vive na completa ignorância desses aspectos outros da consciência, e dessa forma seguem enxergando apenas algumas facetas da realidade, negando as outras por não vê-las.

 Visões parciais da realidade sempre levam a decisões errôneas, que, num mundo globalizado e interdependente, podem ser catastróficas. Como desenvolver nossa capacidade de raciocínio abstrato e intuitivo se nem sabemos que eles existem, por não nos conhecermos por completo. Nossa tarefa, nesse mundo, é nos autoconhecermos, para nos autotransformarmos, para, só assim, obtermos nossa auto-realização, nos tornarmos plenos. Já temos tudo para resolver todos os problemas do planeta Terra, criados ou não por nós mesmos. Só nos falta remover os últimos obstáculos, que estão dentro de nós mesmos.

Categoria: Órion Volume 2

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