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“Dentro de nós mesmos há grandes segredos que não entendemos”   92:233.

Santa Teresa d’Ávila (1.515-1.582)

 

Afinal, a mente consciente tem alguma base neurobiológica? A neurociência cada vez mais chega a essa base, quando investiga como o cérebro compõe um “filme” integrado e unificado de diversas imagens e estímulos sensoriais. Esse filme “multimídia” é o espetáculo conhecido como mente consciente. Exames utilizando o PET (tomografia por emissão de posítrons) e o FMRI (ressonância magnética nuclear funcional) revelam como diferentes regiões cerebrais de uma pessoa normal são recrutadas para cada tarefa mental (SCIAM EE 4:9).

A associação entre cada estado mental e emocional e a correspondente atividade cerebral é sempre evidenciada por aqueles exames. O sistema nervoso evoluiu de forma a notar cada alteração do próprio organismo e dos objetos considerados exteriores a ele. Dessa forma, monitorando continuamente tudo o que ocorre, cria-se uma “imagem” cerebral que não pode ser considerada abstrata, posto que ela é apenas uma conseqüência do que ocorre a nível cerebral.

E é essa mesma atividade que gera a autopercepção de um “eu” individual que existe e que interage com o externo. Foi um excelente mecanismo evolutivo que possibilitou tanto a vigilância aos sinais de alerta fornecidos pelo “filme” quanto o planejamento estratégico para se evitar perigos; uma clara vantagem para a sobrevivência. Essa autopercepção faz parte do “filme” neurológico, é a fonte do ego psicológico, do “falso-eu”, o gerador da ilusão de uma vida separada do Todo.

 

“A mente mais geral existe em razão do cérebro... [Ela pode ser chamada de] mente humana... [e] depende do funcionamento do cérebro. Quando ele pára de funcionar, ela também pára” 28:112.

XIV Dalai Lama

 

No sânscrito, a língua das Escrituras hindus, há cerca de vinte palavras para o que chamamos apenas de mente. Mas o estudo ocidental do que seja mente mudou após Freud. Para Sigmund Freud (1.856-1.939), além do mundo físico existiria um mundo mental, que ele dividia em mente consciente e inconsciente. Essa última, depósito de nossos desejos reprimidos, atuaria naquela primeira, podendo ser causa de diversos distúrbios psicológicos.

A mente humana, moldada desde a infância, seria um composto de três partes: o ego, o id e o Superego. No id estariam arquivados todos os nossos impulsos instintivos, o nosso lado animal, a nossa Sombra, quase toda inconsciente. No id estariam arquivados também todos os nossos aspectos reprimidos e os não cultivados. O nosso Superego seria a nossa voz interna da razão, que nos vigiaria os atos, julgando-os e aprovando-os ou censurando-os. A partir do id, haveria a formação do ego. Ego, id e Superego seriam também os componentes da personalidade humana, sendo o ego a parte da personalidade em contato direto com a realidade externa, consciente.

A mente inconsciente consistiria daquele pacote de memórias do qual não temos consciência e que, em alguns momentos, vêm à consciência em forma de sonhos, de lapsos (déjà-vu) ou durante sessões de hipnoterapia. Freud fez a grande descoberta de que a conduta humana pode ser influenciada tanto pelo nosso consciente quanto pelo nosso inconsciente, e utilizou a hipnose como um meio de fazer emergir conteúdos do inconsciente (nossas pulsões interiores, fixações e feridas infantis, etc.) e liberar as suas energias.

Com tanta coisa em nosso inconsciente, objeto de estudo da psicologia, não podemos nos esquecer daquilo que se passa no nosso consciente. Quem nós achamos que somos? Apesar de uma crença íntima de que somos uma individualidade em cuja mente passa, ininterruptamente, idéias, lembranças e sensações, na realidade uma parte nossa que pensa de uma certa maneira está em constante luta com outras partes nossas que pensam de forma diferente. Temos inúmeras “personalidades” íntimas em disputa e somente uma delas, a que vence as outras, se manifesta, alternadamente, a cada momento de nossa vida. Pensamos que somos alguém que pensa, mas nos comportamos como muitos “eus” que lutam para se manifestar: um quer bater, outro quer xingar, outro quer ser indiferente, outro quer relevar, outro nem se incomoda, outro olha com compaixão, outro apenas sorri porque entende o próximo e etc.. Muitos de nossos atos acontecem por si mesmos e depois “eu” penso que “eu” fiz isso. Nosso “eu” individual é uma ilusão?!

A neurociência e a neurologia moderna corroboram essa visão da psicologia, quando identificam inúmeros mecanismos paralelos independentes que são especializados e executam diferentes tarefas no cérebro. O neurocientista indiano Vilayanur S. Ramachandran, que dirige o Centro de Estudos do Cérebro e da Cognição da Califórnia afirma que temos centenas de “zumbis” no cérebro, que trabalham automaticamente e não percebem a implicação de seus atos. Pessoas com danos cerebrais em determinadas áreas, que a impossibilitariam de, por exemplo, enxergar algo à sua esquerda, conseguem tocar nesse objeto sem fazer a menor idéia de como conseguiram essa façanha:

 

“Eu comparo esses comportamentos automáticos a zumbis. É como se tivéssemos centenas de zumbis dentro de nosso cérebro, que executam coisas sem que nossa consciência saiba. Isso contraria totalmente a idéia tradicional de que há apenas um ‘eu’, uma pessoa em cada cérebro”.

Vilayanur S. Ramachandran

(Galileu 135:16)

 

São Paulo dividia o homem em uma porção exterior corruptível e uma interior, incorruptível, que se renova a cada dia (II Cor 4:16, Ef 3:16 e Ef 4:12). A filosofia hindu divide o homem em Atman (espiritual, imortal e eterno) e Aham (material, mortal e transitório), onde Ahamkara (o ego) atua causando a aparente separação entre o corpo material e o corpo espiritual (Cf. adiante), entre o homem e Deus.

 

“Como dois pássaros dourados pousados no mesmo galho, intimamente amigos, o ego (Ahamkara) e a Consciência (Atman) habitam o mesmo corpo. O primeiro ingere os frutos doces e azedos da árvore da vida; o segundo tudo vê, em seu distanciamento”.

Rigveda I: 164.20

 

Para o budismo, existe a noção de que o indivíduo, ego ou personalidade (conhecido também como “eu inferior”), é uma combinação de energias físicas (rupa) e mentais (nama) que interagem com os objetos do mundo em volta (formas visíveis, formas tangíveis, sons, odores, sabores e idéias e pensamentos) através dos Skandhas: corpo físico, as sensações, as percepções, as formações mentais (vontade e atenção) e a consciência. Assim, aquilo que chamamos de “eu” é uma colcha de retalhos de tudo o que fomos captando ou criando, durante nossa vida, mas que na verdade é uma ilusão em constante mudança.

Essa combinação mente/corpo (“eu inferior”), a partir de condicionamentos gerados pela relação com o ambiente externo ilusório, em algum momento se torna consciente de sua existência e passa a gerar um subproduto inconsciente (subconsciência). Aquela consciência (mais geral) e essa subconsciência seriam produzidas pelo cérebro físico e difeririam de um tipo de Consciência mais profunda e sutil que independeria do cérebro e que estaria ligada ao mesmo através da “superconsciência”. Aliás, essa Consciência maior, independente de um cérebro ou de uma personalidade, permearia toda a Criação, estando presente, numa forma solidificada, até nos objetos inanimados, aspectos da Vida presentes em todos os átomos da Criação.

Todos os Skandhas seriam compostos de matéria em vários estados de densidade e aquela Consciência, mais profunda e sutil, seria a base sobre a qual a mente e o corpo (Nama-rupa) se materializariam, ou melhor, Nama-rupa, como um amálgama de energias em constante fluxo, seria a própria Consciência cristalizada ou materializada.

A mente vigil (consciente), que o Mandukya Upanishad chama Vaiswanara 71:67, interage com o meio externo, com nossas sensações, sentimentos e emoções. Controla o sentir, o desejar ou repelir, e o agir. A mente subconsciente, Taijasa 71:68, controla o “pensamento profundo” e a memória, é a nossa parte que sonha. Nela estão registrados todos os nossos condicionamentos, nossos “registros inadequados” hereditários ou provindos de nossa experiência pessoal, todo o conjunto de processos e fatos psíquicos que, latentes, podem influenciar a conduta humana e facilmente aflorar à consciência: nossa Sombra (Cf. adiante quando falarmos nos corpos sutis do homem).

Já a mente superconsciente, Prajna 71:68 ou Sabedoria, é a que está ativa no sono sem sonhos, ou no estado meditativo. Segundo os tibetanos é o estado de “clara luz”, o qual nos abastece todas as noites, mas do qual poucos se lembram (os que se lembram, lembram de uma luz). Nesse último tipo de mente estaria arquivado nosso registro original, feito “à imagem e semelhança de Deus”. O acesso a esse arquivo, impresso em áreas cerebrais ainda inativas na maioria da humanidade, seria a chave para se conectar a um “Eu superior” (nossa Consciência, “profunda e sutil”), presente no homem, ponto de encontro entre o divino e o humano, a nossa individualidade que concilia os nossos opostos, nosso Santo Ser Crístico, ou a natureza de Buda presente em nós.

 

“O Eu é o mestre do eu... Que outro mestre poderia existir?” 83:155

Sidarta Gautama, O BUDA (563-483 a.C.)

 

“...havia em mim um ‘daemon’ [(um sábio)] que, em última instância, era sempre quem decidia” 19:69.

Carl Gustav Jung (1.875-1.961)

 

Para Carl Gustav Jung (1.875-1.961), a persona (o “eu inferior”) é “o que alguém na realidade não é, mas o que ele mesmo e os outros pensam que ele é” 19:64. Para São João da Cruz 87:11, a persona seria constituída dos cinco sentidos do corpo físico, as paixões, a vida emocional – alegria, esperança, tristeza e medo, as nossas tendências e apetites – todos os prazeres, a imaginação e até a inteligência. É a Máscara com a qual nos identificamos, a imagem, idealizada por nós mesmos, que apresentamos ao mundo.

Teríamos, então, esse “eu inferior”, composto de nosso corpo físico, de nosso emocional (corpo emocional) e de nossa mente (corpo mental), e um “Eu superior” (corpo de intuição), diretamente conectado com o divino (algo parecido com o Superego de Freud ou o Self de Jung), o qual se comunica com o “eu inferior” através da intuição. Seríamos um ser trino, composto de uma personalidade mortal, uma individualidade (a alma) e um espírito imortal.

Na maioria da humanidade, as forças de um daqueles corpos (físico, emocional ou mental) predomina sobre o outro, não escutando a voz interior, intuitiva do “Eu superior” (“vontade, amor e inteligência puros”). Temos então aquelas pessoas presas às sensações do corpo físico, aquelas pessoas presas às sensações evocadas pelo seu emocional (suas emoções) e aquelas pessoas presas às forças do corpo mental (racionais). Enquanto pensamos querer alguma coisa, no mesmo momento sentimos que desejamos outra, para no final agirmos de uma forma completamente diferente daquela que pensamos e que desejamos, completamente desalinhados.

A mente seria como a energia elétrica que mantém a máquina do corpo físico funcionando. Se a máquina quebra irremediavelmente ou é destruída, a energia elétrica continua existindo, esperando uma nova máquina que a manifeste. Assim, a mente, a nossa individualidade, elo comum entre o mundo manifestado e o mundo espiritual, é o elemento que tanto pode nos prender ao mundo manifestado, mediante sua ligação com os instintos, emoções, sentimentos, e pensamentos, como pode nos libertar desse mundo, mediante seu desligamento desses fatores e ascensão ao divino.

Para o budismo, quando o corpo físico cessa seu funcionamento as energias mentais, provindas da Consciência, continuam a se manifestar sob outra forma, podendo ou não dar origem a uma continuidade dessa vida sob nova personalidade (uma nova persona). Isso dependeria do estado dessas energias mentais. Até o último momento de consciência, no corpo físico, poder-se-ia mudar a energia mental, anulando-se uma nova manifestação física  (Cf. no Capítulo IV).

O controle básico da mente, na forma de mudar os próprios estados mentais em outros melhores, de acordo com o poder da vontade, seria o primeiro passo. Essa é a verdadeira alquimia: transformar nossos metais vis em metais nobres. Essa mudança agiria também nos estados mentais de outras pessoas mudando-os também. Um passo seguinte nos daria condições de realizar tudo o que se conhece como fenômenos psíquicos (telepatia, telecinese, influência mental, transferências de pensamento, etc.). Poderosa e inquieta por natureza, a mente esconde o “Eu superior” em seu seio, o qual necessita do corpo físico como veículo de manifestação, e da mente para comunicar-se por meio intuitivo. Esse “Eu superior” seria o “Pai em segredo”, ao qual Jesus se referia (Mt 6:4ss e Mt 6:18), o “Mestre”, ao qual Buddha se referiu, o Magister Internus 43:109 de Santo Agostinho (354-430), ou o “sábio no homem”, de Jung.

 

“Nenhuma coisa boa que façamos procede de nós”  92:29.

Santa Teresa d’Ávila (1.515-1.582)

 

Comungar com esse “Eu superior” seria se tornar o super-homem, defendido por Friedrich Nietzsche (1.844-1.900), ou ser uno com o Pai (Mt 5:16, Mt 5:44, Mt 5:48, Mt 6:9, Mt 7:11, Mt 7:21, Mt 10:32s, Mt 12:50, Mt 16:17, Mt 18:10, Mt 18:14, Mt 18:19, Mt 23:9, Mc 11:25s, Lc 11:12, Jo 12:28, Jo 17:1), o qual era quem realmente fazia as obras e milagres de Jesus e de todos os homens santos (“super-homens”) da humanidade. A descida do Espírito Santo nos apóstolos, com todas as bênçãos conseqüentes, após anos de aprendizado e de práticas espirituais com o Mestre Jesus, seria então um estado mental de comunhão com o próprio “Eu superior” deles, tornando-os “super-homens” (Cf. no Volume 3), unos com o “Pai em segredo”.

Esses super-homens são conhecidos por todas as religiões: são os Santos citados no Credo dos apóstolos da Igreja Católica (que vivem em comunhão – Cf. no Apêndice do Volume 1), os “Homens Perfeitos” relatados na Bíblia (Cf. no Volume 3), os Arhats e Bodhisattvas budistas, os Raja-iogues indianos, os Imortais (Mestres Celestiais) do Taoísmo, o ideal Chun Tzu (Homem Superior) confucionista, os Mahatmas da teosofia, os discípulos de Rama que subiram com ele, os profetas do Judaísmo, etc..

O primeiro Princípio Hermético do Egito antigo já afirmava, há milênios, que todo o Universo é uma construção da mente divina, ou seja, toda a matéria seria “força mental coagulada”. Se o Universo é “mental” na sua natureza, a mente humana pode interferir e mudar as condições do Universo, como postula, atualmente, a física quântica. Dessa forma, pode-se entender e admitir a possibilidade da existência de “super-homens” que podem dominar as grosseiras condições físicas e os elementos da Natureza, a produção ou cessação das tempestades e dos terremotos, assim como de outros grandes fenômenos físicos, e a cura de doenças. Seria um estado muito mais avançado de controle da mente.

Dessa forma podemos compreender melhor as seguintes frases, citadas no Volume 1, que foram proferidas por Cristo: “Vós sois deuses” (Jo 10:34 e Sl 81:6), “O reino de Deus está dentro de vós” (Lc 17:21). Semelhantemente, seu discípulo também disse: “...sois o templo de Deus e... o Espírito de Deus habita em vós” (I Cor 3:16), “ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?” (I Cor 6:19), “...não mais eu, mas Cristo vive em mim...” (Gl 2:20). Seriam alusão a esse “Eu superior”.

Categoria: Órion Volume 2

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