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 A verdadeira busca religiosa começa com o autoconhecimento e termina com a percepção direta da Verdade: o local onde a Utopia se transforma em Realidade.

 

Vimos até aqui o que somos. Já temos uma boa noção da resposta à pergunta: “quem sou eu?” Sou um ser multidimensional que nasce, vive e morre num mundo multidimensional impermanente e ilusório. Aqui a ciência e a religião se complementam. Mas para quê? Já aqui entram em campo a religião e a filosofia. Elas visam compreender a relação entre o homem e o mundo. Toda filosofia só sobrevive enquanto existe uma perspectiva futura, utópica. A utopia é algo impossível, da qual podemos apenas nos aproximar, mas que é necessária. A nossa utopia maior é nos tornarmos perfeitos em tudo, atingir a Perfeição.

Em sua busca pela infinitude, o homem (que parece ser o único ser vivo conhecido a ter a noção abstrata de infinito) deturpou a sua maior utopia. Negou e rompeu com o Divino e buscou ser onipotente, onisciente e onipresente no planeta, procurando controlar e dominar a Natureza. Com o seu livre-arbítrio, o homem utiliza esses atributos tanto para o bem estar do planeta como para a sua destruição. Criou um outro mundo através da ciência e da tecnologia, interferindo no planeta, mas demonstrando não ter responsabilidade política nem ética para ser o “deus do planeta”.

Como “deus do planeta”, o homem desperdiça cerca de 30% do que produz para comer. Cerca de 23% da produção total de frutas, verduras e legumes não chegam à mesa da família. E na cozinha desperdiçamos a casca, as folhas, os talos, os pães velhos, etc.. Sem falar na imensa quantidade de lixo orgânico e inorgânico produzido: cerca de 150 mil toneladas de resíduos sólidos por dia só nos domicílios brasileiros (segundo Sabetai Calderoni, consultor da ONU para Assuntos do Meio Ambiente e autor do livro “Os Bilhões Perdidos no Lixo” da Editora Humanitas).

A convicção íntima do homem, de que é um deus de cujo centro todo o universo gira, que tem poder de moldar o próprio destino pelo seu livre-arbítrio, tem base na verdade de que somos um templo de Deus e que Ele habita em nós. Essa visão antropocêntrica, míope pois não vê que Deus está presente em toda a Sua Criação, nos faz pseudo-onipotentes, pois na realidade não realizamos tudo que desejamos nem podemos criar estrelas e universos.

Criamos uma onipotência relativa, embutida no desejo irrefreável de possuir tudo o que queremos, satisfazer nossos desejos, não suportando decepções e frustrações, buscando avidamente pelo reconhecimento pessoal, sendo tiranos de nossos próprios filhos e/ou subordinados, arrogantes, pretensiosos, autoritários, juízes e críticos da vida do próximo. Somos até mártires, auto-impingindo sofrimentos como forma de ser o centro das atenções. Formas veladas e doentias de se afirmar a pretensão pessoal de ser um deus, perfeito e onipotente numa aparência externa de “normalidade”.

Mas também conseguimos inimagináveis avanços tecnológicos em todas as áreas do conhecimento humano, e esse avanço científico e tecnológico, e a globalização ocorrida, forçaram a uma visão de totalidade que havia sido perdida, pois a ciência antiga já ensinava a se viver em harmonia com a ordem cósmica e com a ordem divina, com a Natureza e com Deus. O todo voltou a ser mais importante que o individual. Hoje, o homem tem consciência de que tudo o que ele fizer, individualmente, afetará o planeta todo. Mas mesmo sabendo disso, o homem insiste em defender suas visões particulares, e essa ética, baseada na convicção pessoal, ou de algum grupo ou nação, se não for solucionada enviará o homem a um final apocalíptico.

O homem ainda discute e briga pelos seus próprios direitos. Discutem-se direitos humanos. E onde estão os “direitos naturais”? Os direitos humanos estão separados ou são superiores aos direitos naturais? As decisões da cúpula mundial levam em conta o “PIB animal”? A humanidade em geral ainda acredita que é independente das leis naturais. Numa nova visão quântica de totalidade e inseparatividade, o homem ainda briga por visões particulares de direitos e, pior ainda, nem isso consegue apreender universalmente, pois violações desses direitos humanos estão presentes em todas as nações do mundo.

O homem ainda não recuperou a visão de que todo o ato externo seu sempre refletirá a sua condição interna. Aliás, o homem comum nada sabe de suas condições internas, ele foge desse conhecimento com desculpas infantis. O homem desaprendeu a viver segundo os Princípios da Paz e da Harmonia (Caos Ordenado), e assim sobreviver às mudanças. Ainda não recuperou sua capacidade de amar a Deus, de amar a Natureza, de amar ao próximo e de amar a si mesmo, como indivíduo e como espécie. Toda sociedade utópica compõe-se de habitantes utópicos em harmonia consigo mesmo e com tudo e todos. Dessa forma a construção de qualquer utopia começa com a construção de nossa própria utopia. Tudo começa conosco:

 

“Um homem que odeia a si mesmo poderá acaso, amar alguém? Um homem que discorda de si mesmo poderá, acaso, concordar com outro? Poderá ser capaz de inspirar alegria aos outros quem tem em si mesmo a aflição e o tédio?”  82:33

Erasmo de Rotterdam (1.469-1.536)

 

“Pois, não é possível que tudo seja bom e perfeito até que os próprios homens consigam atingir a perfeição”  64:46.

Thomas More (1.477-1.535)

 

Temos então que buscar a perfeição pessoal. Mas até essa busca pode esconder uma forma de orgulho e onipotência doentios. Há pessoas que antes de se unir com o divino já se consideram onipotentes e assim buscam a santidade e a perfeição religiosa como forma inconsciente de satisfazer essa profunda e oculta doença da alma. Pensam que matam o ego, mas na verdade criam um poderoso “Ego espiritual”.

O projeto inconsciente de autoconfirmação da própria superioridade de espírito sobre os outros, de exaltação da vontade própria sobre a dos outros ou de imposição da própria liberdade sobre a liberdade alheia afasta-nos de nossa utopia, pois macula a nossa dimensão intencional (Cf. no próximo capítulo).

A verdadeira perfeição pessoal vem através de um processo que inclui o conhecimento de todas as nossas características, para que possamos autotransformar o que seja necessário com o fim de atingir a auto-realização pessoal (a nossa perfeição). Cabe ressaltar que existe uma diferença crucial entre buscar atingir-se a nossa utopia e seguir alguém a quem admiramos. Não devemos imitar a ninguém, pois a busca da imitação escraviza o ser humano a um modelo estranho e que não pode ser aplicado a si mesmo. A atenção aos pensamentos, sentimentos e atos do outro demanda uma energia preciosíssima que deveria ser utilizada na atenção aos próprios pensamentos, sentimentos e atos. Identificar-se com o outro só traz confusão pessoal e nenhum autoconhecimento, autotransformação ou auto-realização.

Não há uma receita fixa para autotransformar-se com o objetivo de atingir a perfeição, a auto-realização. Somos criaturas únicas, não há seres idênticos, logo não há caminhos únicos, pelo contrário, a diversidade é a tônica do Universo. Todo o processo de autoconhecimento e autotransformação é pessoal, intransferível, individual e único. Não adianta querer imitar alguém ou identificar-se com o outro. A nossa individualidade tem uma luz própria que deve brilhar exteriormente, e só o fará de uma maneira pessoal e não pela imitação do outro.

 

“Não me siga, siga a você mesmo”.

Friedrich Wilhelm Nietzsche (1.844-1.900)

 

O caminho a seguir, em busca de nossa perfeição, será descoberto pela luz da intuição pessoal, mas é imprescindível que se passe pelo conhecimento de si mesmo, de nosso exterior e nosso interior. E o acesso ao nosso interior se dá através da observação de nossos processos internos. Centrar a mente (concentrar-se) em algo é o método de conhecê-lo. Concentrar-se em nosso interior (meditar) é a única forma de entrar no nosso mundo interno (o castelo de nossa alma ou templo de Deus):

 

“A porta para entrar neste castelo é a oração, a meditação... Para ser oração é necessária a reflexão” 92:23.

Santa Teresa d’Ávila (1.515-1.582)

 

Após cada aspecto ser conhecido, podemos descobrir como transformá-lo, para afinal, obtermos a auto-realização. A auto-realização é o estado “final” de um processo, em que se requer três passos: o conhecimento do ideal (da utopia), o conhecimento dos obstáculos que se apresentam no caminho e o conhecimento de nossa energia pessoal capaz de lidar com esses obstáculos. O terceiro passo é a forma como usaremos o nosso poder da vontade, harmonizado e estimulado pela visão da utopia (a correta intenção), para alcançar esta mesma. Elas se retro-alimentam mutuamente. Mas quanto menos poder da vontade temos, mais os obstáculos se avolumam ante nós, de forma que predominará um estado depressivo de apatia. Da mesma maneira, viver na ilusão da utopia nos levará a um estado onírico de imaginação passiva sem nenhuma ação eficaz para atingi-la.

 

“Naquele que pensa sem sabedoria, os obstáculos não surgidos aparecem, e os obstáculos já existentes crescem; naquele que pensa com sabedoria, ó monges, os obstáculos que não surgiram não aparecem, e os obstáculos presentes decrescem”  83:138.

Sidarta Gautama, O BUDA (563-483 a.C.)

 

Obstáculos existem muitos. O Buddha ensinou que haveria sete tipos de conduta para vencer sete tipos diferentes de obstáculos. Há obstáculos vencidos pelo discernimento, outros pelo autocontrole, outros pelo uso correto de meios de proteção, outros pela tolerância, outros são vencidos evitando-os, outros são vencidos repelindo-os e outros são superados pelo desenvolvimento espiritual 83:139.

 

“A realização da nossa verdadeira essência e do nosso verdadeiro potencial é a finalidade da criação. A realização do Amor Divino, a consciência universal, é nossa responsabilidade para com o Criador”  39:111.

Morihei Ueshiba (1.883-1.969)

Fundador do Aikido

 

Para o budismo, esse caminho passa por três fases, que correspondem às três principais escolas (Theravada, Mahayana e Vajrayana). Na primeira o indivíduo reconhece e enfrenta a impermanência e a frustração, se responsabilizando pela própria superação e desenvolvimento das qualidades essenciais à sua realização. Na segunda, compreende-se que a própria vida não é insegura ou frustrante e que não se precisa fugir dela. Fruto de uma profunda compreensão da natureza dos fenômenos, surge a compaixão para com todos, pois nos reconhecemos neles e sentimos que podemos ajudá-los. Por fim, na terceira, a vida deixa de ser vista como um problema a ser resolvido, mas como uma fonte de energia criativa e de infinitas riquezas.

 

“Nada se rejeita nem se reprime, visto que o praticante do Vajrayana desenvolve habilidade e sensibilidade suficientes para relacionar-se com o aspecto benéfico de toda a existência”  96:12.

Tarthang Tulku

Categoria: Órion Volume 2