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 “Cada um de vocês... tem de aceitar as suas limitações como ser humano antes que possa perceber que possui uma fonte ilimitada de poder à sua disposição... [e] antes que possa experimentar aquela perfeição absoluta que por fim descobrirá, que é o seu destino”  75:137.

Eva Broch Pierrakos (1.915-1.979)

 

 “Descubra o que você é – não o que imagina ser!”  100:74.

Paramahansa Yogananda (1.893-1.952)

 

“Ora, é desatino pensar que havemos de entrar no céu sem primeiro entrar em nós mesmos, a fim de conhecer e considerar nossa miséria, os benefícios de Deus e pedir-lhe muitas vezes misericórdia”  92:49.

Santa Teresa d’Ávila (1.515-1.582)

 

“Tornai-vos aquilo que já sois!”

 

“Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19:18, Mt 22:39, Mc 12:31 e Lc 10:27), disse o Cristo ser o segundo maior mandamento, abaixo apenas do amor a Deus. Essa frase condiciona o amor ao próximo ao amor a si próprio. Para amar o próximo devo amar primeiro a mim mesmo. Mas como amar algo ou alguém a quem não se conhece. Só se ama e conhece o outro quando se ama e se conhece a si mesmo. O amor, verdadeiro e incondicional, compreende o outro sem reservas, coloca-se no lugar dele, respeitando-o. Amar é saber escutar e interpretar, é olhar o outro e saber vê-lo em seu íntimo, sem teorias e sem “pré-conceitos”. Para isso necessitamos saber nos escutar e interpretar, olhar e ver o nosso íntimo, sem teorias e sem “pré-conceitos”.

Amar a si mesmo e amar o outro são a chave para se amar o “totalmente outro”, o Alguém que está além de mim e do outro. Quando não nos conhecemos e conseqüentemente não amamos ao outro, conseguiremos apenas suportar a nós mesmos e ao outro, pelo temor de Algo que está além de mim e do outro. Conhecer-se é observar, desde os nossos processos físicos (o respirar, os movimentos externos e os internos do corpo como os movimentos dos membros, o bater do coração e os movimentos do trato gastrintestinal) até as nossas sensações, sentimentos, emoções e pensamentos, buscando entender-lhes o mecanismo.

 

“A felicidade consiste, sobretudo, em querer ser o que se é”  82:34.

Erasmo de Rotterdam (1.469-1.536)

 

Antes de tudo, deveríamos cuidar de nós mesmos, cultivarmo-nos, esvaziarmo-nos e, enfim, enchermo-nos com o autoconhecimento, que nos leva ao conhecimento divino. Ser religioso não é ter uma religião, é cultivar a si mesmo e buscar se autoconhecer. Como dar algo se eu não tenho, ou não sei se tenho? Madre Teresa de Calcutá (1.910-1.997) afirmava: “Precisamos ter para que possamos dar. Aquele que tem a missão de dar aos outros precisa primeiro crescer em conhecimento de Deus 12:4. Ele deve estar repleto deste conhecimento... [É] no silêncio do coração [que] Deus fala...12:92 Não podemos falar a não ser que tenhamos ouvido, a não ser que tenhamos feito nossa conexão com Deus. [Então] da plenitude que há em nosso coração, a boca falará e a mente pensará” 12:93. Silenciar o coração é imprescindível, mas como silenciá-lo se nem sei o que ele fala, o que ele reclama?

Tomás de Kempis (1.380-1.471) ensinava a seus noviços agostinianos que a verdadeira paz e sossego são adquiridas quando esquecemos tudo o que ocorre no mundo exterior a nós e colocamos o nosso próprio cuidado adiante de todos os demais cuidados: “Se de ti só e de Deus cuidares, pouco te moverá o que se passa por fora” (IC II, 5:2). Ele falava do autoconhecimento como meta primordial para quem quer unir-se a Deus. Santa Teresa d’Ávila considerava o autoconhecimento como a primeira morada (das sete moradas) na peregrinação com rumo a Deus: “cada uma olhe para si” 92:36.

 

“É tão importante esse conhecimento de nós mesmas, que não quisera jamais descuido neste ponto, por elevadas que estejais nos céus”  92:31.

Santa Teresa d’Ávila (1.515-1.582)

 

A tradição sufi Naqshbandi fala de Safar dar Watan: viajar na Terra Natal. Terra Natal é o interior de cada um e essa viagem é para dentro de si mesmo, olhar-se, observar as próprias reações e o impacto delas sobre si, e examinar-se no sentido de redirecionar-se os próprios atos ao caminho referendado como bom a cada situação 1:97. Não é uma viagem de regressão nem uma busca por um perfil psicológico, mas simplesmente olhar para si mesmo, uma busca pelo conhecimento de qual é a própria intenção na vida e quais os bons caminhos para ela. Conhecer os próprios pontos fortes, as limitações reais e as auto-impostas.

Desse conhecimento interior cuida a psicologia, a qual teve grande salto após Sigmund Freud (1.856-1.939). Freud nos trouxe a noção de que é quando crianças que nossa personalidade apreende todos os nossos medos, culpas e complexos. Formamos a nossa persona através de nossas experiências com o mundo externo. Assim somos um misto de frustrações e conquistas que nos sacode o interior. Mas por que é assim?

O nosso processo de autoconhecimento começa na mais tenra idade, quando começamos a perceber o nosso corpo, as pessoas à nossa volta, nossos brinquedos e todos os estímulos sensitivos que nos chegam pela porta dos nossos sentidos. Freud afirma que a vida infantil é regida exclusivamente pelo Princípio de Prazer. Quando crianças, quando o nosso ego ainda está em desenvolvimento, a alma está em contato íntimo com o nosso “Eu superior”, mas o nosso ego não consegue entender bem a sua mensagem, pois lhe faltam qualidades mentais de discernimento, pensamento e decisão, as quais se desenvolvem à medida que crescemos.

Enquanto crianças, nosso ego tem a sensação de infinitude e perfeição provinda do “Eu superior”, à qual interpretamos como presentes no nosso mundo finito e imperfeito de matéria, inclusive nos nossos pais, dos quais cobramos essa perfeição. Exigimos de nossos pais um amor incansável, uma firmeza psicológica inabalável e uma conduta moral perfeita e perene. Daí advém o nosso primeiro trauma e conseqüente ferida no corpo emocional. Nossos pais e nós mesmos somos seres humanos imperfeitos. A essa época, começamos a esquecer o nosso autoconhecimento e a nos guiarmos, como autômatos, por nossos hábitos e mecanismos de defesa.

 

“Você culpa seus pais por tudo. Isso é um absurdo. São crianças como você. O que você vai ser quando você crescer”.

Renato Russo

Cantor brasileiro

 

Adultos, somos crianças ainda e continuamos agindo segundo nossos hábitos e mecanismos de defesa, procurando contato com o que nos dá prazer e fugindo do que nos causa dor. Psicologicamente guardamos na memória aquela criança que aprendeu a ser indisciplinada e neurótica, ou silenciosa e introspectiva. Guardamos também aquele pai (ou mãe) que disciplinava, ameaçava, advertia e castigava. Com essas memórias inconscientes, seguimos como adultos que agem como crianças e se autocondenam.

Nosso ego vive, então, inebriado em contentamentos e pretensões mundanas de honrarias e sucesso, mesclados com advertências, avisos e preconceitos irracionais. Como conseguir explorar os recônditos de nosso ser, se estamos iludidos com o mundo externo e controlados pelo nosso mundo interno de emoções e pensamentos? Nos julgamos felizes em nossa ignorância e relutamos sair desse estado, pois não há porque fazê-lo. Somente quando algo vai realmente mal, e a dor invade o nosso ser, é que começamos a questionar a nossa vida: nossos desejos e nossas escolhas.

Deixamos, paulatinamente, de buscar os prazeres dos sentidos (hedonismo), a riqueza, a fama, o sucesso e o poder, por orientação do nosso Princípio do Prazer. Passamos a fazer renúncias, não por obrigação, mas pela constatação da insuficiência do prazer e do sucesso em saciar as ânsias mais íntimas do homem. Acordamos para o fato de que não estamos sozinhos no mundo, deixando de lado nossa visão narcísea infantil de ser, que foi necessária à formação da personalidade. Deixamos de ser regidos conscientemente pelo Princípio de Prazer para começar a fixar âncora no Princípio de Realidade de Freud. Mas essa mudança está longe de ser abrupta. O egoísmo e a autocentralidade são uma tentação constante, pois no nosso inconsciente continua incólume o Princípio de Prazer.

Constatar conscientemente que todas essas coisas são fúteis, é o primeiro passo para o homem obter a verdadeira renúncia ao prazer dos sentidos e à busca de poder e sucesso. Constatar não é agir, ainda. Nessa hora, coincidências significativas (as sincronicidades de Jung) começam a surgir e o Divino começa a incentivar-nos a busca através de palavras que ouvimos de amigos e conhecidos, palestras, leituras de livros inspiradores e através de insights que temos em momentos de sofrimento e de doença, ou quando estamos em oração. Atingimos, segundo Santa Teresa d’Ávila (1.515-1.582), a segunda morada de nosso castelo interior 92:42. Mas nossos aspectos internos, partes de nosso ego habituadas à vida que levavam até então, insistem em trabalhar em nosso inconsciente manipulando-nos de forma a voltar à antiga vida egocêntrica. Começa então a nossa guerra interna, terrível guerra com incríveis sofrimentos internos. Cada parte de nosso ego que morrer, nos causará enorme dor.

Começa a nascer, agora, a verdadeira religião: a transformação consciente da vontade de obter em vontade de dar, da vontade de ser servido e reconhecido em vontade de servir e reconhecer. Nasce uma nova busca, a busca do dever como forma de obter respeito e gratidão dos semelhantes e principalmente o respeito próprio pelo dever cumprido. Mas com o tempo o buscador percebe que isso ainda não é tudo. O homem então percebe que na realidade ele quer existir, quer conhecer e quer se sentir alegre, mas infinitamente. Percebe, então, que ele anseia pelo infinito, anseia por se libertar de todas as finitudes da existência (moksha budista), da consciência e da alegria mundana. Ele entende que sua verdadeira busca é a busca pelo Infinito. Aparentemente somos os únicos animais que conseguimos conceber a infinitude (o Absoluto). Inicia-se o trilhar pela verdadeira busca, não sem sofrimento interno: a busca da união ou unicidade com o Infinito.

Então mergulhamos em nossos mecanismos internos que nos causam desconforto e dor e constatamos que somos regidos pelos desejos de cada um de nossos corpos mortais (o físico, o emocional e o mental), de forma que milhares de aspectos internos podem existir. A existência de conflitos e tensões em nosso íntimo reflete apenas o desacordo existente entre nossos corpos, e a impossibilidade em identificar quem é o nosso verdadeiro Eu, o comandante de nossa busca, aquele a quem devemos seguir:

 

“Onde está localizado? O que ele é? Como ele pode ser encontrado no labirinto dessa discórdia? Você é o que você pode ser? Ou é o que há de pior? Ou será você os muitos aspectos que existem entre esses extremos? 75:185... A ausência do senso de identidade leva ao desespero... você é aquela parte de si mesmo que realiz[a] essa integração” 75:186.

Eva Broch Pierrakos (1.915-1.979)

 

A Harmonia é um Princípio Universal (Lei do Caos Ordenado) e quando vivemos em desacordo com a Harmonia, saímos do reto caminho. É a única Lei organizadora possível ante a pluralidade das coisas. Para conhecermos a nossa presença divina interna, necessário se faz passar por todas as outras camadas, desfazendo todos os véus. Devemos trazer à consciência todos os nosso corpos e harmonizá-los. Mas como harmonizá-los, se eles, normalmente, estão totalmente desalinhados e fazem questão de se manterem assim?  Existe uma disputa de poder e primazia entre todos os nossos aspectos internos, os quais vão lutar até o fim contra quem quiser controlá-los e subjugá-los.

Alinhar nossa persona (o corpo mental, o emocional e o físico) é alinhar o que pensamos com o que sentimos e com o que fazemos, e assim construir a nossa harmonia interna. Deveríamos vibrar na mesma freqüência da Harmonia Universal, e assim agir de acordo com a Divina Mãe Natureza. Somos uma confusão inconsciente de pensamentos e sentimentos, em desacordo total com aquilo que realmente somos e com o que pomos em prática no nosso cotidiano. Por exemplo, quando as emoções perdem o controle a razão pára de funcionar e quando a razão é a senhora ditadora, todos os sentimentos são podados e escondidos no subconsciente.

 

Continua...

Categoria: Órion Volume 2

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