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“O amor não obriga. Deus é amor, o homem é livre e pode dizer não. Pode-se obrigar alguém a ficar preso, mas não se pode obrigar ninguém a ser livre!”

Jean-Yves Leloup

 

 

“A descoberta desse aspecto ilusório e irreal de nossa vida diária seria um empreendimento sem significação se não houvesse um meio de escapar de tal vida... se nada de melhor estivesse reservado para nós”  90:185.

Igbal Kishen Taimni (1.898-1.978)

 

Com o continuar de nossa observação interior, totalmente concentrados em todos os nossos processos, paulatinamente percebemos que Algo interior observa a todos eles. Entramos em contato com Algo totalmente novo e diferente, aparentemente separado de nosso “eu inferior”. Sentimos a existência de nosso “Eu superior”.

Santa Tereza d’Ávila situa esse estágio na quarta morada, quando começamos a sentir os “gostos da oração” 92:91. Provindos de Deus, esses “gostos” descem à nossa consciência, podendo assumir a forma de sons e zumbidos, percebidos no alto da cabeça não com os ouvidos físicos. Podem vir suspensões de toda a atividade sensitiva, ficando-nos a sensação de dormência e de dilatação (aumento) do nosso corpo (percepção de nossos corpos sutis), e até uma total inconsciência, como um desfalecimento (sono espiritual). Esses “gostos” são muito breves e fazem brotar, de alguma região de nosso íntimo, uma suavidade e quietude incomparáveis, nos dando um bem estar incrivelmente superior aos contentamentos provindos do autoconhecimento. Sente-se mais forte e com altos sentimentos, melhorando em todas as virtudes. Sem serem procurados, os “gostos de Deus” nos alcançam durante essa “oração dos gostos divinos”, nome dado por ela a essa experiência mística ou estado ampliado de consciência. E uma vez experimentados perde-se o desejo pelos contentamentos mundanos.

O vislumbrar do “Eu superior” como um centro calmo e silencioso presente no interior da persona, que existe inalterado mesmo quando essa tem os seus acessos de raiva, ciúme, angústia, etc., traz uma sensação de paz confortadora indescritível. Quando a persona percebe a existência interior dessa paz, é sinal que uma mudança sutil já ocorreu. Essa paz passa a fazer parte dela, passa a ser a vida dela e, enfim, passa a ser ela própria. Nessa hora quem estará no comando será o “Eu superior”: eu conheço a paz, eu tenho a paz, Eu sou a paz. Não a paz temporária de alcançar o que se desejava, mas a paz durável de não se desejar o que não se tem.

Antes essa paz nos falava através de pressentimentos e intuições, a nossa voz interior de aconselhamento. Agora ela nos fala abertamente, comanda a nossa personalidade. Achávamos que éramos a nossa personalidade, até conhecer a nossa individualidade, o nosso “Eu superior”. Passamos a ver aquela voz interior como uma outra parte de nosso ser, como nas palavras do autor de “O Caminho de um Peregrino”: “tinha consciência simultânea das duas coisas, como se dividido em dois, ou como se houvessem duas almas no meu corpo. Meu Deus! Que mistério é o homem!” 68:49. De “um” passamos a ser “dois”, até a nossa personalidade ser totalmente absorvida pela nossa individualidade, e voltarmos a ser “um”, agora liberto, num nível mais elevado (Cf. adiante).

Esse processo de re-identificação leva-nos a perceber que a nossa individualidade é o nosso “Eu superior” e não nosso “eu inferior”. Que a chamada “Divina Presença Eu Sou”, de alguns espiritualistas, não é algo externo a nós, a qual oramos, mas é a nossa própria individualidade, a qual deve sobrepujar a nossa personalidade, com o consentimento dessa mesma. Com o passar do tempo, cada vez mais vivendo essa paz, cada vez mais ouvindo essa paz, paulatinamente tomamos consciência de que ela é uma parte de nós mesmos que estava “adormecida” mas que agora, “desperta”, nos rege maravilhosamente a vida.

À medida que passa a viver essa harmonia interna, o “Eu superior” inicia uma absorção dessa nova persona, de forma que ela passa a ser uma perfeita expressão desse “Ser que observa”. “Importa que te revistas do homem novo e te transformes em outro homem” (IC III, 49:4). É o nosso ego inferior, ou pessoal, que deve tornar-se puro pela lealdade à nossa porção eterna, até retirar-se totalmente para ela. Essa era a revelação final dos Mistérios de Elêusis de Platão (Cf. no Volume 1). Assim, não mais é a persona quem decide ou comanda a sua própria vida, e sim o “Eu superior” quem o faz (como na resignação de Jesus à crucificação, no wu-wei do taoísmo ou na “arte sem arte” do Zen, vistos no Volume 1). A persona passa a ser apenas espectadora de sua existência, um mero servo do plano divino: “o desprendimento interior de si mesmo causa a união com Deus” (IC III, 56:1).

 

“...não mais eu, mas Cristo vive em mim...”

Paulo de Tarso (Gl 2:20)

 

Continuamos e, como resultado de um processo centrado de concentração, sentimos, por alguns instantes, a unidade de nosso ser, “experimentamos” o nosso “Eu superior”. Esse é o estágio mais superficial de um novo nível de consciência: a superconsciência (o Samadhi dos hindus), onde se experimenta a eternidade infinita sem tempo nem espaço, a percepção divina de comunhão com o Espírito Santo, que nos invade em momentos de oração, meditação ou contemplação. É a 1ª Iniciação descrita pela Teosofia (Cf. em “A SENDA INICIÁTICA” no Volume 3). É um momento de extrema significação, na vida do buscador e do Universo, que deve ser fonte de constantes reflexões durante o caminhar espiritual.

Não pensemos que a obtenção desse nível de consciência é um merecimento pelo nosso esforço pessoal, posto que ele não tem ocasião marcada para vir. Antes é uma graça divina dada por Deus, para quem Ele quiser e quando quiser, e um teste de nossa humildade. Esse estado libera códigos de consciência, “músicas cantadas como freqüência e difundidas a partir de cada célula do corpo humano”. Julgar que merecemos essas bênçãos é o primeiro indício da ausência ou perda de nossa humildade. Uma vez experimentada, pode ser que nunca mais experimentemos novamente essas bênçãos, nessa vida. A humildade e o desejo de servir devem estar sumamente acima do desejo dos “gostos do Senhor”.

Antes de ser uma graça conquistada, a “oração dos gostos divinos” é apenas um convite e um estímulo a uma maior interiorização de nossa consciência. De agora em diante não adianta mais explorar nossos aspectos internos à luz do intelecto, mas somente manter a atenção à ação divina. É uma preparação de nossas faculdades internas para perceber conscientemente o “Eu superior”. É um exercício constante de esperar e não agir 92:89. Santa Tereza d’Ávila chamava esse estado ampliado da consciência de “oração de quietude”. Nossa persona começa a ficar à disposição do “Eu superior”, esperando suas ordens e bênçãos. Somem-se os caminhos?

 

“A Verdade, é uma terra sem caminhos. Os homens dela não se podem aproximar por qualquer organização, por qualquer credo, por qualquer dogma, sacerdote ou ritual, nem por qualquer conhecimento filosófico ou técnica psicológica. Ele (o homem) tem que encontrar a Verdade através dos espelhos das relações, através do perceber do conteúdo de sua própria psique, pela observação, e não por qualquer dissecação intelectual e analítica”.

Jiddu Krishnamurti (1.895-1.986)

 

Desse ponto em diante nenhum caminho antes trilhado levará mais a lugar nenhum. Esse é o fim dos caminhos. Agora só a mente aberta e desejosa de prosseguir pode chegar à Verdade. Agora pode ocorrer a verdadeira meditação. Antes se faziam esforços em concentrações, repetições e análises em busca de autoconhecimento. Agora, com a “casa em ordem” e a mente silenciosa por si, e não silenciada por alguma prática qualquer, é que se pode experimentar a verdadeira meditação.

 

“Agora, já não há qualquer caminho. Para o justo, já não há qualquer caminho. É ele próprio a sua lei” 43:126.

São João da Cruz (1.540-1.591)

 

Não existem mais métodos. Agora se deve desenvolver da individualidade para a não-individualidade. Só agora se percebe realmente o verdadeiro sentido do não-agir (o wu-wei), da meditação budista de plena atenção, do Neegar Dashtan sufi 1:127 ou do Zazen do budismo japonês (Cf. em “MEDITAÇÃO NO VAZIO”, no Capítulo III). Agora, essa é a única maneira de prosseguir em busca da libertação e da iluminação.

 

“Nosso progresso no caminho da santidade depende de Deus e de nós mesmos – da graça de Deus e de nossa vontade de sermos santos. Nós devemos ter uma real determinação na vida para alcançarmos a santidade. Não devemos tentar controlar as ações de Deus. Não devemos contar os estágios na jornada que ele nos tenha feito passar. Não devemos desejar uma percepção clara a respeito de nosso avanço no caminho e tampouco querer saber precisamente onde nos encontramos no caminho da santidade” 12:134.

Madre Teresa de Calcutá (1.910-1.997)

Categoria: Órion Volume 2