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“O despojamento da personalidade e a resultante criação de um vácuo interior, que tem lugar no vôo do solitário para o Solitário, não é fácil de ser suportado, a menos que tenhamos a fonte interna de alegria em atividade dentro de nós”  90:198.

Igbal Kishen Taimni (1.898-1.978)

 

“O Senhor é o Espírito, e onde está o Espírito, ali está a liberdade... 60:14 Liberdade... não significa a capacidade de escolher de preferência o mal ao bem, mas antes a capacidade de preferir o bem acima do mal, sem jamais se deixar iludir pelas falsas aparências do bem” 60:38.

Thomas Merton (1.915-1.968)

1. A LIBERTAÇÃO

“Liberdade é desfrutar de tudo o que você faz, de maneira que os outros também fiquem felizes: ser útil sem nenhum sentimento de servidão, dar constantemente sem nenhum sentimento de doação..., fundir-se com o sentimento dos outros sem perder o próprio centro... resultante da consciência da identidade entre a nossa natureza e o universo” 39:175.

William Gleason

 

Maravilhosa é a união da persona com o verdadeiro “Eu”, acarretando inúmeras mudanças adicionais em todo o ser. Com o passar do tempo, passa-se a sentir que não mais dois “eus“ existem, mas apenas o “Eu superior”, pois absorveu completamente o “eu inferior”. Atinge-se um estado, conhecido pelos teósofos como 2ª Iniciação (Cf. em “A SENDA INICIÁTICA” no Volume 3). Mas esse processo não é abrupto e sim gradual.

Na medida em que, gradualmente, o “Eu superior” passa a ser constantemente manifestado, mudanças vitais ocorrem em nossas vidas interior e exterior, e se elas não ocorrem é sinal de que a nossa Sombra não foi totalmente conhecida e alguma ferida nossa, escondida na nossa porção mais íntima, não foi reconhecida e continua trabalhando contra nós. Outra possibilidade é a de que hábitos antigos, construídos por nossa Sombra e que devem ser substituídos por novos e saudáveis hábitos, continuem trabalhando contra nós.

 

“Somente aos poucos você alcança o estado no qual um novo padrão de hábitos é instituído, no qual o ato de se entregar ao Todo é realizado, onde Ele se manifesta e permeia todos os seus pensamentos e percepções, todas as suas decisões e ações, todos os seus sentimentos e reações” 75:226.

Eva Broch Pierrakos (1.915-1.979)

 

Dessa forma, a mudança interior começa a se manifestar exteriormente e uma vida divina se realiza em nós. Cada pensamento, cada opinião, ação e reação, por mais insignificantes que possam parecer, são conscientemente permeados pelo “Eu superior”, pois esse está totalmente integrado à vida da persona. A voz interior do “Eu superior” consegue penetrar todo o ser com sua verdade, sabedoria, bondade e alegria. Um sentimento de absoluta segurança, coragem e autodisciplina será obtido, uma profunda paz e um senso de plenitude inundará a persona, eliminando todos os medos e ansiedades, não de uma forma teórica, mas verdadeiramente experimentada.

Outra manifestação exterior é a absoluta perda de identificação com alguns desejos materiais que antes eram considerados ”vitais”. Surge um sábio equilíbrio em todas as coisas, como entre o negar e o ceder, uma profunda satisfação em dar ou em cumprir uma missão, ser gentil e cortês, e uma capacidade inesgotável de ser grato ao próximo e apreciá-lo tanto quanto a si mesmo como também à Criação. Deixa-se de lado a falsa liberdade mundana, pela impossibilidade real de se ceder aos impulsos de satisfação dos desejos, apegos e repulsas, e vive-se, então, na verdadeira Liberdade divina.

Essas mudanças vêm como fruto de momentos especiais, vividos durante a “oração de quietude” a qual já surge de maneira habitual durante a meditação. Sobrevêm, então, momentos denominados por Santa Tereza d’Ávila como “oração de união”: “a alma está como que adormecida: nem lhe parece que dorme, nem se sente acordada... Com efeito, durante o pouco tempo em que dura a união, a alma fica verdadeiramente fora de si, sem sentidos. Não é possível pensar, ainda querendo, nem é preciso prender a imaginação com artifícios” 92:101. Atinge-se a quinta morada, descrita por Santa Tereza d’Ávila (1.515-1.582).

Durante esse estado ampliado de consciência, breves momentos de união, nada se vê, nada se ouve e nada se entende. Todos os sentidos e o intelecto somem, de forma que o tempo decorrido parece ser ainda mais breve do que é. Apesar disso, após viver essa experiência, nuca mais seremos os mesmos, pois mesmo sem ver, ouvir ou entender coisa alguma, volta-se ao estado vigil com a absoluta convicção de que se esteve com Deus. E nada nem ninguém consegue desfazer essa certeza. Embora não tenhamos ainda transformado, em nosso interior, tudo o que deve ser transformado, vem-nos essa gigantesca dádiva de sentir, nem que seja por poucos segundos, a presença do Vazio Infinito em nosso interior, o Nada.

 

“Permaneça ‘vazio’ o mais que puder, de maneira que Deus possa preenchê-lo. Nem Deus pode pôr alguma coisa dentro de algo que já está cheio. Ele não se impõe a nós” 12:54.

Madre Teresa de Calcutá (1.910-1.997)

 

Quando o nosso ego, transformado, ampliado (porque agora incorpora todo o inconsciente) e unificado com o “Eu superior”, consegue atingir esse estado mental de paz, se torna apto a esvaziar todos os seus desejos, emoções aflitivas e pensamentos esperando experimentar novamente o vazio interior, o assustador nada. Esse momento de união por vezes é único, mas faz marcas tão profundas na memória, que cada vez mais se anseia por ocasiões para estar só e meditar. Todo o desejo se direciona a tornar a sentir aquela inexprimível e inexplicável felicidade.

O ego se transforma, então, em Ego. Totalmente identificado com o “Eu superior”, não mais existem sentidos, sentimentos e pensamentos conflitantes. Um alinhamento se forma em torno do “Eu superior”. Ele se torna o centro do ser. Os sentimentos de unidade e de unicidade surgem.

Mas, paradoxalmente, novos tormentos surgem: críticas de amigos ante a nova postura de vida assumida, ou elogios públicos dos quais se acha não ser merecedor. Podem surgir doenças físicas, principalmente se o cuidado com o corpo tiver sido abandonado (falta de exercícios ou de boa alimentação em qualidade e quantidade suficiente), começam a surgir dúvidas pessoais quanto à própria saúde mental, às vezes reforçadas por pareceres de outros. Se não surgirem, se o buscador ficar tão embevecido que não quiser mais sair daquele inexplicável estado de felicidade, “procurando-o” ou “fabricando-o” a todo custo, é sinal de que algo não vai bem:

 

“Procurai sair desse engano, e desembeber-vos com todas as vossas forças, distraindo-vos. Se não bastar, dizei-o à priora, para que vos dê um ofício tão cheio de preocupações que vos livrem desse perigo – bem grave se durar muito tempo, ao menos para a cabeça e o juízo”  92:192.

Santa Teresa d’Ávila (1.515-1.582)

 

Além daqueles tormentos, como a experiência do êxtase não se repete mais, começa-se a sentir uma inquietação tão grande e uma angústia tal que se passa a duvidar e acreditar que tudo não passou de construções de sua mente. A noção de um mundo superior lhe some dos pensamentos. Ainda mais, surge o medo de entrar em contato com esse vazio novamente e se perceber cheio de nada, sem mais nenhum desejo material. O divino sumiu (ou nunca existiu) e há a possibilidade real de se perder o que sempre se teve. Começamos a encher a nossa mente com barulhos inúteis. É a persona querendo sobreviver, ante a perspectiva de extinção. O que sempre achei que fosse “eu”, agora não pode mais morrer!! Mas o processo continua:

 

“Uma vez mais você precisa de coragem para atravessar um túnel de incerteza. Você precisa assumir o risco de admitir a grande quietude, que é, a princípio, vazia de significado, desprovida de qualquer coisa que denote vida ou consciência” 75:237.

Eva Broch Pierrakos (1.915-1.979)

 

 

O carmelita, doutor da Igreja Católica, São João da Cruz (1.540-1.591) afirmava que havia um momento do desenvolvimento espiritual em que o que antes era motivo de alegria agora produz uma sensação de vazio 87:13. Tem-se a impressão de que se perdeu o essencial: a persona começa a “morrer” e não sabe o que a substituirá. Até a relação com Deus muda e a maneira habitual de se rezar, assim como o costume de se ler livros espirituais, é causa de desgosto. Não se consegue mais estar só e meditar nem as companhias amigas servem de consolo. Esses são os sinais da chegada da “noite escura dos sentidos” de São João. No taoísmo, essa situação está simbolizada no Hexagrama 23 (PO) do I Ching, que indica um período de declínio quando se aproxima o vazio, ou plenitude.

Um grande medo e uma incrível dor vêm junto com esse vazio. A persona sente o perigo iminente de extinção, pois tudo o que lhe dava suporte, e era a razão de sua existência, não mais lhe faz sentido. Simplesmente não se deseja mais sentar para meditar ou orar e a simples sugestão de tal coisa faz com que se deseje fugir. E essa “noite escura dos sentidos” se tornará mais intensa à medida que a persona se recusar a aceitá-la, pois uma vez no caminho, não há mais como recusá-lo e recuar. Perdeu-se o interesse na vida antiga e não há mais como reavê-lo. E pior ainda, não há perspectiva de nada que se possa colocar em seu lugar, pois até a noção de Deus que se tinha não é mais satisfatória.

 

“Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes? E permaneceis longe de minhas súplicas e de meus gemidos? Meu Deus, clamo de dia e não me respondeis; imploro de noite e não me atendeis”.

(Sl 21:2s)

 

Adquire-se, com essa experiência real de “vazio existencial”, uma independência de todos os fatores associados com o “homem velho” 87:14 de São João da Cruz (1.540-1.591). Os “sentidos” 87:11, como ele chamava a parte externa do homem, não mais satisfazem e essa independência deles é um convite para se transpor definitivamente os seus limites em busca do Espírito, a única forma de se abrandar a dor do vazio existencial. Surge, então, mais clareza, equilíbrio e independência em todos os aspectos da vida e parece, com isso, que enfim encontramos o caminho espiritual de descanso, satisfação, prazeres espirituais e paz interior. Mas tudo isso ainda é ilusório, pois é imperfeito.

Nesse início sempre haverá “um profundo abismo entre a ausência de desejos e a Suprema Alegria Divina” 102:141 (Paramahansa Yogananda), a Consciência Crística dos cristãos (Cl 1:27 e Gl 2:20) ou Kutastha Chaitanya dos tratados de Yoga 102:143. “Você ficará suspenso entre os Céus e a Terra” 87:19, dizia São João da Cruz. Mas é nesse vazio, ou Nirvana do Absoluto (o moksha budista, relatado também no Hexagrama 2 (K’UN) do I Ching chinês), o mundo real onde todas as coisas se fundem e desaparecem 102:140, que entramos em contato com todos os níveis do nosso ser. Focalizar nesse vazio é aumentar nosso nível de consciência no presente, é atingir um estágio mais profundo da superconsciência: a entrega total. É quando focalizamos nossa consciência nesse plano mais profundo de nossa existência que acontece o inesperado

Sobrevém, então, uma “nova noite muito mais escura e dolorosa”: a noite escura do espírito. Nas palavras do místico católico Wilfried Stinissen: ”você descobre que tudo o que fez na vida, até mesmo o bem, o amor que demonstrou a Deus e ao próximo, tudo estava contaminado pelo amor próprio.... Começa a entender que toda a sua vida, com todo o bem que você realizou e pelo qual você recebeu reconhecimento e louvores, você muito sutilmente viveu-a para você mesmo, considerando-se o centro do mundo, desesperadamente preso no seu egocentrismo..., que construiu o seu reino pessoal em vez do Reino de Deus”  87:17.

Esse vazio existencial mais profundo nos traz à consciência uma sensação de miserabilidade incrível, fechando-nos de tal forma numa culpa e dor, que se tem a impressão de que qualquer caminho de libertação desse estado está para sempre fechado. E essa impressão só faz aumentar a dor. Nos julgamos indignos de ter trilhado o caminho até esse ponto e que, definitivamente, o mundo divino de paz e alegria nos é agora proibido. Não temos mais a alegria dos sentidos e fomos reprovados na busca da alegria divina.

O Ego tem que “morrer”. O “Eu superior”, nossa individualidade, esse nosso centro capaz de experimentar a verdadeira meditação, livre de todos os barulhos da mente inferior, deve ser transcendido. Esse é o ponto mais crítico do caminho. O apego material apenas se transformou em apego espiritual. O ego psicológico se transformou em ego espiritual. O desejo permanece e a ambição, que antes era externa, agora é interna.

“Não é o quanto nós realmente temos que importa, mas sim o quanto conseguimos estar ‘vazios’ – de forma que possamos receber plenamente em nossa vida... alegre-se por não ter nada, não ser nada, não poder fazer nada...12:5512:102. Somente quando você descobre que nada é, quando descobre o vazio em você, é que Deus pode preenchê-lo com Sua presença”

Madre Teresa de Calcutá (1.910-1.997)

 Além disso, some-se a idéia de Deus, pois Ele desaparece, simplesmente porque não pode ser percebido pelas faculdades humanas normais e qualquer apego, inclusive às idéias pessoais sobre o que seja Deus, deve ser destruído: “qualquer um de vós que não renuncia a tudo o que possui, não pode ser meu discípulo” – Lc 14:33 (grifo nosso).

Os que se sentem incapazes e terminantemente reprovados em sua busca, como nada mais lhe resta, passam a acreditar que nunca houve nada divino e o seu egoísmo ressurge de uma forma poderosíssima, usando de seus conhecimentos para adquirir mais poder e sucesso pessoal, entrando num caminho descendente que trará, inevitavelmente, sua autodestruição (Cf. em “A SENDA”, no Volume 3). Aqui o Mestre espiritual tem importância fundamental, como alguém que já trilhou esse mesmo caminho, passou pelas mesmas dificuldades e pode falar com autoridade sobre o que o seu discípulo está sentindo, orientando-lhe sobre o que fazer nessa situação.

 

“A diferença entre as duas purificações é a mesma que existe entre podar um ramo da árvore ou arrancá-la pela raiz... O que mais faz sofrer é o pensamento de que a alma nunca se tornará digna de Deus nem de criatura nenhuma. Aumenta a sua aflição ao pensar que jamais o será e que todo o bem anteriormente realizado não tem valor”  87:15.

São João da Cruz (1.540-1.591)

 Mas na realidade, o que está acontecendo é conseqüência do fato de estarmos tomando consciência da presença da Luz divina existente em nosso interior. O efeito desse início da aurora é iluminar todos os resquícios de egoísmo de nosso ser. Se a entrega e a confiança permanecerem, a nossa persona, enfim, capitula ante ao peso da nossa Presença Divina, pois é nesse vazio onde o “Eu superior” se comunica livremente, e não mais intuitivamente, com o nosso aparelho mental, orientando, encorajando e dizendo palavras de fé (a Voz do Silêncio). Quanto menos a persona quiser assumir o controle, mais energia ela receberá.

“Deus é como uma luz que ofusca ou como o fogo que torna a madeira preta e suja, antes de transformá-la no próprio fogo”  87:17.

São João da Cruz

 “O ego-esvaziamento é a condição indispensável pra a cosmo-plenificação. Segundo leis eternas, onde há uma vacuidade acontece uma plenitude. Compete ao homem criar em si essa ego-vacuidade – e a cosmo-plenitude lhe acontecerá infalivelmente”  24:154.

Humberto Rohden (1.893-1.981)

 Na noite escura do espírito, no vazio silencioso, Deus nos fala com Sua mudez ensurdecedora a ponto de nos romper os tímpanos. Segundo São João da Cruz, o silêncio não é uma negativa do som, mas um “segredo” 87:18. Quando a persona encontra a Presença Divina, ali Ela recria o eterno silêncio. A música que ressoa no centro da alma, o lugar dentro de nós onde somos a imagem de Deus, onde somos um templo vivo e onde mora a Santíssima Trindade, é uma “música calada”.

“...arrebatado ao paraíso, e lá ouviu palavras inefáveis, que não é permitido a um homem repetir” .

Paulo de Tarso (II Cor 12:1-4)

Passamos a “ouvir” aquela voz interior confortadora em cada momento difícil de nossa vida, trazendo-nos grande serenidade e alegria interior, cheia de paz e agradecimento. Aumenta em muito a devoção a Deus ouvir essas palavras que permanecem na memória. Algumas nunca se esquecem. Podem surgir dons carismáticos (os siddhis dos hindus) como a sabedoria, a capacidade de curar enfermos, o da profecia, o da clarividência, o do discernimento dos espíritos (sentir o que se passa no íntimo do próximo) e o dos milagres. E é nesse mesmo vazio silencioso que a experiência direta do divino ocorre. Experimenta-se, finalmente, cada vez mais intensamente, a Luz divina, não de uma forma intelectual, mas através de cada átomo do ser e de cada nível da nossa consciência. Todo o nosso ser se preenche com a Luz do Espírito Santo.

Esse preenchimento é gradual e progressivo, onde cada vez que a intensidade da Luz aumenta, mais Sombra é revelada e mais nos enchemos de Luz. Cada vez mais a Luz do “Eu superior” ilumina e age através da persona, agora, cada vez mais destituída de seu egocentrismo. Então surge o que Santa Tereza d’Ávila e inúmeros místicos e santos das diversas tradições chamam de êxtase 92:164. O jesuíta francês, Padre Auguste Poulain (1.836-1.919), em sua obra “As Graças da Oração” descreve o êxtase detalhadamente: “os sentidos param de atuar... fica-se sem movimento, e se torna impossível falar ou andar ou fazer qualquer gesto... [e] a respiração... às vezes parece cessar de todo. O mesmo acontece com a pulsação do coração e o pulso... o calor vital parece desaparecer e as extremidades se tornam frias... [de forma que em] certos momentos, há motivos de temer que tenha sobrevindo a morte” 44:73. Mas a alma está inebriada em Deus.

Atinge-se assim a 3a Iniciação dos teósofos (Cf. em “A SENDA INICIÁTICA” no Volume 3), onde, nesses momentos de êxtase obtidos em oração, contemplação ou meditação, podem surgir fenômenos físicos como: o elevar-se do corpo imóvel (levitação), o emitir de suave fragrância, ou o resplandecer de todo o corpo físico (a face resplandecente de Moisés – Ex 34:29s – ou a transfiguração de Jesus – Mt 17:2, Mc 9:2 e Lc 9:29).

Alguns estudiosos, como o jesuíta francês Joseph de Guibert (1.877-1.942) consideram esses fenômenos psíquicos do êxtase como simples conseqüências oriundas da fraqueza do organismo humano, incapaz de suportar tão poderosa invasão de espírito e que uma pessoa fisicamente e psicologicamente forte não terá nenhum êxtase físico ou suspensão de suas faculdades mentais. São João da Cruz (1.540-1.591) afirmava que a escuridão da contemplação, em si, já é uma forma de iluminação 87:26, mesmo que nunca se chegue a sentir alguma experiência extraordinária. Mesmo nas mais profundas experiências Zen, se desconhece o êxtase físico.

Santa Teresa d’Ávila (1.515-1.582), primeira doutora da Igreja Católica, após cada momento de êxtase, sentia intensas dores no corpo. Ela assim descrevia seus momentos de êxtase (Samadhi): “[sinto-o] desconjuntado. De tal forma que, depois, fica dois ou três dias com grandes dores, sem ter força para escrever. Tenho a impressão de que o organismo sempre fica mais fraco do que antes” 92:219.

Para muitos místicos católicos parece ser uma lei espiritual a associação entre avanço espiritual e debilidade física, pois o contato com as energias divinas sempre sobrecarrega o nosso lado psíquico e, conseqüentemente, o físico. Além disso, toda mudança de nível para um mais alto é uma alteração de uma harmonia já obtida, para um novo estado de harmonia e toda mudança impõe um estado temporário de crise. Despende-se sempre alguma energia para se elevar o nível de consciência, a qual não é reabsorvida quando se volta ao nível anterior, mais baixo, de consciência.

A consciência desse fato levou a tradição hindu ao desenvolvimento da Hatha-yoga como uma disciplina espiritual para o corpo e para a psique. A realização de exercícios posturais e alongamentos, que interferem em bloqueios musculares (liberando energias acumuladas e interferindo na psique) e comprimem pontos específicos do organismo (que liberam energias e estimulam canais energéticos sutis do organismo), e o uso de exercícios respiratórios (que mexem com todo o sistema autônomo e emocional do organismo) junto com mudanças alimentares (que alteram a constituição física do organismo) são alguns dos fatores envolvidos nessa arte milenar – Cf. no Capítulo III.

Não necessariamente o trabalho interno pessoal rígido e disciplinado irá conduzir a experiências místicas. Esse nunca foi o alvo a ser atingido. Todo o treino meditativo Zen está calculado para verdadeiramente impor obstáculos a qualquer fenômeno físico, pois eles não interessam e podem desviar o praticante do reto caminho.

Mas a história judaico-cristã relata inúmeros casos de visões luminosas, síncopes e outros fatos extraordinários vividos por alguns homens comuns, como na conversão de Abraão e na de Saulo de Tarso. Visões súbitas que transformaram para sempre as suas vidas. O alvo, que pode vir do trabalho pessoal ou não, é transformar a própria vida. Algum grau de iluminação, que é a meta a ser alcançada, haverá somente quando alguma transformação da mente ocorrer e se passar a ver o mundo com outros olhos: “eu era cego, mas agora posso ver”. Ademais, muitas pessoas consideradas santas nunca experimentaram qualquer dessas manifestações e outras as experimentaram e não são santas.

Passa-se a ver ou sentir uma presença divina ao nosso lado, em todas as nossas atividades, sensação esta que pode durar muitos dias, até um ano, dando contínuas alegrias interiores e grandíssima confusão e temor. Santa Teresa d’Ávila chama esse estado de consciência de “matrimônio espiritual” 92:228. A sensação surge sempre de uma forma totalmente inesperada, não sendo produto da imaginação pessoal. Logo, então, sobrevém a sensação de paz e humildade. Daí se vem um julgamento próprio de não ser melhor que os outros, e qualquer falta cometida causa uma dilaceração, de dor quase insuportável, da alma, como se estivesse em mil pedaços.

Essa “união transformante” pode ocorrer, inclusive, fora da meditação, quando se recorda ou ouve algo inspirador. Nesse estado ampliado de consciência, em que se experimenta essa presença divina, ouvem-se palavras com freqüência variável e, na maioria das vezes, não se consegue entendê-las, mas quando se consegue, elas se revelam sublimes segredos e maravilhas (como no sonho de Jacó – Gn 28:12). Algumas vezes se dá de uma forma tão intensa que parece que a consciência sai do corpo (na realidade o corpo astral, junto com o etérico, se separa do corpo físico). Por alguns instantes parece que se está num outro lugar, onde uma grande quantidade de segredos lhe são passados, mas que não se consegue conscientizar nem um milésimo deles, mas que deixam verdades bem claras, gravadas na memória.

Para a filosofia hindu, existem quatro estágios de Samadhi, experimentados à medida que a energia primordial da Kundalini (Cf. no próximo capítulo) ascende e a mente se amplia: as quatro formas de Sabija Samadhi vistas nos Yoga-sutras de Patanjali (a mente em Deus e o corpo em “transe”). No mais superficial (Samprajnata-vitarka Samadhi) o iogue, ainda em estado individualizado, experimenta, como um ente separado, essa percepção divina de comunhão com o Espírito Santo (a 1ª Iniciação dos teósofos) utilizando o seu princípio mental inferior. Com a mente superior experimenta o Samprajnata-vicara Samadhi, com o veículo búdico experimenta o Samprajnata-sananda Samadhi e com o veículo átmico o Samprajnata-sasmita Samadhi.

No estado mais profundo (Samprajnata-sasmita Samadhi), ele conhece esse êxtase expansivo da Consciência Crística, o seu verdadeiro Ser, que reside universalmente em todas as coisas: “eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim” (Gal 2:20). Experimenta-se a unidade com todas as coisas, com todo o Cosmos (a 4ª Iniciação dos teósofos).

 “Para onde foi o Universo? Quem o fez desaparecer? Em que ele se reabsorveu? Há pouco o percebia, e eis que se desvaneceu. Que estranha maravilha! Por toda parte vejo apenas o Oceano da Realidade... nada há a rejeitar. Nada há a aceitar. Nada que não seja o Eu... Estou em paz; sou ilimitado. Estou livre de impurezas. Sou eterno...” 50:164.

Vivekachüdamani, 483-488

 

 “Eternidade e Eu, um raio só unido. Pequenina bolha de riso, eu me converti no próprio Mar da Alegria”  101:163.

Paramahansa Yogananda (1.893-1.952)

 Sem palavras se compreendem várias coisas: a grandeza do mundo divino, a própria humilde pequenez e a ilusão de todas as coisas terrenas. Outras vezes sobrevém uma felicidade tão excessiva, às vezes durando um dia inteiro, que não se quer saboreá-la sozinho, mas repartir com todos a quem se tem relações. Esquece-se de si mesmo e de tudo, que só se quer falar e pensar nesses fatos.

Longe de ser um fato incomum, numerosas ocorrências dessa percepção, onde espaço e tempo se deformam, são registradas pelas mais diversas pessoas: pessoas comuns, atletas, cientistas, etc.. Fritjof Capra relata sua experiência da “Dança de Shiva” 14:13, momento esse que, inesperado, foi seguido por inúmeras outras experiências semelhantes.

Essas pessoas se livraram definitivamente do apego ao prazer das sensações (apatheia), tipificado no amor terreno e se libertaram de toda a possibilidade de raiva ou ódio. Aqueles que experimentaram esses estados ampliados de consciência de êxtase, não mais perdem o controle físico ou dos sentidos e conseguem controlar, à vontade, o entrar e o sair desse estado. Ademais, a palavra êxtase, derivada da grega “ekstasis”, tem o significado de “estar fora” no sentido de sair ou abandonar o próprio eu.

Existem inúmeras descrições de pessoas, em todas as religiões, que tiveram a capacidade de se absorver completamente dessa forma, em oração, em contemplação ou em meditação. Santa Teresa d’Ávila ficava de tal modo imobilizada que as colegas, assombradas, não conseguiam despertá-las ou mudá-la de posição 102:112. O Sabija Samadhi, que o taoísmo chama de “Grande Imobilidade”, é um estado em que há ausência de batimentos cardíacos e se é capaz de respirar como o embrião, sem movimentos respiratórios 27:68: respira-se Ch’i (ou Prana). A literatura hindu chama essas pessoas de Jivanmukta, libertos enquanto vivos:

 “Aquele que está como dormido, tanto no sono como na vigília, sem respirar e imóvel, é verdadeiramente livre. Aquele cujos sentidos não se agitam, cuja mente e respiração se absorvem no próprio ser, que está como morto, se chama Jivanmukta, o que se liberta em vida. Não ouve, não cheira, nem toca nem vê; tampouco conhece o prazer ou a dor, nem exercita a mente. Como um tronco de madeira, não conhece nada nem é consciente de nada; está unicamente absorvido em Shiva, está em Samadhi” 50:86.

Kularnava Tantra (VI: 4)

 Muitos poucos, porém, conseguem o êxtase mais elevado, o Nirbija Samadhi (Yoga-sutras I-51 e III-8), onde, eficientemente cumprindo suas tarefas materiais sem apego, o homem permanece, conscientemente, em comunhão com Deus 102:113. Esses encontram ainda nessa vida a libertação da alma, através da Consciência Crística desperta: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14:6). Atingem a Consciência Cósmica, progridem ao estado de Paramukta e se tornam um Sidha (ser perfeito) 102:212.

 “Uma vez que o Jivanmukta obtiver o samadhi pela prática, e quando esse samadhi for dominado à vontade, permite-se então que ele tome posse de chaitanya, a consciência. Junto com o alento e com a força (kriya shakti) conquiste os seis chakras e se absorva na força do conhecimento (jnana shakti)” 50:89.

Shiva Samhita (III: 67)

 “Pois, uma vez que foste capaz de morrer do modo metafísico – podendo, à vontade, abandonar o confinamento dos três corpos (físico, astral e causal) – nunca mais terás de reencarnar neste mundo sombrio, forçado a regressar aqui pela lei de causa e efeito (carma), à qual todas as vidas estão sujeitas” 102:108.

Paramahansa Yogananda (1.893-1.952)

Categoria: Órion Volume 2