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Ao longo da história humana, tem havido religiões perseguidas, e tem havido religiões perseguidoras. A evolução da religião cristã ilustra bem esse fato. Depois de sofrer perseguição durante algum tempo, em determinado momento o cristianismo passa a ser uma religião de Estado, uma religião imperial. Foi a partir de então que generalizou-se gradualmente a aceitação de uma imagem de Jesus Cristo como o mestre da obediência, da resignação, da passividade e da submissão.

 

Quando lemos os Evangelhos do Novo Testamento, no entanto, a idéia de um Jesus submisso e obediente cai por terra. Há ali evidências numerosas no sentido de que Jesus foi, na verdade, um guerreiro da luz. Ele desafiou as estruturas religiosas e sociais do seu tempo. Ele não criou nem mandou criar uma igreja centralizadora ou autoritária. Não adaptou-se às rotinas da sua época. Questionou-as todas.

A filosofia esotérica parte da premissa de que existe uma mesma sabedoria universal presente sob diferentes roupagens nas várias tradições religiosas e filosóficas da nossa humanidade. Por isso ela promove o estudo comparado de religiões. Para a filosofia esotérica, a figura de Jesus é mais do que um mestre que viveu um dia. A idéia de Jesus simboliza sobretudo a energia crística ou búdica que está presente e pode ser encontrada dentro de cada ser humano.

A palavra sânscrita “Buddh” significa luz espiritual, e “Buddha” ou “Buda” não é o sobrenome de Gautama, mas significa apenas “Iluminado”. Assim, a luz crística é a luz búdica. Jesus é a voz da alma imortal, a voz da nossa consciência. A força do espírito não se apega à rotina automática dos velhos apegos. Ao contrário, a voz da alma questiona as rotinas e as ameaça e por isso é perseguida, suprimida – e substituída pela obediência cega. De um lado é verdade que o nascimento da sabedoria crística ou búdica na alma humana traz paz interior. De outro lado, esse surgimento provoca externamente contraste, conflito, combate e luta. Daí a necessidade de sermos guerreiros. Esse duro contraste corresponde ao que as grandes religiões chamam de “testes” e “provações”. Vejamos alguns trechos dos Evangelhos cristãos que servem como evidências disso.
Logo no início do evangelho de Lucas, ao profetizar sobre a futura missão de Jesus, Simeão anuncia:

 

“Eis que esse menino foi colocado para a queda e para o soerguimento de muitos em Israel, e como um sinal de contradição ...” (Lucas, 2:33-35). Sim, um sinal de contradição. Jesus é alguém que colocará as pessoas diante de escolhas difíceis.

 

Anos mais tarde, já maduro e armado com a espada sutil da verdade e do discernimento, o mestre Jesus aparece como um guerreiro. Em Mateus, 10:34-39, ele alerta:

 

“Não pensem que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. Pois vim causar divisão entre o homem e seu pai; entre a filha e sua mãe e entre
a nora e sua sogra. Assim, os inimigos do homem serão os da sua própria casa. Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim; e quem não toma a sua cruz e vem após mim não é digno de mim. Quem acha a sua vida a perderá; quem, todavia, perde a vida por minha causa a achará.” Aqui está a dura lição da impessoalidade. É preciso olhar com desapego para nossos vínculos pessoais mais íntimos. É aí que se dá um combate em que a espada da verdade é indispensável, um combate contra a falsa paz da rotina e da acomodação. Não se trata de buscar entrar em conflito com as pessoas mais próximas a nós. Trata-se, isso sim, de combater nosso próprio apego ou rejeição a elas.

Jesus não promete conforto. Ele anuncia uma vida dura e incômoda para quem quiser “tomar a sua cruz” – isto é, assumir seu próprio karma – e seguir o caminho da sabedoria e da alma imortal que ele, como Mestre, simboliza e sinaliza. Em Mateus, 10:22 e 10:23, ele alerta:

 

“E vocês serão odiados por todos por causa do meu nome. (...) Quando perseguirem vocês em uma cidade, fujam para outra. E se perseguirem vocês nesta, tornem a fugir para uma terceira.”

 

A necessidade de transcender os apegos e rotinas pessoais aparece novamente em Mateus, 12: 46-50:

 

“Falava ainda Jesus ao povo, e eis que sua mãe e seus irmãos estavam do lado de fora, procurando falar-lhe. E alguém lhe disse: ‘Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e querem falar-te.’ Porém ele respondeu ao que lhe trouxera o aviso: ‘Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?’ E, estendendo a mão para os discípulos, disse: ‘Eis minha mãe e meus irmãos. Porque qualquer que fizer a vontade do meu Pai celeste, esse é meu irmão, irmã e mãe.’ ”

 

O que é, precisamente, “pai celestial”? Para a filosofia esotérica, “pai celestial” é “Atma”, a divindade no interior da consciência de cada um. Não é uma autoridade externa. Jesus não construiu igreja centralizada. Ele não acreditava em autoridades externas à consciência humana.
A pedagogia espiritual da filosofia esotérica vê dois aspectos essenciais no modo como o mestre Jesus ensina. Um é a autonomia do aprendiz, respeitada pela ausência de uma estrutura asfixiante de poder centralizado. Outro aspecto é a franqueza e a autenticidade do mestre.

Há, ainda hoje, uma certa religiosidade espiritualista de classe média segundo a qual Jesus Cristo é alguém incapaz de uma atitude áspera. De acordo com essa visão, não só Jesus, mas qualquer pessoa espiritualizada jamais pode ou deve colocar limites a quem age erradamente. E quando alguém o faz é imediatamente catalogado como “não-espiritual”, “pouco evoluído”, “insensível, “endurecido”, etc.

Não é isso, porém, que vemos em Marcos, 11:15-19. O fenômeno da purificação do templo mostra um combate aberto entre a sinceridade e a hipocrisia. Diz o evangelista:

 

“E foram para Jerusalém. Entrando ele no templo, passou a expulsar os que ali vendiam e compravam; derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas. Não permitia que alguém conduzisse qualquer utensílio pelo templo; também lhes ensinava e dizia: ‘Não está escrito que a minha casa será chamada de casa de oração para todas as nações? Vocês, porém, a transformaram em covil de salteadores’. E os principais sacerdotes e escribas ouviam estas coisas e procuravam um modo de lhe tirar a vida, porque toda a multidão se maravilhava da sua doutrina. Ao chegar a tarde, saíram da cidade.”

 

É interessante observar que Jesus não usa meias palavras. Ele diz que o templo foi transformado em nada menos que um “covil de salteadores”. Assim, os mais notáveis sacerdotes passam a tramar sua morte. A conclusão, para nós – aprendizes da sabedoria antiga – é que o caminho espiritual é perigoso.

Esse caminho estreito e difícil requer coragem, desapego e determinação. Por isso a metáfora do caminhante espiritual como um guerreiro faz todo sentido do ponto de vista da filosofia esotérica.
 

 

Categoria: Holopráxis

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