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Se quisermos saber quando e onde se dará a volta de Cristo, a resposta pode ser questionadora e surpreendente.

Suponhamos, para começar, que Jesus decida voltar ao convívio humano aproveitando o clima de confraternização das festas do final de ano de 2005. Ele se tornaria visível em Nova Iorque, entraria na sede das Nações Unidas e conversaria ali, a portas fechadas, com o secretário-geral Kofi Anan? Ou surgiria curando doentes entre os povos mais pobres e humildes da África? Talvez ele mandasse um e-mail para os principais chefes de Estado? Quais as conseqüências políticas, sociais e econômicas do seu reaparecimento? Estas perguntas, feitas várias vezes no passado, são incômodas. A volta de Cristo poderia colocar em cheque nossos hábitos, nossas instituições e estruturas sociais.

Antes de investigar o que ocorreria se Jesus reaparecesse nos dias atuais, vejamos o que teria acontecido há alguns séculos. Fiódor Dostoievski, um dos maiores escritores de todos os tempos, descreveu em 1880 como teria sido a volta de Cristo em pleno século 16. Ele narrou a aparição do homem divino entre os habitantes de Sevilha, na Espanha. Naquela época a Inquisição estava no auge. O Vaticano prendia, torturava e matava em nome do Mestre. Na Espanha, o Inquisidor tinha poder absoluto. Todos os dias hereges eram queimados vivos em fogueiras públicas, “para maior glória de Deus”. Como seria, então, a volta do Cristo? Segundo a narrativa de Dostoievski, nesta ocasião o Mestre decidiu voltar sem o anúncio dos sinais no céu previstos na Bíblia:

 

“Ele apareceu docemente, sem se fazer notar e – coisa estranha – todos o reconheciam imediatamente. (...) Atraído por uma força irresistível, o povo comprime-se à sua passagem e segue-lhe os passos. Silencioso, ele passa por entre a multidão com um sorriso de compaixão infinita. Seu coração está abrasado de amor, seus olhos desprendem uma Luz, uma Ciência, e uma Força que irradiam e despertam o amor nos corações. Estende-lhes os braços e abençoa-os. Uma força curativa emana do seu contato e até mesmo de suas vestes. Um velho, cego desde a infância, exclama no meio da multidão: ‘Senhor, cura-me e eu te verei’. Uma casca cai dos seus olhos e o cego vê. O povo derrama lágrimas de alegria e beija o chão sobre as marcas dos seus passos. As crianças lançam flores à sua passagem”. (1)

 

A população canta e grita ‘Hosanna!’ à passagem do Senhor. Os membros do povo repetem emocionados: “é Ele, é Ele”. O Cristo avança pela praça de Sevilha e ressuscita uma garota. No auge da emoção popular, porém, surge na praça da cidade a figura temível do grande Inquisidor. É um ancião quase nonagenário, com uma rigorosa seriedade no rosto e a expressão de quem não admite ser contrariado. Vestido com uma velha batina preta, rodeado pela sua guarda pessoal, ele percebe num instante o que está ocorrendo. Diante do seu olhar severo a multidão emudece e se inclina até o chão, respeitosa e atemorizada. “Tão grande é o seu poder, e o povo está de tal maneira acostumado a submeter-se, a obedecer-lhe tremendo, que a multidão se afasta imediatamente diante dos guardas”, conta Dostoievski. Em meio de um silêncio mortal, Cristo é levado para a prisão.

Horas depois, a porta de uma masmorra se abre, rangendo, e o Inquisidor entra. Ele olha a Santa Face, como para confirmar a identidade do seu interlocutor, e diz ao prisioneiro: “ És tu? Não digas nada. Cala-te. Aliás, que poderias dizer? Não tens o direito de acrescentar uma palavra além do que disseste outrora. Por que vieste estorvar-nos? Porque tu nos estorvas, bem o sabes. Mas sabes o que acontecerá amanhã? Ignoro quem tu és e não quero sabê-lo: tu ou apenas tua aparência. Mas amanhã eu te condenarei e serás queimado como o pior dos heréticos, e este mesmo povo que hoje te beijava os pés, amanhã, a um sinal meu, irá alimentar a tua fogueira.”

Enfático, o chefe da Inquisição faz um discurso mostrando que o “caminho estreito” ensinado pelo Mestre não pode ser percorrido, que é demasiado difícil e só causa mais sofrimento. Afirma que é impossível praticar o caminho da luz e do amor incondicional. Só uma religião autoritária, em que o dogma substitua a sabedoria, pode dar felicidade ao povo. Apenas a mentira institucionalizada pode garantir a ordem; nunca a verdade universal.

Cristo apenas escuta, fitando o seu carcereiro com olhos serenos, enquanto nos seus lábios há um sorriso de infinita compreensão. A mente do teólogo-carcereiro não tem segredos para ele. Suas frases já são conhecidas antes que as pronuncie. Ele condena a liberdade individual pregada por Jesus. Considera absurda a idéia de que cada homem seja senhor do seu próprio destino, e conclui assegurando outra vez ao preso que sua heresia será punida com a morte.

Terminadas as longas alegações, o Mestre não diz uma palavra mas mantém seu silêncio calmo e cheio de paz. Depois de alguns instantes, Jesus ergue-se, olha seu acusador nos olhos e o abraça. O poderoso Inquisidor fica surpreso, confuso, assustado. Luta para manter o autocontrole
psicológico. A força da santidade parece vencê-lo por um momento: ele abre com força a pesada porta da cela, aponta nervosamente para a saída e diz ao Mestre:

 

- “Vai embora. Vai e não volta nunca mais. Nunca mais!”

 

O prisioneiro não responde. Com olhar iluminado e passo calmo, ele sai da sua cela, passa pelos guardas e desaparece na noite escura.

 

Este, resumidamente, é o relato de Dostoievski, referente ao século 16. É certo que, se Cristo aparecesse subitamente no momento atual – cinco séculos depois – os desafios não seriam poucos. Quem estaria disposto a largar seus dogmas para viver o ensinamento? O jesuíta indiano e escritor Anthony de Mello previu esta possibilidade em um dos seus livros:

 

-“Foi feita uma proposta, nas Nações Unidas, no sentido de que se corrigissem todos os livros sagrados de todas as religiões. Tudo o que neles tivesse algum sabor de intolerância, crueldade ou fanatismo deveria ser eliminado. O mesmo se faria com toda e qualquer parte que atentasse contra
a dignidade e o bem-estar do homem. Imaginem o burburinho quando se veio a saber que a proposta viera do próprio Jesus Cristo! Os repórteres correram à sua residência, ávidos de esclarecimento. A sua explicação foi simples e curta: ‘As Escrituras, como o Sábado, foram feitas para o homem, e não o homem para as Escrituras!’ , disse ele.” (2) O que seria das grandes instituições humanas se Jesus voltasse e não fosse encarcerado? Qual o poder revolucionário da sua presença física consciente entre nós?

Ele poderia aparecer vestido com roupas orientais nas ruas de um país de governo islâmico radical e intolerante. Reconhecido, seria preso. Em pouco tempo seria identificado como “infiel” ou, ainda pior, como judeu. Seria acusado e condenado por espionagem e levado para fuzilamento. Quando soassem os tiros, porém, se veria que seu corpo era imaterial. Sem que ninguém notasse, Cristo teria transmutado seu corpo físico em uma presença sutil; o mayavi-rupa da filosofia esotérica. Seria perfeitamente visível, mas já não poderia ser tocado ou destruído.

A seguir, o Mestre apareceria em Nova Iorque, usando roupas ocidentais. Ele caminharia em direção ao prédio da ONU e seria reconhecido nas ruas. Uma aura de luz branca, transparente, rodearia seu corpo. “Só pode ser Ele”, pensariam as pessoas imediatamente.

O trânsito pára enquanto ele avança. Homens e mulheres se ajoelham. Crianças correm para Ele, que abençoa o povo. De quando em quando ele interrompe sua caminhada por um momento e cura alguém, e aconselha, consola, ensina. O FBI o alcança quando ele já está no pátio externo das Nações Unidas, e pede que mostre seus documentos. O Mestre explica que não tem passaporte consigo, mas não pretende “demorar no prédio”. Sem documentos, sua entrada não é permitida. Em seguida, é detido por agentes especiais do FBI e interrogado por investigadores da CIA. Seria um radical árabe? No momento exato em que o governo norte-americano vai acusá-lo formalmente de imigração ilegal, o Mestre desaparece no ar. A tentativa de aproximação entre o Mestre e a nossa civilização foi inútil. Ele volta ao seu local de retiro, em uma das montanhas mais altas do mundo, de onde ajuda nossa evolução em silêncio.

De fato, devido às limitações da humanidade nesta etapa da sua evolução, nenhum grande instrutor apareceu ou aparecerá no mundo atual desta forma externa, grosseira, que gera óbvios constrangimentos. O próprio Jesus Cristo, segundo a narrativa do Novo Testamento, foi reconhecido e compreendido por poucos, durante os três breves anos de sua vida terrestre e pública. E foi compreendido apenas parcialmente. No entanto, os Mestres Sagrados das grandes religiões sempre ajudaram e continuam ajudando anonimamente a humanidade. Eles têm colocado à nossa disposição, sob diferentes roupagens culturais, uma sabedoria eterna que contém respostas para todos os males humanos. Taoísmo, budismo, hinduísmo, judaísmo, islamismo, cristianismo e outras tradições contêm lições de suprema beleza e eficácia, sempre que são postas em prática de modo não-dogmático. O mesmo se pode dizer da filosofia e da ciência.

As diferentes personificações da sabedoria, entre elas Cristo, Krishna, Buda ou Lao-Tzu, funcionam para nós como símbolos de seres perfeitos que existem de fato, embora vivam retirados e sejam diferentes do que imaginamos. Ao mesmo tempo, em um nível arquetípico, estas figuras sintetizam as nossas melhores aspirações. São, em parte, projeções criadas por nós a partir da divindade presente em nossa própria alma. O fato é que existe em nós uma semente divina e ela começa a germinar. Esotericamente, esta é a verdadeira “volta” ou “reaparição” de Cristo. Sobre este tema, Mateus, 24: 23-27, afirma:

 

- “Então, se alguém vos disser: ‘Olhe o Messias aqui’ ou ‘ali!’, não creiais. Pois hão de surgir falsos Messias e falsos profetas, que apresentarão grandes sinais e prodígios de modo a enganar, se possível, até mesmo os eleitos. Eis o que eu vô-lo predisse. Se, portanto, vos disserem, ‘Ei-lo no deserto’, não vades até lá; ou ‘Ei-lo em lugares retirados’, não creiais. Pois assim como o relâmpago parte do oriente e brilha até o ocidente, assim será a vinda do Filho do Homem.”

 

Na última frase desta citação, a palavra grega "parusia", traduzida como Vinda, significa, na realidade, "presença". A frase afirma que a presença de Cristo será percebida como um relâmpago de leste a oeste, isto é, em todo o mundo. Helena Blavatsky, a fundadora do movimento esotérico moderno, escreveu que o significado desta passagem é duplo. Em primeiro lugar, a expressão “Vinda de Cristo” significa na verdade “a presença de Cristo em um mundo regenerado e não, de forma alguma, a vinda corporal de Cristo Jesus”.

Em segundo lugar, “este Cristo não deve ser buscado nem no deserto nem em lugares retirados, nem no santuário de algum templo ou igreja construída pelo homem, porque Cristo – o verdadeiro Salvador esotérico – não é um homem mas o Princípio Divino em cada ser humano.” Para Helena Blavatsky, ver Cristo literalmente como um ser humano é um equívoco, mas a imagem pode ser usada simbolicamente. Ela prossegue:

 

“Aquele que se esforça por promover a ressurreição do Espírito crucificado em si mesmo pelas suas próprias paixões terrenas, e enterrado profundamente no sepulcro da sua própria carne, aquele que tem força para fazer rolar a pedra da matéria para longe da porta do seu próprio santuário interno, este faz despertar Cristo em si mesmo.” (3)

 

Há milhares de anos, nas mais diferentes tradições, o céu simboliza a alma imortal. Na Idade Média, o céu cristão deixou de ser entendido como símbolo e foi encarado de modo literal como realidade física. Hoje, pouco a pouco, as interpretações mais profundas do ensinamento voltam a ser aceitas e compreendidas. Do ponto de vista esotérico, a aparição de Cristo entre as nuvens do céu (descrita em Mateus, 24:30) significa que o Mestre e a sabedoria que ele simboliza surgirão nos níveis superiores da mente humana, que são inseparáveis da inteligência intuitiva e de uma compreensão ampla da vida.

Mais do que uma pessoa, Cristo é a luz espiritual. A volta dele deve ocorrer em cada coração humano. O grande instrutor da humanidade só poderá aparecer no mundo externo – e ser interiormente reconhecido – quando houver em nós a pureza, a ética e a verdade que fazem a essência do sentimento cristão. Como diz 2 Coríntios, 6:16, “Que há de comum entre o templo de Deus e os ídolos? Ora, nós é que somos o templo do Deus vivo”. A grande oportunidade prática que está diante de nós é, pois, a tarefa da autotransformação.

O Natal que comemoramos no Ocidente a cada final de ano simboliza o renascimento periódico e sagrado da esperança. É a renovação do nosso aprendizado, e também a decisão de nascer de novo com o Mestre a cada momento da vida. Este Natal interior, que ocorre no coração, se comemora ao mesmo tempo que o Natal externo. Os presentes e as comemorações são uma oportunidade para viver o verdadeiro nascimento de Cristo onde ele ocorre, isto é, no nível mais essencial de nossas vidas.

Assim, cada Natal é, de certo modo, a volta de Cristo. Neste época do ano, um sentimento de paz ilumina a mente humana “como um relâmpago”, de um extremo a outro do planeta, e parece compensar por um momento todos os sofrimentos da alma coletiva. Não pergunte, pois, quando, ou onde, se dará a volta do Cristo: ela se dará neste Natal e a cada momento, em seu coração e sua mente, sempre que você estiver preparado. É dali que o grande advento se irradia, provocando a regeneração de todas as formas de vida.



NOTAS.

(1) "Os Irmãos Karamázovi", de Fiódor Dostoievski, Ed. Nova Cultural,
Círculo do Livro. Veja o Capítulo V do Livro V, pp. 203-217. Em alguns
poucos detalhes, preferi a tradução feita por Helena Blavatsky, diretamente
do russo, e publicada na revista "The Theosophist", Índia, edição de
novembro de 1881.

(2)"O Canto do Pássaro", de Anthony de Mello, S. J. , Edições Loyola, SP,
1995, p. 61.

(3)"Collected Writings of Helena P. Blavatsky", TPH, Índia, volume 8, pp.
172-173.

Categoria: Holopráxis

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