Transpessoalidade

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(*) Marlos Alves Bezerra é psicólogo
* Psicólogo Transpessoal pelo Woolger Training Seminars e Instituto Atman-PE. Membro da Rede Brasileira de Sociologia Clínica

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Está claro que a mitologia não é um brinquedo para crianças. Nem tampouco é tema para um estudo arcaico e meramente erudito, sem pertinência para o moderno homem de ação, pois seus símbolos(sob formas tangíveis de imagens assim como de abstração de idéias) sintonizam e liberam os centros mais profundos de motivação, atingindo e comovendo igualmente letrados e iletrados, mexendo com as massas, com a civilização. Portanto, existe um perigo real na incongruência de foco que trouxe ao primeiro plano da vida moderna os últimos resultados da pesquisa tecnológica, que agrupam o mundo numa comunidade única, deixando as descobertas antropológicas e psicológicas, que poderiam ter dado margem a um considerável sistema moral, nas publicações especializadas em que originalmente elas apareceram. Pois não há dúvida de que é tolice pregar às crianças que estarão pilotando naves à lua uma moralidade e uma cosmologia fundadas no conceito de boa sociedade e de lugar do homem na natureza, conceitos cunhados antes mesmo da domesticação dos cavalos! Hoje o mundo ficou pequeno demais, e a insanidade dos homens grande demais, para mais um daqueles velhos esquemas do Povo Escolhido (por Jeová, Alá, Wotan, Manu) que serviam para resguardar os membros da tribo das investidas de seus inimigos, naqueles tempos em que as cobras ainda falavam.

Joseph Campbell, As máscaras de Deus. 

Defender o retorno das Deusas Helênicas, soa em nossa cultura judaica cristã e na alvorada do século XXI, como uma proposta anacrônica, mística e por que não, ridícula? Uma tal proposta implica, entretanto, uma revisão nos valores culturais de nossa sociedade patriarcal. Trata-se de uma proposta que ganhou corpo no século XX através dos trabalhos de antropólogos, sociólogos e mitólogos, mas principalmente através do movimento feminista e das inúmeros conquistas amealhadas por este último. No seio desta discussão encontra-se uma crítica contundente ao mal do patriarcado, ou seja, a reverência exclusiva ao princípio masculino em detrimento e relegação ao princípio feminino, provocando danos à nossa saúde social, psíquica e à do próprio planeta Terra.

Apesar do consenso crescente da inexistência de uma sociedade matriarcal no esteio da civilização humana, é igualmente a concordância em torno do culto matriarcal, ou seja, da existência desde a aurora dos tempos, de culturas que reverenciavam a Deusa-mãe em uma ou mais de suas formas ,como divindade suprema. Era, no dizer de Robert Graves, a Deusa-mãe de muitos nomes: Seja Ísis, no Egito, Atana Potinja em Creta, Gaia na Grécia, Astarte em Canaã, Inana na Suméria, ou Istar na Babilônia. Essas culturas eram perfeitamente consentâneas com o politeísmo e a reverência a deuses menores. Mais do que isso: os valores do feminino encontravam-se disseminados em seu modus vivendi.

No caso específico da Grécia, assistiu-se, conforme Jane Harrison, à uma departamentalização da Deusa-Mãe em função da das invasões de tribos indo-européias que traziam consigo seus deuses da caça e do céu. Foi assim que assistiu-se ao casamento de Hera, cujo templo na ilha de Samos é um dos mais antigos dedicados a uma divindade, com o Deus celeste deles, Zeus. Cada uma das deusas passou a apresentar fragmentos da característica da Grande-Mãe. Ártemis, tornou-se a jovem deusa da caça e Afrodite apenas uma deusa do amor, entre outras. Não obstante, as práticas e ritos matriarcais não foram suprimidas.

Dito desta forma, parece que se quer vender ao leitor a idéia de que as mulheres gregas viviam em plenitude. Ora, sabe-se que eram parcas as opções das mulheres daquela época: matrona, prostituta ou escrava. Todavia, a existência dos cultos à deusas como Afrodite, Deméter, Ártemis, Atena, Perséfone e Hera, criavam, do ponto de vista psíquico, inúmeras e ricas possibilidades para as mulheres – bem mais que as oferecidas pelo Judaísmo e Cristianismo.

Nas pegadas de Carl Jung, muitos estudiosos voltaram seus olhares para a dualidade masculino/feminino. Para Jung, a masculinidade e a feminilidade transcendiam tanto a uma mera divisão biológica macho-fêmea, quanto a uma construção de gênero circunscrita e sócio-histórica. Tratam-se de arquétipos, formas em si mesmas, atemporais, exteriores à consciência, caracteres subjetivos que expressam um nível do inconsciente mais profundo de homens e mulheres denominado inconsciente coletivo. Jung chamou de ânima à projeção interna do feminino nos homens e de animus à projeção interna de masculino nas mulheres. Por essa definição, Jung remete-nos a uma compreensão do feminino enquanto uma potencialidade universal tanto para homens quanto para mulheres. Ou seja, homens e mulheres são ao mesmo tempo masculinos e femininos. Essa percepção já era compartilhada no Oriente através dos conceitos de Yin e Yang, que presentes em mulheres e homens aludem de um lado à intuição, simultaneidade, experiência, síntese e, de outro, a intelectualidade, linearidade, argumentação, análise.

O que importa, em nossa breve exposição é a ausência do ânima, dos elementos Yin, como valores a serem cultuados em nossa sociedade. É o que argumentam muitos estudiosos como o físico Fritjof Capra para quem os valores patriarcais (animus, yang) racionalistas, materialistas e fragmentador produziram uma grande crise global.

O retorno das deusas, é em seu conjunto o retorno das características Yin ausentes não só nas mulheres, mas em todo o conjunto social (portanto, nos homens e mulheres). É essa a proposta, por exemplo, de Roger Woolger, em seu livro a deusa interior. Ao retomar a mitologia grega, o autor retoma um dos grandes modelos que moldam a cultura secular do Ocidente (o outro modelo é fornecido pela tradição judaico-cristã): as tradições da civilização greco-romana.

São apresentadas as seis deusas principais do panteão Grego, a saber: Ártemis, Antena, Afrodite, Deméter, Hera e Perséfone. Cada uma delas corresponde a um arquétipo do feminino e uma expressão fragmentada do grande arquétipo da Deusa-Mãe. Temos, grosso modo, para Hera, a encarnação do poder, a guardiã dos costumes e a matriarca da família. Atena rege a cultura e intelectualidade, o racionalismo, portanto inclina-se para a carreira profissional. Deméter é o símbolo da maternidade, da gravidez, dos frutos, cujo corpo é oreceptáculo sagrado da vida. Para Afrodite, o corpo é a própria expressão do sagrado, através do qual a sexualidade, a beleza e o prazer se exteriorizam. No caso de Ártemis, trata-se do contato com a natureza e com os instintos como só os caçadores e os aventureiros se permitem contatar . Quanto a Perséfone, preside o mundo avernal, dirigindo os mistérios do inconsciente, o contato com a espiritualidade numa atitude de pura instrospecção.

O que temos a aprender com as deusas então? O próprio Roger responde:

(...) "Todas as deusas tem histórias a contar, contribuições a fazer, uma sabedoria a partilhar: se Afrodite arrisca tudo pelo amor, Hera teme que o casamento se rompa; se Démeter deleita-se com seus filhos, Perséfone acalenta sua interioridade e suas visões; se Atena busca ascender profissionalmente, Ártemis anseia por uma cabana na floresta. No entanto, cada uma sabe algo que as outras desconhecem. Interior ou exterior, as energias das deusas podem favorecer uma comunhão rica e satisfatória no intercâmbio entre mulheres e homens."

O que se enfatiza no estudo é a necessidade de deixar fluir os vários aspectos das Deusas que estão ausentes em nossas estratégias de comportamento, seja pela história de vida, seja pelas determinações culturais ou valores societais prevalentes. Essa plasticidade em oposição a uma fixidez é o que confere viçosidade à vida em detrimento da morte psicológica. Como diz Roger:

(...) Conhecer-se a si mesma mais plenamente como mulher é conhecer por quais deusas se é primordialmente governada. E é estar ciente de como cada uma delas influencia as diversas fases e os diversos pontos de mutação de nossa vida.(..)

Categoria: Psicologia

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