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O universo é feito de contrastes, e a visão esotérica sobre a vida após a morte faz revelações fundamentais sobre o significado da vida aqui e agora.

Tudo o que conhecemos no mundo físico é uma combinação de ritmos cósmicos e princípios eternos com circunstâncias e eventos passageiros e, do ponto de vista da alma imortal, uma existência humana de noventa ou cem anos é apenas um dia na vida maior do mundo espiritual. Quando investigamos o que ocorre após a morte, podemos compreender melhor a nós próprios e aproveitar as oportunidades que nos rodeiam a cada instante na vida. Reconhecendo a fragilidade da nossa existência terrestre, entramos em contato com nosso melhor potencial interior.

 

Um instrutor de Raja Ioga, residente nos Himalaias, fez uma descrição bastante precisa sobre o que ocorre entre a morte e o renascimento. De acordo com ele, cada pessoa revive toda sua existência durante os últimos 30 a 60 segundos da sua vida. O cérebro, o último a morrer, libera então as suas recordações e cada instante da vida desfila diante da visão daquele que se despede. É um momento de lucidez extraordinária. Durante esta avaliação final, estabelece-se a força central resultante de toda aquela vida. Ela será a nota-chave, o impulso básico que dará movimento à alma em todo o processo pós-morte e até o próximo renascimento.

Naquele instante sagrado em que o corpo físico morre e é abandonado, o modelo astral abstrato que conduzia vitalidade para dentro do corpo se desintegra e a vitalidade se dispersa. O ser humano completo já não existe mais: a alma foi liberada do plano físico. Restam, porém, outros níveis de consciência. Terminou o “mundo das causas” e começou o “mundo das conseqüências”.

O que ocorrer a partir de agora estará, basicamente, determinado pelo que foi realizado pela pessoa durante sua vida física. A alma navegará nas ondas sutis do carma criado por ela mesma. Após a morte física, os dois aspectos principais da nossa consciência - o divino e o animal – lutam pelo controle do processo e têm destinos finais muito diferentes. Um destes aspectos é a “casca”, carapaça ou couraça emocional. O outro é o aspecto luminoso, superior e imortal do indivíduo.

As vidas da casca emocional e da alma imortal no plano subjetivo são definidas pelo que a alma fez enquanto habitava o plano físico. Daí a importância de compreender desde cedo o funcionamento futuro destes dois “eus” abstratos, isto é, destituídos de corpo físico. Aumentando a área de influência da alma imortal e tornando a “casca” flexível e aberta à vida espiritual, promovemos nossa elevação em três aspectos diferentes:

  • Estabelecemos e preparamos desde já uma predominância do espiritual após a morte.

  • Produzimos um conteúdo cármico positivo para as nossas próximas vidas.

  • Nossa vida melhora de qualidade dia a dia, aqui e agora. A verdade é que o tempo infinito está presente no interior de cada fração de segundo. Uma visão correta de longo prazo dá mais significado a cada momento presente.

O primeiro estágio após a morte é o kama-loka, literalmente “local dos desejos”. Mas não se trata de um local, e sim de um estado vibratório da alma. Uma transição. É no kama-loka que ocorre uma luta frontal entre hábitos e desejos instintivos e animais, de um lado, e hábitos e vontades espirituais, de outro lado. A luta se desdobra durante um período de tempo que varia muito, durando desde algumas semanas até vários anos – até que ocorre a vitória do bem e a força divina se liberta dos impulsos inferiores. A alma entra então em um outro estágio, chamado de “corrente gestatória”, em que se prepara para o seu “renascimento no reino celestial”, ou devachan. Quando o eu espiritual vence a luta contra os impulsos animais, os hábitos e impulsos inferiores, derrotados e destituídos de ligação com o núcleo de espiritualidade, formam uma “casca” ou carapaça que ainda habitará os mundos inferiores por algum tempo, como uma sombra sem direção própria, movida por seus desejos até perder força e coesão. Então ela se paralisa gradualmente e finalmente se dissolve, por sua vez, assim como um dia o corpo físico havia se dissolvido. Resta apenas a alma imortal em “gestação”.

Depois de algum tempo, a alma emerge da corrente gestatória e renasce no devachan, “o local dos deuses”. Como o kama-loka, o devachan não é exatamente um local, e sim um estado de espírito. Ali predomina a energia divina, e a alma colhe os bons frutos das suas ações espirituais. Há numerosas exceções, mas em geral o devachan dura alguma coisa entre mil e quatro mil anos para uma alma que tenha tido uma vida normalmente boa, como a maior parte da humanidade.

No seu primeiro nível, o rupa-loka, o devachan está animado pelas representações espirituais das formas externas. Rodeada dos que mais ama, a alma revive intensamente os acontecimentos mais agradáveis da sua vida passada, em seu aspecto espiritual e elevado. A alma é agora o centro do seu mundo. Não há sequer uma sombra de sofrimento. Já no segundo nível do devachan, arupa-loka, dissolvem-se as representações das formas externas. A alma mergulha em um estado de bem-aventurança ainda mais interior, subjetivo e elevado.

A filosofia esotérica define o devachan como um longo sonho bom, um descanso merecido. Mas, uma vez esgotada a necessidade de repouso no mundo celestial, a alma aproxima-se pouco a pouco de um estado em que a ignorância está presente. Fica exposta, então, às suas características cármicas, herdadas de vidas anteriores. E ingressa no processo que levará ao seu renascimento físico. Seus futuros pais e as circunstâncias em que nascerá são definidos por afinidade cármica, isto é, por sintonia vibratória. Gradualmente, a nova “pessoa” se reencontra com os skandhas, as tendências cármicas de suas vidas anteriores. Todo este material também é atraído para ela pela lei da afinidade, porque a presença da mesma alma imortal em um novo corpo funciona como um ímã para os padrões vibratórios postos em funcionamento em vidas anteriores. Naturalmente, depois da longa experiência do devachan, a alma estará livre para estabelecer padrões novos, melhores e mais sábios.

Esta é, resumidamente, a doutrina esotérica do devachan (1). Ela é importante porque mostra que já estamos preparando, a cada instante, consciente ou inconscientemente, os elementos que travarão a grande luta do kama-loka entre nossa alma espiritual, com seus impulsos nobres, e a alma animal da nossa vida atual, com seus hábitos inferiores. Agora mesmo, neste momento, há em nós uma casca externa e uma luz divina e imortal. A luta do kama-loka – popularizado no Ocidente supersticioso como “purgatório” – é uma mera reprodução, no plano subjetivo, do que ocorre na vida física com cada um de nós. É durante a existência concreta que se criam as causas e se define quem vencerá a luta. Esta é a batalha que se trava constantemente entre luz e sombra na alma humana. É a guerra descrita pelo Bhagavad Gita hindu entre as forças inferiores e o guerreiro do bem. Por isso Carlos Castaneda afirmou que a vida é uma batalha na qual um dos objetivos principais do guerreiro é preparar-se para a morte, isto é, a passagem para o mundo de luz. Ao longo dos milênios, a alma fica muito mais tempo no plano subjetivo do que no plano objetivo, e vale a pena fazer um esforço definido para fortalecer as causas do bem e encontrar a paz celestial enquanto se tem os pés colocados no chão. Para isso, no entanto, é recomendável observar o dia a dia da convivência entre couraça emocional e alma imortal. Vejamos alguns exemplos. A casca externa não tem ânimo para assumir plena responsabilidade diante da vida. Ao mesmo tempo, comporta-se como se fosse proprietária dos esforços mais nobres da alma. Quando você faz algo por uma causa humanitária ou pelo bem da sua cidade, ela pensa: “o que é que eu ganho com isso?” Ou então a couraça dirá: “na verdade, eu sou um sujeito de uma bondade e uma sabedoria extraordinárias; minha santidade deveria ser reconhecida por todos”. Quando você se esforça para trilhar o caminho espiritual, a carapaça tenta despertar orgulho em seu interior.

 

1) Se você enfrenta um obstáculo ou é derrotado do ponto de vista das aparências externas, a carapaça experimenta uma sensação de desânimo e pessimismo.

2) Você ama sua namorada ou sua esposa. A carapaça quer fazer amor.

3) Você se alimenta para obter a energia necessária. A casca deseja o prazer pelo prazer, e às vezes busca ultrapassar o limite do razoável.

4) Quando você quer dormir e descansar, a meta é um descanso reparador. Mas a casca poderá levar você ao exagero da preguiça.

5) Você tem o prazer de cumprir o seu dever. A couraça não conhece esta satisfação. Ela fica contente com aplausos.

6) Quando percebe que errou, você se preocupa em reparar o dano e aprender a lição correspondente. A sua casca prefere esconder o erro ou então atribuí-lo ao mau tempo, ao chefe, ao governo ou a qualquer outro fator externo.

 

Daí a necessidade de atenção, observação e vigilância para saber quem, afinal, vive mais à vontade em seu corpo físico: sua alma espiritual ou apenas a carapaça emocional. Felizmente a couraça, definida como o conjunto de hábitos e automatismos, pode ser educada. Ela é uma grande auxiliar da nossa vida espiritual. A tradição pitagórica ensina: “faça o que é correto, e com o tempo fazer o correto lhe será agradável”.


NOTA.
(1) Cartas dos Mahatmas Para A. P. Sinnett, Ed. Teosófica, Brasília,
2001,
dois volumes. Veja as Cartas 67, 68, 70A, 70B, 70C, 71, 76, 85A, 85B, 93B, entre outras. Há um enfoque abrangente da reencarnação em meu livro “O Poder da Sabedoria”, Ed. Teosófica, Brasília, capítulo 4, “A Lei da Vida Imortal”.

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